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Cultura Pop

Os clipes mais estranhos da música pop (Parte II, anos 1990)

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Os clipes mais estranhos da música pop (Parte II, anos 1990)

Os clipes dos anos 1980 foram politicamente incorretos e tiveram exageros nos figurinos e cenários. Já nos 1990… Bom, a década destacou-se pelas produções um tanto mais minimalistas, mas não menos estranhas. Os clipes eram cheios de provocações e de excesso de permissividade – este, bem proposital. Nos anos 1990, a MTV aterrissava no Brasil em 20 de outubro de 1990 – o primeiro vídeo foi um clipe da cantora Marina Lima, a versão dela para Garota de Ipanema.

Ao contrário dos clipes dos ingênuos anos 1980 que só mostravam “peitcholas” ou insinuavam homossexualidade, na década de 1990 os momentos políticos e sociais – com o fim das eras Reagan e Thatcher, somados com os ventos da democracia no Brasil – permitiram mensagens explícitas nas letras e clipes. Tudo a ver com uma nova sociedade, bem mais liberal. Ou não?

“HE’S MY THING” – BABES IN TOYLAND (1990): A cena grunge sempre foi marcada pela despretensão: no figurino, nos arranjos musicais. Mas foi um período inegavelmente criativo. Mesmo tendo baixo orçamento, uma das melhores bandas de rock alternativo de Minneapolis – composta somente por garotas – conseguiu fazer um vídeo memorável, de uma música extraída de seu primeiro álbum Spanking machine.

Mas, atenção: Se você sofre de automatonofobia – medo ou aversão a bonecos, ventríloquos etc. – este clipe não é para você! Dirigido pelos diretores Phil Harder e Mark Etoll, a energia dos vocais de Kat Bejlland parece transpor-se pelos inúmeros bonecos macabros que aparecem neste clipe, com direito a momentos a la “Chucky” com faca e tudo. Também, pudera, a letra fala sobre proteger o que é meu (no caso, o homem) das concorrentes… Este clipe foi muito exibido pela programação da MTV Brasil, no programa Lado B, apresentado pelo jornalista Fábio Massari. Que estes bonecos do clipe dão um medinho, isso é fato.

“PURE MORNING” – PLACEBO (1998): Este clipe tem uma temática bastante forte. Nos dias de hoje com certeza seria considerado pesado demais para ser exibido na MTV. Filmado em Londres, na região da Savoy Street e dirigido por Nick Gordon, o enredo retrata um jovem suicida (o vocalista Brian Molko) no parapeito de um prédio, indeciso entre se jogar ou não. Vestido de preto, maquiado, descalço e com unhas pintadas de preto, o potencial suicida é observado por bombeiros, policiais, jornalistas e transeuntes que assistem – perplexos – ao seu salto para a morte.

Entretanto, um final surpreendente: o vocalista anda pelas paredes. Embora tenha um, er, final feliz, o clipe é deveras soturno e, muito provavelmente, seria banido, editado ou até modificado atualmente uma vez que poderia induzir os jovens ao suicídio. Entretanto, na época de lançamento, ele foi aclamado pela crítica e exibido normalmente pelos canais musicais como MTV e VH1.

“HAPPINESS IN SLAVERY” – NINE INCH NAILS (1992): Uma das bandas mais “banidas” da MTV Americana, Nine Inch Nails teve seu estranho clipe exibido na íntegra pelo programa Lado B na MTV Brasil. Dirigido por Jon Reiss, ele foi inspirado em um romance francês do século 19, Os jardins dos suplícios, de Octave Mirbeau. A obra tratava de um período decadente e crítico da literatura e da arte francesa, em que a sociedade da época e o colonialismo eram postos em xeque com enredos e pinturas que descreviam belos cenários – porém com personagens mutilados, empalados e ensanguentados.

Com uma inspiração destas, não poderia ser surpresa um clipe rodado em preto e branco cujo protagonista – o artista performático Bob Flanagan – entra em uma sala com um altar cheio de flores e velas, passa por uma espécie de esteira mecânica em queas máquinas começam a despi-lo e, também, a retirar sua pele! Enquanto isso, o vocalista, Trent Reznor, faz a performance cantando no interior de uma cela. Ao sair, vai parar na mesma sala e, embora não haja repetição do mesmo ritual, subentende-se que ele também será despido e esfolado vivo…

Questionado pela imprensa da época sobre o estilo violento da gravação, Trent Reznor garantiu que nunca quis chocar com a violência, mas chamar a atenção para os problemas da sociedade da época, que continuavam incomodando. Infelizmente, o clipe é considerado tão violento que foi banido do YouTube definitivamente, mas um canal fez o upload do clipe. Bastante editado, por sinal. Só quem viveu os anos 1990, parece, é que pode tirar as conclusões ainda hoje. Como eu fui espectadora do Lado B MTV e assisti ao clipe em seu lançamento neste icônico programa, posso dizer que sim, era um clipe violento e algumas pessoas mais sensíveis realmente ficariam bem chocadas.

“SENDING ALL MY LOVE” – LINEAR. Filmado em Fort Lauderdale, Flórida, no início de 1990, o clipe do Linear, uma banda de freestyle (aquele tipo de som que rolava direto em bailes funk entre os anos 1980 e 1990), é aquele típico de baixo orçamento. Além de muito, mas muito cafona.

Os integrantes Charles Pennachio, Joey Restivo e Wyatt Pauley eram todos trabalhados no mullet – o corte de cabelo, aliás, era de deixar Chitãozinho e Xororó verdes de inveja. Com muitos passinhos pra frente, passinhos pra trás, um lado e para o outro, jaquetas de couro e faixas no cabelo, camiseta branca, umbiguinho (masculino) de fora, dancinhas coreografadas, piruetas e mortaizinhos, o clipe vai se desenrolando com cenas românticas. E muita interação do vocalista Charles com uma modelo, fazendo caras e bocas deitado sobre muitas cartas de amor. Filmado em praias da Flórida, o clipe foi dirigido e financiado pelo produtor da banda, Tolga Katas, em conjunto com Charlie – assim como o LP de lançamento do Linear.

