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Crítica

Ouvimos: Samuel de Saboia – “As noites estão cada dia mais claras”

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Ouvimos: Samuel de Saboia - "As noites estão cada dia mais claras"

RESENHA: Disco de estreia de Samuel de Saboia mistura rock nordestino, MPB maldita, tropicalismo e pós-punk em um retrato intenso de desejo e identidade.

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As noites estão cada dia mais claras, primeiro álbum do pernambucano Samuel de Saboia, é um disco de rock brasileiro setentista lançado em 2025. Mas nada de Casa das Máquinas ou Made In Brazil. É uma estética de rock nordestino, influenciada por artistas malditos da MPB – a capa, com várias fotos, lembra o lay-out de Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio, e o de Sweet Edy, de Edy Star – e que se utiliza de vibes e batidas latinas e ciganas em vários momentos.

O repertório de Samuel é construído em torno da força dos versos e dos vocais, como no clima épico de Vingança colorida (que prega: “vou mostrar como cobra pode voar”, em meio a violas e percussões) e na psicodelia espacial de Gira, evocando Paulo Diniz. Surge até algo de pós-punk em Deusa dos prazeres bobos – um dos melhores arranjos do disco, com metais simples e guitarra limpa lembrando Smiths.

    • Ouvimos: Raquel – Não incendiei a casa por milagre
    • Ouvimos: Josyara – Avia
    • Ouvimos: Gabre – Arquipélago de Ilhas Surdas

Mesmo assim, a cara de As noites… é dada mesmo pela vibe tropicalista de faixas como Meteoros de haxixe (com andamento herdado de Taxman, dos Beatles) e Eu preciso de distância, ambas com vocais lembrando Edy Star e Gilberto Gil – a segunda é retomada ao fim do disco com uma releitura ao vivo.

Dando uma variedade maior ao disco, tem o clima quase soul de Amigo (que tem lembranças do já citado Sergio Sampaio), e a balada blues Rei de nada, que abre num clima parecido com o de Êxtase, de Guilherme Arantes, e vai mudando de cara. A força da voz de Samuel surge especialmente nos ecos e silêncios de Sangue, cheia de escalas árabes, e no beat nordestino, cantado em falsete, de Mainha.

As noites estão cada dia mais claras (definido por Samuel como um álbum de “desejo físico”) é repleto de descobertas e auto-descobertas. Ouça.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente.
Lançamento: 7 de maio de 2025

Crítica

Ouvimos: U2 – “Easter lily” (EP)

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Ouvimos: U2 – “Easter lily” (EP)

RESENHA: EP Easter lily traz U2 em fase inspirada, com clima religioso e coletivo, retomando som pós-punk dos anos 2000 e faixas fortes, apesar de um final excessivo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Island
Lançamento: 3 de abril de 2026

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“Escrevemos algumas músicas para o nosso álbum, mas elas começaram a se impor de maneiras inesperadas, exigindo atenção especial, criando seu próprio universo devocional, sugerindo que não se encaixavam no nosso álbum. Então, cedemos… concordamos com o cronograma delas… as músicas é que mandam”, conta The Edge, guitarrista do U2, no novo número da revista do grupo, Propaganda. Foi daí que veio Easter lily, novo EP da banda irlandesa (com título inspirado no disco Easter, de Patti Smith, lançado em 1978), e que já vem sendo apontado por uma turma enorme como o melhor trabalho do quarteto em vários anos.

Já que The Edge falou em “universo devocional”, vale notar que Easter lily posiciona o U2 como banda católica – as seis semanas de hiato entre este EP e o anterior, Days of ash, correspondem à quaresma. Easter lily veio justamente na sexta-feira santa, e investe na mensagem de fraternidade. As seis faixas do EP (que tem 32 minutos e é maior que muito álbum) apontam para um mundo em que as vitórias são coletivas e as pessoas mais próximas fazem muita falta – abrindo com a épica Song for Hal, homenagem ao produtor Hal Willner, morto em 2020 de covid, e seguindo com a bela In a life, em que Bono diz que “nunca conquistei nada sozinho”.

Musicalmente, o U2 volta de verdade aos bons tempos da banda. Mas atenção: são os bons tempos de discos como All that you can’t leave behind (2000) e How to dismantle an atomic bomb (2004), últimos álbuns bons de verdade do quarteto. Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton voltam a soar de verdade como uma banda de pós-punk, com direito à marcação guerreira de Scars e à bateria marcial de Resurrection song.

Esta última, uma música que, de todo jeito, abre com um acorde circular de The Edge, e aponta para algo que talvez até o Coldplay pudesse embregalhar (epa, se alguém fizer uma versão remix disso, o risco é calculado). Mas cuja letra volta no histórico idealista do U2, e na vocação da banda para Padre Marcelo Rossi do rock (enfim, uma banda religiosa e politicamente correta que se arrisca a dividir o palco com dançarinas seminuas, se é que isso um dia foi um grande dilema para Bono e cia).

