Por enquanto, Sobre amanhã, documentário que conta a história do primeiro disco do DeFalla (o epônimo de 1987, que costuma ser chamado de Papapapaparty), é um excelente filme que pode ser visto de graça no YouTube. O doc dirigido por Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento pode até percorrer festivais ou migrar para outras plataformas – mas os diretores, no momento, querem mais é que o filme aguce a curiosidade sobre uma banda que ainda está na ativa e vive se reinventando.

“Seria um pecado o filme ficar atrás de um paywall. O DeFalla se criou na poeira cósmica de ideias que se juntou formando a internet, e para ela retornou”, teoriza Diego de Godoy, num papo com o POP FANTASMA. O cineasta fez o filme aproveitando um curto período em 2011, quando a formação original (Edu K, Biba Meira, Castor Daudt e Flavio Santos, o popular Flu) reuniu-se para tocar todo o repertório do debute em Porto Alegre.

“A produção foi muito curta e objetiva: tínhamos o show e depois dois ou três dias com a formação original excepcionalmente toda reunida, já que o Edu estava morando em Santa Catarina e o Castor, no Nordeste”, conta Diego, que foi conversar também com nomes como Carlos Eduardo Miranda, Edgard Scandurra e Wander Wildner. Mesmo que o DeFalla tenha passado por várias encarnações sob o comando de Edu (que mantém a banda até hoje), ele não foca o trabalho no vocalista.

“Não se deve concentrar a importância do DeFalla na figura do Edu. Todos – e também o Miranda – são responsáveis pelo resultado, tanto que a Biba deixa a banda logo depois do segundo álbum por diferenças artísticas”, conta. “A importância do DeFalla é o próprio motivo do documentário: foi um impacto estético e com isso quero dizer principalmente criativo. O grupo assombrou músicos e a imprensa. O Renato Russo chamava o Edu de ‘um louco das idéias’, o Scandurra chamou a Biba pra tocar com ele, a banda era uma junção de diversas referências com muita personalidade. Tudo isso antes da internet e da MTV. E o Miranda foi o mago que propiciou essa alquimia”.

Se você ainda não viu o filme (que é bem dinâmico e informativo) prepare-se para rir com várias declarações e histórias. Como as de que, bem antes da fama, o DeFalla inteiro brigou e deixou a banda (e o nome) nas mãos de Biba. No comecinho do grupo, Edu, vivendo com amigos num apartamento em Porto Alegre, assustou vizinhos que o ameaçavam jogando-se da janela e rolando num monte de cactos. Miranda, a quem o filme é dedicado, rouba a cena em vários momentos.

De imagens antológicas, tem Luciana Vendramini apresentando o DeFalla num dos poucos espaços televisivos nacionais que receberam o grupo, o hoje esquecido C&A Shop Show, na finada Rede Manchete. E o DeFalla tocando Ilariê, da Xuxa, trocando o refrão para “é a turma da p… que vai dando o seu alô”. O filme não fica preso no primeiro disco: mostra que a banda se reinventou como grupo de hard rock, rap-hardcore, funk e até emo (no disco Soda pop, de 2003, que nunca saiu oficialmente e pode ser encontrado no YouTube).

No filme, Edu K lembra que Sobre amanhã, a música (lançada no primeiro disco), chegou a tocar no rádio por ser uma “balada”. Nada que ajudasse a banda a estourar. “Acho que a banda não fez sucesso para além do público de nicho porque eles viravam radicalmente a chave a cada passo, antes mesmo do álbum seguinte. Aí o sujeito que acostumava o ouvido com aquela mistura estranha, quando ia no show era surpreendido com outra coisa em outra direção. E foi sempre assim”, conta Diego.

“Eu confesso que fiquei muito surpreso com o desconhecimento do público hoje sobre o DeFalla, especialmente em Porto Alegre”, espanta-se o cineasta. “Porque o Edu, por exemplo, não se desligou nem da música, nem da cidade, e se manteve sempre no som do contemporâneo, tocando em baladas de molecada e tal. Vai ver é esse negócio bizarro do pessoal não curtir mais rock e guitarras”.

Pega o filme aí!