Crítica
Ouvimos: Lily Allen – “West End girl”

RESENHA: Lily Allen renasce em West End Girl: pop confessional, moderno e afiado, transformando dores pessoais no melhor álbum dela em anos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: BMG
Lançamento: 24 de outubro de 2025.
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Muita gente anda dizendo que não esperava que Lily Allen, depois de tanto tempo (No shame, o disco anterior dela, saiu em 2018) voltasse com um álbum ótimo – e, de fato, as atenções do mercado fonográfico não estavam mesmo voltadas para ela. West End girl surgiu quase de surpresa no momento em que Lily se sentiu com coisas para falar, e mais do que tudo, segura consigo própria. O fim do casamento com o ator David Harbour, e os abusos e traições que ela viveu durante o relacionamento, são o suposto principal tema do disco (recentemente, a cantora deu uma disfarçada, falou que nem tudo é verdade e disse que West End girl foi “inspirado” em seu ex-casamento).
Lily sempre foi bastante confessional em relação a particularidades de sua vida, em músicas e entrevistas, mas dessa vez os fãs já vinham caçando detalhes de que algo estranho vinha rolando. Recentemente ressurgiu uma entrevista dada pelo ex-casal no tapete vermelho do prêmio teatral Oliviers Awards 2022: Lily foi indicada a melhor atriz por seu papel na peça 2:22 A ghost story e, no tal bate-papo, teve aturar o (então) marido fazendo uma piadinha cheia de ressentimento e inveja. Nas fotos do evento, ela parece bastante incomodada com tudo e sem a menor vontade de estar ali, pelo menos ao lado de Harbour.
- Ouvimos: Blood Orange – Essex honey
Seja como for, o David Harbour (ou o que o valha) que é retratado em West End girl é um sujeitinho invejoso (na faixa-título), infiel (Just enough, Madeline e quase todo o disco), viciado em sexo (Pussy palace), escroto (em Nonmonogamummy ela fala algo sobre David ter exigido relacionamento aberto e que ela quisesse ter filhos com ele) e frequentador de redes sociais bem estranhas (4chan Stan, na qual Lily confessa que as bandeiras foram tantas que ela resolveu fuçar nas coisas do ex-marido e achou uma nota de compra suspeita). Allen também se diz cansada de ter que bancar a mãe de seus maridos e namorados (Fruityloop, de versos como “queria poder consertar todos os seus problemas / mas todos os seus problemas são seus para você consertar”).
Já Dallas Major, cantada na primeira pessoa, usa um truque típico de Madonna e Beyoncé – a criação de um alter-ego que, na real, é uma versão dela própria – e resume tudo em tristes constatações: “eu uso o nome artístico Dallas Major, mas esse não é meu nome verdadeiro / sabe, eu costumava ser bem famosa, isso foi há muito tempo atrás / sim, estou aqui em busca de reconhecimento e provavelmente devo explicar / como meu casamento se tornou aberto desde que meu marido me traiu”, canta, antes de mudar a perspectiva: “o nome dela é Dallas Major / ela morre de medo de fracassar / ela só está aqui em busca de validação”.
Musicalmente, West End girl é o melhor disco de Lily em bastante tempo, e tem algumas modernidades bem interessantes, como a bossa jazz pop da faixa-título, a agilidade sonora de Ruminating (com piano pop lembrando os hits de Joe Jackson), a blues ballad indie de Sleepwalking e o pop alternativo, com ares sessentistas, de Tennis. Madeline é um pop abolerado, quase um brega, que vai ganhando cara trap. Faixas como a celestial Pussy palace, 4chan Stan e Fruityloop (essa, lembrando a Lily do começo) deixam sempre a impressão de algo familiar – mas nunca repetido ou entediante.
Já Nonmonogamummy, mesmo com a letra relatando amarguras pessoas, é pop feliz e com ligeiro ar 60’s, evocando algo de Low rider, hit do War. Dallas Major é um r&b com cara quase disco, E ainda tem Let you w/in, pop adulto de piano, com andamento evocando Elton John e Paul McCartney. West End girl é o momento em que Lily percebe o tempo que perdeu tentando impressionar e conquistar gente estúpida – mas também musicalmente, é a “melhor versão” dela nos últimos tempos.
