Lançamentos
Drápula: estranheza pop em álbum repleto de histórias

Parecia que viria tudo de uma cidade incomum como Niterói (também viemos de lá, aliás). Inclusive uma banda como o Drápula, que soa como um estranho (e feliz) encontro entre o pop radiofônico dos anos 1990, o rock dos anos 1980, programações variadas de bateria, e certo senso de estranheza ligado aos anos 1970. O som da juventude do futuro soa como um projeto análogo ao de Televisão, segundo disco dos Titãs (1985), que propunha um passeio por vários canais de TV – no caso, os vários estilos do disco remetem “a um possível programa de rádio AM perdido por décadas”, como afirmam.
O disco é curto (são nove faixas em menos de meia hora), abrindo com uma canção-título repleta de ritmos, climas e variações melódicas – tudo colado por riffs de sintetizador, num clima zoeiro que lembra bandas como The Tubes. Tem ainda funk e trap em Tira a roupa, bubblegum em Popozão (com versos em homenagem ao finado programa A grande família), power pop e lembranças do rock brasileiro dos anos 1980 em Maracanã e Azul piscina, e até tecnobrega em Rita. Uma variedade que funciona a favor da banda e do disco, contando uma história que hoje parece nostálgica: a de como as pessoas aproveitavam seu tempo antes da pandemia, e antes dos traumas e sustos provocados pelo isolamento e pelas mortes. Seguindo depois com a viagem musical do funk arábico Sepá, o pós-punk Delírio cósmico e o final acústico com Tô bem cansado, na real.
O Drápula existe desde 2017 e O som da juventude do futuro é seu primeiro álbum e décimo-quinto lançamento, entre singles, EPs e clipes. O novo disco “é uma performance com muito coração, mas com consciência das escolhas (muitas vezes inconscientes) dos artistas e movimentos como referência estética. Cliques, ejects, chiados e outros barulhos gostosos. É a inserção de texturas e hábitos retrô em processos criativos contemporâneos. É a cultura analógica na lógica digital, o dilema millenial”, diz a banda formada por Pinx, Vini, Duane e Cris.
Foto: Divulgação
Lançamentos
Radar: Disstantes (foto), Jadsa, Eskröta e mais sons novos nacionais

Dois sons da nossa lista foram lançados hoje (Eskröta e Manny Moura) e alguns dos selecionados, além de música, têm discurso afiadíssimo (Disstantes, Arnaldo Antunes e a própria Eskröta). Ponha tudo nas suas playlists e escute no volume máximo.
Foto Disstantes: reprodução Instagram
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DISSTANTES, “JOHN TRAVOLTA”. “Levanta a camisa / e dá uma volta”. A velha e má frase, dita por seguranças e policiais durante revistas (geralmente em portas giratórias de estabelecimentos bancários), ganha novo significado no batidão pulsante do Disstantes, trio de kraut-rap formado por Homobono (Djangos), Gilber T e Augusto Feres. O clipe, dirigido por Augusto e Rodrigo de Freitas, transporta o Disstantes para um universo de Pixel Art, cercada por figuras conhecidas do São Dom Dom, espaço de resistência cultural em Niterói (RJ). Um groove afiado, com peso e provocação na medida certa.
JADSA feat ANTONIO NEVES, “BIG BANG”. O single novo da cantora baiana prepara o lançamento do segundo álbum, Big buraco, agendado para maio pelo selo Risco. A música é um samba jazz que para Jadsa, serve como “um mantra, um amuleto”, já que foi feito depois da pandemia, quando ela voltava a morar em São Paulo, depois de uma temporada em Salvador. “Era um momento ainda incerto e eu queria muito acreditar nesse movimento que eu estava fazendo, mais uma vez, por causa da música. É uma música que diz muito sobre o disco que tá vindo, não só sonoramente, mas sobre os motivos dele existir e o que quero com ele”, comenta.
ESKRÖTA, “LBR (LATINA, BRASILEIRA, REVOLUCIONÁRIA)”. Depois de quebrar tudo em festivais como Rock in Rio e Knotfest, o Eskröta – Yasmin Amaral (vocal e guitarra), Tamyris Leopoldo (baixo e backing vocals) e Jhon França (bateria) – prepara o terreno para Blasfêmea, primeiro álbum pela Deck, que sai dia 11 de abril. E o primeiro ataque vem com LBR (Latina, Brasileira, Revolucionária), single que une metal, punk e até percussões de samba. A letra fala sobre o silenciamento das mulheres latino-americanas, e a melodia é a trilha sonora (pesadíssima) do protesto contra a repressão.
