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Crítica

Ouvimos: Gal Costa – “Buenos Aires – En vivo (1978)” e “As várias pontas de uma estrela (Ao vivo no Coala Festival)”

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Dois discos ao vivo recém-lançados pegam fases diferentes de Gal Costa - a fase pós-Fa-Tal, em 1978, e seu último show, no Coala Festival. Ambos indispensáveis.

RESENHA: Dois discos ao vivo recém-lançados pegam fases diferentes de Gal Costa – a fase pós-Fa-Tal, em 1978, e seu último show, no Coala Festival. Ambos indispensáveis.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10 pros dois
Gravadora: Montevideo Music Group (En vivo) e Biscoito Fino (As várias…)
Lançamento: 20 de novembro de 2025 (En vivo) e 17 de outubro de 2025 (As várias…)

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Se bobear, Buenos Aires – En vivo (1978), álbum duplo ao vivo de Gal Costa – e um disco de procedência bem estranha, lançado por uma gravadora uruguaia supostamente sem o conhecimento da família e dos detentores dos direitos autorais dela – vai parar no mesmo limbo de Eu, Raul Seixas, gravação de um show do cantor em Santos (SP), lançada pela PolyGram em 1991 e imediatamente tirada de circulação.

Esse disco vem de uma apresentação de Gal em Buenos Aires, realizada em outubro de 1978 na boate Crazy House, dentro do Hotel Bauen. O material já havia sido “anunciado” pelo surgimento de algumas gravações de ensaio feitas no próprio hotel, e que já haviam deixado fãs de todas as gerações malucos. No fim das contas, mesmo com as péssimas condições em que o disco apareceu (a capa traz uma foto recente de Gal, parecendo um daqueles piratões italianos descuidados que infestavam as lojas brasileiras nos anos 1990), é Gal Costa numa fase musical de beleza inacreditável.

  • Ouvimos: Chico Buarque – Que tal um samba? – ao vivo

Acompanhada por músicos como Perna Fróes (piano), Moacir Albuquerque (baixo) e Perinho Santana (guitarra), ela praticamente contava dez anos de história musical, passando pelo apaixonamento por João Gilberto (com os clássicos Desafinado e Falsa baiana), a herança de Dorival Caymmi (O vento, Só louco), a era Fa-Tal e arredores (Índia, Trem das onze, Antonico) e releituras contemporâneas (três de Caetano Veloso: Tigresa, Baby e Leãozinho – essa última nunca gravada por ela). O som é o mesmo soul-jazz marítImo, ágil e misterioso que ela fez em álbuns como Caras e bocas (1977) e Água viva (1979).

Corta para 17 de setembro de 2022, quando Gal se apresentou no Coala Festival, no Memorial da América Latina (São Paulo). As várias pontas de uma estrela, registro audiovisual do show (por sinal, seu último show), traz Gal Costa fazendo história e sendo história, unindo as pontas MPB-clássica e MPB-pop de seu repertório. Pouca gente sabia com detalhes do tratamento de Gal, que de certa forma acabou dando o ritmo da apresentação (Rubel e Tim Bernardes, os convidados, ensaiaram sem ela). Qualquer tensão de bastidores ou da vida particular se dissipa totalmente na apresentação, que parece feita agora mesmo.

Com uma banda minimalista que, da mesma forma que nos anos 1970, é ancorada na beleza dos teclados (aqui tocados por Limma), Gal chega a escandalizar pelos diferentes lados apresentados sob o mesmo conceito – cabendo dois hits novos, Quando você olha pra ela (Mallu Magalhães) e Palavras no corpo (Silva e Omar Salomão). Além de Nada mais (versão para Lately, de Stevie Wonder), Açaí (Djavan), Um dia de domingo (Michael Sullivan, Miguel Plopschi, Paulo Massadas) e a cult Divino maravilhoso (Caetano Veloso e Gilberto Gil).

No fundo, era Gal – sempre alegre no palco – querendo que os fãs, em suas vidas, desfrutassem da mesma liberdade que ela tinha na música. Como aliás sempre foi.

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Crítica

Ouvimos: Douglas Germano – “Branco”

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Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.

RESENHA: Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de setembro de 2025

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“A Zelite não gosta de forró/ A Zelite no samba, que caô”, diz Zelite, samba nordestino do novo disco do paulista Douglas Germano, Branco. A elite (que surge na faixa como trocadilho) fecha os olhos para estilos como o piseiro e para as renovações da música nordestina – mas cai dentro do que pode ser considerado cult, do que tem passe livre. A mesma elite que…

Bom, milhares de eventos poderiam ser citados aqui, mas vale dizer que Branco, novo disco de Douglas, é tudo ao mesmo tempo: experimentação, samba, nordeste, dedo na cara, verdades nada secretas. Douglas disse (num papo com ninguém menos que Tárik de Souza) ter feito tudo sozinho no estúdio, com alguns convidados e parceiros (Luiz Antonio Simas, Roberto Didio e Alfredo Del Penho entre eles), e que decidiu usar instrumentos de percussão onde eles necessariamente não seriam usados.