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Crítica
Ouvimos: Ty Segall – “Chrome” / “Love fuzzz” (EP)

RESENHA: Em Chrome, Ty Segall troca o pop psicodélico por garage rock, grunge, stoner e hard rock setentista. Gravado quase todo ao vivo, o álbum ganha ainda um EP de improvisações e guitarras ruidosas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Drag City
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Ty Segall costuma fazer discos que parecem pertencer a artistas diferentes. O sujeito já passou pelo garage rock, pelo folk, pelo glam, pelo hard rock e por experimentações que nem sempre cabem nessas classificações. Em Possession (2025, resenhado aqui), por exemplo, resolveu dar uma caprichada nos arranjos, investindo num rock clássico e psicodélico mais elaborado. Já Chrome, seu novo álbum, é praticamente o contrário: guitarras distorcidas, riffs pesados, barulho e uma banda tocando como se estivesse num ensaio particularmente inspirado.
A banda, aliás, é uma das novidades. Ty reuniu velhos conhecidos como Mikal Cronin (baixo), Emmett Kelly (guitarra), Ben Boye (teclados) e Evan Burrows (bateria), músicos que já haviam participado de outros trabalhos seus, mas nunca tinham feito um disco inteiro juntos nessa formação. O grupo ensaiou durante um mês e gravou quase tudo ao vivo, em seis dias. O resultado tem uma cara mais coletiva, com as guitarras dividindo espaço com baixo e bateria em vez de simplesmente comandarem a barulheira.
Chrome começa com os ruídos de Hospital, que vão chegando de longe até se transformarem numa mistura de grunge, garage rock e rock progressivo – só que, em vez de dedilhados e solos virtuosos, há guitarras quase maquínicas e batidas nas cordas. Running to nowhere e Black paint investem num stoner bastante garageiro, com vocais distantes, blues-rock e até uma beleza glam surgindo no meio da distorção.
Há algo de punk-hard rock em Glass, música de riffs irresistíveis e várias mudanças de clima. Já Play cowboys parece um Lynyrd Skynyrd em negativo, com solos que poderiam ter saído de algum disco do T. Rex. Everything you’ve been lembra o Nirvana de Tourette’s, só que com uma onda mais setentista. E Let go traz guitarras que parecem sinais de transmissão, antes de virar uma mistura de Sonic Youth e grunge, com um ritmo até meio sexy.
O country-rock também entra na história em Separation, mas aparece todo coberto de ruídos. A faixa-título, por sua vez, é hard rock dos anos 1970, lembrando Nazareth e Grand Funk Railroad, com solos que parecem feitos por alguém que passou a adolescência ouvindo punk e garage rock.
E ainda tem um EP de brinde, Love fuzzz, com duas músicas que ficaram fora do álbum por seguirem uma onda mais improvisada. A faixa-título, releitura de uma canção do álbum Twins (2012), tem quase 12 minutos de microfonias, gritos e stoner, ficando mais blues conforme avança. My pet guru, com 14 minutos, é um improviso de guitarras ruidosas, clima noturno e até um piano psicodélico.
Ty separou as canções mais diretas para Chrome e deixou as viagens mais longas para o EP. É uma boa maneira de organizar um trabalho que, se viesse inteiro num só pacote, talvez ficasse excessivo. E também de mostrar que, quando resolve voltar ao rock pesado, ele ainda tem bastante coisa para inventar.
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Crítica
Ouvimos: Pabllo Vittar – “Lost in lust”

RESENHA: Em Lost in lust, Pabllo Vittar mistura dance music, funk, piseiro e reggaeton numa tentativa de conquistar o mercado internacional. O resultado é dançante, mas deixa de lado parte da irreverência da cantora.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7
Gravadora: MTDRS
Lançamento: 1 de outubro de 2026
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Primeira pergunta: será que com Lost in lust, Pabllo Vittar vai mesmo conseguir firmar uma carreira internacional? A resposta está nas doze faixas do álbum, que fazem uma união adequada de dance music anos 1990, brega (com aqueles rototons eletrônicos), piseiro, batidões funk, ondas electro mais alternativas e outros detalhes. É adequado mas… Bom, “adequado” não é exatamente a melhor expressão para definir um disco foda, excelente, imperdível.
