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Cinema

Revendo Let It Be

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Abertura do filme Let It Be, dos Beatles

“Começamos o filme em janeiro de 1969 (…) sob o título provisório de Get back. (…) A ideia era ver os Beatles ensaiando, improvisando, montando seu número e depois, finalmente se apresentando em algum lugar num grande concerto (…) Na verdade, o que aconteceu foi que (…) evidenciou-se como funciona a dissolução de um grupo. Nós não percebemos que estávamos efetivamente rompendo enquanto aquilo estava acontecendo” – Paul*

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante (leia-se no fim da década de 1980, no município de São Gonçalo, RJ), a informação sobre música pop era escassa. Por informação, entenda-se texto, áudio, vídeo. Pré-internet, pré-MTV, pré-TV paga, pré-Plano Real, tudo era difícil. Até mesmo, imaginem, ver algum material em vídeo dos Beatles. Adolescente, eu percorria literais léguas — de SG até a zona sul do Rio — para assistir a vídeos como Live at the Budokan ou The compleat Beatles, que costumavam passar em sessões à meia-noite na sala de vídeo da faculdade Candido Mendes. Sim, há muito tempo, existiam essas coisas chamadas “salas de vídeo”, que exibiam produções musicais em VHS; em geral material “raro”, i.e., pirata.

Foi em uma dessas salas de vídeo — a do Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial, ou apenas Paço Imperial, na Praça XV, centrão do Rio de Janeiro — que eu vi Let it be pela primeira vez. Eu não sabia na época, mas sem dúvida tratava-se de uma cópia ilegal. A época, aliás, era 1990; disso eu lembro com clareza, pois o Paço aproveitara a primeira vinda de Paul McCartney ao Brasil para fazer uma mostra com os cinco longas-metragens dos Beatles, na ordem cronológica. Portanto, em uma sexta-feira de 1990, eu peguei a barca em Niterói rumo à Praça XV, para assistir a Let it be. Provavelmente precisei matar a última aula daquela manhã (eu cursava o terceiro ano do ensino médio), já que a sessão era às 13h.

Quer dizer, tô meio que chutando tudo isso, pois lá se vão mais de 30 anos. De detalhes do filme, lembro pouco. Lembro de ter chegado atrasado e de ter perdido os primeiros minutos de projeção. Lembro da qualidade ruim — granulada, esmaecida — da imagem e do som abafado. Aposto que era uma cópia (de uma cópia de uma cópia…) da única edição oficial em home video do longa, lançada em 1981. Eu também não sabia que os fotogramas “estourados” eram um detalhe que acompanhava Let it be desde seu lançamento nos cinemas; filmado em 16mm, o negativo original foi ampliado para 35mm, o que resultou na granulação exagerada das imagens.

Tirante o showzinho no telhado, ficaram na mente a valsa de John & Yoko ao som de I me mine, Paul ensaiando “Oh! Darling” ao piano e o espanto com a versão integral de Dig it. Mais do que tudo, ficou na mente o clima um tanto desolador conjurado pelo longa. Em 1990, eu já sabia que Let it be era o retrato do fim dos Beatles e que mostrava o quarteto gravando aquele que seria seu último álbum. (Mas não sabia ainda que, entre o trabalho no filme e o fim em 1970, eles conseguiram conciliar uma última vez o supostamente irreconciliável, para produzir Abbey Road.) De uma forma meio impressionista, as lembranças daquela cópia meio fudida do documentário — uma polaroide granulada da fase mais tristonha do grupo — se misturaram às informações que vim acumulando anos afora sobre a história dos Fab Four.

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Let it be é o mais controverso dos 12 álbuns e o menos exibido dos cinco filmes dos Beatles. O longa-metragem de Michael Lindsay-Hogg é o único documentário TRVE rodado sobre a banda enquanto eles ainda estavam juntos. Hoje, todo mundo sabe dos perrengues que cercaram as gravações, realizadas em janeiro de 1969 e descritas por George Harrison como “o ponto mais baixo” da trajetória do quarteto. Todo mundo (hoje) sabe que George chegou a sair da banda (por 11 dias), que a chegada de Billy Preston deu uma aliviada no clima e que o quarteto (leia-se Paul) ponderou por meses o conteúdo final do doc, antes de abandonarem o título original Get back. Todo mundo sabe que literais semanas de filmagem bruta foram descartadas e arquivadas, para se chegar aos 80 minutos do longa que estreou em maio de 1970, pouco mais de um mês depois que Paul anunciou publicamente sua saída dos Beatles — na prática, dissolvendo a banda.

