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Cultura Pop

Uma entrevista bizarra de Andy Warhol com Frank Zappa

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Uma entrevista bizarra de Andy Warhol com Frank Zappa

Lá pelo começo dos anos 1980, Andy Warhol apresentava um programa chamado Andy Warhol’s TV, onde (do alto de sua timidez) batia papo com convidados, numa escala de ia da moda à música. A turma do Blondie passou por lá, assim como Divine, Mariel Hemingway, Steven Spielberg e uma galera saída direto dos antigos trabalhos do homem de mídia.

Andy começou apresentando a atração na Manhattan Cable TV em 1980, e no último ano do programa (1983), transferiu-se para o canal Madison Square Network. Continuou recebendo uma galera variada a ponto de incluir Bianca Jagger, Duran Duran, o senador Daniel Patrick Moynihan, Sting e os Sparks. Cada programa era bem curtinho (na última fase, tinha 9 minutos) e as aparições eram rápidas.

No sexto episódio, uma (er) inimizade de anos surgiu na tela da TV: Warhol recebeu ninguém menos que Frank Zappa, que foi entrevistado por um de seus fãs mais ilustres, Richard Berlin, ao lado de Warhol. O anfitrião do programa, por sinal, quase não chegou a entrevistar o roqueiro. Passou boa parte do tempo olhando para Zappa com cara de perplexidade. E talvez lembrando de coisas do passado.

Voltando a 1967, tanto o Velvet Underground (apadrinhados por Warhol) quanto Zappa (com seu grupo Mothers Of Invention) eram contratados do selo Verve, que resolvera abraçar o rock “psicodélico” e não se prender apenas ao jazz.

Uma entrevista bizarra de Andy Warhol com Frank Zappa

A gravadora acabou investindo bem mais em Zappa do que no Velvet, que era “incomprensível” e, nas lembranças de John Cale, fundador do VU, já contava com o apoio de Warhol. Mas o pior mesmo, no entender de Warhol, eram as lembranças de um show de 3 de maio de 1966 em San Francisco, onde Velvet e Mothers dividiram o palco com estes abrindo para os primeiros. O caso virou coisa séria para Warhol, que chegou a falar do assunto em seu livro Diaries, de 1989 e ainda disse o que pensou de Zappa após a entrevista.

“Acredito que após a entrevista eu o odiei ainda mais do que nunca. Ele foi muito infantil quando sua banda tocou com o Velvet – eu penso na viagem a Los Angeles e no Fillmore em San Francisco. Eu o odiava então e agora ainda não vejo nada de mais nele”, recordou, lembrando também que fez um elogio à Moon Unit, filha de Zappa, e estranhou a reação do artista. “Ele agiu de maneira muito estranha sobre Moon. Eu disse a ele como ela era ótima e ele disse: ‘Ouça, ela é minha criação. Eu a inventei’. Algo como: ‘Ela não é nada, na verdade eu estou por trás disso’. Penso que se ela fosse minha filha, eu diria: ‘Gente, que menina’, mas ele levou toda a honra para si próprio. Muito estranho”.

No tal show de 1966, o Velvet foi recebido de maneira fria pela plateia, cheia de hippies. Jimmy Carl Black, baterista dos Mothers, chegou a lembrar que gostou de ver Moe Tucker tocando bateria, mas que não lembrava de Zappa avisando que o Velvet entraria no palco depois dos Mothers. “Ele realmente não gostava da banda. Por quais razões eu realmente não sei, exceto que eram drogados e Frank simplesmente não podia tolerar nenhum tipo de droga. Não era um sentimento que eu tinha, nem o resto da banda. Achei tudo muito bom, especialmente Nico, por quem me apaixonei secretamente”, disse.

O mais complexo aconteceu em 23 de outubro de 1967, quando o Velvet, com Nico, tocou em Nova York, igualmente dividindo o palco com os Mothers. E Zappa decidiu zoar a cantora entre um set e outro. Subiu no palco e usou o órgão dela para fazer uma paródia das canções que ela tocava com o Velvet.