Mas Pabllo sabe se armar bem: ela convidou uma turma elegante de produtores (Rodrigo Gorky, S4tan, PZZS, Chernobruno, Jeska, Ezmehfw, Votú, Eva de LC, Gorfo de Panda, Martinz Beats, LOFIBBGIRL e Carlos do Complexo) para ajudar a dar vida a um disco mais focado na eletrônica do que em qualquer coisa. Bad good faz um bom passeio por todos os estilos do álbum. Na sequência, Rockstar tem peso, humor e vibe trap construída ao lado da rapper porto-riquenha Villano Antillano, enquanto Attention vai na dance music e no tamborzão.
Tem algo em Lost in lust que dá a entender que Pabllo anda se espelhando um pouco em exemplos como Slayyyter – Body type, com Urias, tem muito disso, e Friends with… também. Better than a feeling e Polizia vão da dance music anos 1990 aos batidões atuais em pouco tempo. Big bang, a melhor do disco, é a que melhor traduz o “tem de tudo” do álbum, em que sons de reggaeton unem-se até a evocações do axé.
O lance é que tem uma segunda pergunta: será que Lost in lust não pode soar simultaneamente descolado tanto do universo gringo quanto do pop brasileiro? O problema todo é esse: o disco não tem tanto a Pabllo zoeira e tropical dos discos anteriores, substituída por um conceito “internacional” que não soa tão legal. Músicas como Body type são ruins? Não são, mas dão uma impressão imensa de “já ouvi isso antes”, especialmente por causa das letras.
Com menos de trinta minutos de duração, Lost in lust lembra curiosamente um daqueles discos de “tentativa” de estouro de artistas nacionais – tipo quando Wilson Simonal gravava suas próprias músicas em espanhol. A convicção de Pabllo como cantora, compositora e produtora AINDA não entrou no esquema da sua carreira gringa. Talvez falte pouco para isso rolar – inclusive Pabllo faz questão de olhar no olhos de seus fãs da antiga e cantar a ótima Alone, uma espécie de Rock’n roll suicide de sua lavra (“deixe-me ver o anjo nos seus olhos / mostre-me como afastar seus medos / o paraíso é um lugar para onde escapamos”).
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Crítica
Ouvimos: Ellie Goulding – “I know too much”

RESENHA: Em I know to much, Ellie Goulding mistura dance-pop, R&B e baladas para falar de divórcio, autoestima e memórias. O álbum funciona bem, mas suas versões ampliadas, com até 22 faixas, confundem tudo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Polydor
Lançamento: 4 de setembro de 2026
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Há um certo charme nas coisas que vêm com outras de brinde: um filme dentro de um filme, um livro dentro de outro, um disco que esconde outro disco. Mas esse tipo de coisa também causa altas perdeções de mão. Ellie Goulding lançou seu sexto disco I know too much com dez faixas e, em apenas uma semana, transformou o álbum em três lançamentos. Vieram We know too much, com 16 músicas, e You know too much, com 22. O mercado pop adora essas operações, que rendem novas notícias e audições. Para o fã, fica a dúvida: afinal, qual é o disco?
(saiu também EG.0, um curioso EP de dez faixas – ! – que deve merecer texto à parte)
Bom, o original é bom. Ellie fez um álbum marcado pelo fim de seu casamento com Caspar Jopling e pelas inseguranças que vieram à tona nesse período. Não é exatamente um disco de divórcio: há também muita coisa sobre autoestima, memórias e a mania de procurar defeitos em si mesma.
Black Prada dress abre com um batidão dance, clima sonhador, coro gospel e um vocal mais ríspido. Parece uma briga com alguém, mas Ellie explicou que está discutindo com sua própria voz interior (musicalmente, é uma faixa que promete bastante atitude no dico, vale dizer). Já Misremember you, uma baladinha triste de violão, fala de como a memória pode reescrever um relacionamento depois que ele termina. For your entertainment começa com acordes e cravo, dando a impressão de que vai começar a Ave Maria – antes de virar um dance-pop bacana, meio ABBA. A letra trata de alguém que se anula para agradar o outro.
Três músicas para ouvir e reouvir: Nobody dances moderniza o dance-pop de ABBA e Madonna, 4 seasons começa no violão e ganha guitarras, e Always think of you parece um pop alternativo dos anos 1990 guardado em barris de carvalho. Loser tem melodia simpática, mas é mais banal. A faixa-título traz pop triste e R&B leve, enquanto Ravers encerra tudo numa pista de dança noventista.
I know too much funciona bem sem precisar de outras 12 faixas. E é aí que a estratégia comercial complica a cosa toda: é um disco bom, com começo, meio e fim, mas que acaba escondido debaixo das próprias versões.
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