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Crítica

Ouvimos: Blood Orange – “Essex honey”

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Produtor camaleônico, Dev Hynes (nome por trás de Blood Orange) une pop e trevas pessoais em Essex honey, disco introspectivo que mistura dream pop, soul minimalista e ousadia sonora.

RESENHA: Produtor camaleônico, Dev Hynes (nome por trás de Blood Orange) une pop e trevas pessoais em Essex honey, disco introspectivo que mistura dream pop, soul minimalista e ousadia sonora.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: RCA
Lançamento: 29 de agosto de 2025

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Inglês radicado em Nova York, com passagens por estilos musicais como dance-punk, pós-hardcore e chamber pop, Dev Hynes – o popular Blood Orange – é o tipo de produtor-compositor estranhão que tem passe livre com a turma do mainstream. Se alguém como Lorde, ou Kylie Minogue, ou mesmo Mariah Carey, quer soar mais inventiva ou simplesmente mais “indie”, chama o Dev que ele dá um jeito. Ou pelo menos tenta, porque dependendo do artista, nem rola – e o próprio Dev, na porção Blood Orange do seu trabalho, vem deixando claro que o meio “indie” é pequeno para ele.

Nem foi só isso: Dev também abriu shows para Harry Styles em 2022, e ainda por cima fez a direção musical do show dele no Grammy – e vem assinando trilhas para filmes, desfiles de moda, etc. E, ah, ele toca violoncelo em duas faixas de Never enough, álbum-mania do Turnstile. A julgar por Essex honey, seu novo álbum, ele hoje em dia está mais para o grandalhão do mercado (ou um quase-grandalhão) que conserva antigos valores e amigos do passado.

A antiga parceira Caroline Polachek aparece em boa parte do disco. Eva Tolkin, outra antiga colaboradora, divide parcerias e solta a voz em The field, uma verdadeira viagem sonora. Na real, essa música é uma drum’n bossa (ou um chamber folk, você decide) que em alguns momentos chega a lembrar o 14 Bis (!). E que tem também colaborações de Polachek, Daniel Caesar e ninguém menos que Vini Reilly, do Durutti Column – Vini, protótipo indie do guitarrista dos guitarristas, considerado gênio por gente como John Frusciante, mas sempre um cara do underground.

Essex honey é bastante sombrio e introspectivo, até mesmo quando se revela próximo do pop. Não é à toa: o repertório surgiu de um momento em que ele precisava “lidar com o luto e se concentrar em se recuperar”, após a morte de sua mãe. Como certos lugares na Europa são “logo ali”, ele alugou um apê em Paris para se afastar das lembranças de Londres. Quando arrumava o local, deparou com Fourth of july, de Sufjan Stevens – música que faz parte de Carrie & Lowell (2015), disco justamente feito por Sufjan após a morte de sua mãe.

Foi um clique para que Essex honey saísse como saiu, unindo dream pop, pop camerístico e trevas pessoais. Isso rola em todo o disco, mas tem seu auge em faixas como Look at you, Mind loaded (canção contemplativa e pianística, com Polachek, Lorde e o sudanês Mustafa Ahmed) e o drum’n bass deprê The last of England. Além da inventiva I can go, que fecha o disco deixando a/o ouvinte querendo sempre saber para que lado a cancao vai – e ela fica do lado mais experimental e celestial.

A variedade musical do disco inclui o soul reduzido a células de Thinking clean, os defeitos especiais do soul-folk Somewhere in between, o sophisti-pop psicodélico de Vivid light, o soul voador e lisérgico de Life (com participação da norueguesa-brasileira Charlotte dos Santos). Além das surpresas que vão aparecendo ao longo de Scared of it e de I listened (Every night). Um disco triste, mas cujo design sonoro faz você querer escutá-lo inteiro várias vezes.

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Crítica

Ouvimos: The Fall – “BBC Radio sessions” (EP) / The Wedding Present – “Maxi” (EP)

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Dois clássicos do indie britânico voltam em EPs: sessões inéditas do The Fall na BBC e um Wedding Present revendo o passado com guitarras afiadas.

RESENHA: Dois clássicos do indie britânico voltam em EPs: sessões inéditas do The Fall na BBC e um Wedding Present revendo o passado com guitarras afiadas.

Texto: Ricardo Schott

Notas: 8 (The Fall) e 8,5 (The Wedding Present)
Gravadoras: Beggars Banquet (The Fall) e Scopitones (WP)
Lançamentos: 29 de outubro de 2025 (The Fall) e 5 de dezembro de 2025 (WP).

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Duas bandas do indie rock britânico clássico ressurgem em EPs novos. A primeira delas em caráter basicamente póstumo, já que se trata de um grupo (The Fall) que encerrou atividades após a morte de seu líder – Mark E. Smith, saído de cena em 2018. A outra (The Wedding Present) retornou em 2004 e vem fazendo uma torrente de lançamentos desde então, focando justamente em EPs.

BBC Radio sessions traz o segundo volume de gravações do Fall feitas na BBC – no caso, uma sessão gravada em 28 de abril de 1987 e transmitida pela primeira vez em 11 de maio daquele mesmo ano. O repertório focou em faixas de EPs e singles lançados naquele período, trazendo também a novidade de Athlete cured, faixa que sairia em 1988 no disco The frenz experiment. O curto repertório abre com Australians in Europe, pós-punk de poucos acordes, com ataque de guitarra surpreendentemente metálico lá pelas tantas. Twister, por sua vez, tem vibe krautrock, balanço cerimonial e uma abertura que adianta em alguns anos o som de Jon Spencer Blues Explosion.

