Aquela vez em que Richard Clayderman lembrou MUITO a música eletrônica alemã

Quando foi descoberto nos anos 1970 pelos produtores e compositores Paul de Senneville e Olivier Toussaint, o pianista e ex-bancário Phillipe Pagès logo se transformou em duas coisas: no famosíssimo pianista Richard Clayderman (sim, o nome verdadeiro dele não é Richard Clayderman) e no “príncipe do romance”. Alguém com uma sonoridade clean o suficiente para embalar romances e, ao mesmo tempo, servir de trilha sonora para incursões em gôndolas de supermercado, ou elevadores.

Deu certo: Clayderman, um fã de nomes como Elton John e James Taylor, já fez excursões tão extensas que dá para dizer que ele voou mais de 3 milhões de quilômetros pelo mundo – quase nove vezes a distância da Terra à lua (e eu bati esse papo com ele para o jornal O Dia, onde ele me contou a respeito disso).

Senneville e Toussaint, você já leu isso aqui mesmo no POP FANTASMA, eram compositores de rock e música pop e, antes de investir em Clayderman, eram os caras por trás de duas bandas do rock francês: Pop Concerto Orchestra e Anarchic System. A primeira se tornou até um pouco conhecida aqui no Brasil, com músicas em trilhas internacionais de novelas e regravações bem sacadas feitas por ninguém menos que Erlon Chaves. A segunda era bem mais pop do que parecia, apesar de afetar ares de Steppenwolf francês.

Em 1975, Senneville e Toussaint juntaram essa turma toda (Pop Concerto e Anarchic System) na trilha do filme Un linceul n’a pas de poches, de J.P. Mocky. Levaram junto um best seller da produtora da dupla, o trompetista Jean Claude Borelly, que naquele ano bateu recordes de vendagem com Dolannes melodie, incluída em várias versões no disco da trilha.

Tudo mudou na vida da dupla no ano seguinte, quando (enfim) apareceu o rapaz de cabelos louros que se tornaria Richard Clayderman. Os dois produtores apostaram que a romântica Ballade Pour Adeline, composta pelos dois, venderia dez mil singles – afinal era o auge da disco music e não dava para apostar muito alto.

Nada disso: o single vendeu tipo 22 milhões de cópias em 38 países (números tirados daqui). E o que mais surgiu foram meninas com o nome de Adeline. Por outro lado, Clayderman, para muitos roqueiros, fãs de música pop e gente de música clássica, virou o protótipo do que (enfim) era obrigatório odiar.

Em 1977, Richard, sob os auspícios da dupla de produtores, gravou seu primeiro disco, epônimo, só com músicas dos dois. O piano romântico dele dominava o LP. Mas se você nunca imaginou que iria ouvir um disco de Richard Clayderman e que talvez até curtisse algumas coisas, vai aí uma surpresa: além do piano do solista, o álbum ainda tinha músicas tocadas no sintetizador. Uma delas era um primor de trilha de filme de sacanagem, L’enfant et la mer.

E se você ainda não está plenamente convencido, vai aí Black deal, um primor de música que parece até um lado-Z de algum artista progressivo da Alemanha. Como disse o Rodrigo Piza outro dia na comunidade Death Disco Machine, “fecha os olhos e finge que é o Klaus Schulze (da banda Tangerine Dream) que você vai gostar, juro”.