O lado contemplativo e quase krautrock do U2 reside na belíssima Easter parade – essa sim, uma música que lembra o grupo nos anos 1980 e 1990, com direito a um baixo ligeiramente chupado de Tomorrow never knows, dos Beatles, e a arranjos vocais de arrepiar, encerrando com uma citação do cântico Kyrie eleison, feita pelo vocalista. Já Brian Eno, produtor clássico da banda, dá sua contribuição no fechamento de Easter lily, com Coexist (I will bless the lord at all times?).

Esta, uma música (vá lá) meio chatinha, que une os traços ambient de Brian com um vocal meio Lou Reed – aquela coisa próxima da palavra falada, mas que chega a lembrar um scat leve, algo que o próprio Bono já usou como ferramenta algumas vezes. Depois a faixa ganha um dispensável vocal com autotune (!), e um clima de oração musicada (!!!).

Os fãs do grupo talvez curtam o fato do U2, nessa música, unir protesto, encantamento e iluminação, mas na prática é uma “música de encerramento” de sete minutos que parece que não vai acabar nunca. Algo bem temerário para um EP de seis faixas, mas que não chega a estragar as coisas ótimas de Easter lily. O U2 volta a soar gigante.

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Crítica

Ouvimos: The Shits – “Diet of worms”

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Ouvimos: The Shits – “Diet of worms”

RESENHA: The Shits misturam gêneros num disco pesado e caótico, com guitarras densas, clima perturbador e letras gritadas em desespero. Só porrada.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Rocket Recordings
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Bubblegrunge, pigfuck, sludge punk, nu-gaze… É tanta mistura que as pessoas podem começar a enlouquecer. No caso da banda britânica The Shits, fica até complicado falar que se trata de uma mescla de shoegaze (que já é barulhento) com noise rock (ué). Mas o pior é que isso nem responde pelo todo do terceiro disco deles, Diet of worms, um álbum que também tem encartados estilos como hard rock, pós-punk, grunge e montes de outras coisas que aparecem do nada e duram alguns minutos dentro das faixas.

Diet of worms tem oito longas faixas, clima arrasador, poesia escatológica (“dieta de vermes” é a tradução do título) e funis de guitarras pesadas que vão surgindo aos poucos nas músicas, dando um ar mais perturbador ainda a todas as faixas. As letras são frases quase (quase) soltas, berradas pelo vocalista Callum Howe em clima próximo do desespero.

In a hell, na abertura, dá a impressão de já ter passado pelo próprio inferno e sofrer com traumas dos mais diversos – o som é quase pós-punk, repetitivo, e vai ganhando distorções e solos malucos. Tarrare tem uma guitarra wah-wah intermitente que vai se transformando ao longo da faixa – já a letra conta as desventuras de um pobre diabo que existiu de verdade: um 171 francês chamado Tarrare (1772  – 1798), que tinha um apetite fora do comum e comia de rolhas e animais vivos a cadáveres, além de outras coisas que é melhor nem comentar. Algo de Swans, Flipper e até de The Fall, por sua vez, reside em faixas como Joyless satifaction e Then you’re dead.

  • Ouvimos: Angine de Poitrine – Vol. II

O som de Diet of worms é pra quem curte música fria, pesada e repetitiva – nem adianta apresentar o The Shits (e olha só esse nome…) para pessoas com gosto musical certinho que não vai colar. Mas a banda não é nada formulaica. Tanto que rola até uma mescla de rock experimental com boogie a la AC/DC, só que mais sombrio e lento, em Change my ways – além de um clima próximo de bandas como The Cult na ótima Thank you for being a friend, a melhor do álbum.

A faixa-título, do alto de seus pouco menos de três minutos, tem barulhos vindos lááá de longe e urros que vão chegando. O final, com Three o’clock in the morning, é ameaça pura, com microfonias, beat funéreo e ritmo lento. Só porrada do começo ao fim.

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Ouvimos: Griza Nokto – “Tudo o que não foi dito” (EP)

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Ouvimos: Griza Nokto – “Tudo o que não foi dito” (EP)

RESENHA: Griza Nokto troca o sol da Região dos Lagos (RJ) por um EP sombrio: pós-punk maquínico, melancolia densa e espaço para experimentação sonora.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de março de 2026

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O Griza Nokto é uma banda gótica + pós-punk fluminense – mais do que isso, veio da ensolarada Região dos Lagos, conhecida pelas suas belas praias. Mas pode esquecer de tudo isso porque o clima em Tudo o que não foi dito, novo EP deles, é composto de solidão, vazio, dores e sentimentos pontiagudos em geral. Sob as asas mornas da melancolia, por exemplo, fala sobre “dores que nenhuma palavra pode explicar” e caminhos livres que “são agora apenas utopia”.

  • Ouvimos: Poesia Abstrata – Eu, o ego e as sombras

No novo EP, o som deles vem com clima maquínico, como se fosse um DJ set que rendeu um disco – ou uma gravação ao vivo que acabou dando liga. Corpos impossíveis, por exemplo, tem riff simples, onda sonora gótica e beat quase imaginário. Sob as asas mornas e La ciudad es un laberinto têm riffs de guitarra reverberando no eco, e Bólido ganha mais rapidez que o comum do álbum. No fim, tem Ausência, o pós-punk mais redondo do disco, com guitarra e baixo dialogando e bateria mais pesada que nas outras faixas. Um EP com espaço para experimentação e criação, como os EPs devem ser.

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