Connect with us

Crítica

Ouvimos: Joca – “Cortavento”

Published

on

Rapper mineiro criado em Niterói, Joca mistura rap, psicodelia e espiritualidade em Cortavento, disco urbano, sensorial e de resistência pessoal.

RESENHA: Rapper mineiro criado em Niterói, Joca mistura rap, psicodelia e espiritualidade em Cortavento, disco urbano, sensorial e de resistência pessoal.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 23 de julho de 2025

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Rapper mineiro criado em Niterói (RJ), Joca insere o clima da cidade em sua música, propondo um passeio pessoal e espiritual, pelo real e pelo imaginário, em seu segundo álbum, Cortavento. O “espiritual” fica por conta também da primeira faixa, Exuberância, um canto pra Exu que serve como abertura de caminhos – e igualmente pela lembrança dos amigos, das referências e dos lugares em Chinelin, música na qual Joca diz estar sempre buscando “o equilíbrio entre o engraçadinho e o trágico”.

Chinelin estabelece o universo de Cortavento como algo próximo da psicodelia: vocais com eco, sons com ambiência, trechos de voz que ficam claros apenas na segunda audição. Só por hoje, com metais feitos por Antonio Neves e beat bastante percussivo, tem ritmo intermitente e leve, simultaneamente – como algo feito para dançar com o cérebro, ou o coração. E também estabelece que as imagens de Cortavento são a da vida urbana repleta de luzes e cenas curtas, como quem olha os prédios passando pela janela do ônibus, ou do Uber. Nomes como Ebony, Ludom, Tuyo, Luciane Dom, Amanda Sarmento, Jef Rodriguez e Luana Karoo, que participam do álbum, surgem quase sempre como respostas aos pensamentos de Joca.

  • Ouvimos: Pipa – Funk é matemática

O lado mais romântico e sexual de Cortavento – sempre com velocidade e ritmo intermitente – surge em faixas como a ágil Badu & 3000, com vocais de Ebony. E no soul sacana de Night angel, que ganha percussões que surgem como um filme dentro de um filme. Onda, com flautas, piano e samplers, relaxa o ouvinte, movimentando-se entre paradoxos e libertações pessoais (“passaporte eu tenho, só me falta a casa / de tão desapegado só me falta as asas / procrastinador mas não me falta força”).

Cortavento tem um conceito ligado à resistência pessoal, que paira sobre todas as faixas – e surge também nas feridas amorosas de Não me reconheço (com vocais do Tuyo), e nos novos vícios urbanos da dançante TML. Após o recado amoroso Rhali, Cortavento soa mais diferente, menos frenético, marcado pelo retorno a Niterói como recarregamento de baterias (Barca 2), pela busca da calma após mirar o abismo (a espiritualizada, percussiva e sintetizada Filho do vento) e pela introspecção (na latinesca Aye O, na afro-orquestral Afefé e no rap-pop sofisticado de Prelúdio da saudade, esta última marcada por um decidido “afasta quem não é do bem, fé”).

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Crítica

Ouvimos: Cola – “Cost of living adjustment”

Published

on

RESENHA: Cola une pós-punk, dream pop e art rock em seu melhor disco até hoje, Cost of living adjustment: político, torto, bonito e cheio de surpresas sonoras.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 8 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Havia uma expectativa grande por esse disco novo da banda canadense Cola – inclusive já tinha gente perguntando quando Cost of living adjustment sairia no Pop Fantasma. O terceiro disco do grupo do guitarrista/vocalista Tim Darcy, do baixista Ben Stidworthy e do baterista Evan Cartwright é o melhor da banda até hoje. E é o lançamento da banda que mais faz sentido se colocado ao lado do Ought, a banda de art-rock de Tim e Ben, anterior ao Cola.

Cost of living adjustment impressiona pela beleza das músicas – uma beleza diferente do comum do guitar rock, que mistura tons de bossa (!) a algo próximo dos Smashing Pumpkins em Forced position, e vai até para lados improváveis, como o clima pré-britpop de Hedgesitting, a vibe experimental e brincalhona de Fainting spell e o pós-punk com ritmo de Smiths e The Cure em Satre-torial.

  • Ouvimos: The Pale White – Inanimate objects of the 21st century

Quando chega Haveluck country, você já está convencido de que não se trata de uma banda comum: ali tem o clima loucão do Geese, a zoeira slacker do Pavement, algo de math rock e uma onda que lembra London calling, do Clash, acelerado. E ainda por cima a música é bonita, do tipo que dá pra ficar horas ouvindo. Essa junção pós-punk + guitar rock + experimentalismos é a cara do Cola, mas ainda mais do que isso, a banda é afrontosa, politicamente falando: temas com falta de grana (bom, o disco se chama “ajuste de custo de vida”, e a sigla realmente é usada pelo sistema de seguro social na América do Norte), aperto geral de cintos, capitalismo predatório e… refrigerante – o “cola” do título não faz referência a uma certa bebida preta e gasosa, mas tem lá suas zoeiras.

