Crítica
Ouvimos: Chicago Underground Duo – “Hyperglyph”

RESENHA: Feito pelo Chicago Underground Duo, Hyperglyph soa como obra de grupo grande. O som é jazz experimental, afrobeat e caos criativo com espírito quase punk e clima místico-industrial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: International Anthem
Lançamento: 3 de setembro de 2025
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O coletivo Chicago Underground já teve formações variáveis e nome também variável – trio, duo, quarteto – sempre girando em torno do trompetista Rob Mazurek e do percussionista Chad Taylor. Com o nome Chicago Underground Duo, eles lançaram no segundo semestre do ano passado o álbum Hyperglyph.
O curioso é que parece um disco feito por uma formação bem mais numerosa do que “apenas” uma dupla. Click song, na abertura, une metais, efeitos, percussão + bateria selvagem, e chega numa concepção experimental de jazz que parece regida por um maestro. A faixa-título, que chega na sequência, sugere a mesma coisa, unindo jazz, afrobeat e post rock, com emanações de outros projetos musicais de Chicago, como Stereolab e Tortoise (Mazurek tocou não apenas com o grupo, como também com alguns integrantes).
Na faixa-título, o som vai ficando mais saturado à medida que o tempo passa – como se fosse emissão de som demais para um espaço que mal dá vazão. A maxi-vinheta Rhythm cloth embarca em uma cadência identificável como drum’n bass, enquanto Contents of your heavenly body une jazz, selvageria musical e um clima que vem herdado do punk, a partir dos vocais sofridos e ríspidos de Mazurek, que lê um poema enquanto a música se desenrola como um loop de teclados e bateria.
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Os metais de Hyperglyph têm muito da entrega sonora experimental de Miles Davis – e ganham uma onda mística em meio às sombras de The gathering, tema de quase oito minutos em que a bateria, as percussões e os efeitos sonoros se tornam instrumentos cerimoniais. E também em Hemiunu, cujo nome faz referência ao construtor da Pirâmide de Gizé, no Egito, e cujo design musical lembra uma criação eletrônica que foi humanizada e se transformou num jazz ligeiramente hispânico.
Por acaso, logo em seguida a Hemiunu vem a tríade Egyptian suite, iniciada com The architect, diálogo entre trompete e bateria que dá espaço para a imaginação de sons melódicos onde só existe ritmo. Triangulation of light, a segunda parte, é experimentação pura: sons que lembram metal rangendo, que vão dando espaço para o trompete soar também como uma sucata industrial que ganhou vida e senso melódico. A parte 3 de Egypitan suite, Architetronics of time, é uma das faixas mais radicalmente jazzísticas do disco, focando no ataque aos instrumentos e no contraste com o eco da gravação.
Succulent amber encerra o disco tendo o mesmo papel que Morgenspaziergang tinha no final de Autobahn, álbum do Kraftwerk (1974): pura contemplação, e compromisso com quem realmente gosta de música contemplativa, já que são três minutos de solo de kalimba e sintetizador. No caso de Hyperglyph, o compromisso do Chicago Underground Duo é com um risco musical quase punk, em que você chega a torcer para as coisas ficarem mais industriais e sombrias.
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Crítica
Ouvimos: Death Cab For Cutie – “I built you a tower”

RESENHA: Death Cab For Cutie transforma perdas, terapia e recomeços em I built you a tower, um disco intenso, melódico e inspirado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Anti
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Até hoje saem discos falando da pandemia, de como foi passar pelo isolamento, por um fecha-fecha que era para ter durado 15 dias e avançou por mais de um ano etc etc. Enquanto isso, lá vem o Death Cab For Cutie (ou melhor, Ben Gibbard, líder do grupo) com um disco que só falta dizer “passamos pela pandemia, mas você precisa ver a bagunça que ficou depois”.
- Ouvimos: Tori Amos – In times of dragons
Traduzindo: I built you a tower é um álbum – o primeiro do grupo em quatro anos – sobre a descoberta de que as coisas não seriam como antes, por motivos ligados ou não à pandemia. Parentes de Gibbard morreram, seu casamento acabou (ele foi casado em segundas núpcias com Rachel Demy até 2023), ele chegou aos 50 anos e começou a fazer terapia pela primeira vez na vida.
Vai daí que o novo disco do Death Cab For Cutie é uma catarse emocional daquelas, em música e letra. Ben parece ter necessidade de deixar as coisas ate bastante equilibradas, combinando letras que parecem mergulhos poéticos em sua própria angústia e sons que unem belas melodias e certa frieza pós-punk.
Tipo quando Ben fala que viu “pessoas demais indo embora para levar isso muito a sério” na emocional Riptides ou quando canta sobre “a aceitação do colapso” na maquínica e experimental How heavenly a state (que lembra bandas como Placebo). Muita coisa no disco novo evoca David Bowie, por acaso um artista que passou a vida combinando frieza e emoção, lágrimas e torres de marfim, isolamento e séquitos de pessoas. É ele que surge como santo padroeiro no peso frio de Punching the flowers, na vibe pós punk de Pep talk e nas guitarras circulares de I built you a tower (as duas partes).
John Congleton, produtor bom em unir experimentalismo e emoção, consegue extrair coisas ótimas do Death Cab For Cutie – tanto que I built you a tower é um dos discos mais interessantes da banda nos últimos anos. Mas o principal é o olho clínico de Ben para si próprio, em faixas como a sombria Envy the birds, a belíssima Trap door e a balada synthpop Stone over water. Discão.
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Crítica
Ouvimos: Kadavar – “Kids abandoning destiny among vanity and ruin”