Com um clima sonoro que soa primo simultaneamente de Tom Zé e João Bosco, Douglas abre Branco com Na ronda, samba de umbanda com sons rangendo em meio aos acordes, ruídos que lembram algo trilhado no aço. Zelite, além de desmascarar pessoas, cria imagens (“surfista de trem faz vagão virar mar”), enquanto a ágil Tudo é samba, com Loretta Colucci nos vocais, lembra algo feito para Elis Regina. Ramo tem orações e diálogos entre o narrador e uma rezadeira, e a percussiva Ruge leão, troveja Xangô ganha ares de samba-enredo. Uma das faixas que mais ganharam beleza com o coral de dez integrantes que surge no disco.

Mais climas nordestinos surgem em Ode do pode ou não pode, 19 de março e nas evocações de Lenine na melodia e no arranjo de Xaxará. Bala perdida é um samba sombrio, comparando traçantes a luzes na escuridão, enquanto Desbancando Gordon Banks é um samba agitado, cuja letra visita vários mundos ao mesmo tempo. Uma surpresa é Branco, ijexá tocado no piano – cuja mixagem destaca o instrumento como condutor das melodias.

E já que as plataformas digitais não dão ficha técnica, não tem problema: Branco é encerrado com Branco áudio encarte, trazendo todos os créditos do disco em meio a violão e percussão. O fim de um disco feito para cutucar consciências.

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Crítica

Ouvimos: These New South Whales – “Godspeed”

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Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.

RESENHA: Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025

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Vindo da Austrália, o These New South Whales faz parte de uma geração mais recente do punk – na qual entram também grupos como Home Front e Spiritual Cramp. No caso deles, que lançam agora o quarto álbum, Godspeed, o resultado está mais para um cozidão bem feito e bem atualizado de referências. Ainda que até faça falta a procura de uma onda mais inovadora (território, por sinal, do Home Front), é um som mais instintivo – por sinal, Instinct, segunda faixa de Godspeed, tem guitarra estiligando e sonoridade que une Iggy Pop e Ramones.

A romântica Miss her varia entre pós-punk e Buzzcocks + Ramones. Big machine (a melhor do disco e a que tem mais cara de hit) e R.I.P. me aludem à nova leva de bandas pós-punk. Músicas como a faixa-título e Ecstasy aludem ao rock dos anos 1990, unindo punk, grunge e evocações de Pixies e Therapy?, enquanto a ágil Birdbrain alude a T.S.O.L. e a New Model Army.

Uma curiosidade em Godspeed é Nobody listens, uma espécie de punk sofisticado levado adiante por piano, voz e cordas, e que faz lembrar Changes, hit do Black Sabbath. Já as letras do álbum seguem o mesmo esquema de apelo aos instintos, recomendando mandar um foda-se para as expectativas alheias (Be what U wanna be e justamente Instinct), afastar FDPs de plantão (R.I.P me e a faixa-título) e coisas do tipo. O fato de unir referências e fases do estilo faz o TNSW soar às vezes como uma colcha de retalhos punk – mas os acertos são maiores.

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Ouvimos: Jubba – “Caminhos tortos” (EP)

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Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.

RESENHA: Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Slowrecords
Lançamento: 28 de novembro de 2025

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Inspirado em nomes como Mac deMarco e nos cenários lo-fi e shoegaze dos anos 2010 – e volta e meia lembrando a música de bandas como DIIV – Jubba estreia no EP Caminhos tortos pondo música e barulho em deprês, inquietações e altos e baixos pessoais.

O conceito do disco é basicamente a busca de caminhos pessoais, ainda que de forma totalmente distante dos padrões. Tanto que a abertura é com os ruídos e o beat eletronico leve de Ode aos esquisitinhos, música de versos como “eles esperam que eu caia / que eu fique na merda pra sempre” e “não vou mais fingir quem sou”. Climas deprês e vibes da “vida de artista” surgem em Empregos reais, balada de guitarra e de percussão eletrônica, que acaba ficando próxima do pós-punk e do eletrorock, com direito a citação de Teatro dos vampiros, da Legião Urbana.

Há algo de Legião também em Flores no meu quarto, música com beat eletrônico seco, que depois vira algo quase ambient, com guitarras e teclados – quase na cola do final de Fábrica, penúltima música do segundo álbum do grupo, Dois (1986) – e cuja letra fala sobre beleza na amargura e no isolamento. Sensível ganha ares de trip hop, com direito a uma segunda parte bem mais hipnótica. Climas herdados do hip hop lo-fi surgem nos efeitos sonoros de A sensação. No final, a triste balada experimental Eu não sei dizer adeus propõe seguir em frente.

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