O disco ganha tons mais introvertidos em faixas como Conflagration mindset, pós-punk meio sombrio, com mudanças de tom e climas diferenress, e Skywriter’s sigh, música em que Darcy solta pensatas dignas de uma tirinha do Snoopy, em que a mendicância das ruas mistura-se a gastos impensados e dívidas com aluguel (“peguei um empréstimo para observar o céu noturno / precisava de inspiração no inverso do que eu conhecia / um evento celestial valia o aluguel de uma temporada / e como eu sabia disso!”). Mas ainda há muita explosão em músicas como Polished knives, com clima Pixies e vocal quase infantil, Third double, com lembranças de Sonic Youth e Pavement, e a melodia + arranjo surpreendentes do pós-punk Favoured over the ride. Ouça bem alto.

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Agnes Nunes – “Novela” (EP)

Published

on

Resenha: Agnes Nunes – “Novela” (EP)

RESENHA: Agnes Nunes mistura alt-pop, neo soul, samba e reggae em Novela, EP sobre amores frustrados, autonomia e clima leve de… novela.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 24 de abril de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Com dois álbuns gravados, além de um ao vivo no Estúdio Showlivre (além de um show recente no festival Lollapalooza), Agnes Nunes faz de seu novo EP, Novela, um projeto de alt-pop brasileiro, com produção de Iuri Rio Branco, e clima herdado do neo soul, além de variações mais tranquilas e recentes da música pop. Novela abre com o folk pop dançante de Será que eu vou te ver, e prossegue numa mistura de pop nacional macio, e letras que unem romantismo e afirmação.

Autodesilusão é samba-neo soul herdado de Jorge Ben e Paulinho da Viola (o “desilusão” da letra remete logo a Dança da solidão). Última vez que me rebaixei é uma canção bem mais doce, romântica e positiva do que o título transparece – é um reggae pop sobre encontros e desencontros, talvez a última chance para alguém que deixou Agnes apaixonada e que (lamentavelmente) não estava nem aí. A melhor música de Novela também é um reggae “de boa”, No mei do povo, acompanhado por backing vocals e por uma guitarra tranquila.

  • Ouvimos: Heliara – Everything’s a love song (EP)

Na Novela de Agnes, a principal personagem é uma mulher que já não quer se sujeitar a amores vãos e experiências ruins – e que às vezes deixa a deprê tomar conta, como no neo soul Aprendi a viver só. Mas o EP mantém o bom astral com ótimo dub-samba Denso e danço, que encerra tudo. Falta só alguma música de Agnes servir de trilha para alguma novela (se é que já não rolou).

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Daniel Gnatali – “Antes do sol” (EP)

Published

on

Resenha: Daniel Gnatali – “Antes do sol” (EP)

RESENHA: Daniel Gnatali mistura folk, rock rural e Clube da Esquina em Antes do sol, EP sobre mudanças, recomeços e travessias afetivas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Pomar
Lançamento: 17 de abril de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Daniel Gnatali atua em duas frentes mais conhecidas: é artista visual, e também é cantor e compositor. Antes do sol, seu novo EP, em cinco faixas, fala basicamente de mudanças e nascimentos – ou renascimentos – em meio a lembranças de Clube da Esquina, Beatles, Mutantes e Sá, Rodrix e Guarabyra. Como numa extensão do trabalho de desenhista de Daniel, investe em canções visuais, cheias de imagens.

  • Ouvimos: Flávio Vasconcelos – Jatobá peri

Antes do sol, aliás, é a primeira parte de um projeto duplo, que vai ser complementado com o EP Manhã de festa, a sair ainda em 2026 – e que deve ser bem mais extrovertido, menos interiorizado. A face contemplativa da música de Daniel, exposta no primeiro EP da série, aponta para folk com evocações de George Harrison em Ventre à luz do mundo, com os vocais de Nina Becker; para heranças de Zé Rodrix e Guilherme Arantes no lindíssimo country Estação; e também para ondas entre John Lennon e Lô Borges em duas faixas cantadas em inglês, Dear to me e Lady Lo (esta última, também com lembranças de Paul McCartney na melodia).

O final, com Quando me mudei, é rock rural, inspirado nos grandes nomes do estilo – mas com ecos também de Gilberto Gil e Rita Lee. A letra é cheia de lembranças e recomeços, falando de um tema comum nas músicas de Sá, Rodrix e Guarabyra e O Terço: o adeus à cidade grande e o encontro de uma nova vida no interior. Um disco de travessias em forma de canções.

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS