Os clipes dos anos 1980 foram politicamente incorretos e tiveram exageros nos figurinos e cenários. Já nos 1990… Bom, a década destacou-se pelas produções um tanto mais minimalistas, mas não menos estranhas. Os clipes eram cheios de provocações e de excesso de permissividade – este, bem proposital. Nos anos 1990, a MTV aterrissava no Brasil em 20 de outubro de 1990 – o primeiro vídeo foi um clipe da cantora Marina Lima, a versão dela para Garota de Ipanema.

Ao contrário dos clipes dos ingênuos anos 1980 que só mostravam “peitcholas” ou insinuavam homossexualidade, na década de 1990 os momentos políticos e sociais – com o fim das eras Reagan e Thatcher, somados com os ventos da democracia no Brasil – permitiram mensagens explícitas nas letras e clipes. Tudo a ver com uma nova sociedade, bem mais liberal. Ou não?

“HE’S MY THING” – BABES IN TOYLAND (1990): A cena grunge sempre foi marcada pela despretensão: no figurino, nos arranjos musicais. Mas foi um período inegavelmente criativo. Mesmo tendo baixo orçamento, uma das melhores bandas de rock alternativo de Minneapolis – composta somente por garotas – conseguiu fazer um vídeo memorável, de uma música extraída de seu primeiro álbum Spanking machine.

Mas, atenção: Se você sofre de automatonofobia – medo ou aversão a bonecos, ventríloquos etc. – este clipe não é para você! Dirigido pelos diretores Phil Harder e Mark Etoll, a energia dos vocais de Kat Bejlland parece transpor-se pelos inúmeros bonecos macabros que aparecem neste clipe, com direito a momentos a la “Chucky” com faca e tudo. Também, pudera, a letra fala sobre proteger o que é meu (no caso, o homem) das concorrentes… Este clipe foi muito exibido pela programação da MTV Brasil, no programa Lado B, apresentado pelo jornalista Fábio Massari. Que estes bonecos do clipe dão um medinho, isso é fato.

“PURE MORNING” – PLACEBO (1998): Este clipe tem uma temática bastante forte. Nos dias de hoje com certeza seria considerado pesado demais para ser exibido na MTV. Filmado em Londres, na região da Savoy Street e dirigido por Nick Gordon, o enredo retrata um jovem suicida (o vocalista Brian Molko) no parapeito de um prédio, indeciso entre se jogar ou não. Vestido de preto, maquiado, descalço e com unhas pintadas de preto, o potencial suicida é observado por bombeiros, policiais, jornalistas e transeuntes que assistem – perplexos – ao seu salto para a morte.

Entretanto, um final surpreendente: o vocalista anda pelas paredes. Embora tenha um, er, final feliz, o clipe é deveras soturno e, muito provavelmente, seria banido, editado ou até modificado atualmente uma vez que poderia induzir os jovens ao suicídio. Entretanto, na época de lançamento, ele foi aclamado pela crítica e exibido normalmente pelos canais musicais como MTV e VH1.

“HAPPINESS IN SLAVERY” – NINE INCH NAILS (1992): Uma das bandas mais “banidas” da MTV Americana, Nine Inch Nails teve seu estranho clipe exibido na íntegra pelo programa Lado B na MTV Brasil. Dirigido por Jon Reiss, ele foi inspirado em um romance francês do século 19, Os jardins dos suplícios, de Octave Mirbeau. A obra tratava de um período decadente e crítico da literatura e da arte francesa, em que a sociedade da época e o colonialismo eram postos em xeque com enredos e pinturas que descreviam belos cenários – porém com personagens mutilados, empalados e ensanguentados.

Com uma inspiração destas, não poderia ser surpresa um clipe rodado em preto e branco cujo protagonista – o artista performático Bob Flanagan – entra em uma sala com um altar cheio de flores e velas, passa por uma espécie de esteira mecânica em queas máquinas começam a despi-lo e, também, a retirar sua pele! Enquanto isso, o vocalista, Trent Reznor, faz a performance cantando no interior de uma cela. Ao sair, vai parar na mesma sala e, embora não haja repetição do mesmo ritual, subentende-se que ele também será despido e esfolado vivo…

Questionado pela imprensa da época sobre o estilo violento da gravação, Trent Reznor garantiu que nunca quis chocar com a violência, mas chamar a atenção para os problemas da sociedade da época, que continuavam incomodando. Infelizmente, o clipe é considerado tão violento que foi banido do YouTube definitivamente, mas um canal fez o upload do clipe. Bastante editado, por sinal. Só quem viveu os anos 1990, parece, é que pode tirar as conclusões ainda hoje. Como eu fui espectadora do Lado B MTV e assisti ao clipe em seu lançamento neste icônico programa, posso dizer que sim, era um clipe violento e algumas pessoas mais sensíveis realmente ficariam bem chocadas.

“SENDING ALL MY LOVE” – LINEAR. Filmado em Fort Lauderdale, Flórida, no início de 1990, o clipe do Linear, uma banda de freestyle (aquele tipo de som que rolava direto em bailes funk entre os anos 1980 e 1990), é aquele típico de baixo orçamento. Além de muito, mas muito cafona.