Nunca relançado nos cinemas, nunca reeditado em qualquer formato desde os anos 1980, não disponível em streaming (chegou a estar, por um tempo, no catálogo da Netflix nos EUA e Reino Unido), exibido na TV apenas em fragmentos, Let it be virou um mistério. Mas todo mundo sabe que ao menos duas tentativas de lançar o documentário em DVD, em 2008 e 2011, fracassaram devido à intervenção de Paul (e Ringo). Muito menos obscuro que o filme, o álbum homônimo também foi “amaldiçoado” por Paul, que nunca engoliu as intervenções sonoras feitas à sua revelia pelo produtor Phil Spector. Macca não sossegou até lançar a “sua” versão do disco, em 2003.

Eis que em 30 de janeiro de 2019 (o dia do 50º aniversário do rooftop concert), Peter Jackson e a Disney (!) anunciaram a possível redenção de Let It Be… na forma de The Beatles: Get back, uma minissérie de seis horas de duração editada a partir de 55 horas de filmagens feitas por Lindsey-Hogg em 1969. O resultado vai ao ar via Disney+ ao fim de novembro de 2021. Em imagens restauradas digitalmente, os Beatles de 69 nunca pareceram tão cristalinos. Jackson prometeu uma narrativa “divertida e inspiradora”, em contraponto ao tom sombrio do filme original.

Bom, eu disse pra mim mesmo, é um sinal. Se em 1990 eu precisei atravessar três municípios para assistir a uma cópia de procedência duvidosa, hoje uma versão digital (rotulada “Deluxe 35mm Widescreen Stereo Edition”) é facilmente encontrável nas, ahem, boas casas do ramo na internet. O arquivo foi extraído de uma versão, ahem, genérica lançada em BD em algum país da Ásia (Japão, provavelmente). Segundo as liner notes que acompanham o vídeo, a fonte foi uma cópia VHS de boa qualidade originária da BBC, com imagens em widescreen e som estéreo (em lugar da versão 4:3 e mono vista/ouvida nos cinemas).

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Adiei por anos, mas antes de assistir à minissérie, vou rever Let it be. Não seria possível encarar a “divertida versão Disney” sem passar a limpo as memórias tristonhas do filme original.

“Foi um inferno fazer Let it be. Quando foi lançado, muita gente se queixou de Yoko parecia infeliz (…) Mesmo o maior dos fãs dos Beatles não conseguiria tolerar aquelas seis semanas lamentáveis. Foi a gravação mais deplorável da face da Terra” — John*

Pôster original do filme Let It Be, dos Beatles

A impressão mais forte após a revisão: Let it be é uma “tela em branco” na qual os espectadores projetam suas percepções sobre o último ano no qual os Beatles existiram na prática. O longa parece triste, ou me pareceu triste em 1990, porque vinha carregado de uma aura triste; a narrativa do fim da banda o precedia, e como já sabíamos o desfecho da história — um spoiler gigantesco, que não chega a ser mostrado na tela — todo o esforço do quarteto no estúdio parecia dolorosamente inútil.

Só que essa “narrativa da tristeza” era algo 100% formulado pelo espectador. Toda a contextualização do que se vê no filme depende do conhecimento prévio do público. O filme nunca força a barra para parecer triste ou deprimente. Na verdade, as imagens são tão cruas que pouco pode se falar em narrativa. O que temos é apenas a câmera rodando, praticamente sem intervenções do diretor sobre as cenas. Não há entrevistas, narração, legendas. Sim, a tensão entre os músicos é visível e dispensa comentários, mas Lindsay-Hogg não conduz a “história” nem induz o público a qualquer conclusão. É até surpreendente constatar que a maior banda de rock do mundo tenha consentido em lançar nos cinemas um produto tão amorfo, despojado e — em última instância — aberto a múltiplas interpretações. (Uma resenha contemporânea no jornal The Sunday Telegraph classificou o longa como “um filme muito ruim (mas) tocante”).

Uma outra narrativa consolidada com o passar dos anos se confirma na revisão: Paul monopoliza o filme. Ele teve a ideia para o projeto, ele impeliu os outros três à empreitada, e é ele quem comanda o show, literal e figuradamente. Diante da indiferença de John e da insatisfação de George, Paul é quem sugere planos, se esforça para burilar suas composições e para extrair alguma empolgação dos companheiros. (Ringo, em consonância com sua persona pública, serve quase como um alívio cômico. Pouco se manifesta, embora a câmera se concentre nele em diversos momentos, de forma marcante.) Uma terceira narrativa, a da presença ominosa de Yoko no estúdio, interferindo na harmonia do quarteto, se desfaz. Sim, ela aparece já no segundo minuto de projeção e acompanha John pra lá e pra cá, mas não fala. A câmera pouco se interessa por ela… Ou talvez a edição tenha preservado apenas seus momentos mais inexpressivos.

