Crítica
Ouvimos: Baco Exu do Blues – “Hasos”

RESENHA: Em Hasos, Baco Exu do Blues transforma o rap em sessão de terapia: duelo interno, racismo, amor e solidão, com beats discretos e soul, blues, pop.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: 999 / Sony Music
Lançamento: 16 de novembro de 2025
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Faz um bom tempo que o rap foi à terapia: nomes como Tyler The Creator e Kendrick Lamar já buscaram inspiração nas conversas ao divã – e temas como racismo, agressividade, solidão e macheza brutal rendem, mais do que algumas horas de sessão, material para muitas letras introspectivas e aguerridas. Hasos faz Baco Exu do Blues entrar para o clube: é estruturado do começo ao fim como uma sessão de terapia, com direito a intervenções de um terapeuta.
Mais do que um momento de respiro e de entendimento na obra do rapper baiano, Hasos (abreviação em latim para a frase “a humildade mata o orgulho”, incluída pelo pintor italiano Caravaggio em um detalhe da tela Davi com cabeça de Golias, de 1610) é um momento de duelo interno, que já começa com a fala: “Eu sempre fui tratado como um galo de briga. Eu tive que estudar a arte da guerra. Eu conheço todos os guerreiros… eu era um aniquilador, eu nasci pra isso. E agora que esses dias passaram, estou vazio. Eu não sou ninguém. Eu estou trabalhando na arte da humildade. Você acredita em mim?”.
Musicalmente, o disco acompanha a introspecção das letras apontando para um rap nada puro – já é uma tradição nos discos de Baco Exu do Blues, mas em Hasos, soa como estratégia para acentuar alguns momentos. Rola no blues-rock-soul de Gladiadores de areia, com psicodelia evidente e uma letra que reflete sobre as consequências psicológicas do racismo e da opressão: “o coliseu sempre vai pedir por sangue / não importa se é o deles ou o nosso”, “esse ódio não é meu, ele foi me dado”.
Caravaggio com colar de Gandhy vai para os lados do soul-jazz e mostra o outro lado da ostentação associada ao rap e ao trap, propondo colocar “o gelo do hematoma no copo do drinque”. Garçom da ausência, soul leve e devagar, fala sobre amores encavalados e falta de coragem para encarar a solidão, concluindo que “a mente às vezes tem paladar infantil”.
Essa observação do outro lado da moeda é a cara de Hasos, disco que investe até no pop transante (a dançante Romance latino, com Teto), e numa curiosa mescla de hedonismo e fuga (Fugindo do espelho, que praticamente faz um corte entre uma coisa e outra no meio da faixa). Os beats existem, mas quase sempre subordinados ao clima emocional – atmosferas superam batidas, em quase todos os momentos.
Deu meia-noite, por exemplo, abre um transe percussivo ao redor da palavra “proteção”, enquanto Mar de guerra, rap herdado de Dorival Caymmi e Jorge Amado, cria sons meditativos e hipnóticos, entre versos que explicam que “nem todo mar é calmo”. Assassinos da saudade, com Vanessa da Mata, abre com harpas como se fosse a primeira versão do tema de abertura do Fantástico – e ganha ares de soul romântico de rádio FM na madrugada.
Não faltou coragem a Baco Exu do Blues no disco inteiro, mas Hasos pega fogo de verdade em faixas como Raiva da morte (“eu tenho raiva da morte porque ela matou meu pai”), Pequeno Príncipe (música de beleza quase hipnótica, falando sobre o ciclo racismo-traumas-agressividade) e Que eu sofra. Esta última, um pop-bossa sofisticado, com participação de Zeca Veloso, e uma espécie de anti-hino aos relacionamentos abusivos e cagados, com versos como “queria entender porque é tão familiar me apegar a um lugar em que eu não sou bem-vindo”.
Deve ter sido doloroso de escrever, de pensar e quem sabe até de ouvir depois de pronto, mas valeu. Hasos faz de Baco Exu do Blues um dos rappers nacionais mais preparados para dar novos contornos (sociais, existenciais) a temas como amor e solidão. São temas aos quais é difícil dar novos contornos, aliás – e Hasos faz isso o tempo todo.
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Crítica
Ouvimos: E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – “Lembrança” (EP)

RESENHA: Gravado entre São Paulo, Nova York e Berlim, Lembrança transforma o afastamento dos integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante em cinco instrumentais entre post-rock, psicodelia e shoegaze.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Balaclava Records
Lançamento: 15 de setembro de 2026
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Não é só a Terra que anda meio distante: Lucas Theodoro (guitarra e sintetizador), Luccas Villela (baixo), Luden Viana (guitarra) e Rafael Jonke (bateria), os quatro integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante andaram meio separados nos últimos anos, com Villela vivendo em Berlim desde 2023 e Viana tendo passado o último ano em Nova York.
Lembrança, o novo EP, é fruto desse afastamento, que levou a banda a compor as canções sem o baixo – Luccas precisou incluir o instrumento posteriormente, e as gravações contaram com sessões dos integrantes em seus estúdios particulares, entre SP, NY e Berlim. Lidando com uma “sombra” de instrumento, o grupo acabou criando um conceito sonoro de “lembrança”, que acaba atravessando as cinco faixas instrumentais do disco.
O clima voador, conhecido da banda, já surge na abertura, com a vinheta O passado é mais infinito que o presente – e dá um tempinho com o pé no chão de Aos poucos, aberta com aro de caixa e seguida com riff circular, além de um beat quase latino, numa onda próxima do post-rock. Lá pelas tantas, a guitarra ganha eco e surge uma parte 2 mais pesada, com guitarras distorcidas. Reprise, que dura um minuto, é literalmente uma vinheta – poderia ser até um “estamos apresentando” antes de um intervalo, com violão psicodélico e teclados numa onda meio new age.
Sem margem, em clima de transe instrumental, tem beat leve de maracatu. Já Antes que eu me esqueça, no fim do EP, é o som mais cara progressiva no disco, com uma batida que lembra um corte feito num drum’n bass e um clima bem viajante – até que cai no shoegaze, com guitarras bem emparedadas.
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Crítica
Ouvimos: Julia Jacklin – “The gem”

