Crítica
Ouvimos: Sorry – “Cosplay”

RESENHA: Sorry faz de Cosplay um jogo pop de citações, referências e ruídos, misturando pós-punk, baladas tensas e homenagens irônicas ao passado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Domino
Lançamento: 7 de novembro de 2025
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O Sorry, banda londrina liderada pela dupla Asha Lorenz e Louis O’Bryen, recentemente soltou uma frase lapidar a respeito de como rola a transa entre as pessoas e a cultura pop nos dias de hoje: “Nós simplesmente usamos coisas do passado porque são a única coisa à qual nos agarramos. Estamos todos fazendo cosplay de algo que não existe”, afirmam.
Traduzindo: há alguns anos, o saudoso Isaac Hayes criticava o rap dizendo que de tanto samplear, os artistas iriam acabar sampleando os próprios samplers. É exatamente isso que rola hoje com a febre de IA, ou com o reenvelopamento de coisas antigas (já existe newsletter há trocentos anos e só agora virou mania). Rola também com a febre de remakes. Afinal, se “novela é tudo igual”, como dizem os detratores, nada melhor do que pegar uma história que já deu certo e criar em cima – mesmo com o risco de estragar o original.
Vai daí que o Sorry decidiu brincar com isso em seu terceiro álbum, Cosplay – a dupla diz ter “morrido” ao começar a compor para o disco, e o release zoa a possibilidade de uma turma nova ter ocupado os lugares deles, tipo o sósia que ficou no lugar do “falecido” Paul McCartney nos Beatles. As referências que vão surgindo em letras e músicas são enfiadas nas canções da mesma forma que o Oasis fazia com as músicas dos Beatles – tipo Noel Gallagher (Oasis) fazendo uma música chamada Wonderwall sem admitir que a inspiração veio do álbum Wonderwall music, de George Harrison (1968) ou sapecando uma outra canção chamada It’s getting better now.
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Algumas dessas referências ganham crédito: a balada introvertida e explosiva Antelope, candidamente cantada por Asha, fala que “existe uma arte em te amar / aprendo algo novo a cada um ou dois anos / agora que se espalha mais rápido do que a velocidade com que falamos / como a bala de canhão na música do Dylan”. A não ser que você tenha todo o repertório de Bob Dylan na ponta da língua, provavelmente vai se sentir tentado/tentada a procurar no Google. Provavelmente é a bala de canhão que voa em Blowin’ in the wind, embora tenha também a gravação que ele fez do tema tradicional Dink’s song, que fala de alguém que “movia seu corpo como uma bala de canhão”.
Bom, vale dizer que a letra fala também que existe “uma lua assassina” (“killing moon”, no original). A balada Candle, que consegue ter algo ao mesmo tempo de Garbage e de Cranberries – margeando o clima tenso das duas bandas – evoca fragilidade falando em “sou apenas uma vela ao vento” (epa, Elton John passou aqui?). Jetplane, punk sombrio herdado de The Cure e das guitarras em desalinho da no wave, tem um sample de Hot freaks, do Guided By Voices. Mais: para fazer o refrão do ótimo trip hop Waxwing, o Sorry achou que seria uma excelente ideia homenagear o hit único da coreógrafa Toni Basil, Mickey, de 1982. Ficou… pitoresco, vamos dizer.
Na maior parte do tempo, Cosplay mostra o Sorry não muito irmanamente dividido entre canções sombrias e sons com herança pós-punk. Estes últimos governam músicas como Echoes (som lindo e gélido, com algo de Garbage e vocal despedaçado), Jetplane, o alt pop fantasmagórico de Love posture. Today might be the hit é um rock com cara punk, guitarras distorcidas e clima ligeiramente beatle – na real, tem tanto de Beatles quanto de Siouxsie and The Banshees – e cuja letra é uma espécie de mantra irônico das (im) possibilidades: “hoje pode ser o dia do sucesso / ou pode ser um dia péssimo / yada-yada-yada-ya / nada vai me incomodar mais”.
Por outro lado, tem a elegância ruidosa de Magic, as estranhas sombras de Into the dark (cuja letra faz uma referência pra lá de “que porra é essa?” ao dramaturgo japonês Yukio Mishima) e a balada violeira Life in this body, música em que o amor e os relacionamentos se transformam numa perigosa despersonalização. No final, Jive, música que abre tão sussurrada que até as guitarras e a bateria parecem sussurrar junto – e ganha depois um clima ruidoso e sexy. Cosplay parece um jogo de tabuleiro em formato de disco, cheio de pedrinhas, labirintos e “volte três casas”.