RESENHA: Kadavar volta ao hard/heavy de raiz em disco que soa como complemento de luxo do anterior: riffs fortes, krautrock e poucas novidades.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 6,5
Gravadora: Clouds Hill
Lançamento: 7 de novembro de 2025
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A banda alemã Kadavar lançou dois álbuns ano passado: o primeiro foi o psicodélico I just want to be a sound (resenhado pela gente aqui) e o segundo, com diferença de poucos meses, foi Kids abandoning destiny among vanity and ruin (uma frase cuja sigla é justamente “K.A.D.A.V.A.R.”, sacaram?). O primeiro dava alguns passos à frente, o segundo é basicamente heavy metal e hard rock em clima alemão.
Ou seja: a banda voltou ao passado, lançando mão de riffs poderosos e cadências sabbathianas – mas tem um monstrengo krautrock que dá o tom em alguns momentos. Rola em Stick it, que dá uns traços com a obra do Devo e tem batida motorik (além de algo que parece herdado do Yes nos vocais). Rola igualmente na vibração progressiva e espacial de Heartache e na explosão garageira de Explosions in the sky. É como se fosse um metal pronto para soar friorento, um ogro metálico.
- Ouvimos: Make – Exegesis at the end of time
Nada de muito estranho para quem acompanha o Kadavar há anos, mas Kids ainda acrescenta algumas novidades O Kadavar adere a algo parecido com o thrash metal na quilométrica Total annihilation e faz experimentações musicais (e uma espécie de concretismo poético e meio vazio) em K.A.D.A.V.A.R. – não são os melhores momentos do álbum, vale dizer. You me apocalypse, por sua vez, é o som do álbum anterior perdido no disco novo, e acaba sendo a melhor do disco: tem andamento mod, e vibrações entre Who e Beatles.
Decididamente, Kids abandoning destiny among vanity and ruin não parece um disco de sobras do álbum anterior, mas é um disco com menos ideias legais do que I just want to be a sound. E acaba parecendo mais um complemento de luxo. Resta ver o que tá vindo aí.
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Crítica
Ouvimos: Tori Amos – “In times of dragons”

RESENHA: Em álbum inspirado pelos “dragões” do presente, Tori Amos transforma política, medo e resistência em canções sombrias e poéticas, nas faixa de In times of dragons.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Fontana
Lançamento: 1 de maio de 2026
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In times of dragons, novo disco de Tori Amos, é longo: são quase 80 minutos de música, e de letras que soam como uma rapsódia da realidade. Os dragões parecem falar de tempos idos, mas têm nomes bem atualizados: machismo, patriarcado, trumpismo, extrema-direita, triliardários, big techs geridas por eles, e vai por aí. Os “tempos de dragões” são os de hoje, e são levados adiante com piano clássico, percussão vívida e voz bruxuleante, que são os principais elementos do som de Tori nos dias de hoje.
Entre soar como ela própria há trinta e tantos anos, e como uma espécie de Kate Bush folk e clássica, Tori preferiu construir canções belas e sombrias e dar verdadeiras voltas no tempo. É o que rola nos comentários sobre liberdade e democracia de Shush, no clima sinistro da faixa-título, na vibe cerimonial de Provincetown e num curioso country de piano lembrando Beatles, que é Fanny Faudrey.
- Ouvimos: Underscores – U
Há um clima jazz-ambient em St Teresa e um recital folk-roock-erudito em Gasoline girls, música que usa a imagem motorbiker para falar das versões de si própria que uma mulher vai deixando pelo caminho. O clima relaxante de Ode to Minnesotta destrincha uma poesia curta, avisando ao local – que sofreu com as ações violentas do ICE de Donald Trump – sobre mudanças que estão chegando.
Não chega a ser a perfeição de discos como Little earthquakes (1992), mas é um disco que serve como um alento, musicalmente falando: Tori transformou um período bastante endurecido dos tempos recentes em música, poesia e história. Song of sorrow fala de batalhas e tristezas em clima cerimonial, Pyrite e Blue lotus levam uma onda lúgubre para o álbum e Angelshark une estlhaços sonoros de Kate Bush, Bruce Springsteen e Joni Mitchell, em torno de uma balada emocionante e quase progressiva.
In times of dragons encerra com 23 peaks, faixa cuja letra mostra Tori como um ser meio mulher, meio dragão. Uma pessoa vinda do mesmo ecossistema que gerou Trump, mas que não é Trump. Uma canção de quase sete minutos que lembra o final de um filme, e que completa o novo álbum de Tori Amos com uma fantasia bem realista – e uma realidade nada fantástica.
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