RESENHA: Em The gem, Julia Jacklin transforma lembranças da educação católica em dúvidas sobre deus, fé e controle, num disco de folk rock, jangle pop e guitarras fantasmagóricas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: 4AD
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Dizem por aí, e faz todo sentido, que da vida das pessoas, o catolicismo não sai – você pode ter ido para o extremo oposto (satanismo? Ateísmo?), mas aquela quantidade de dogmas e aquele esquema de educação pela repressão entra no sangue. A australiana Julia Jacklin não é religiosa, nem vem de família católica, mas estudou em colégio católico em Melbourne, participou de corais, e muito de sua vida em meio a experiências religiosas acabou inspirando sua música. The gem, o novo disco, vem bastante desse universo, ou da resolução dele.
Existe um quinhão conhecido do pop e do rock ligado à iluminação – um “lance” religioso, mas que não necessariamente é ligado a nada organizado. De Madonna e Nando Reis, passando por Mutantes, Gilberto Gil e até Oasis (Champagne supernova é isso, não?), muita gente falou de transcendência sem citar deus, Jesus ou qualquer outra entidade. The gem fala de deus como uma eterna dúvida, que passa por temas como: é possível ser feliz de verdade com uma força superior te olhando? Por que alguém precisaria disso? Ainda mais levando em conta que o deus “onipotente e onisciente” não impede as maiores barbaridades de acontecerem?
Angel vision, por exemplo, usa símbolos religiosos para elencar questionamentos como “havia criaturas celestiais desesperadas para cantar para mim / braços frouxos, eu empurrava o teto / como ter certeza de que a fumaça que sai por baixo da porta não é de um incêndio?”. If I had the hand of god questiona: “se eu tivesse a mão de deus / será que o deus cuja mão eu tenho / seria do tipo que saberia a hora de desistir antes que a situação piore tanto?”.
Em alguns momentos, a impressão é a de que alguém MUITO religioso saberia o que responder a cada faixa de The gem – mesmo que fosse uma resposta baseada em algo muito intangível e fora da realidade. God sometimes, uma das letras mais realistas do disco, faria fanáticos religiosos espumar de raiva. Se Criolo perguntou “você vai querer mesmo se comparar com o Senhor?” em Ainda há tempo, Jacklin simplesmente passa por cima do assunto: “tente controlar o clima / mas às vezes você precisa ser um deus / force o momento a chegar / diferente das estações, isso não vai acontecer por si só”.
Musicalmente, The gem tem às vezes uma cara de folk rock + britpop puto e fantasmagórico, como em God sometimes e Brand new, em que ruídos surgem em meio às guitarras distorcidas e ao vocal sensível e controlado de Jacklin. If I had the hand of god é guitar country rock triste, e The hardest thing soa como jangle pop deprê e bonito – Get away from me (I think I’ll love you soon) é jangle de verdade, com um pé no pop sessentista.
Já Angel vision, I wish (com a participação da dupla folk de Melbourne, The Maes) e Real life trazem as belezas acústicas para o álbum – a segunda com uma batidinha indie dance e teclado celestial. You turned on the tap é voz e piano com cara de Lou Reed: som quase cerimonial e vibe contemplativa. Os vocais passam força e tristeza, e certo abandono – e mesmo nos momentos menos doloridos, há muita dor nos questionamentos de The gem.
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Crítica
Ouvimos: Throe – “II” (EP)

RESENHA: Em II, Vina Castro desmonta o metal melancólico do Throe em quatro faixas de drones, distorções e ambient sombrio, com sons que parecem ganhar corpo e virar fumaça.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de setembro de 2026
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O Throe, projeto solo de Vina Castro, guitarrista da Huey e co-criador do site Sounds Like Us, já havia aparecido por aqui com Silver blue, álbum de metal introvertido, melancólico e chuvoso, com faixas longas e uma vocação ambient que aparecia em vários momentos. II, EP disponível apenas no Bandcamp, leva essa característica para outro lugar: sai um pouco a estrutura de “banda”, entram ruídos, drones, distorções e sons que parecem estar sempre prestes a se desfazer.
O release avisa que tudo foi gravado da maneira como foi composto – e dá pra notar que é música preservada no instante em que surgiu, inclusive com suas imperfeições. Às ondas, com nove minutos, abre com teclado e logo recebe uma guitarra sombria, que poderia apontar para o grunge, o pós-punk ou o stoner. Só que a faixa vai abandonando essas referências até virar praticamente uma onda sonora: dedilhados, drones e distorções se acumulam num clima hipnótico.
Agosto brinca justamente com uma das dualidades do EP. O início pode soar bonito e ambient ou anunciar alguma coisa bem menos palatável – e a segunda opção vai ganhando terreno quando entra a guitarra e os timbres assumem uma tensão fantasmagórica. Poro segue nessa direção com um drone tristonho, distorções e um clima que parece feito para arrepiar o ouvinte (será que o nome vem daí?).
Já Feedback abismo encerra o EP com um drone sombrio e repetitivo, quase um harmônio demoníaco – a primeira lembrança que vem à cabeça é The marble index, de Nico. A pressão aumenta, diminui e retorna num movimento circular, até o som começar a desaparecer no fim. Quatro faixas que parecem nascer, ganhar corpo e virar fumaça na frente do ouvinte.
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