O EP é complementado pelo clima boogie e sujo de Guest informant – no qual a voz de Mark lembra a de um Mick Jagger insociável. E por Athlete cured, soando como o encontro entre os beats da Motown e de Bo Diddley com a energia caótica da no wave. Já Maxi, do Wedding Present, é um disco novo que faz referência ao passado – mais detalhadamente ao EP Mini, de 1996. Ambos os discos têm músicas que falam sobre… dirigir.

Com uma formação recente turbinada pela guitarrista Rachael Wood, o WP surge variando entre a balada pós-punk e um clima próximo do rock pauleira nos quase sete minutos de Scream if you want to go faster – música que ainda ganha um clima meio psicodélico graças às guitarras e teclados do arranjo. Grand prix é meio jangle pop, mas faz lembrar bandas como XTC e Joy Division, nos vocais e no arranjo, Hot wheels, por sua vez, é punk e ágil, com ótimo trabalho nas guitarras.

Cruzamentos entre jangle pop e pós-punk aparecem também em Two for the road e na ágil e terna Silver shadow. E igualmente em Interceptor, canção que lá pelas tantas, ganha peso no estilo do Black Sabbath – voltando depois ao som comum do grupo.

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Ouvimos: Cat Arcade – “Fragmentada”

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Cat Arcade foge do shoegaze padrão em Fragmentada, misturando ruído, pós-punk e melodia, com vocal dramático e identidade própria.

RESENHA: Cat Arcade foge do shoegaze padrão em Fragmentada, misturando ruído, pós-punk e melodia, com vocal dramático e identidade própria.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 2 de dezembro de 2025

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Banda gaúcha formada em 2019, o Cat Arcade lança o segundo álbum, Fragmentada, e marca algumas diferenças em meio à onda shoegaze que assola o rock nacional (e o internacional). O grupo não mira em paredes ruidosas de guitarras: o foco é em climas ruidosos entre Sonic Youth e o pós-punk, como na base de guitarra e nos riffs com eco de Sem rumo e Labirintos, que abrem o novo álbum. O vocal de Nina Barcellos é agudo e dramático, nada da vibe etérea dos sons ruidosos.

O grupo surpreende mais ainda com Videomaker, canção que tem algo de pop adulto anos 1980 (Marina Lima, Claudio Zoli, Vinicius Cantuária), mas traduzido para a atmosfera gélida do pós-punk – vale citar que até o título da faixa lembra a década em que criadores de conteúdo eram conhecidos como “videomakers” mesmo. Interrompida tem dramaticidade lembrando The Cure, enquanto Teste de sanidade tem até um certo clima de MPB “roqueira” dissolvido em meio a uma cara college rock – abrindo com um tom meio hispânico, e ganhando mais peso e melodia na sequência.

No fim do disco, Asas dá uma cara mais simples e melódica a Fragmentada, com evocações de Smiths e The Cure, ótimas guitarras e riff que chama a atenção. Um álbum que encontra identidade própria no ruído, no drama e na melodia.

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Ouvimos: Varanda – “Rebarba” (EP)

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O Varanda retrabalha sobras do ótimo álbum Beirada no EP Rebarba, focando no lado mais ruidoso, experimental e multifacetado da banda mineira.

RESENHA: O Varanda retrabalha sobras do ótimo álbum Beirada no EP Rebarba, focando no lado mais ruidoso, experimental e multifacetado da banda mineira.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de outubro de 2025

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A banda mineira Varanda lançou a ótima estreia Beirada em 2024, e agora, pouco mais de um ano depois, sai Rebarba, EP com quatro sobras do álbum, retrabalhadas agora para lançamento. Não é raro que bandas e artistas mexam em sobras de seus álbuns para trabalhar como singles e EPs – Nilüfer Yanya fez isso recentemente – ou até mesmo como edições deluxe, o que é até bem mais comum. O Varanda, uma banda bastante multifacetada, escolheu determinadas faces de seu som para focar no EP.

Rebarba começa com o jazz rock indie de Não me – música que ao final, vai ficando saturada, como numa gravação com defeitos, mas que depois volta ao normal, como se Mario Lorenzi, Amélia do Carmo, Augusto Vargas e Bernardo Merhy desejassem que a última mensagem da música ficasse na mente. Espelho é pós-punk-MPB, um som bonito e mágico, baseado num riff grave e numa letra imagética (“me faltou o Carnaval / mas rolaram as fantasias”), além de quebras rítmicas, como numa valsa pós-hardcore. Cores no céu soa como um ensaio gravado, mas ganha um som meio maquínico e um clima lembrando o pop adulto nacional dos anos 1980.

Sol ameaça um blues na abertura, mas vai mexendo com métricas pouco usuas e focando na experimentação rítmica. Ela já me ama encerra o disco de modo bem despojado, com efeitos de teclados e um resultado bem próximo do noise rock – com direito a vocais esgoelados, lembrando Pavement, Nirvana e Sonic Youth. A julgar pela Rebarba, tudo indica um futuro bem ruidoso e experimental pro Varanda nos próximos discos.

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