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Crítica

Ouvimos: Demob Happy – “The grown-ups are talking”

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Demob Happy mergulha no stoner em The grown-ups are talking: peso, glam e ecos de Them Crooked Vultures, com letras sobre maturidade e masculinidade tóxica.

RESENHA: Demob Happy mergulha no stoner em The grown-ups are talking: peso, glam e ecos de Them Crooked Vultures, com letras sobre maturidade e masculinidade tóxica.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Milk Parlour Records
Lançamento: 13 de fevereiro de 2026

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O nome dessa banda, Demob Happy (literalmente “desmobilização feliz”) veio de uma expressão multiuso que costuma ser utiilizada para o fim de tarefas que pareciam um fardo – pode ser o fim de uma guerra, uma operação policial ou qualquer ocupação que aporrinhe a paciência. Resenhamos Divine machines, o álbum anterior deles, e pra gente, ficou a impressão de uma banda indie que geralmente é socada com força na caixinha do som pesado – e que de todo jeito, prima por misturar sons eletrônicos, aclimatação pós-punk, e sujeira vinda do stoner.

Agora corta ferozmente para The grown-ups are talking, o evoluidíssimo novo álbum. O Demob Happy assume totalmente sua filiação ao stoner rock (ainda que visite outros estilos), e mais do que isso, entrega o disco que o Them Crooked Vultures esqueceu de fazer. O TCV, você talvez lembre, era um spin-off do Queens Of The Stone Age e do Foo Fighters, com Josh Homme (guitarra, voz), Dave Grohl (bateria) e John Paul Jones (baixo, teclados).

Esquecido com o tempo, apesar das promessas nunca concretizadas de um novo álbum, ganha um reavivamento em The grown-ups, e logo nas duas faixas que abrem o disco: o eletropunk nervoso Power games, e o stoner seco e grave de No man left behind (cortada por sons que parecem vir do deserto). Em seguida, Judas beast abre com uma guitarra que cita o metal antigo (Judas Priest?) mas ganha baixo fincado no chão onda sonora entre metal, stoner e psicodelia.

A onda do Them Crooked volta em faixas como Don’t hang up, aberta com um piano que é a cara das intervenções tecladísticas do álbum da banda – só que depois ela ganha um ar meio cabaré deprê, lembrando David Bowie. Há mais lembranças do glam rock em faixas como Miracle worker pt 1 e 2 (divididas entre evocações de Suede, do Starman de David Bowie e das guitarras gêmeas do Thin Lizzy) e na onda meio Strokes, meio Bryan Ferry, de Somethings gotta give, além de evocações de Cold turkey (John Lennon) em Who should I say is calling?, e um stoner maquínico e quase pop, na cola do som oitentista, em Little bird.

O clima “desértico” da faixa No man left behind não veio à toa: a banda fez um retiro no deserto – mais exatamente no Rancho de la Luna, em Joshua Tree – para gravar o disco. O caos da capa de The grown-ups, que soa como uma mescla de festa, ensaio-show e esporro telefônico de chefe, espalhou-se pelas letras, que falam de temas desconcertantes: Who should… fala de maturidade à força, Power games é autoexplicativa, No man left behind investe em temas como macheza, toxicidade e suicídio masculino. Um disco que pode se tornar o favorito da discografia da banda para quem não é fâ incondicional.

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Ouvimos: Adult DVD – “Adult DVD”

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Resenha: Adult DVD – “Adult DVD”

RESENHA: Em seu primeiro álbum, o Adult DVD cruza pós-punk, Madchester e acid house com letras sobre chefes escrotos, conspiracionistas, egos gigantes e outros personagens ridículos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Fat Possum Records
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Demorou, mas o Adult DVD, vindo de Leeds, chega ao primeiro CD (opa, isso foi só pra combinar com o nome da banda). E chegou na hora certa, em que estileiras como dance-punk não parecem ter sido chupadas de alguma viagem new rave, e ganham cada vez mais vida própria, em geral num ambiente bem próximo dele mesmo, o punk.

Se Fcukers, outro peso pesado da dança punk, chama a atenção para a descaralhação noturna, Adult DVD é da zoeira: climas dançantes e pesados são unidos a doideiras como uma música sobre chefes escrotos e funcionários que subtraem material de escritório (World’s best boss, uma brincadeira tendo aparentemente a série The office como tema) e outra sobre pessoas que começam coisas, dão desculpas e não terminam (Jesus Christ supercar).

Já Coffin dodger fala de uma pessoa que tem tanto fear of missing out (FOMO) que não quer perder nem o próprio funeral (!). E Royal Tree Lee fala do sujeito ultramacho, paranoico e conspiracionista que se enfia demais nos cantos mais estapafúrdios da internet. Boa parte do álbum é tomada por faixas sobre figuras com egos gigantescos e comportamentos ridículos – a própria banda andou revelando isso.