ARNALDO ANTUNES feat ANA FRANGO ELÉTRICO, “PRA NÃO FALAR MAL”. Poderia ser uma canção de Odair José ou até de Raul Seixas, só que com união de batida chacundum e teclados lembrando Ultravox. Mas é uma faixa do disco novo de Arnaldo, Novo mundo, com participação de Ana Frango Elétrico. A letra propõe um desafio quase zen, no sentido de não passar a violência e o abuso adiante: “não seja impaciente / com quem é impaciente com você / não seja malcriado / com quem é malcriado com você.” Fácil? Nem um pouco. A melodia avança como um mantra pop, em que cada verso, da maneira que é cantado e organizado dentro da melodia, surge do anterior. Uma aula de equilíbrio – e de resistência.
LUIZ AMARGO feat BEL AURORA, “QUANDO O FOGO VEM”. Renato Teixeira encontra Titãs num xote acústico: Quando o fogo vem é uma das joias de Amor de mula, excelente disco de Luiz Amargo lançado em 2024 (resenhado aqui). O clipe, gravado em MiniDV, tem aquele charme vintage, e acompanha encontros e desencontros entre Luiz e Bel – maquiados como dois pierrôs. Romantismo com texturas lo-fi.
MANNY MOURA, “ENOUGH”. Carioca radicada em Los Angeles, Manny Moura volta com Enough, balada folk-pop delicada, quase uma confissão. “Uma página de diário”, define ela, sobre a última música gravada para seu próximo álbum. Na capa do single, Manny veste um vestido de noiva – metáfora de um compromisso com suas próprias fantasias, mesmo quando elas não se refletem na realidade.
ANDRÉ ALBERNAZ + TERÊNCIO, feat MAYRA TARDELI, “CALMA, A BOLSA VAI SUBIR”. “Eles não são uma dupla. E sertanejo é praticamente o único gênero que ficou de fora.” Assim se apresenta Tudo vai derreter, disco de estreia de André Albernaz e Terêncio, parceiros desde os tempos da banda Djalma Não Entende de Política. Calma, a bolsa vai subir é um brega synth-pop que mistura economia, amor, redes sociais, cashback e – claro – o colapso da civilização ocidental. Música e teatro se cruzam em um retrato irônico de um mundo que está sempre prestes a ruir, mas segue dançando.
LARA CASTAGNOLLI, “XILEMA”. Nunca ouviu falar de xilema? Vamos lá: é o tecido que leva água e nutrientes do solo para as folhas, o que sustenta muitas árvores contra ventanias fortes. E também é o nome do bucólico primeiro single (e clipe) de Lara, anunciando seu álbum Araribá. Jazz, blues e um clima de canção interiorana embalam essa reflexão musical sobre crença e autoconhecimento. “Um mergulho no próprio ser”, define Lara, enquanto a letra traça caminhos espirituais à procura de sentido.
MANDINGA BEAT, “MÃE ME DIZ”. Ijexá, guitarras elétricas e batida eletrônica. O trio Mandinga Beat (André Sampaio, Joss Dee e Victória dos Santos) evoca comunidade, proteção e ancestralidade em Mãe me diz. A faixa resgata a história dos mandingas, africanos islamizados que carregavam o patuá como amuleto. O cabo-verdiano Hélio Ramalho participa da gravação, adicionando ainda mais peso a um som que carrega séculos de história.
GRUPO NATUREZA, “PODE ACREDITAR”. Lançado/não lançado pela Som Livre em 1981, o compacto do Grupo Natureza era um segredo bem guardado – até que a internet resolveu puxar o fio da meada. Pode acreditar virou uma das “músicas perdidas” mais procuradas da web, com pesquisadores como Cristiano Grimaldi e o canal Lucasnauta desvendando suas origens – que, ao que consta, vieram de uma bizarra campanha anti-maconha e pró-saúde (!). Agora, a própria Som Livre entra no jogo e relança o single nas plataformas digitais. Para quem passou anos tentando descobrir de onde vinha esse som, a resposta finalmente chegou.
Crítica
Ouvimos: Miya Folick, “Erotica Veronica”

Com vocais análogos aos de Dolores O’Riordan (Cranberries) e Alanis Morrisette em vários momentos de seus dois primeiros álbuns, Miya Folick se destaca pela qualidade das composições e pela abordagem de uma angústia particular e existencial em suas letras. Erotica Veronica combina ansiedade, desejo queer, desejo cis e experiências do cotidiano, com uma sonoridade que transita entre o indie pop, o soft rock e guitarras que remetem aos anos 1990.
Erotica Veronica é o disco de Erotica, faixa com letra descrevendo uma azaração sáfica – e cujo clipe mostra uma terapia erótica bem peculiar, em que Miya engatinha, pega cruzes com a boca, come terra, lambuza-se com uma melancia e é torturada com um batedor de bolo (!). Nem a música nem o clipe são experiências sombrias ou perturbadoras. Também não são sensuais no mesmo sentido que Sex, o livro de Madonna repleto de fotos explícitas.