“Ele passou as mãos indiscriminadamente no teclado de maneira total e atonal, e gritou no topo de seus pulmões, fazendo uma caricatura do set de Nico, que era o que ele acabara de ver. As palavras de sua canção improvisada eram nomes de vegetais como brócolis, repolho, aspargos… Essa ‘música’ continuou por mais ou menos um minuto e então parou de repente. Ele saiu do palco e o show seguiu em frente. Foi uma das maiores peças de teatro rock ‘n roll que eu já vi”, afirmou o jornalista Chris Darrow, da revista Kaleidoscope.

E o tal papo de Warhol com Zappa, como foi? Bom, Frank Zappa não estava num de seus dias mais bem humorados e meio que deu uma ignorada no apresentador, que por sinal não fez questão de entrar no papo. Frank conversou apenas com o fã-entrevistador sobre a não-relação que ele tinha com seus fãs doentes, daqueles que decoravam cada linha de suas músicas e compravam tudo o que saía. “Não estou perto de pessoas assim, só sei que existem”, contou Zappa, lembrando de um fã, professor de escola, que o seguia pelas ruas e “cheirava até os lugares onde meus pés passavam”, conta.

Tá aí embaixo.

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Crítica

Ouvimos: John Cale, “POPtical illusion”

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Ouvimos: John Cale, "POPtical illusion"
  • POPtical illusion é o décimo-oitavo disco solo de John Cale, fundador do Velvet Underground (banda da qual acabou sendo saído após o líder Lou Reed mandar um “ou ele ou eu” para os colegas). É o quinto disco do cantor para o selo Double Six, ligado à gravadora londrina Domino.
  • Num papo com The Guardian, Cale disse que o novo disco foi pautado pela pandemia, como já havia acontecido com o anterior, Mercy (2023), e que ele estava com muita raiva (“de coisas políticas, principalmente”) quando fez o disco. “Escrevi o disco com muito mais agressividade do que tive no passado recente, mas era um tipo diferente de agressão – um tipo de agressão romântica”, contou.
  • O álbum foi produzido por ele com sua empresária Nita Scott. Ao contrário de Mercy, bastante colaborativo, dessa vez Cale tocou quase tudo sozinho, com colaborações pontuais de Nita (teclados e programações) e Dustin Boyer (guitarra).

O tal “passeio pelo lado selvagem” do qual Lou Reed falava, tem mais a ver com seu ex-colega de banda e “inimigo íntimo” John Cale. Lançando disco clássico atrás de disco clássico, Lou foi do rock mais básico e destrutivo ao puro ruído. John ficou com o lado aparentemente mais desafiador, indo das tentativas de abraçar o rock mais radiofônico, até canções mais sinfônicas e elaboradas. Em vários momentos, trabalhou com selos menores e teve menos atenção da mídia do que Reed.

Em alguns momentos, John e Lou pareciam se “encontrar”, ainda que separados. Foi o que aconteceu em discos sombrios e protopunks de Cale, como Fear (1974) e Slow dazzle (1975, em cuja capa o cantor usava roupas pretas, óculos escuros e se parecia não muito levemente com o rival). No disco novo, POPtical illusion, a “ilusão de ótica pop” de John Cale inclui mostrar que a música de vanguarda, na visão dele, se parece bem pouco com a ideia comum de rock, ou até de punk. O som de POPtical tem a ver até com pop adulto-contemporâneo, desde que aquilo possa ser mexido e remexido de forma a se tornar um pouco esquisito, como acontece em faixas como Davies and Wales, a quase progressiva Edge of reason e o sophisti-pop I’m angry, que às vezes soa como uma bossa nova fragmentada e produzida por Brian Eno.

O novo disco tem, principalmente, a visão de um dream pop às avessas, como se as camadas de teclados e programações (além dos vocais gravados como se viessem do fundo de uma caverna) servissem para dar uma ideia de paraíso perdido, de sonho que acabou. Tudo isso em meio a letras bem pessoais, como God made me do it (Don’t ask me again) e Calling you out, ou comentários políticos como os de Company commander (“os direitistas queimando suas bibliotecas/nos dando os benefícios e a dúvida”). Vem logo à mente a lembrança de que no entendimento de Cale, o disco que ele e Reed estavam fazendo em homenagem a Andy Warhol, Songs for Drella, deveria ter uma cara de réquiem, de elegia – porque é mais ou menos isso que dá para enxergar em POPtical, um disco “raivoso” feito em meio à pandemia.

