Crítica
Ouvimos: U.S. Girls – “Scratch it”

RESENHA: No novo disco do U.S. Girls, Scratch it, Meg Remy abraça o soft rock, evoca Bowie, Velvet, Carly Simon e trata de maternidade, luto e crítica social com emoção.
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Meg Remy, compositora, cantora, musicista e criadora do U.S. Girls, vestiu a capa do soft rock no disco novo – talvez seguindo uma tendência que já vem rolando há um tempinho na música pop, talvez achando que é mesmo hora de serenar, depois de ter passado por estilos como música eletrônica e rock industrial nos discos anteriores.
Scratch it, gravado em fita durante dez dias, abre com um curioso bubblegum, Like james said, que tem lá seus ares de Sugar sugar (o hit dos Archies), mas é uma homenagem à dança de James Brown. É uma música que traz um excelente arranjo de cordas e ainda insere na letra a busca de espaço próprio, usando a imagem da dança solo: “Eu sou a rainha de exorcizar a dor / esta coreografia é só para mim”.
Dear Patti, som sixties com encosto de blues, de Velvet Underground e de girl groups sessentistas, é dedicada a Patti Smith. A letra cita o fato de Meg ter perdido um show da cantora (num festival em que, lembra Meg, “havia apenas duas mulheres no palco”) e credita o furo ao dia a dia de mãe de gêmeos. “Estava me certificando de que meus filhos não caíssem no lago”, canta ela, num tom em que você percebe realmente que, seja lá a importância do que tenha acontecido, ela ficou realmente descacetada de não comparecer ao tal show.
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Um tom mais ligado à música agridoce dos anos 1970 vai se avizinhando aos poucos em Scratch it, e surge com força nas duas únicas covers do disco: Firefly on the 4th of July, composição do canadense Alex Lukashevsky, soa à primeira vista como uma canção ingênua a la Peter, Paul & Mary, ou uma paródia de hino nacional – e a letra fala em medo nuclear e abandono (“estou apenas deitado aqui dividido pelos meus filhos / ninguém virá me encontrar e me salvar”). The clearing, do norte-americano Micah Blue Smaldone, é country rock com estilo de hino, tocado no piano Rhodes e na guitarra, com letra apontando o Toque de Midas reverso dos seres humanos, que “rasgam o que não podem consertar / quebram o que não podem dobrar”.
Esse tom de enfrentamento do poder, de dedo apontado para a realidade, paira sobre quase todo o disco. Até mesmo nos doze minutos de Bookends, som estradeiro lembrando Carly Simon e Joni Mitchell, dedicado ao falecido vocalista do Power Trip, Riley Gale: “Riley estava sempre falando sobre a cruz e quebrando-a”, canta, antes de exclamar que está constantemente se perguntando “para onde Riley foi”. Emptying the Jimador investe no country folk melancólico, com Meg vestindo a capa da pessoa que luta pela própria sanidade num mundo que não dá trégua a ninguém (“eu sou a lenda da minha vida, e isso é muita coisa para segurar / quantas vezes eu derramo tudo”).
Mergulhando no rock de adulto e nas emoções fortes, o U.S. Girls também evoca Steely Dan e Supertramp, mas sem o mesmo balanço, em Walking song, e recorda algo do David Bowie de 1969 no soul-gospel de No fruit, hino da hora da colheita (“você sabe que eu sei que todo mundo pensa que pode crescer com apenas um pouco de água / cara, se você não plantar pensando na lua / você certamente sofrerá com raízes superficiais”).
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: 4AD
Lançamento: 20 de junho de 2025
Crítica
Ouvimos: Melody’s Echo Chamber – “Unclouded”

RESENHA: Em Unclouded, Melody’s Echo Chamber transforma o trauma pós-acidente em pop psicodélico hipnótico, entre T. Rex, Caetano e ecos imaginários.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Domino
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Qualquer obra que Melody Prochet – criadora do projeto Melody’s Echo Chamber – fizer, vai sempre vir acompanhada de descrições como “etéreo”, “psicodélico” e coisas do tipo. A experiência de quase-morte que ela teve após um acidente gravíssimo em 2017 (que lhe causou aneurisma cerebral e fraturas nas vértebras) fez com que muita gente também passasse a classificar seus trabalhos como “espirituais”, “tridimensionais” e nomes afins.
- Ouvimos: Ninush – The flowers I see in you
Unclouded, quinto álbum do projeto, vai só um pouco além disso, praticamente hipnotizando quem ouve o disco, com letras e melodias que aludem a lugares que existem só na imaginação, e clima multidimensional. Como na faixa de abertura, The house that doesn’t exist, balada com cara 60’s e elegante, próxima de uma canção francesa antiga. Ou na vibe mágica do quase trip hop In the stars, cuja letra traz Melody saindo de uma encosta fria e buscando “um lugar para chamar de meu / nas estrelas”. Ou no pop sofisticado de Into shadows.
É um clima que fica entre o glam rock espacial do T Rex e a poética escapista de Caetano Veloso em seu primeiro disco londrino, de 1970. Que se espalha também na viagem psicodélica feliz de Flowers turn into gold, no baixo hipnótico de Eyes closed (que busca a liberdade nas caminhadas noturnas e na observação dos golfinhos no mar) e no som clássico e pop de Childhood dream, que alude aos discos orquestrais brasileiros dos anos 1960/1970 (Erlon Chaves, Briamonte Orquestra).
Já Memory’s underground fala sobre memórias velhas que estavam lá à espera da redescoberta, com um som que remete tanto a Scott Walker quanto a Velvet Underground. E essa mistura de delicadeza e hipnose musical ganha outros contornos no som andarilho e quase marcial de Burning man, com distorções, celesta e flauta levando o / a ouvinte pra outros cantos. No terço final, destaque para o progressivismo de Daisy, lembrando o Pink Floyd de Atom heart mother (1970) e os italianos do Le Orme, e o pop esperançoso de How to leave misery behind, lembrando Burt Bacharach.
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Crítica
Ouvimos: Nick & June – “New year’s face”