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Crítica
Ouvimos: Gorillaz – “The mountain”

RESENHA: Gorillaz mistura idiomas, luto e culturas em The mountain, álbum denso e experimental que pode apontar o rumo do pop em 2026.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Kong
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026
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Se a febre de Brat (Charli XCX) era o que definia o pop há alguns meses, 2026 se bobear vai ser marcado por gente fazendo de tudo para causar o mesmo efeito imersivo de Lux, de Rosalía – seja tentando fazer o “som sabor música clássica” dela, ou inserindo referências improváveis. The mountain, o novo álbum do Gorillaz, já traz muito dessa vontade de revirar o pop e fazer dele um espaço para experimentações, memórias e recriações, que provavelmente dará o tom para vários discos lançados em 2026.
Aliás, The mountain traz essa vontade levada muito a sério. Assim como Lux, é um disco que varia nos idiomas (é cantado em cinco: árabe, inglês, hindi, espanhol e iorubá). Ao contrário de quase tudo que o Gorillaz já fez, é um álbum que pede pelo menos duas audições para compreender todos os seus climas diferentes: há detalhes progressivos em faixas como The mountain – esta, um instrumental lindíssimo com lembranças de Within’ you, without you, música de George Harrison presente no Sgt. Pepper’s dos Beatles (1967) e que traz uma das participações da citarista Anoushka Shankar. Ou o tecnoprog The shadowy light.
Essa profundidade é a maior marca de The mountain, disco feito durante 18 meses, com direito a uma viagem de Damon Albarn e Jamie Hewlett à Índia para criar o disco e justificar o arco narrativo que inclui uma ida da banda de desenho animado ao país com passaportes falsos. Na real, a marca é dada não apenas pela música, mas pelo conceito: Damon e Jamie perderam seus pais em datas bem próximas (tipo dez dias de espaço) e o álbum é repleto de questionamentos a respeito de vida, morte, o “outro lado” da vida, e assuntos afins. As mesclas com música indiana, dub e dance music vaporosa só estreitam os laços com os temas.
O papo é levado adiante com poesia e com ironia, como em The god of lying, dub com participação dos Idles. The empty dream machine, uma balada com teclado de churrascaria que lembra Barry Manilow – mas cujo tom brega é quebrado por um rap feroz – fala sobre promessas vazias e sonhos displicentes. Os Sparks põem zoeira e protesto na alegre Happy dictator, protesto contra falsos líderes que ganha um solinho de flauta e um clima meio Shangri-La.
Já The moon cave une Beatles, Burt Bacharach, dream pop e o lado sonhador e psicodélico da disco music. Trugoy, do De La Soul, morto em 2023, surge na faixa e é uma das vozes “do outro mundo”, resgatadas de fitas e de samples, que surgem no álbum. Os sete minutos de The manifesto unem jazz, blues, rap, reggaeton, metais grandiloquentes e trilhas de filmes no estilo Ben-Hur. E rola até um tecnopop beduíno em Damascus, faixa que reaproveita antigas demos do projeto, com participações do superstar sírio Omar Souleyman e do rapper e cantor Yasiin Bey.
Entre as tais vozes do “outro lado”, há a do ator Dennis Hopper, e a do velho parceiro Tony Allen, cuja presença e ausência dão o tom de The hardest thing e da sequência Orange County – esta, um som maravilhosamente pop, que Albarn diz ter sido feito pensando em finais de relacionamentos. Uma curiosidade é o ótimo aproveitamento da voz de Mark E Smith (criador do The Fall, morto em 2018) em Delirium, dance music vaporosa e psicodélica (por sinal o oposto do som que o Fall, banda radical do pós-punk, gravava).
Todas essas ondas juntas fazem de The mountain um universo particular, em que culturas ficam mais próximas e é possível viajar sem passaporte. Pelo menos na música. Pode ser que ele defina o rumo do pop em 2026, mas aí só vendo.
