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Crítica

Ouvimos: Ramones, “Halfway to sanity” (relançamento)

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Ouvimos: Ramones, “Halfway to sanity” (relançamento)

Que ironia: um disco nota 6 dos Ramones causa crises de saudades e revisionismo histórico e… pelo menos aqui no Pop Fantasma, aumenta de cotação. Halfway to sanity (1987) volta agora às lojas brasileiras (as online e as que resistem), e no formato CD. Foi o último disco gravado com Richie Ramone na bateria, pouco antes do grupo fazer uma tentativa de colocar o ex-Blondie Clem Burke para substituí-lo.

Dizer que “o disco tal dos Ramones foi marcado por brigas durante a gravação” é chover no molhado, ainda mais em se tratando de uma banda que tinha o intransigente Johnny Ramone como guitarrista. Halfway, décimo álbum da banda, lançado originalmente em 15 de setembro de 1987, por sua vez, é um caso à parte: a porrada comeu antes, durante e depois. Para começar, em janeiro daquele ano, o grupo baixou em São Paulo para três shows – o primeiro deles terminou em briga generalizada provocada por skinheads.

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No meio das gravações, Joey e Johnny Ramone, inimigos íntimos, não se entendiam. O produtor Daniel Rey tinha problemas de comunicação com boa parte da banda. Dee Dee Ramone (ainda no baixo do grupo), passava boa parte do tempo doidão, não conseguia se comunicar com ninguém e – dizem – teve suas partes de baixo tocadas por Rey. Pessoas que lidavam com os Ramones de perto dizem que a banda já estava de saco cheio de trabalhar feito louca, gravar um disco por ano e não ser reconhecida, com direito a amigos da onça perguntando a eles “quando a banda iria estourar”.

E aí que Halfway soa insano, embora sob controle. Curtíssimo (12 músicas em 30 minutos e uns quebrados), o álbum traz os Ramones fazendo algumas incursões pelo hard rock e pelo hardcore, com direito a vocais berradíssimos de Joey Ramone em faixas como I know better now, a agitada Weasel face (na qual a voz do cantor chega a lembrar a de Alice Cooper) e o skate punk legítimo I’m not Jesus. O grupo chega perto do pós-punk gótico em Garden of serenity, adere ao som tribal na onda do Public Image Ltd em Worm man, e soa revivalista na balada Bye bye baby (com cara de canção de girl group, e escrita, claro, por Joey) e no rock vintage Go lil Camaro go, marcado por uma apagada participação de Debbie Harry.

1987 foi um ano de três bateristas para os Ramones: com Halfway em curso, Richie saiu brigado da banda, e deu lugar para Clem Burke – jornalistas lançaram a piada de que ele adotaria o nome Clemmy Ramone, mas ficou mesmo como Elvis Ramone. Não deu certo e após dois shows confusos, Marky Ramone, que estava afastado da banda desde 1983, retornou. Hoje, vale a redescoberta.

Nota: 7,5
Gravadora: ForMusic (no Brasil)

Crítica

Ouvimos: E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – “Lembrança” (EP)

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Resenha: E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – “Lembrança” (EP)

RESENHA: Gravado entre São Paulo, Nova York e Berlim, Lembrança transforma o afastamento dos integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante em cinco instrumentais entre post-rock, psicodelia e shoegaze.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Balaclava Records
Lançamento: 15 de setembro de 2026

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Não é só a Terra que anda meio distante: Lucas Theodoro (guitarra e sintetizador), Luccas Villela (baixo), Luden Viana (guitarra) e Rafael Jonke (bateria), os quatro integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante andaram meio separados nos últimos anos, com Villela vivendo em Berlim desde 2023 e Viana tendo passado o último ano em Nova York.

Lembrança, o novo EP, é fruto desse afastamento, que levou a banda a compor as canções sem o baixo – Luccas precisou incluir o instrumento posteriormente, e as gravações contaram com sessões dos integrantes em seus estúdios particulares, entre SP, NY e Berlim. Lidando com uma “sombra” de instrumento, o grupo acabou criando um conceito sonoro de “lembrança”, que acaba atravessando as cinco faixas instrumentais do disco.

O clima voador, conhecido da banda, já surge na abertura, com a vinheta O passado é mais infinito que o presente – e dá um tempinho com o pé no chão de Aos poucos, aberta com aro de caixa e seguida com riff circular, além de um beat quase latino, numa onda próxima do post-rock. Lá pelas tantas, a guitarra ganha eco e surge uma parte 2 mais pesada, com guitarras distorcidas. Reprise, que dura um minuto, é literalmente uma vinheta – poderia ser até um “estamos apresentando” antes de um intervalo, com violão psicodélico e teclados numa onda meio new age.

Sem margem, em clima de transe instrumental, tem beat leve de maracatu. Já Antes que eu me esqueça, no fim do EP, é o som mais cara progressiva no disco, com uma batida que lembra um corte feito num drum’n bass e um clima bem viajante – até que cai no shoegaze, com guitarras bem emparedadas.