Musicalmente, Adult DVD, o disco, é balizado pelo pós-punk: sons de Madchester e acid house dão a letra para faixas como Do as I please, Coffin dodger e os teclados voadores e zoeiros de Cold caller, além do riff poderoso de teclado de Jesus Christ supercar. Minimal criminal, Cowboy on aisle three e The steaks are high, curiosamente, dão a entender que bandas como Magazine (a do Howard Devoto, não a do Kid Vinil) rolam em playlists interrnas do Adult DVD.

A segunda metade do álbum chega a parecer mais experimental que a primeira, com beats frenéticos e climas acid dominando músicas como All I need (um Domingo Legal do demo) e a rapidaça Rolling face. Se você tem dúvida de que é diversão garantida… Olha, não tenha.

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Crítica

Ouvimos: Lava Divers – “Nigredo”

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Resenha: Lava Divers – “Nigredo”

RESENHA: Após quase dez anos sem disco, o Lava Divers retorna com Nigredo, álbum de guitar rock sobre luto, despedidas e transformação, entre shoegaze, peso e ecos de My Bloody Valentine e Radiohead.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Midsummer Madness
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Depois de quase dez anos de ausência dos estúdios, a guitar band mineira Lava Divers está de volta com um disco, Nigredo, que funciona como um indicador de tempo – nem que seja para esquecer da marcação, e determinar que a vida anda apenas para a frente.

Na alquimia, o título do álbum indica o estágio em que a matéria se desfaz, perde sua forma e entra em decomposição. Lutos e transformações pessoais vividos por Amanda Bredariol (bateria e voz), Ian Alves (guitarra), Joe Porto (guitarra e voz) e Glauco Ribeiro (baixo) durante o preparo do disco indicaram que, mais do que um título, Nigredo era um caminho a ser seguido.

Um fato acabou transformando Nigredo num indicador mais forte ainda: fundador da banda, e figura atuante na gravação, mixagem e masterização do álbum, Eddie Shumway saiu de cena – ironicamente após ajudar a transformar as ideias do grupo em áudio, e antes de se tornar mais um luto na história da banda. Nigredo, antes de sua morte, já estava definido como um disco de guitar rock sombrio e ágil, com canções como Nine of swords, instrumental quase até a metade, apresentando a letra original em inglês declamada em português, com participação de Jair Naves (Ludovic).

Entre amores idos, mortes reais e figuradas, despedidas e a necessidade de continuar, Nigredo vai do peso terreno de faixas com Gehenna ao clima celestial de baladas-ou-quase, como I am (Holy birds) e Maria. Entre evocações de My Bloody Valentine, Jesus and Mary Chain e Radiohead, surgem lembranças até de Beatles na bela Summer of your love, e da breve fase garage rock do Primal Scream (No one), além da tranquilidade ruidosa de September night, 24.

O Lava Divers adere ao som quase metálico em Time, uma espécie de blues guitar rock, e encerra tudo com as trevas totais de Beat, introversão e escuridão sem disfarces, em voz e violão. Um retorno bem bonito.

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Ouvimos: Eraser – “Operator!”

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Resenha: Eraser – “Operator!”

RESENHA: Em Operator!, o Eraser mistura synth punk, pós-punk, no wave e hardcore com ruído, humor e gravação de cara analógica — como uma pepita estranha dos anos 1980 encontrada em 2026.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Siltbreeze Records
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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O Eraser vem da Filadélfia, é formado por Sonam Parikh (vocal e sintetizadores), Kat Bean (baixo), Pier Harrison (guitarra) e Juliette Rando (bateria), e faz synth punk e pós-punk – tudo junto e misturado, a ponto de mal dar pra saber onde termina um e começa o outro. Operator!, o segundo álbum, já abre em clima pós-punk e quase no wave, com a conversa telefônica irônica de Main menu, que serve como anúncio das músicas. Mesmo surfando uma onda próxima do punk e tendo teclados na banda, o Eraser faz diferente: prefere o ruído, a galhofa, algo entre a crueza do hardcore e o clima demolidor de uma banda como o Wire.

Operator! é um disco de 2026 que poderia ser uma pepita sumida dos anos 1980, já que a gravação + mixagem são pra lá de (aparentemente) analógicas. A guitarra de Pier Harrison lembra uma mistura de Richard Lloyd (Television) e Joey Santiago (Pixies), e faz uma dupla com o baixo de Kat Bean em músicas marciais como Crindy (homenagem a uma espécie de “Cinderela” da banda, sempre citada quando falta tempo para arrumar a casa), Trey e a inventiva DVD – que, graças aos teclados de Sonam, parece quase com duas músicas em paralelo.

Algo próximo de um videogame pós-punk surge em Imp e na faixa-título, enquanto vibes próximas das fases mais insociáveis da Gang Of Four dão as caras em Miracle bitch. Um disco de invenções e experimentações, com letras de poesia crua, como na satírica Innard Skynyrd (“por dez dólares eu posso arrancar minhas entranhas como um fio / usá-las como linha de pesca, estou me desfazendo / talvez possamos pegar meus olhos e jogá-los na pia / cortar o peixe, guardar as espinhas e deixar as vísceras afundarem”.

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