Crítica
Ouvimos: Sprints – “All that is over”

RESENHA: Pós-punk sombrio e explosivo, All that is over mostra os Sprints mais perigosos e intensos, entre ecos 60’s, ruído e libertação.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: 26 de setembro de 2025
Lançamento: City Slang
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Da mesma forma que ler os comentários de certas matérias pode dar raiva, ler algumas resenhas de discos antes de escrever sobre os mesmos discos pode dar a sensação de que tem muita gente por aí viajando na maionese. All that is over, o excelente disco novo da banda irlandesa Sprints, foi considerado um disco mais ou menos pelo New Musical Express. O jornal britânico de música disse que se trata de uma versão “controlada” do quarteto e que “um pouco de fogo se perdeu” no processo entre o anterior Letter to self (2023, resenhado aqui pela gente) e esse novo álbum.
O cacete. Auto-definido como banda pós-punk, Sprints volta cada vez mais focado no lado mais perigoso e sombrio do punk, com ecos cada vez mais evidentes de The Jesus and Mary Chain, Velvet Underground, Nico, Killing Joke, Wire e Siouxsie and The Banshees. A explosão de All that is over é mais discreta, como no ambient dark da faixa de abertura, Abandon, cujo começo ameaça algo parecido com Just like honey, do J&MC, só que sem o mesmo apego a microfonias, vocal sussurrado (cantora, compositora e guitarrista Karla Chubb) e som esparso e sombrio.
Essa vibe fechada dá até mais medo – parece com algo que está prestes a explodir e você ainda não percebeu, até que se vê tendo que lidar com os destroços. Como no clima tenso e sombrio de To the bone, com violão à frente e onda sonora fantasmagórica, até que entra uma rajada de guitarra. Ou no experimentalismo de Beg, que ameaça algo parecido com um post rock, e tem emanações de bandas como The Fall e Wire.
Talvez como efeito disso, há um lado 60’s em All that is over que vem a toda. Something’s gonna happen tem vocal em clima Route 66, um certo clima de pop francês na estrutura (Karla chega a lembrar uma Brigitte Bardot com faca na bota ao longo da faixa), mas no geral é som podre e garageiro, com final lembrando Pink Floyd/Syd Barrett. Better une a musicalidade pop-sessentista a ruídos e sombras herdadas de The Fall e Joy Division. Rage é punk rock colado em Beatles, Kinks e The Who. Desire, no final, é erguida entre silêncios e tem vibe cigana que lembra uma mescla de Jefferson Airplane, Shocking Blue e Siouxsie and The Banshees.
Quem quer explosão sem margem de dúvidas em All that is over, deve colar em faixas como o hit Descartes, a garageira Need, o ruído raivoso e espacial de Pieces e o pós-punk bravio de Coming alive. Já as letras contam histórias aterrorizantes sobre frio, violência, despersonalização, abandono. Descartes consegue ser positiva, oferecendo música como bálsamo para corações torturados, e ensinando que o melhor da vida não passa pelo racional.
Mais: amores destrutivos parecem ser parodiados em Need, medos e tensões dão as caras em Desire, lâminas afiadas ameaçam descer sobre o pescoço em Something’s gonna happen. Coming alive é a libertação: “estou voltando à vida, apesar de suas melhores tentativas de motim / apesar de suas melhores tentativas de me separar”. Pode ouvir e aproveitar o barulho da explosão.
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Crítica
Ouvimos: Douglas Germano – “Branco”

