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Cultura Pop

Billy Preston: descubra agora!

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Billy Preston: descubra agora!

Quem viu Get back, a série de Peter Jackson realizada com o material do filme Let it be (precisava explicar a essa altura?), lembra: a entrada do tecladista Billy Preston no estúdio onde os Beatles gravavam melhorou em 100% o astral do trabalho. Billy, que conhecia a banda da época em que os Beatles tocavam em Hamburgo (na ocasião, ele era músico da banda de Little Richard) tinha ido lá só para dar um alô aos velhos amigos. Nem sequer havia planos para ele entrar na gravação. Só que, naquele momento, ele acabou se tornando o verdadeiro “quinto beatle”, numa época complicada para o quarteto.

Billy mal pôde acreditar na hora, mas foi logo colocando piano elétrico em I’ve got a feeling. E depois foi entrando em Don’t let me down, Get back, Let it be, etc. Como naqueles comerciais de TV em que um produto é anunciado e em seguida vem um “e mais!”, “e ainda mais isso!”, Preston acabou contratado pela Apple, a gravadora da banda. O músico, que já tinha uma carreira solo na mesma base do “o órgão maravilhoso de Billy Preston” e lançava discos com hits mesclados a faixas autorais, ganhou produção de George Harrison em dois álbuns pelo selo, That’s the way god planned it (1969) e Encouraging words (1970). Depois disso, foi para outras gravadoras, tocou com outros artistas e também esteve do lado dos ex-beatles (George Harisson, principalmente) em carreiras solo.

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Preston saiu de cena em 6 de junho de 2006, após alguns meses em coma por causa de uma pericardite. O músico tivera inúmeros problemas com drogas ao longo da vida e passara por um transplante renal em 2002. Deixou como legado seu trabalho extremamente criativo no teclado, cheio de uma alma musical que inspirou boa parte dos tecladistas de rock dos anos 1970. E a gente aproveita para recordar algumas coisas a respeito dele.

NO COMEÇO. O talento vinha de longe, muito longe. William Everett Preston nasceu em 1946 em Houston, Texas, e era daquelas crianças-prodígio no órgão, além de cantar extremamente bem. Foi bastante influenciado por Mahalia Jackson, que acompanhou aos 10 anos. Aos 11 anos apareceu no programa que Nat King Cole tinha na NBC, cantando Blueberry hill, hit de Fats Domino, ao lado do anfitrião. Depois, Little Richard convidou-o para sua banda e Sam Cooke pôs o jovem Billy, quando ele tinha 17 anos, no estúdio. The 16 yr old soul, o disco de estreia, saiu em 1963.

NA TV. Billy Preston era, a partir de certo momento, um músico conhecido da televisão – fazia aparições regulares no programa de rock Shindig!, o que o levou a tocar com vários outros músicos. Fez parte também da banda de Ray Charles. “Ray tinha muito feeling e a maneira como ele se expressava era muito boa. Quando ele tocava o piano, quando se movia…”, contou certa vez a Jools Holland. Acabou lançando um segundo disco totalmente instrumental e com título sacana, The most exiciting organ ever (1965), que saiu pelo mesmo selo que lançou discos do ex-chefe Little Richard, Vee-Jay.

ROCK NO ÓRGÃO. O quarto disco de Preston, The wildest organ in the town! (1966), é interessantíssimo para quem quer ouvir rock reinterpretado ao órgão, no estilo dele. E ainda tem um componente especial: ganhou arranjos de ninguém menos que Sly Stone. O repertório tem apenas quatro canções autorais (três delas co-escritas com Stone), e a maior parte das músicas caminha do soul ao rock. E havia versões dos Beatles (A hard day’s night) e dos Rolling Stones (Satisfaction).

NA APPLE. Preston costumava dizer que seu momento mais feliz, musicalmente falando, foi tocar no telhado da Apple com os Beatles. O músico sabia que a banda estava se desfazendo e tinha consciência de que estar lá traria novo ânimo para todos. Billy acabou contratado pela Apple e por lá soltou That’s the way god planned it!, disco de rock gospel produzido por Harrison, lançado em 1969 pouco após Preston entrar naquele estúdio e tocar com os Beatles no que se tornaria o disco Let it be. “A Apple é a empresa para todas as pessoas que amam paz, alegria e toda a humanidade. Estou muito grato por fazer parte disso”, agradeceu nas notas do disco.

O TIME. No estúdio com Preston em That’s the way… estavam Harrison (produção, guitarra), Ginger Baker (bateria) e Eric Clapton (guitarra). entre outros. Entre as novidads, Keith Richards tocando baixo (!) em Do what you want e na faixa-título. E duas canções feitas por Preston em parceria com Doris Troy, nomão feminino do R&B que cantaria com os Stones (You can’t always get what you want) e Pink Floyd (no disco Dark side of the moon).

