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Cultura Pop

Mesopotamia: quando B-52’s e David Byrne trabalharam juntos (só que deu merda)

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Mesopotamia: quando B-52's e David Byrne trabalharam juntos (só que deu merda)

Mesopotamia, EP do B-52’s lançado em janeiro de 1982, tem mais histórias bizarras por trás do que um fã da banda pode imaginar. Aliás, tem mais bizarrices do que se costuma associar a EPs, que geralmente são lançamentos de meio de caminho na história de um artista. E no caso do B-52’s, o meio de caminho não veio apenas por um lançamento, mas por dois, já que antes desse, ainda saiu um álbum de remixes, Party mix (1981), para manter os fãs ocupados.

O EP do B-52’s era para ter sido o terceiro LP da banda, depois de B-52’s (1979) e Wild planet (1980). E veio de algumas mudanças na história do grupo. Ricky Wilson, Keith Strickland, Kate Pierson, Fred Schneider e Cindy Wilson, já fazendo sucesso, haviam se mudado de Athens, Georgia, para uma espécie de “sítio dos Novos Baianos” em tom pós-punk, em Mahopac, interior de Nova York. Fizeram amizade com os Talking Heads (banda, você deve saber, de David Byrne) e passaram a dividir até mesmo o escritório com o grupo, já que Gary Kurfirst, também empresário dos Ramones e do Blondie, também passou a cuidar dos negócios de Ricky Wilson e seus amigos.

Para deixar a história mais complexa, tinha o fato de que o B-52’s (por sinal, uma das bandas preferidas de John Lennon, pouco antes do ex-beatle morrer) tinha sido vítima de vários críticos na época dos dois primeiros discos – a banda era tida como vazia, fútil, boba e maluca por vários deles, especialmente na imprensa britânica.

O grupo havia tido um sucesso real com Wild planet mas naquele momento se encontrava numa crise criativa bizarra e enfrentava o descrédito até de alguns fãs da antiga. Um problemão que Kurfirst tentou resolver empurrando Byrne para fazer a produção de um eventual terceiro disco do B-52’s. Esse disco seria (seria mesmo, nesse tempo verbal) Mesopotamia. E enfiou banda e produtor logo no estúdio em 1981, para gravação e lançamento imediatos.

E aí que começaram os problemas.

Só para começar, a tal “crise criativa” deixou o B-52’s quase sem músicas, e a banda nem sequer se sentia pronta para entrar em estúdio. Gary insistia que tudo fosse feito logo. “Não estávamos realmente prontos para lançar este álbum, e Gary sugeriu trabalhar com David Byrne, mas não tínhamos escrito todas as músicas do disco. Ele disse: ‘Você precisa lançar outro disco!’ Ele era desses empresários que falavam: ‘Você precisa fazer isso! Você precisa fazer isso!’ Então ele meio que nos forçou”, recordou Kate Pierson. Músicas como Deep sleep tiveram suas letras criadas em estúdio, na maior pressa.

Do lado de Byrne as coisas não andavam muito em ordem. O líder dos Talking Heads estava fazendo uma trilha sonora para o projeto de dança de Twyla Tharp, The Catherine Wheel, e tinha resolvido pegar os dois trabalhos ao mesmo tempo: com a trilha ele passava o dia ocupado, enquanto virava a noite com o B-52’s. O músico levou para o trabalho com a banda alguns dos valores que cultuava nos Talking Heads e pôs até metais no som do grupo. Trouxe também músicos de estúdio para colaborar. Tava ficando bem legal (e Mesopotamia é um bom disco), mas acabou não dando certo, já que a colaboração parou no meio. Em vez de um LP cheio, banda e produtor ficaram com 25 minutos de música.

“Mas além das seis músicas do disco, nada mais foi feito ou gravado?”, você deve estar se perguntando. Bom, Queen of Las Vegas foi regravada para o disco Whammy! (1983), o subsequente da banda, e a versão gravada para Mesopotamia apareceu numa coletânea do grupo, Nude on the moon.

Big bird também foi regravada para Whammy! e tinha sido descartada do EP em prol de Deep sleep, por ordens da gravadora, a Island. A banda, de pirraça, tirou Deep sleep da turnê de lançamento de Mesopotamia e incluiu Big bird.

Butterbean também apareceu em Whammy!. E teve também Adios desconocida, que nunca foi regravada ou lançada pelo grupo.

Um tempo depois, Kate Pierson afirmou numa entrevista que não era verdade que a banda não tinha se dado bem com David Byrne no estúdio e que, pelo contrário, o B-52’s tinha conseguido evoluir bastante com ele no comando. O problema todo, disse a musicista, aconteceu porque Kurfirst prometeu “o disco do ano” tanto para a Warner (gravadora da banda nos EUA) quanto para a Island (que publicava a banda no Reino Unido) e fez o que pôde para apressar e tensionar o processo.

E por causa desse estresse todo, ainda deu mais merda: a Island estava com tanta pressa para lançar Mesopotamia que mandou para as lojas um álbum com remixes mais extensos de Cake, Loveland e Throw that beat in the garbage can. Hoje você acha esses remixes no YouTube e eles costumam ser chamados de “David Byrne mixes” por fãs mais animadinhos. Mas o tal “novo EP” do grupo acabou se transformando num quase-LP de 35 minutos. A gravadora percebeu a cagada rapidamente e mandou recolher tudo.

Até hoje Mesopotamia é um disco, hum, controverso na história da banda, mesmo sendo uma excelente opção para quem quiser conhecer algo diferente do B-52’s. A banda não trabalhou mais com Byrne e entrou numa espiral meio bizarra após o lançamento desse disco, com álbuns cada vez mais malhados pela crítica e mais crises internas. Para divulgar o EP, a banda fez até uma aparição numa das séries mais duradouras da televisão americana, Guiding light.

Ricky Wilson, grande aglutinador da banda, ficou doente em 1984 e morreu de complicações causadas pela aids um ano antes do lançamento de Bouncing off the sattelites (1986), quarto disco, que acabou fracassando. O grupo passou a ter idas e vindas, mas continuou lançando álbuns (Cosmic thing, de 1989, é bem legal) e existe até hoje. Vieram para o primeiro Rock In Rio, de 1985 e ainda emendaram outras vindas ao Brasil. Olha eles aí ano passado, na Inglaterra, no Hammersmith Apollo.

Mesopotamia aparece junto de Party mix, o disco de remixes, no Spotify. Pega aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.

“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)

O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).

A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).

Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.

A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.

E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.

 

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Um post compartilhado por R.E.M. (@rem)

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