RESENHA: Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de setembro de 2025
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“A Zelite não gosta de forró/ A Zelite no samba, que caô”, diz Zelite, samba nordestino do novo disco do paulista Douglas Germano, Branco. A elite (que surge na faixa como trocadilho) fecha os olhos para estilos como o piseiro e para as renovações da música nordestina – mas cai dentro do que pode ser considerado cult, do que tem passe livre. A mesma elite que…
Bom, milhares de eventos poderiam ser citados aqui, mas vale dizer que Branco, novo disco de Douglas, é tudo ao mesmo tempo: experimentação, samba, nordeste, dedo na cara, verdades nada secretas. Douglas disse (num papo com ninguém menos que Tárik de Souza) ter feito tudo sozinho no estúdio, com alguns convidados e parceiros (Luiz Antonio Simas, Roberto Didio e Alfredo Del Penho entre eles), e que decidiu usar instrumentos de percussão onde eles necessariamente não seriam usados.
Com um clima sonoro que soa primo simultaneamente de Tom Zé e João Bosco, Douglas abre Branco com Na ronda, samba de umbanda com sons rangendo em meio aos acordes, ruídos que lembram algo trilhado no aço. Zelite, além de desmascarar pessoas, cria imagens (“surfista de trem faz vagão virar mar”), enquanto a ágil Tudo é samba, com Loretta Colucci nos vocais, lembra algo feito para Elis Regina. Ramo tem orações e diálogos entre o narrador e uma rezadeira, e a percussiva Ruge leão, troveja Xangô ganha ares de samba-enredo. Uma das faixas que mais ganharam beleza com o coral de dez integrantes que surge no disco.
Mais climas nordestinos surgem em Ode do pode ou não pode, 19 de março e nas evocações de Lenine na melodia e no arranjo de Xaxará. Bala perdida é um samba sombrio, comparando traçantes a luzes na escuridão, enquanto Desbancando Gordon Banks é um samba agitado, cuja letra visita vários mundos ao mesmo tempo. Uma surpresa é Branco, ijexá tocado no piano – cuja mixagem destaca o instrumento como condutor das melodias.
E já que as plataformas digitais não dão ficha técnica, não tem problema: Branco é encerrado com Branco áudio encarte, trazendo todos os créditos do disco em meio a violão e percussão. O fim de um disco feito para cutucar consciências.
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Crítica
Ouvimos: These New South Whales – “Godspeed”

RESENHA: Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Vindo da Austrália, o These New South Whales faz parte de uma geração mais recente do punk – na qual entram também grupos como Home Front e Spiritual Cramp. No caso deles, que lançam agora o quarto álbum, Godspeed, o resultado está mais para um cozidão bem feito e bem atualizado de referências. Ainda que até faça falta a procura de uma onda mais inovadora (território, por sinal, do Home Front), é um som mais instintivo – por sinal, Instinct, segunda faixa de Godspeed, tem guitarra estiligando e sonoridade que une Iggy Pop e Ramones.
A romântica Miss her varia entre pós-punk e Buzzcocks + Ramones. Big machine (a melhor do disco e a que tem mais cara de hit) e R.I.P. me aludem à nova leva de bandas pós-punk. Músicas como a faixa-título e Ecstasy aludem ao rock dos anos 1990, unindo punk, grunge e evocações de Pixies e Therapy?, enquanto a ágil Birdbrain alude a T.S.O.L. e a New Model Army.
Uma curiosidade em Godspeed é Nobody listens, uma espécie de punk sofisticado levado adiante por piano, voz e cordas, e que faz lembrar Changes, hit do Black Sabbath. Já as letras do álbum seguem o mesmo esquema de apelo aos instintos, recomendando mandar um foda-se para as expectativas alheias (Be what U wanna be e justamente Instinct), afastar FDPs de plantão (R.I.P me e a faixa-título) e coisas do tipo. O fato de unir referências e fases do estilo faz o TNSW soar às vezes como uma colcha de retalhos punk – mas os acertos são maiores.
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Crítica
Ouvimos: Jubba – “Caminhos tortos” (EP)

RESENHA: Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Slowrecords
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Inspirado em nomes como Mac deMarco e nos cenários lo-fi e shoegaze dos anos 2010 – e volta e meia lembrando a música de bandas como DIIV – Jubba estreia no EP Caminhos tortos pondo música e barulho em deprês, inquietações e altos e baixos pessoais.
O conceito do disco é basicamente a busca de caminhos pessoais, ainda que de forma totalmente distante dos padrões. Tanto que a abertura é com os ruídos e o beat eletronico leve de Ode aos esquisitinhos, música de versos como “eles esperam que eu caia / que eu fique na merda pra sempre” e “não vou mais fingir quem sou”. Climas deprês e vibes da “vida de artista” surgem em Empregos reais, balada de guitarra e de percussão eletrônica, que acaba ficando próxima do pós-punk e do eletrorock, com direito a citação de Teatro dos vampiros, da Legião Urbana.
Há algo de Legião também em Flores no meu quarto, música com beat eletrônico seco, que depois vira algo quase ambient, com guitarras e teclados – quase na cola do final de Fábrica, penúltima música do segundo álbum do grupo, Dois (1986) – e cuja letra fala sobre beleza na amargura e no isolamento. Sensível ganha ares de trip hop, com direito a uma segunda parte bem mais hipnótica. Climas herdados do hip hop lo-fi surgem nos efeitos sonoros de A sensação. No final, a triste balada experimental Eu não sei dizer adeus propõe seguir em frente.
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