Formada por músicos ítalo-americanos de Nova Jersey, a banda de hard rock Bull Angus gravou dois LPs pela Mercury em 1971 e 1972 – e sumiu. Larry LaFalce, Dino Paolillo (ambos guitarra), Geno Charles (bateria), Franke Previte (voz), Ron Piccolo (teclados) e Lenny Venditti (baixo) conseguiram até certa repercussão com os dois álbuns na época. Abriram para bandas como Deep Purple, fizeram shows em lugares grandes, mas mal conseguiram sucesso cult com o tempo.

Hoje os LPs originais do Bull Angus valem uma boa grana nos sebos. Foram reeditados em CD por um selo de relançamentos, o Akarma, e chegaram até os ambientes de streaming. Olha aí. Do primeiro, recomendamos Pot of gold. O segundo tem Drivin’ me wild e uma regravação turbinada de Savoy truffle, dos Beatles.

Agora vamos ao que interessa. Pra quem gosta de saber o que aconteceu com músicos de bandas que não deram certo, o vocalista do Bull Angus, Franke Previte, tem uma história bem interessante.

NA LAMA Após deixar o Blue Angus, ele precisou se virar vendendo carros usados. Arrumou um emprego de compositor de r&b na gravadora Buddah Records. Montou nos anos 1980 uma banda chamada Franke & The Knockouts, que fez algum sucesso. Esse grupo teve Tico Torres na bateria por um curto período – ele logo sairia da banda para assumir a cozinha do Bon Jovi. O maior hit deles foi essa música aí, de 1981. Até no Brasil isso tocou no rádio.

“NÃO, NÃO QUERO!” No fim de 1986, Previte recebeu um telefonema do produtor Jimmy Ienner. Ouviu dele um pedido para que compusesse uma música para um filme que iria estrear no ano seguinte. E, ah, a música precisava durar sete minutos. Previte relutou, relutou, mas acabou compondo nada menos que isso aí: (I’ve had) The time of my life. O tema do filme Dirty dancing.

MAS DE NOVO ESSA HISTÓRIA? “Eu falei para Ienner que estava tentando um contrato e não tinha tempo. Ele me disse: ‘Então você arrume tempo, porque vai mudar sua vida!’. Eu respondi que ele já tinha me falado algo parecido antes e não tinha dado certo. Mas ele estava achando que ia dar”, contou Franke num papo com o site American Songwriter.

DISCO MUSIC NA RAIZ Previte juntou-se ao parceiro John DeNicola. Os dois foram gravar num estúdio de demos, tendo Last dance, de Donna Summer, como referência. Don Markowitz, que escreveu a música com os dois, emprestou um gravador de oito canais e sugeriu mudanças na melodia. O “tive o melhor momento da minha vida” do título surgiu depois, quando Previte estava caminhando na rua, ouvindo a música num walkmen.

Talvez o fato de Jimmy ter te falado que isso ia mudar sua vida tenha algo a ver com o nome da música, não?
Previte: Talvez. Mudar a vida? Melhor tempo da minha vida? Pode ser, nunca pensei nisso, mas pode ser. A música me levou a ganhar um Oscar (risos).

QUEM CANTAVA Nunca tinha me dado conta disso, mas a música também tinha um clipe. Com cenas do filme, claro. Bill Medley, o cantor, era um dos Righteous Brothers. Jennifer Warnes, a voz feminina, mantinha havia anos uma carreira bem sucedida de cantora e compositora. Também fez backing vocals em discos do amigo Leonard Cohen.

MUDOU MESMO O efeito “isso vai mudar sua vida” bateu forte em duas pessoas ligadas ao filme. Uma delas foi o saudoso Patrick Swayze, que protagonizou Dirty Dancing. Ele disse a Previte que ao começarem a filmar, achavam que tudo ia dar errado. Até que (I’ve had) The time of my life rolou na caixa acústica.

“Quando conheci Patrick no Oscar, ele me disse: ‘Você não faz ideia do que (I’ve had) The time of my life fez para este filme. O filme foi feito fora de sequência, então a última cena (a da dança) abriu tudo. Nós ouvimos 149 músicas e as odiamos. Ensaiamos todos os dias uma gravação do Lionel Richie, que era boa, mas não era nossa música. Achamos que a cena não estava funcionando, que ia dar tudo errado. Daí começou a tocar sua fita, com você e Rachele Capelli cantando Time of my life. Filmamos e, no final do dia, todos nos olhamos um para o outro e dissemos: ‘Uau, o que aconteceu? Este final é incrível! Vamos fazer esse filme!’ Mudou tudo para melhor!”.

BROTHER Já Bill Medley, convidado a fazer a voz masculina na canção, recusou dizendo que não fazia mais duetos. A coreógrafa Kenny Ortega, que fez a ponte com o cantor, implorou: “Faça seu último dueto agora!”. Ele fez. E não foi o último, porque os Righteous Brothers depois voltaram (teve o sucesso com a trilha de Ghost, de 1990, né?). O outro “brother”, Bobby Hatfield morreu em 2003 de overdose de cocaína, para desespero de Medley (“nunca nem vi ele usar isso na vida!”, exclamou). Hoje ele toca a dupla adiante com Bucky Heard.

E FRANKE, CADÊ ELE? Ele mantém uma banda chamada The Brotherhood, formada só por compositores de aluguel, e continua compondo. Também está envolvido em campanhas de auxílio à pesquisa sobre o câncer de pâncreas, doença que vitimou o amigo Swayze. E vem fazendo temas para teatro e musicais.

O músico de hard rock que escreveu o tema de Dirty dancing

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