Crítica
Ouvimos: Black Sabbath – “The eternal idol” (relançamento)

RESENHA: The eternal idol, 13º disco do Black Sabbath, volta remasterizado às plataformas. Subestimado, é o início da fase Tony Martin e tem bons momentos.
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The eternal idol, 13º álbum do Black Sabbath, volta às plataformas (e às lojas de discos) devidamente remasterizado. Vendo por uma perspectiva saudosista, é até sacanagem – poxa, mas logo depois da morte de Ozzy Osbourne? – falar de um período do Black Sabbath que os próprios fãs radicais do grupo abominam: a época em que, da formação clássica, só Tony Iommi fazia parte da banda, e o vocalista era Tony Martin, eternamente tido por jornalistas como um cantor inexpressivo.
Passou tempo, decepções foram devidamente aplacadas e não é bem assim. The eternal idol é um disco de metal comum da época, com Tony Iommi na guitarra e nas composições. Martin é um bom vocalista. Só não tinha, nessa época, o carisma necessário para cantar com o Sabbath – e dá umas desafinadas audíveis em faixas como The shining e Ancient warrior, quando fica claro que Iommi deve ter exigido dele bem mais do que ele poderia dar no momento.
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Iommi, como guitarrista e compositor, segue o caminho que o Sabbath vinha seguindo desde o (excelente) último disco com Ozzy, Never say die (1979) – caminho esse no qual banda e guitarrista se enfiaram após os discos do Sabbath com Ronnie James Dio, que substituiu Ozzy. Enfim, metal lustroso, com tendências grandiloquentes e arenísticas – às vezes, um Queen mais pesado, vamos dizer assim.
Para todos os efeitos, The eternal idol foi o disco que estabeleceu de vez o caos na história do Sabbath: várias mudanças de formação durante sua concepção, um vocalista desconhecido que saiu por não ver futuro naquilo (Ray Gillen), a entrada do criticado Tony, números baixíssimos de vendas e turnês canceladas. Além das letras compostas por vários letristas, por causa das mudanças de formação. Além dos dois Tonys, oficialmente o Sabbath incluía no disco Geoff Nicholls (teclados), Dave “The Beast” Spitz (baixo) e Eric Singer (bateria).
Voltando ao efeito “ouvindo hoje…”: The eternal idol tem ótimos momentos, que mostram o Sabbath tentando aderir de vez ao metal oitentista (a saber: aquele metal empastelado de new wave e climas de arena). Mas acrescentando a ele as fórmulas que deram sucesso à banda (riffs crus, ocultismo) e dando às músicas algo próximo de grupos como Queen (olha eles aí de novo) e The Who – nesse caso, o violão corrido da boa Glory ride.
Além dessas, o álbum destaca The shining, Hard life to love, as purpleanas Lost forever e Born to lose (curioso ver o Sabbath tentando soar parecido com o Deep Purple, aliás). Além de vários decalques da própria banda quando Dio era o vocalista – Nightmare é o mais evidente deles. No final, a crueza da quase faixa-título, Eternal idol, de seis minutos, em que Singer tenta fazer as mesmas batidas secas e aterradoras que Bill Ward fez na música Black Sabbath – tanto música quanto desempenho ficam bem lá atrás se comparados ao Sabbath original.
Para colecionadores, surgem logo em seguida dois lados B, Some kind of woman e a boa Black moon – essa, na cola de um filhote do Purple, o Whitesnake. The eternal idol é um disco do Black Sabbath que fez uma turma enorme torcer o nariz, mas que não é nem tão esquecível assim.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Sanctuary/BMG
Lançamento: 25 de julho de 2025.
Crítica
Ouvimos: Telehealth – “Green world image”

RESENHA: Em Green world image, Telehealth mistura synth-pop podre, pós-punk e crítica social em disco que soa como Devo, B-52’s e Gang Of Four em colisão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 15 de maio de 2026
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Originalmente, o Telehealth é uma dupla de Seattle, formada pelo casal Alexander Attitude (synth, voz, guitarra) e Kendra Cox (synth, voz), Green world image, segundo disco dos dois, e primeiro pela Sub Pop, marca uma diferença já na capa: o time de músicos acompanhantes está junto com o casal e o Telehealth virou um quinteto, ou pelo menos um “Kendra, Alexander e seus cometas no país do synth-pop podre e político”. O som do grupo bem que poderia ganhar a denominação egg punk, graças à disposição para sujar os teclados. Mas a vibe ali é outra.
Pra começar, o Telehealth não é apenas um grupo “podre”. Inclusive, tem informação musical de sobra, segue uma linhagem que começa láááá no Devo e vai num corredor que passa por bandas como Stranglers, Japan, Gang Of Four e B-52’s, todos presentes na musicalidade do grupo, como referência e afeto. Em vários momentos de Green world image, a coisa ganha ares de B-52’s no wave. Um som descontraído, mas bordado por um baixo que segue à frente, e por guitarras doídas de tão “simples”, com riffs que dão tensão e equilíbrio.
- Ouvimos: ISTA – In sound to all
Essa onda pega faixas como The Telehealth shuffle, Kokomo 2, o punk espacial de Down country (a gOoD cAuSe), a new wave selvagem e maquínica de Things I’ve killed… E vai sendo acrescida de climas lembrando Blondie (a rueira Yassify me), o começo do Psychedelic Furs (Silver spoon) e até o Magazine (não o do Kid Vinil, mas a banda do ex-Buzzcocks Howard Devoto, citada com gosto no design musical de Cool job).
O curioso aqui é que, completando os espaços ao ouvir Green world image, algumas coisas vêm à mente – inclusive referências brasileiras que eles possivelmente nem têm. A ótima Maria Machine faz lembrar alguns dos momentos mais rédea-solta do Jumbo Elektro. Algo em Cost of inaction faz lembrar a fase pós-punk-sombria dos Replicantes (de Papel de mau, disco de 1989). E a ótima Villain era tem algo que aponta simultaneamente para Stranglers e Fellini. Podem nem ser inspirações, mas de certa forma o Telehealth habita o mesmo mundo dessa turma.
As letras, por sua vez, vêm de questionamentos irônicos que o grupo faz em relação ao próprio mercado da música – o Telehealth é uma banda cujo release tem frases como “é possível ser independente e ter um bom SEO? é possível conquistar prestígio cultural progressista e dinheiro vivo ao mesmo tempo?”, e cujo repertório fala de consumismo (Age of muralcide), ganância (Donor cause), empregos cagados com salário-ambiente e equipe-família (Cool job) e fim da aposentadoria (Silver spoon). Você vai se identificar muito com essa banda.
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Crítica
Ouvimos: ISTA – “In sound to all”

