Crítica
Ouvimos: Geese – “Getting killed”

RESENHA: Terceiro álbum do Geese, Getting killed mistura slacker rock, sarcasmo e experimentalismo, unindo Pavement, Stones e Tom Waits num som estranho e cativante.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records / Play It Again Sam
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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“O que está ocorrendo com o Geese é mais ou menos parecido com o que tivemos no início dos 00, quando Strokes, White Stripes, Yeah Yeah Yeahs e LCD Soundsystem nos lembraram que o rock poderia ser, sim, sexy, fresh, carregado de energia e relevante para o agora”, escreveu recentemente o jornalista Thiago Ney na newsletter MargeM, lembrando que a banda de Nova York tem se tornado uma queridinha dos críticos musicais, e tem despertado muito interesse num universo que costumeiramente tem mais coveiros do que parteiros: o do rock.
Cameron Winter, o vocalista do grupo, tem uma voz estranha – o tipo de voz que você não sabe se ama ou odeia ao ouvir pela primeira vez, até porque você ainda não decidiu se o próprio Geese é bom de ouvir ou irritante. Essa dualidade irritação vs prazer parece herdada de Captain Beefheart and His Magic Band, ou de uma hipotética combinação Rolling Stones + Pavement, com o suíngue e a musicalidade do primeiro e o som vertiginoso e despojado do segundo. Getting killed, o terceiro álbum da banda, destaca-se por investir em sustos musicais, em letras repletas de sarcasmo, e numa receita sonora que consegue ser captada por uma antena – e que achou uma antena de longo alcance para chamar de sua.
- Ouvimos: Guerilla Toss – You’re weird now
Traduzindo: fãs de slacker rock e de bandas mais clássicas (veja bem: falamos em Pavement e Rolling Stones) podem amar o disco, que abre em tom de sonho e pesadelo com Trinidad, marcada por metais desafinados e algo que remete a The Fall e Nirvana. E prossegue com o samba-blues-country místico de Cobra, que tem algo de George Harrison musicalmente encartado. A misteriosa Husbands parece uma música de cerimonial, cuja letra ironiza os comentários normais sobre velhice e morte. Getting killed, a faixa-título, música em que a vida parece fazer mal à saúde, é punk + blues percussivo. Islands of men parece um Steely Dan punk e mágico, enquanto 100 noises corta a magia de tudo o que você puder imaginar: parece Crosby Stills Nash & Young e Jefferson Airplane, mas a letra ensina a “sorrir em tempos de guerra”.
O novo álbum do Geese traz herança do clima bêbado de Tom Waits em Au pays du cocaine, apresenta uma valsa folk que poderia ter sido composta no fim dos anos 1960 (Half real) e também soa como uma demo gravada numa comunidade originária, e deixada guardada por quatro décadas. Nesse caso, em Taxes e no country-gospel-jazz Long Island city here I come – esta, um acid-rock que tem até algo de Mutantes e Secos & Molhados.
A grande diferença entre Getting killed e os discos anteriores do Geese (além de Heavy metal, estreia solo de Cameron) parece vir do espírito do tempo: tudo aqui soa como se o humor e a musicalidade do mundo tivessem finalmente coincidido com o humor e a musicalidade do Geese. Bendita conexão tardia.
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Crítica
Ouvimos: Swallow – “Blow” (relançamento)