RESENHA: Ex-casal, Nick & June gravam New year’s face: dream pop misterioso, orquestral e eletrônico, produzido por Peter Katis, cheio de clima romântico e melancólico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Vindos de Berlim, Nick & June são um ex-casal que topou continuar junto… a trabalho. Depois de meses de composições e arranjos, saiu New year’s face, um disco “desvanescente” e misterioso, produzido por Peter Katis (The National, Interpol, Sharon Van Etten), e marcado por opções sonoras tão próximas do dream pop quanto de vibes mais orquestrais ou eletrônicas.
- Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair
A faixa-título reúne isso tudo enquanto fala da divisão de coisas acumuladas numa vida inteira. Crying in a cool way, com vocais e pianos celestiais, abre unindo Ultravox e OMD, mas ganha clima sujinho e quase dub logo na sequência. Sombras que lembram de PJ Harvey a Velvet Underground tomam conta de 2017 e Dark dark bright – que abre como uma bossa-pop sombria, ganhando depois aspecto de rock eletrônico.
Nomes como Lana Del Rey e Beach House são citados como referências no release – e o clima hollywoodiano da primeira, além da sofisticação dream pop do BC, casam bem com a sonoridade e o drama de New year’s face. Tem bem mais aí: The boy with the jealous eyes tem algo tanto de Jesus and Mary Chain quanto de Everly Brothers, Trouble tem a ver com Beach Boys, e muito do álbum lembra um Joy Division mais amoroso e afetuoso. Já a grandiosa Husband & wife, que encerra o disco, é uma música de beleza triste, que poderia estar no repertório do ABBA ou do My Bloody Valentine – cada banda com seu arranjo.
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Crítica
Ouvimos: Ratboys – “Singin’ to an empty chair”

RESENHA: Ratboys mistura indie e alt-country em Singin’ to an empty chair: terapia Gestalt, memórias familiares e dor transformam-se em canções ruidosas e delicadas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: New West
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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“Navegando para longe, rindo apesar da dor / sim, estamos navegando para longe / é um novo dia”, diz a sensível letra de At pace in the hundred acre wood, música que encerra o sexto disco da banda indie norte-americana Ratboys, Singin’ to an empty chair. O novo álbum da banda surgiu de imersões totais não apenas no processo de composição, como também no dia a dia da cantora Julia Steiner, que fez terapia com foco em Gestalt e participou de técnicas como conversar com uma cadeira vazia.
O título do disco veio justamente disso aí, mas também faz surgir outras interpretações – afinal, cantores passam muito tempo soltando a voz diante de lugares desocupados (ou plateias vazias) no começo da carreira. Os nove minutos de Just want you to know the truth contêm a ideia do título: um relacionamento de família que desapareceu, cartas nunca lidas que chegaram, esqueletos no armário e lembranças doloridas e varridas para debaixo do tapete.
Na moldura sonora dessa faixa, a banda exercita seu clima meio ruidoso, meio country rock, soando muito parecida com uma versão 2026 do R.E.M. do álbum Monster (1994), e unindo porrada e delicadeza, autoconhecimento e destruição. Soando às vezes como um primo sensível e country do Mandy, Indiana, o Ratboys une distorções e vocais sentidos em Open up, Know you them, Light night mountains all that (faixa de 6 minutos com lembranças do começo do Soundgarden e dos sons mais sombrios de Suzanne veja) e Anywhere (punk melódico e com ar folk, com recordações do emo). What’s right?, por sua vez, parece unir sons do rock oitentista e do alternativo dos anos 1990 em prol do soft rock.
Músicas como Penny in the lake trazem um tema que parecem mover o Ratboys: o que muitas vezes parece uma oportunidade imperdível é só um pega-trouxa que foi dispensado por alguém, ou algo ao qual outras pessoas não dariam importância alguma. Esse peso existencial divide espaço com slide guitars, ar country, senso melódico herdado de power pop e emo, e referências de Beatles em faixas como Strange love, The world, so madly e a própria Penny. Realidades duras e tentativas de superação se tornam incêndios pessoais no folk rock sonhador Burn it down – com solos de guitarra que parecem encarnar o fogo da letra.
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