Duas curiosidades sobre Sending all my love: 1) a música ganhou uma versão indiana, feita para Ishq, filme de Indra Kumar; 2) esteve na trilha de Mico preto, novela da Globo.

“THE BAD TOUCH” – BLOODHOUND GANG (1999). Pense em um vídeo escatológico e de contexto puramente sexual, politicamente incorreto ao extremo. Pois é, provavelmente foi The bad touch, que fez um baita sucesso por aqui há vinte anos, que veio na sua mente. Embora a música seja bem dançante, a banda americana da Pensilvânia é considerada de rock alternativo. Foi formada no começo dos anos 1990 por James Moyer Franks e Michael Bowe, com o acréscimo do baixista Jared Hennegan em 1994. O grupo passou a tocar no lendário clube CBGB, em Nova York, Sem muitas pretensões, a Bloodhound Gang sempre alegou que era 100% influenciada pelo grupo nova-iorquino Beastie Boys.

A escatologia e o mau gosto correram soltos nesta música e também no clipe. Lançado em maio de 1999 e dirigido por Richard Reines, o vídeo começa com os integrantes da banda fantasiados de ratos gigantes, com orelhas desproporcionais. Gravado em locais turísticos de Paris, o vídeo sem censura já mostra dois macacos “copulando” e dois integrantes da banda fazendo a mesma representação de um sexo gay selvagem. Depois, o nonsense de modelos caminhando em vestidos pretos e curtos, desmaiando quando são atingidas por zarabatanas e depois carregadas pelos integrantes da banda.

Os músicos fazem gestos meio obscenos, subentendendo que vai rolar sexo selvagem com aquelas mulheres desacordadas. Ah, sim, tem a letra: “let’s do it like they do it on the Discovery Channel” (“vamos fazer sexo como os animais fazem no Discovery Channel”). Se não bastasse o fim da picada de representar mulheres como presas, o clipe ainda traz dois atores com boinas típicas francesas num restaurante em Paris – como se representassem um casal gay, que é atingido por dois integrantes da banda com salames!

Hoje em dia isso seria considerado homofobia nível hard, claro. Mas, calma: não para por aí. No final, dois dos músicos simulam uma diarreia e despejam nas caras um do outro um material mole e marrom. Na época em que o clipe foi exibido pela MTV Brasil, os integrantes da banda disseram que o tal material era só chocolate. Vendo o clipe, é bom a gente pensar assim.

Diante de tanta polêmica, o clipe e a música fizeram sucesso estrondoso na Europa, sobretudo no Reino Unido, Noruega, Bélgica, Suécia e na Alemanha. O clipe é censurado até hoje mundialmente e a música tem uma versão com uma letra mais polida para se tocar nas rádios mais conservadoras. Nos dias de hoje, não há dúvidas que seriam criticados à exaustão pelas feministas e pelo público LGBT (na época, inclusive, choviam críticas).

“SMACK MY BITCH UP”- PRODIGY (1997): Um dos vídeos mais controversos de todos os tempos, feito em primeira pessoa, como se fosse um youtuber numa noitada daquelas – com direito a muita bebida, drogas pesadas, sexo, violência e baixaria. Dirigido por Jonas Akerlund, o clipe foi rodado em várias locações em Londres, mais especificamente na região do Soho. O clipe começa pela perspectiva de alguém que acorda muito tarde, levanta da cama, vai ao banheiro, troca de roupa, dá uma cafungada na cocaína e sai pra balada. E sai causando por onde passa: toma todas, assedia as mulheres arrumando briga numa casa noturna, destrói as pick-ups do DJ. Não satisfeita, a personagem em primeira pessoa vomita no banheiro, local onde também dá um pico de heroína.

Achou demais pra você? O comportamento antissocial continua. Noiado e vomitando as tripas para todos os lados como se não houvesse amanhã, o personagem segue para uma casa de strip tease. Começa a molestar as strippers. Uma delas (uma atriz pornô que curiosamente se chama Teresa May – sem o “h”) é seduzida e começa a putaria, ainda na casa noturna. Seguem em direção ao carro. Bebendo todas e dirigindo, a personagem principal do clipe ainda atropela uma pessoa no caminho sem prestar socorro! De volta ao quarto, a possibilidade é de muito rala e rola, só que (um escândalo na época), a personagem que fez aquele tumulto todo não é um homem. Foi uma mulher que causou todo aquele fuzuê!

O clipe é maravilhosamente bem executado, muito bem dirigido, fotografia impecável. O roteiro está dentro do contexto da música, que repete apenas um refrão o tempo todo: “change my pitch up/smack my bitch up”. Talvez por isso tenha rendido tantos prêmios, apesar das polêmicas e acusações de que a música e o clipe são misóginos, violentos, induzem os jovens às drogas e a comportamentos antissociais, etc. Smack my bitch up foi banido da MTV americana e, nos demais países (como o Brasil), só era exibido depois das 23 h. Volta e meia ele some do YouTube, mas por enquanto podemos ver a versão sem cortes.

https://www.youtube.com/watch?v=79iqeItl4SE

44 anos. Gosta de Cultura Pop, Moda, Literatura, Sociologia, Cinema, Fotografia e é movida à Música desde que se entende por gente. Bacharel em Direito, enveredou-se para as Relações Internacionais e atualmente encontra-se em fase de mudanças profissionais.

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Cultura Pop

Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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