RESENHA: Swallow: estreia cult marcada por conflitos com a 4AD ganha reedição e revela um som entre shoegaze, psicodelia e melodia refinada.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Poucos discos excelentes foram marcados por mais insatisfação do que Blow (1992), estreia do duo Swallow, formado por Mike Mason e pela angelical vocalista Louise Trehy. Um papo recente dos dois com a newsletter First Revival mostra que nem sempre a união de artistas novos com selos indies resulta em felicidade: a dupla foi contratada pela 4AD assim que já tinha uma demo pronta, gravou Blow pensando numa estética próxima do que seria chamado de shoegaze (climas etéreos, guitarras ruidosas, clima sonhador) mas acabaram se chateando com a direção dada pelo produtor John Fryer (Depeche Mode, Cocteau Twins, Nine Inch Nails) e com as ideias de Ivo Watts-Russell (chefão da 4AD).
Para começar, Mike e Louise trabalhavam juntos há apenas quatro meses (!) antes de gravar o álbum – a experiência de estúdio dos dois “enquanto banda” era gravar tudo em máquinas caseiras e olhe lá. A direção dada pela 4AD aumentou músicas, mudou andamentos, tirou boa parte da vibe lo-fi das demos e pôs baixos no que antes era só guitarra e bateria eletrônica. Houve quem achasse o Swallow uma mistura de Cocteau Twins e My Bloody Valentine e nada mais do que isso – mas tem uma turma enorme que cultua a beleza atmosférica de músicas como Lovesleep, Tastes like honey, Mensurral e Oceans and blue skies até hoje. Na época, a revista Select fez piada com a suposta conotação sexual do nome da banda e do disco.
- Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”
Era cedo demais para o Swallow gravar, mas talvez fosse complexo demais para a 4AD aceitar que ali havia informação nova demais até para o selo que tinha lançado Throwing Muses, Dead Can Dance, Cocteau Twins e Pixies. Tem muita banda hoje em dia que faz exatamente o que o Swallow fazia em 1992, e que se bobear nunca nem escutou o som deles – assim como muita gente tenta fazer, mas não tem o domínio melódico que eles sempre tiveram. Seja como for, a insatisfação foi tamanha que, poucos meses após a estreia, a 4AD deixou que eles remixassem algumas músicas do álbum, que saíram num disco chamado Blowback.
A história do Swallow inclui ainda um EP pela Rough Trade em 1994, além de uma promessa de álbum pelo selo, que não foi concretizada porque a gravadora estava sem grana. Blow, assim como o disco de remixes Blowback, acabaram de ser reeditados com novas mixagens e alguns acréscimos (além de um pacote em vinil com os dois discos, Blown). E mostram que muita coisa que a banda tinha feito nos álbuns era até mais herdeira do Jesus and Mary Chain do que do Cocteau Twins – a própria Louise, por sinal, diz que não cantava igual ao clima “voz de anjo” que agradava à 4AD, e possivelmente a gravadora se deixou levar por um viés de percepção. A misteriosa Cherry stars collide, por exemplo, tem mais a ver com os vocais sofridos de Bjork.
Muita coisa no Swallow, por sinal, era bem mais psicodélica do que propriamente dream pop, como dá para perceber em faixas como Follow me down e Head in a cave, mais próximas da lascação pré-shoegaze do Ride. Complementando, Blow ganhou uma faixa-título, que tinha sido começada em 1992 e foi finalizada só agora, com um estranho clima progressivo na melodia, além de inclinações para o dub. Tudo muito lindo e pronto para ser descoberto, ou redescoberto.
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Crítica
Ouvimos: Arkells – “Between us”

RESENHA: Pop rock adulto e melódico: Arkells unem indie, new wave e ecos dos anos 1980 em um disco cheio de refrãos e referências, Between us.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Virgin
Lançamento: 17 de abril de 2026.
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Conhecido por inserir um som com respiração própria nos discos que produz, John Congleton casou bastante com o clima meio rock, meio indie pop da banda canadense Arkells. Between us, o novo disco, recorre a uma biblioteca pop que faz com que o som do grupo possa interessar até aos fãs do Squeeze – em faixas de alto teor pop e clima roqueiro, como What good? e Ride (gravada ao lado do Grouplove). Além da onda solar de Next summer, cujo som tem muito da fase anos 1990 + 2000 do New Order – uma época que aliás, parece ter virado modelo para grupos e artistas que oscilam entre “pop” e “rock” como universos sonoros.
Esse pêndulo musical gera muita coisa que faz lembrar o som “adulto” dos anos 1980. Como por exemplo Money, faixa com participação de Portugal. The Man, e que tem muito de Talking Heads, ou a balada melancólica Desire’s got some questions. Imagine Barcelona, música ótima de alto potencial de grude, tem muito de Joe Jackson, e abre com um piano bem pop e sacolejado. Universe talking tem ar blues-reggae e uma guitarra que lembra Keith Richards, enquanto What’s on your mind tem muito de Simple Minds e Bryan Ferry.
- Ouvimos: Modern Woman – Johnny’s dreamworld
Tudo isso, na real, surge na música dos Arkells sem criar conflito com os sons de 2026 ou de tempos mais recentes – fãs de bandas como Bleachers, por exemplo, vão achar bastante diversão aqui. Rumours tem clima pós-disco e algo que se aproxima de The Killers, enquanto Two hearts, faixa que tem o melhor refrão do álbum, tem muito do indie dos anos 2000. Os Arkells têm até certo lado beatle, que surge no final com Escape door, uma balada com algumas lembranças de Across the universe.
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Crítica
Ouvimos: Endlesss – “Late reflections” (EP)

RESENHA: Neopsicodelia e shoegaze do México: Endlesss mistura britpop, ruído e psicodelia em um EP que vai do punk ao dream pop.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Shore Dive Records
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Neopsicodelia e shoegaze vindo de Mexico City: o Endlesss é criação de um compositor e músico chamado Javier Arturo Mendoza Contreras, e o som do EP Late reflections acrescenta algumas novidades à onda de bandas ruidosas. O som dele quase sempre lembra uma espécie de britpop enevoado, com ondas psicodélicas permeando músicas com Evil eyes e Retroceder, que fazem lembrar bastante o comecinho do Ride.
- Sugar World soa como uma fita VHS derretendo em Terra incognita
Dejar atrás já é uma espécie de punk rock saturado, estourado como aqueles antigos VHS em que as cores saltam na frente de todo mundo. E há até um flerte entre powerpop e darkwave em We will be alright – são estilos que mal se misturam na vida real, e que aqui parecem se juntar sem problemas.
O final, com o instrumental Void, é ruído puro, formado por um paredão de guitarras, e por uma ambiência em que ruído vira sonho. Bem legal.
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