RESENHA: ISTA mistura stoner, krautrock e disco psicodélica em In sound to all, álbum caótico (no bom sentido), criativo e cheio de referências bem encaixadas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de abril de 2026
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Sim, o mundo precisava de uma mistura de “acid test de Ken Kesey com Studio 54”, como o próprio ISTA define seu som. Explicando melhor, é como se o Black Sabbath fosse tocar na boate mais bombada da era disco, e a cocaína fosse trocada pelo ácido. Ou como se hippies alegres decidissem se envolver com uma mescla bizarra de stoner, metal, krautrock e disco music.
E enfim, essa loucura aí é o combustível do ISTA, uma banda norte-americana iniciada por músicos californianos que se conheceram em Nova York – e que, às vezes, parece mais uma banda londrina, com animação para a experimentação musical. In sound to all, segundo disco do grupo, até engana no começo, com a porrada maquínica e psicodélica de Gods in heat – lembra mais um stoner espacial e eletrônico. As credenciais do grupo vão sendo reveladas aos poucos: você ainda passa pelo pré-punk lisérgico Megawatt e por uma espécie de Talking Heads em clima stoner, na faixa Crusher.
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A partir daí In sound to all (que é a frase geradora da sigla ISTA, aliás) vai ligeiramente mostrando outras faces: tem até power pop psicodélico em Low fruit e stoner grudento em Waves, além do pré-britpop de Aim for the heart, próximo dos Stone Roses, com vocal rappeado. Funkyluminati investe no peso chique e elegante, mas com clima trevoso – ganhando depois cordas e até um ar meio prog. Agora, Up to chance é a que vai surpreender todo mundo: metais com vibe soul, sonoridades que lembram Parliament e Bee Gees, e uma onda de glitches e distorções cobrindo tudo.
Sea of stars, no final de In sound to all, faz com All right now, do Free, e com Do ya, do The Move, quase que o Oasis fazia com os Beatles e com os Rolling Stones – junta tudo, pega referências, afasta a possibilidade de plágio e dá cara própria. Ficou ótimo. Tomara que o ISTA não passe despercebido no meio de vários outros grupos.
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Crítica
Ouvimos: Smerz – “Easy” (EP)

RESENHA: Smerz transforma Easy, faixa de encerramento de seu disco de Big city life, num EP sobre diálogos amorosos confusos e emoções difíceis de decifrar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Escho
Lançamento: 15 de maio de 2026
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Há casos (muitos, nos dias de hoje) em que álbuns rendem versões “EP” nas plataformas pouco depois de saírem – geralmente com singles separados, algumas vezes com a mixagem ligeiramente mudada. A dupla norueguesa Smerz, formada por Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt, decidiu fazer algo diferente. Poucos meses após lançar o experimental e fugaz álbum Big city life (2025), transformaram a última faixa do disco, Easy, numa espécie de EP conceitual – do qual, por acaso, Easy, a música, não faz parte.
Big city life soa como a visão alt-pop sobre uma vida pop e elegante – ou como a perspectiva de um dia a dia relacional que você precisa desvendar para entender, tanto que Easy, a música, abre com a frase “será que falei demais?”, e prossegue com um diálogo amoroso complexo. O pop experimental e cheio de glitches de Catharina e Henriette – que são compositoras e produtoras – parece o melhor veículo para uma realidade que, às vezes, parece existir só na mente.
- Ouvimos: Cola – Cost of living adjustment
Easy, o EP, parece a continuação do diálogo difícil da faixa homônima: a lenta e eletrônica Spring summer traz Catharina tendo que lidar com um interesse amoroso que dá altos perdidos nela. It’s here, pop downtempo em que todos os detalhes parecem ter sido aumentados com uma lupa, é o clima de “fechado pra balanço” que vem depois de um frustração amorosa.
Já a vinheta Somewhere 2 é uma tentativa de diálogo, mas que se parece mais com a contratação de um serviço (“gostaria de comparar nossa nova condição com a antiga / qual é a formulação exata dessa condição?”, narrado e gravado como num áudio de zap). A esparsa The room you described parece responder ao questionamento de Easy: “tudo que eu vi não saiu da minha cabeça / tudo que me importa e tudo que eu respiro / tudo que eu disse, tudo que eu penso”.
Musicalmente, o disco vai numa só linha, em que as músicas parecem ser continuações umas das outras, em letra, melodia e arranjo – mas, de certa forma, cabe a quem ouve completar o quebra-cabeças e unir todas as partes, já que as letras do Smerz não são 100% diretas. Se você se identificar com a incerteza da música Easy, pode achar um universo para colorir no EP.
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