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Crítica

Ouvimos: Forth Wanderers – “The longer this goes on”

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Forth Wanderers volta leve e sem pressa em The longer this goes on, disco indie com soul, pop adulto, ruídos e clima de recomeço sem pressão.

RESENHA: Forth Wanderers volta leve e sem pressa em The longer this goes on, disco indie com soul, pop adulto, ruídos e clima de recomeço sem pressão.

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Os Forth Wanderers voltaram sem voltar. O grupo de Nova Jersey se redescobriu na pandemia, voltou a tocar, e acaba de lançar o álbum The longer this goes on (“quanto mais isso durar”), cujo título não deixa de ser uma piada com retornos para os quais ninguém estava devidamente preparado. Ava Trilling, Ben Guterl, Duque Greene, Noé Schifrin e Zach Lorelli fazem questão de falar que a volta não é uma volta. É um fazer som sem compromisso, para a alegria deles e dos fãs, e sem corda no pescoço de ninguém – especialmente de Ava, que precisou sair do grupo em 2018 quando descobriu um transtorno de pânico.

Nessa época, o Forth Wanderers havia acabado de lançar o primeiro álbum de estúdio, epônimo, pela Sub Pop, e precisou cancelar toda a turnê, encerrando atividades em seguida. Só por causa disso, dá para entender porque é que o grupo está mesmo a fim é de leveza. Aliás, o FW está a fim, em especial, de um clima que se pareça com uma música, e com uma estética, que ressoa nas mentes deles.

Vai daí que The longer this goes on se parece com pouca coisa que vem sendo feita hoje, e aposta na mistura de elementos. É indie rock, mas tem muitos micropontos de soul e pop adulto – as músicas poderiam tocar, se o disco fosse lançado lá por 1989, numa FM e numa rádio independente. O clima country de algumas faixas parece filtrado por pós-punk e Pretenders. O lado mais ruidoso do grupo lembra The Cure, My Bloody Valentine e Dinosaur Jr, mas é uma noção quase beatle, clássica, de barulho. O clima doce e tenso dos vocais de Ava, em vários momentos do disco, é um “ruído” a mais, que parece sempre informar a/o ouvinte além da própria música.

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To know me/To love me, single lançado de surpresa, é bem nessa onda de transformar ruído em canção e em conforto, com uma letra curta que parece falar dos sentimentos de Ava na volta do grupo: “Eu saí e voltei para a estrada / ela sabe o que eu fiz pelo nó na minha garganta”. Call me back tem clima de Pixies, mas com baixo e bateria sinuosos. Honey, Bluff e Make soam como Everly Brothers encontrando o barulho e a vibe inde. Barnard, por sua vez, é o momento em que o disco vira para um power pop ácido, com golpes de guitarra e vocais distorcidos.

As dores de crescimento do grupo são visitadas em faixas como Spit, som indefinível que poderia ter sido feito nos anos 1970, entre country e indie rock. As pesquisas de timbres e texturas do FW dão também em guitarras “submersas”, que surgem em faixas como Springboard e na bossa pop Don’t go looking. Essa última, por sinal, uma pequena crônica sobre velhos “eus” que não funcionam mais e que têm que ir para a fila do desapego (“pegue o que é meu / eles não funcionam mais / eu tentei encontrar / o que eu vim buscar / não sou eu”, diz Ava).

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 18 de julho de 2025

Crítica

Ouvimos: Fat Dog – “Cancel me (I’m tired)”

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Resenha: Fat Dog - "Cancel me (I’m tired)"

RESENHA: No segundo álbum, Cancel me (I’m tired), o Fat Dog leva o dance-punk a novos extremos, misturando new rave, synthpop, guitarras pesadas e humor politicamente incorreto em músicas sobre poder, opressão e esgotamento.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Domino Recording Co.
Lançamento: 2 de outubro de 2026

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Juro que quando ouvi o Fat Dog pela primeira vez, achei que aquela classe toda fosse gerar uma banda legal, e nada mais do que isso. Woof, a estreia dessa banda britânica (2024, resenhado aqui), revelava um grupo atrevido, imaginativo, chegado a uma estranha mistura de disco music, música eletrônica, emo e sons pesados e dançantes de modo geral – e que poderia ser categorizado naturalmente como indie sleaze, dance-punk, coisas do tipo.

Vai daí que Cancel me (I’m tired), o segundo álbum, é bem mais do que apenas uma surpresa, já que se trata de uma banda que reza no credo de grupos com Viagra Boys, Yard Act e até Shame, mas com personalidade própria. O Fat Dog voltou carregando mais ainda no humor absurdo e num clima musical que coloca a banda como sobrinhos da geração new rave (lembra desse nome?). Ou como uma turma que entendeu que o politicamente incorreto está em mãos erradas, e se arrisca a entrar para o mesmo local onde hoje residem as camisas da seleção brasileira.

Nomes como Devo, Happy Mondays, Battles, David Bowie e até Kaiser Chiefs surgem como evocações e lembranças do álbum, em canções como Smile and wave (quase Viagra Boys + Shame + dance punk), Go fuck urself (rastros de Der kommissar, de Falco, mas com um ar meio chique dado pelo saxofone) e a ótima Shit love – esta, uma zoeira entre rock e música eletrônica, com guitarras em tom sabbathiano.