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O disco de Miya é sexy, direto e expansivo a seu modo. Como em La da da, brit pop leve, com explosão de guitarras no refrão, em que ela representa uma mulher casada com um homem, mas que deseja outras mulheres, e leva o desejo para a cama (“você gosta de ficar chapado à noite / eu gosto de dormir sonhando com fantasias sáficas, meu amor”). Ou na ressaca amorosa braba de Love wants me dead, um soft rock sombrio, que vai ganhando em peso e intensidade, e que basicamente é uma música para cantar gritando a plenos pulmões.
Sem falar no filme da intimidade passando na frente dos olhos em Alaska, com riff de sintetizador e batidas quase robóticas dando o tom do arranjo. E há também a batalha contra traumas pessoais em Hate me, um pós-punk intenso: “preciso de liberdade para sentir que tenho uma alma do caralho / levei tanto tempo para pedir o que preciso / porque estava com tanto medo de você me odiar”.
Musicalmente, Erotica Veronica acompanha o estilo moderno de Miya, refletido em seu visual atual: cabelos curtos, olhar contemplativo e uma expressão de rockstar introspectiva e angustiada. O álbum aposta em um R&B retrô, com riff de mellotron e solo de flauta em Felicity, na delicadeza melódica de This time around e em uma fusão de indie pop com influências de R.E.M. e The Smiths em Prism of light. Já Fist combina ruídos de guitarra, uma melodia boa que lembra o XTC e toxicidades amorosas na letra: “eu tenho preparado o jantar, esperando que você me perdoe / por não querer te engolir (…) / eu me dou um soco no rosto com meu próprio punho / então eu desabo em você”.
Erotica Veronica fuça também no pop oitentista – que surge nos timbres de várias faixas, e em especial, na mescla de Cindy Lauper e Fleetwood Mac de Hypergiant. E, depois de tantos traumas expiados, e confissões, encerra com uma nota de esperança em Light through the limen, soft rock quase meditativo, oferecendo uma visão mais esperançosa e sublime, depois de anos observando o mundo de dentro de uma caverna. Miya Folick entrega um álbum que equilibra intensidade emocional e diversidade sonora, explorando desejos, angústias e transformações com autenticidade e precisão.
Nota: 9
Gravadora: Stop Talking/Nettwerk Music Group
Lançamento: 28 de fevereiro de 2025.
Crítica
Ouvimos: Circuit Des Yeux, “Halo on the inside”

Duas experiências marcaram este sétimo álbum de estúdio do Circuit Des Yeux: uma viagem que Haley Fohr, mente por trás do grupo, fez à Grécia, e o mergulho na composição das músicas, todas feitas em um porão escuro, entre a noite e a madrugada – aparentemente ela quis uma paródia do tradicional “trabalho de nove às cinco”, e fez exatamente isso, só que das nove da noite às cinco da manhã.
Vale dizer que a tal viagem para a Grécia deixou Haley apaixonada pelo mito de Pan – aquele sujeito meio bode, meio homem, que tocava flauta e atraía pessoas, e cuja história é marcada por amor, música, trevas e medo. E esse astral cavernoso, sombrio e belo dá a letra em Halo on the inside, em letras e músicas. Megaloner, na abertura, é um batidão quase industrial, entre o pop e o aterrorizante, cujo clipe mostra pessoas fazendo movimentos repetitivos e chafurdando no tédio, enquanto Haley canta versos como “com o tempo, você me verá através de todas as coisas sonhadoras / eu posso ver o rosto em qualquer coisa quando a maré puxa pra mim”.
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Já Canopy of Eden tem batidão insinuando um baile funk, vibe sombria e vocal quase gregoriano – mas, contraditoriamente, é um som eletrônico que envolve e abraça o ouvinte. Daí para a frente, Halo on the inside alterna entre momentos mais trevosos e segmentos de beleza quase progressiva. Skeleton key, entre vibes celestiais e vocais gritados, chega a lembrar algo de Peter Gabriel, por causa das percussões e teclados meditativos – até que um clima entre o metal e o industrial vai encerrando a faixa. Anthem of me, que lembra um ambient aterrorizante, é basicamente um post-rock, com todo o clima cinematográfico que o estilo pede.
Seguindo o conceito de Halo, é interessante a única faixa mais “tranquila” do álbum se chame justamente Take the pain away, puramente som espacial, com teclados voando. Cosmic joke tem essa mesma onda interestelar – mas é como se o espaço fosse um lugar tão opressor quanto a Terra – além de vocais próximos do jazz. Truth é uma corrente percussiva que lembra uma missa pagã, ou uma Kate Bush do demo, com Haley dizendo versos como “a verdade é apenas a imaginação da mente”. Organ bed é tribal e tecnológica, com uma certa guerra sonora lá pelos três minutos. E Cathexis é uma espécie de pós-punk progressivo – ou de progressivo feito por quem escutou muito Killing Joke.
Sem nenhum minuto perdido no geral, Halo on the inside é um disco que prende o ouvinte num universo próprio – denso, ritualístico e inesperadamente envolvente.
Nota; 8,5
Gravadora: Matador Records
Lançamento: 14 de março de 2025.
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