ANTES DO AUTOR. Encouraging words, segundo (e último) disco de Preston para a Apple, saiu em 12 de setembro de 1970 – uns dois meses antes de Harrison lançar All things must pass, seu disco triplo. O álbum acabou trazendo All things must pass e My sweet lord, músicas do amigo e co-produtor do disco, antes das “versões do autor” serem lançadas. Uma nota curiosa é que a versão de Preston para My sweet lord provavelmente inspirou bastante um certo sucesso de uma cantora brasileira de rock. Ouve aí.

BEATLES SOLO. Preston foi uma presença marcante em discos de George Harrison, mas também tocou em discos de outros ex-integrantes da banda, como Goodnight Vienna, de Ringo Starr (1974), e John Lennon/Plastic Ono Band, de John Lennon (1970). Mesmo sendo um músico religioso e ligado ao gospel, seu órgão pode ser ouvido em God, de Lennon (aquela do “eu não acredito na bíblia” e do “deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor’).

NA A&M. Billy foi contratado pelo selo dirigido por Herb Alpert e Jerry Moss em 1971 e ficou lá até 1977. Sua discografia na gravadora impressiona pela quantidade de nomões que Preston convocou para as participações especiais. Harrison continuou ligado a ele, e artistas como Quincy Jones, Stevie Wonder, Jeff Beck e até a turma dos metais do Tower Of Power tocaram nos álbuns do músico pela gravadora. A espacial Outa-space foi o primeiro hit de Preston no selo, e era uma música instrumental (que ainda por cima ganhou um Grammy).

ALIÁS E A PROPÓSITO, no segundo disco dele pela A&M, Music is my life (1972), não havia participação de nenhum beatle – era o primeiro álbum pós-Apple sem George Harrison – mas tinha a versão belíssima de Preston  para Blackbird, do White album, em clima soul.

NO ESPAÇO SIDERAL. Outa-space marcou a carreira de Preston. A ponto de ganhar uma continuação no disco Everybody likes some kind of music (1973): era Space race (que por sinal, era bem melhor que a música que lhe deu origem).

AINDA NA A&M, Billy Preston lançou uma canção que ninguém desconfia que é de sua autoria: You are so beautiful, feita por ele em homenagem à sua mãe (que lhe deu a primeira força na música) saiu no disco The kids & me (1974). Mas acabou fazendo sucesso de verdade quando, no fim daquele mesmo ano, foi gravada por Joe Cocker no álbum I can stand a little rain.

MOTOWN. Olha aí, no vídeo abaixo, Billy Preston deixando o apresentador Dick Clark assustado. O músico f0i entrevistado por ele no programa American bandstand em 1981, quando já estava plenamente contratado pela Motown, para onde foi após deixar a A&M, em 1979. Preston contou a Dick que tocava desde os 3 anos de idade, que se sentia com um talento “dado por deus” (o que explicaria sua modéstia diante dos elogios que sempre recebia) e anunciava uma turnê lá por aqueles lados que nos anos 1980 eram chamados de “Cortina de Ferro” (lugares como Checoslováquia e Budapeste). Space race, hit de Preston, foi tema de abertura da atração comandada por Clark durante vários anos.

SÓ QUE na vida real, Preston não andava tão feliz. O músico sofria por causa de um abuso sexual sofrido quando criança, lutava para esconder sua homossexualidade (numa época em que havia mais preconceito, mais desconhecimento e menos empatia) e afogava as mágoas na cocaína e no álcool. Desenvolveu uma enorme dependência química, passou vários anos viciado e chegou a ser preso no fim dos anos 1990. Em 1982, ele deixou a Motown. Em 1984, lançou por um selo pequeno On the air, disco cheio de programações eletrônicas. No álbum, homenageava a banda que o ajudara em Beatle tribute, e na regravação de Here, there and everywhere.

E OS STONES? Billy Preston também trabalhou bastante com os Rolling Stones e costuma ser citado em biografias da banda. Colaborou em Sticky fingers (1970), Exile in Main St (1972), Goats head soup (1973), It’s only rock n roll (1974) e Black and blue (1976), além de tocar como tecladista de turnê entre 1973 e 1977. Deixou a banda reclamando de ter recebido pouca grana com os últimos concertos e uma fração mínima por seu trabalho no disco duplo Love you live (1977). Voltou a tocar em discos dos Stones nos anos 1990 e esteve no terceiro álbum solo de Mick Jagger, Wandering spirit (1993).

PRESTON passou um tempo sem lançar discos, participando de álbuns de amigos e fazendo trilhas sonora durante os anos 1980 e 1990. Foi retornando aos holofotes aos poucos, participando de eventos como o Concert for George, em 2002, homenagem a seu amigo George Harrison, que morrera um ano antes. Voltou a fazer turnês e fez pelo menos uma grande gravação que entrou para a história: o piano cheio de balanço na versão de Personal Jesus (Depeche Mode) feita por Johnny Cash é dele. Em 2004, lançou o EP Billy Preston’s Beatles salute, com quatro releituras de canções da banda.

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Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

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The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

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Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

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Lana Del Rey (Foto: reprodução YouTube)

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.

A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.

  • Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial

A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.

Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.

Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)

Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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