O eletro-punk comanda em especial The devil, Bad dog (beat pesado e onda sonora próxima de Master Peace), Call it what you want e a ótima faixa-título – mas no novo testamento, o Fat Dog também promove a união de Bowie, Lloyd Cole e synthpop em Heart of darkness, além de unir country e orquestra em Snakes, e de fechar o álbum com uma balada grandiosa e bem diferente do restante do álbum, Aliens.

Nas letras, o Fat Dog aponta suas armas para tudo aquilo que possa significar poder e opressão existencial – tipo o excesso de expectativas e aporrinhações na faixa-título (na qual eles consideram a hipótese até de usar IA para fazer música), Smile and wave e Go fuck urself. Gente com quem o diabo acharia melhor não fazer um pacto aparece em The devil, a revolta política dá as caras em Call it that you want, e gente problemática e “poderosa” cai do cavalo em Bad dog e Heart of darkness. Que virada.

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Crítica

Ouvimos: Naimaculada – “Acromatopsia” (EP)

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Resenha: Naimaculada - "Acromatopsia" (EP)

RESENHA: Em Acromatopsia, o Naimaculada transforma uma São Paulo cinzenta e padronizada em música, cruzando MPB, metal, jazz e rock progressivo, com participações de Kiko Dinucci, BNegão e outros convidados.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 14 de setembro de 2026

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A modernidade, segundo gente de áreas como arquitetura e design, e artistas visuais em geral, está se tornando um deserto sem cores, ou com pouca variedade de tonalidades. Basta você olhar para uma área mais colorida ou até poluída visualmente, para que aquilo seja automaticamente associado aos anos 1980. Em compensação, é na era dos lugares “instagramáveis” que tudo parece ficar igual, asséptico, com as mesmas cores – e, no caso do próprio Instagram, com as mesmas fontes de letras.

Indo mais além, nada como a era da IA para tudo ficar REALMENTE parecido – e nem só os textos, mas as ideias, os estilos de vida e uma espécie de combo on-offline da vida, do trabalho e da psiqué de todo mundo. O EP novo do Naimaculada, Acromatopsia, é uma espécie de voyeur dessa falta de variedades tonais: o grupo passeia por uma São Paulo em que tudo é preto e branco.

Apresentando vários convidados (Thalin, do projeto Maria Esmeralda, Nabru, Sol, Kiko Dinucci e BNegão) e parte das gravações realizadas em Shijiazhuang, na China – com músicos tocando instrumentos locais – Acromatopsia vai bem além do progressivo altamente brasileiro e vigoroso da estreia A cor mais próxima do cinza (2024). O título faz referência a uma condição visual rara caracterizada pela incapacidade total ou parcial de perceber as cores. As letras enxergam tudo por esse prisma, em que São Paulo é um festival de inércias e engessamentos, um paraíso que reluz de longe, mas não de perto.

Com a voz forte de Ricardo Paes à frente, as músicas soam as vezes como um improvável encontro entre Black Sabbath, Gilberto Gil e Luiz Melodia, partindo para o jazz do inferno em O pecado tem medo, para um progressivo “distante” em Shangri-La (com os músicos chineses) e para uma MPB-metal afrontosa em O que é que será? Já Terminal Bandeira, com Kiko Dinucci, fica no mesmo corredor de Medusa, novo álbum do músico – abre com uma guitarra bem própria, e vai achando um caminho igualmente particular para chegar a algo que lembra um pós-hardcore. Ou um Nintendocore.

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Crítica

Ouvimos: O Preço – “Caóticas palavras”

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Resenha: O Preço – “Caóticas palavras”

RESENHA: Liderado por Christian Targa, fundador dos Blind Pigs, O Preço mistura street punk, ska e reggae em Caóticas palavras, disco de protesto sobre desinformação, escolhas políticas e resistência popular.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de outubro de 2026

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Banda punk paulista liderada por Christian Targa (voz e guitarra), um dos fundadores do Blind Pigs, O Preço não escolheu esse nome à toa: o repertório do álbum Caóticas palavras fala sobre o preço que todo mundo anda pagando pelas escolhas mais erradas que o mundo tem feito. E adianta algumas coisas que, se ninguém tomar cuidado, podem acontecer após o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil.

O som do O Preço tem a ver com a vocação rueira do punk dos anos 1970 e 1980, quase sempre apontando para o clima street punk de bandas como Angelic Upstarts, ou para uma versão mais acelerada de bandas como The Clash e The Damned. Começo imediato abre o disco falando em derrotas inaceitáveis e lembra que a vanguarda é o cidadão trabalhador. Maldita calamidade fala de desinformações do dia a dia, em clima que lembra Richard Hell & The Voidods.

No decorrer de Caóticas palavras, hinos marciais como Cara planilha e Desumano não unem-se a canções de guerra como Revolver a evolução, Enquanto houver a esperança e Parentes e amigos – além de letras irônicas e realistas como a de Muamba militar. Inserido no contexto do punk setentista, e recuperados ao longo da história do estilo, gêneros como reggae e ska surgem na faixa-título e no rap-reggae O ska é a munição, com Bocão DRR soltando o verbo do lado da banda.

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