No repertório de POPtical, acha-se também o punk eletrônico de Shark shark, o jazz pop sombrio de Funkball the brewster, o synthpop de How we see the light (que lembra a fase anos 1990/2000 de David Bowie) e, no encerramento, as meditativas Laughing in my sleep e There will be no river. O novo disco de Cale é extenso (mais de uma hora de duração) e termina deixando a sensação de que o baú do retiro pandêmico do músico ainda vai gerar mais surpresas.

Nota: 10
Gravadora: Domino/Double Six

 

 

 

 

 

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Cultura Pop

Relembrando: Built To Spill e Caustic Resin, “Built to spill caustic resin” (1995)

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Relembrando: "Built to spill caustic resin", Built To Spill e Caustic Resin

Built To Spill e Caustic Resin são duas bandas bem desafiadoras do rock independente norte-americano, ambas vindas de um local pouco usual em se tratando da história do rock (a cidade de Boise, em Idaho), e que permaneceram ligadas por um bom tempo. A primeira, uma multi-formação liderada eternamente pelo músico Doug Martsch, caminhou entre o guitar rock, o punk e o slacker rock (aquele estilo despojado, geralmente usado para classificar o Pavement). A segunda, contando com relativamente poucas mudanças de line-up, dedicou-se a um “metal alternativo” mais próximo de Neil Young, do Grateful Dead e do Velvet Underground do que das noções comuns de música pesada.

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Como costuma acontecer com bandas-irmãs, uma delas foi para cantos um tanto quanto diferentes da outra. O BTP, que, durante shows recentes na América Latina, chegou a contar com dois músicos brasileiros (o baixista João Casaes e o baterista Lê Almeida), foi contratado da grandalhona Warner por duas décadas e fez turnês extensas. O Caustic Resin, que não grava desde 2003 e em tese, está em hiato, passou boa parte do tempo contratado do selo indie californiano Alias.

Em 1995, pouco antes do Built To Spill partir rumo a Warner e deixar o selo Up Records, de Seattle (por onde o Caustic Resin também havia passado), as duas bandas se juntaram num EP igualmente lançado pela Up. A junção dos nomes das duas bandas no título fez o EP se chamar literalmente Built to spill caustic resin (“construído para derramar resina cáustica”, em português), o que já dava uma imagem do aspecto corrosivo que a música poderia ter. Na formação, Doug (voz e guitarra) ao lado de dois integrantes do Caustic, James Dillion (bateria) e Tom Romich (baixo), além de um membro comum às duas bandas (Brett Nelson, voz e guitarra).

O EP reúne em quatro faixas as características das duas bandas: os ganchos musicais do Built e as viagens sonoras pesadas do Caustic. Duas das faixas, a irônica When not being stupid is not enough e She’s real, são bem extensas. Na prática, boa parte do material tem até mais a ver com o som que o Built vinha fazendo em sua primeira fase, de discos como a estreia Ultimate alternative wavers (1993), que tinha músicas repletas de partes diferentes. Mesmo quando surge uma música creditada ao Caustic e que tem bastante a cara deles, a psicodélica e gritada Shit brown eyes. O longo power pop She’s real, que encerra o disquinho lembrando uma versão zoada do Weezer, é creditado ao músico e artista visual Tae Won Yu, e foi composto quando ele fazia parte da banda indie Kicking Giant, liderada pela musicista Rachel Carns.

Mesmo sendo um EPzinho independente e, de certa forma, restrito, Built to spill caustic resin teve lá sua cota de problemas. A foto da capa, trazendo ovos de peixe e duas simpáticas larvinhas, teve que ser mudada assim que o autor da imagem descobriu o disco. Já a história da Up Records, que lançou discos de artistas como Quasi, Tad e Modest Mouse, durou até o licenciamento de seu catálogo para a Sub Pop, em 2018.

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Cultura Pop

Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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