Os integrantes Charles Pennachio, Joey Restivo e Wyatt Pauley eram todos trabalhados no mullet – o corte de cabelo, aliás, era de deixar Chitãozinho e Xororó verdes de inveja. Com muitos passinhos pra frente, passinhos pra trás, um lado e para o outro, jaquetas de couro e faixas no cabelo, camiseta branca, umbiguinho (masculino) de fora, dancinhas coreografadas, piruetas e mortaizinhos, o clipe vai se desenrolando com cenas românticas. E muita interação do vocalista Charles com uma modelo, fazendo caras e bocas deitado sobre muitas cartas de amor. Filmado em praias da Flórida, o clipe foi dirigido e financiado pelo produtor da banda, Tolga Katas, em conjunto com Charlie – assim como o LP de lançamento do Linear.

Duas curiosidades sobre Sending all my love: 1) a música ganhou uma versão indiana, feita para Ishq, filme de Indra Kumar; 2) esteve na trilha de Mico preto, novela da Globo.

“THE BAD TOUCH” – BLOODHOUND GANG (1999). Pense em um vídeo escatológico e de contexto puramente sexual, politicamente incorreto ao extremo. Pois é, provavelmente foi The bad touch, que fez um baita sucesso por aqui há vinte anos, que veio na sua mente. Embora a música seja bem dançante, a banda americana da Pensilvânia é considerada de rock alternativo. Foi formada no começo dos anos 1990 por James Moyer Franks e Michael Bowe, com o acréscimo do baixista Jared Hennegan em 1994. O grupo passou a tocar no lendário clube CBGB, em Nova York, Sem muitas pretensões, a Bloodhound Gang sempre alegou que era 100% influenciada pelo grupo nova-iorquino Beastie Boys.

A escatologia e o mau gosto correram soltos nesta música e também no clipe. Lançado em maio de 1999 e dirigido por Richard Reines, o vídeo começa com os integrantes da banda fantasiados de ratos gigantes, com orelhas desproporcionais. Gravado em locais turísticos de Paris, o vídeo sem censura já mostra dois macacos “copulando” e dois integrantes da banda fazendo a mesma representação de um sexo gay selvagem. Depois, o nonsense de modelos caminhando em vestidos pretos e curtos, desmaiando quando são atingidas por zarabatanas e depois carregadas pelos integrantes da banda.

Os músicos fazem gestos meio obscenos, subentendendo que vai rolar sexo selvagem com aquelas mulheres desacordadas. Ah, sim, tem a letra: “let’s do it like they do it on the Discovery Channel” (“vamos fazer sexo como os animais fazem no Discovery Channel”). Se não bastasse o fim da picada de representar mulheres como presas, o clipe ainda traz dois atores com boinas típicas francesas num restaurante em Paris – como se representassem um casal gay, que é atingido por dois integrantes da banda com salames!

Hoje em dia isso seria considerado homofobia nível hard, claro. Mas, calma: não para por aí. No final, dois dos músicos simulam uma diarreia e despejam nas caras um do outro um material mole e marrom. Na época em que o clipe foi exibido pela MTV Brasil, os integrantes da banda disseram que o tal material era só chocolate. Vendo o clipe, é bom a gente pensar assim.

Diante de tanta polêmica, o clipe e a música fizeram sucesso estrondoso na Europa, sobretudo no Reino Unido, Noruega, Bélgica, Suécia e na Alemanha. O clipe é censurado até hoje mundialmente e a música tem uma versão com uma letra mais polida para se tocar nas rádios mais conservadoras. Nos dias de hoje, não há dúvidas que seriam criticados à exaustão pelas feministas e pelo público LGBT (na época, inclusive, choviam críticas).

“SMACK MY BITCH UP”- PRODIGY (1997): Um dos vídeos mais controversos de todos os tempos, feito em primeira pessoa, como se fosse um youtuber numa noitada daquelas – com direito a muita bebida, drogas pesadas, sexo, violência e baixaria. Dirigido por Jonas Akerlund, o clipe foi rodado em várias locações em Londres, mais especificamente na região do Soho. O clipe começa pela perspectiva de alguém que acorda muito tarde, levanta da cama, vai ao banheiro, troca de roupa, dá uma cafungada na cocaína e sai pra balada. E sai causando por onde passa: toma todas, assedia as mulheres arrumando briga numa casa noturna, destrói as pick-ups do DJ. Não satisfeita, a personagem em primeira pessoa vomita no banheiro, local onde também dá um pico de heroína.

Achou demais pra você? O comportamento antissocial continua. Noiado e vomitando as tripas para todos os lados como se não houvesse amanhã, o personagem segue para uma casa de strip tease. Começa a molestar as strippers. Uma delas (uma atriz pornô que curiosamente se chama Teresa May – sem o “h”) é seduzida e começa a putaria, ainda na casa noturna. Seguem em direção ao carro. Bebendo todas e dirigindo, a personagem principal do clipe ainda atropela uma pessoa no caminho sem prestar socorro! De volta ao quarto, a possibilidade é de muito rala e rola, só que (um escândalo na época), a personagem que fez aquele tumulto todo não é um homem. Foi uma mulher que causou todo aquele fuzuê!

O clipe é maravilhosamente bem executado, muito bem dirigido, fotografia impecável. O roteiro está dentro do contexto da música, que repete apenas um refrão o tempo todo: “change my pitch up/smack my bitch up”. Talvez por isso tenha rendido tantos prêmios, apesar das polêmicas e acusações de que a música e o clipe são misóginos, violentos, induzem os jovens às drogas e a comportamentos antissociais, etc. Smack my bitch up foi banido da MTV americana e, nos demais países (como o Brasil), só era exibido depois das 23 h. Volta e meia ele some do YouTube, mas por enquanto podemos ver a versão sem cortes.