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Crítica
Ouvimos: Pem – “Other ways of landing” (EP)

RESENHA: Pem transforma turbulências amorosas em chill out etéreo e intimista. O EP Other ways of landing é voo triste de pouso suave.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Fascination Street Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Vinda de Bristol, a cantora e compositora Emily Perry (mais conhecida como Pem) tem até agora três EPs lançados: este Other ways of landing é o mais recente. Tudo indica que sua linguagem musical encontra uma melhor exposição quando há um tempo limitado, como numa viagem sonora, ou no tempo exato para que a música tenha certa fruição pelo / pela ouvinte, sem exageros – e dá a impressão que mesmo quando ela resolver lançar um álbum, a busca será por algo que oriente quem ouve.
- Ouvimos: Poliça – Dreams go
Other ways of landing é essa onda “viajante” levada para o dia a dia – sendo que o “aterrisar” aqui tem mais a ver com despertar de uma desilusão e cair na real, já que boa parte do EP fala de relacionamentos cagados ou turbulentos, como nos discos pop mais comerciais. A faixa-título poderia ser um soft rock, mas Pem optou por um chill out cavernoso, voador, formado por teclados e cello, com sua voz tremida dando a entender que emoções fortes podem prejudicar a aterrisagem.
To Earth will you tell me when we land abre com piano soando como gotas e prossegue com um beat, coisa rara no disco – mas é um beat que serve mais para conduzir e acompanhar o que já havia sido dado pelo piano e pela voz, e a faixa vai crescendo aos poucos. M4 windy volta no tema da turbulência amorosa, mas com barulho de vento ao fundo, e com Pem cantando como uma Yoko Ono mais frágil, mais estremecida (detalhe: ela gravou os vocais no celular enquanto dirigia, os barulhos de vento vêm de uma onda real de ventos fortes, e o “M4” vem do título que o smartphone usou para salvar o arquivo).
(Easily) moved e Milk, blue são algo bem relaxante, circular, com voz que parece vir de uma gravação antiga. Há um contraste entre a onda turbulenta das letras e a vibe de voo controlado das melodias, que dá a impressão de algo mais triste e distante do que propriamente meditativo. Mas o EP é um pouso suave em que tudo encontra lugar.
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Crítica
Ouvimos: Daphini – “Butterfly”

RESENHA: Butterfly, de Daphini, mistura house ácida, psicodelia e rascunhos dançantes nas várias faces de Dan Snaith, criador do projeto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7
Gravadora: Jiaolong
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Dan Snaith, músico e DJ nascido no Canadá e radicado no Reino Unido, é responsável por projetos musicais como Manitoba, Caribou e Daphini. No caso dois dois últimos, há influência mútua de um nome no outro, embora Caribou seja uma música mais “psicodélica” e Daphini responda por algo mais ligado ao som eletrônico. A curiosidade em Butterfly, novo disco creditado ao Daphini, é que Waiting so long, lançado como single, é uma “colaboração” entre os dois projetos.
Não fica muito claro qual heterônimo de Dan está fazendo o que – mas como se trata de um tema vaporoso, de psicodelia dançante, supõe-se que o músico jogou sua house music no ácido, separou o que saiu e nomeou cada parte. É uma vibe que volta e meia surge nas faixas de Buterfly, um disco “pra cima”, luminoso, que parece fazer pela house music o que a onda lo-fi vem fazendo pelo rock, pelo pop e até pela MPB.
- Ouvimos: DJ Ramon Sucesso – Sexta dos crias 2.0
As letras são extremamente simples e até meio rascunhadas (a de Sad piano house, som dançante e quase espacial, com piano elétrico, resume-se à frase “where you live?”). O som tem coisas ultra-uptempo (Clap your hands), construções de sample (Hang, a experimental Lucky) e mais psicodelia (Napoleon’s rock, a betoneira sonora de God night baby, o clima espectral de Josephine), além de outras viagens sonoras (a meditativa Invention, a percussiva Miles smiles, com sons de steel drums).
Esse resumo aí do parágrafo de cima dá uma ideia do que rola em Butterfly – importante falar que Dan Snaith é um cara de rédea bem solta, e muita coisa do disco soa como um rascunho levemente modificado, um experimento para o público acompanhar. Às vezes, justamente por causa disso, parece que o processo de criação virou disco – enquanto ainda é um processo. É house music experimental, avessa a rótulos, feita por alguém que consegue se dividir em várias faces.
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