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Crítica

Ouvimos: Julia Jacklin – “The gem”

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Resenha: Julia Jacklin – “The gem”

RESENHA: Em The gem, Julia Jacklin transforma lembranças da educação católica em dúvidas sobre deus, fé e controle, num disco de folk rock, jangle pop e guitarras fantasmagóricas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: 4AD
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Dizem por aí, e faz todo sentido, que da vida das pessoas, o catolicismo não sai – você pode ter ido para o extremo oposto (satanismo? Ateísmo?), mas aquela quantidade de dogmas e aquele esquema de educação pela repressão entra no sangue. A australiana Julia Jacklin não é religiosa, nem vem de família católica, mas estudou em colégio católico em Melbourne, participou de corais, e muito de sua vida em meio a experiências religiosas acabou inspirando sua música. The gem, o novo disco, vem bastante desse universo, ou da resolução dele.

Existe um quinhão conhecido do pop e do rock ligado à iluminação – um “lance” religioso, mas que não necessariamente é ligado a nada organizado. De Madonna e Nando Reis, passando por Mutantes, Gilberto Gil e até Oasis (Champagne supernova é isso, não?), muita gente falou de transcendência sem citar deus, Jesus ou qualquer outra entidade. The gem fala de deus como uma eterna dúvida, que passa por temas como: é possível ser feliz de verdade com uma força superior te olhando? Por que alguém precisaria disso? Ainda mais levando em conta que o deus “onipotente e onisciente” não impede as maiores barbaridades de acontecerem?

Angel vision, por exemplo, usa símbolos religiosos para elencar questionamentos como “havia criaturas celestiais desesperadas para cantar para mim / braços frouxos, eu empurrava o teto / como ter certeza de que a fumaça que sai por baixo da porta não é de um incêndio?”. If I had the hand of god questiona: “se eu tivesse a mão de deus / será que o deus cuja mão eu tenho / seria do tipo que saberia a hora de desistir antes que a situação piore tanto?”.

Em alguns momentos, a impressão é a de que alguém MUITO religioso saberia o que responder a cada faixa de The gem – mesmo que fosse uma resposta baseada em algo muito intangível e fora da realidade. God sometimes, uma das letras mais realistas do disco, faria fanáticos religiosos espumar de raiva. Se Criolo perguntou “você vai querer mesmo se comparar com o Senhor?” em Ainda há tempo, Jacklin simplesmente passa por cima do assunto: “tente controlar o clima / mas às vezes você precisa ser um deus / force o momento a chegar / diferente das estações, isso não vai acontecer por si só”.

Musicalmente, The gem tem às vezes uma cara de folk rock + britpop puto e fantasmagórico, como em God sometimes e Brand new, em que ruídos surgem em meio às guitarras distorcidas e ao vocal sensível e controlado de Jacklin. If I had the hand of god é guitar country rock triste, e The hardest thing soa como jangle pop deprê e bonito – Get away from me (I think I’ll love you soon) é jangle de verdade, com um pé no pop sessentista.

Já Angel vision, I wish (com a participação da dupla folk de Melbourne, The Maes) e Real life trazem as belezas acústicas para o álbum – a segunda com uma batidinha indie dance e teclado celestial. You turned on the tap é voz e piano com cara de Lou Reed: som quase cerimonial e vibe contemplativa. Os vocais passam força e tristeza, e certo abandono – e mesmo nos momentos menos doloridos, há muita dor nos questionamentos de The gem.

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Crítica

Ouvimos: Throe – “II” (EP)

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Resenha: Throe – “II” (EP)

RESENHA: Em II, Vina Castro desmonta o metal melancólico do Throe em quatro faixas de drones, distorções e ambient sombrio, com sons que parecem ganhar corpo e virar fumaça.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de setembro de 2026

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O Throe, projeto solo de Vina Castro, guitarrista da Huey e co-criador do site Sounds Like Us, já havia aparecido por aqui com Silver blue, álbum de metal introvertido, melancólico e chuvoso, com faixas longas e uma vocação ambient que aparecia em vários momentos. II, EP disponível apenas no Bandcamp, leva essa característica para outro lugar: sai um pouco a estrutura de “banda”, entram ruídos, drones, distorções e sons que parecem estar sempre prestes a se desfazer.

O release avisa que tudo foi gravado da maneira como foi composto – e dá pra notar que é música preservada no instante em que surgiu, inclusive com suas imperfeições. Às ondas, com nove minutos, abre com teclado e logo recebe uma guitarra sombria, que poderia apontar para o grunge, o pós-punk ou o stoner. Só que a faixa vai abandonando essas referências até virar praticamente uma onda sonora: dedilhados, drones e distorções se acumulam num clima hipnótico.

Agosto brinca justamente com uma das dualidades do EP. O início pode soar bonito e ambient ou anunciar alguma coisa bem menos palatável – e a segunda opção vai ganhando terreno quando entra a guitarra e os timbres assumem uma tensão fantasmagórica. Poro segue nessa direção com um drone tristonho, distorções e um clima que parece feito para arrepiar o ouvinte (será que o nome vem daí?).

Já Feedback abismo encerra o EP com um drone sombrio e repetitivo, quase um harmônio demoníaco – a primeira lembrança que vem à cabeça é The marble index, de Nico. A pressão aumenta, diminui e retorna num movimento circular, até o som começar a desaparecer no fim. Quatro faixas que parecem nascer, ganhar corpo e virar fumaça na frente do ouvinte.

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