Paul também estrela os dois “clipes” mais conhecidos do filme, as interpretações da música-título e de The long and winding road, repletos de closes dele. Ele é o único que parece reconhecer a presença da câmera e que concorda em “atuar” para o diretor. Ainda mais que outros sucessos incluídos no filme, Two of us é a música-símbolo de Let it be. Não só pela letra (“We’re going home”, etc.), mas também pelo tempo que merece na tela. Vemos a canção tomando forma, primeiro em uma versão de trabalho — elétrica e mais roqueira — gravada ainda no estúdio Twickenham. O famoso bate-boca entre Paul e George (“Eu toco o que você quiser que eu toque. Se você quiser, posso tocar nada também”) se dá durante um debate sobre o arranjo da canção. E, afinal, já nos estúdios da Apple, é o primeiro número número a ser apresentado 100% completo, já no formato acústico e delicado eternizado no álbum (aliás, é a faixa de abertura do disco).

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Musicalmente, o filme mostra que os Beatles já estavam, em 1969, com um pé nos anos 70. O som nos ensaios é pesado e blueseiro, com os caras tentando recuperar de forma meio desajeitada o jeito de tocar em conjunto. Vamos lembrar que o quarteto já não funcionava como uma “banda de verdade” há um bom par de anos e que no Álbum branco, o disco anterior, cada um dos quatro fez o que quis, usando os outros três como meros ajudantes (às vezes, nem isso). O espírito gettin’ back inspira o quarteto a arriscar jams repletas de velharias, como Besame mucho e uma desanimada (e desafinada) You really got a hold on me. É também em uma jam que vê-se o único momento em que John realmente se empolga: Dig it.

Por falta de novas canções — ou talvez já de olho no que lançar nas carreiras solo — John & Paul ressuscitam One after 909, cuja gravação original de 1963 não tinha sido lançada até ali. Enquanto isso, George tinha um baú de composições guardadas, às quais a dupla principal não dava muita atenção. É bacana vê-lo trabalhando em For you blue, ajudando Ringo a encorpar Octopus’s garden e liderando a banda em uma versão de I me mine diferente da do disco, com direito a um interlúdio quase flamenco.

Cena do filme Let It Be, dos Beatles

Cenas do rooftop, 30 de janeiro de 1969: um aspone da Apple segura a letra de ‘Dig a Pony’ para John, a galera na rua olhando pra cima incrédula e os bobbies chegando para acabar com o fuzuê

O grand finale do filme, o concerto no telhado da Apple, não foi a conclusão do projeto. Era a única concessão do documentário a um esquema de narrativa tradicional: filmamos os Beatles compondo, gravando, discutindo e encerramos com o resultado final. Mas as filmagens na Apple continuaram; na verdade, as gravações de Let it be, Two of us e The long and winding road foram feitas depois do show. Obviamente é o ponto alto do longa, no qual Lindsay-Hogg assume o papel de cinejornalista, entrevistando os surpresos londrinos, capturando o caos na rua Saville Row e a intervenção da polícia. Mais que apenas o “último show” dos Beatles, foi o momento em que eles afinal voltam a confrontar o mundo real, depois de anos trancados no estúdio, viajando pela Índia e tecendo mirabolantes planos empresariais. O mundo real bate palmas, mas também envia a Scotland Yard para acabar com a barulheira. É tudo muito espontâneo, mas também há um tom farsesco na coisa toda. Não é como se os Beatles não soubessem que o showzinho iria dar merda. Eles eram os Beatles, pô.

E porque eles eram os Beatles, Let it be sempre será indispensável, mesmo que pouco acessível. Cada um dos filmes dos quarteto tem sua graça específica. A “graça” do documentário é mostrar os Beatles humanos. Não os reis do iê-iê-iê, os xamãs psicodélicos ou o desenho animado. Nos outros quatro filmes, os Fab Four pertencem a outro(s) mundo(s). Em Let it be eles são (quase) gente como a gente: acordam cedo para trabalhar num lugar chato, com um chefe chato (Paul, claro) cobrando resultados; relaxam ao voltarem pra casa (a Apple) e ao receberem amigos (Billy Preston). Para encerrar, fazem uma festinha na laje que acaba com a presença dos meganhas.

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“Lembro-me (…em uma reunião sobre o filme) de ouvir de John: ‘Ah, entendi. Ele quer um trabalho’. E eu (disse): ‘É isso mesmo. Acho que devemos trabalhar. Seria bom’. (…) Em seguida, tivemos discussões terríveis — então teríamos a dissolução dos Beatles no filme, em lugar daquilo que realmente desejávamos. Provavelmente foi uma história melhor — uma história triste, mas era a que havia” — Paul*

*Depoimentos extraídos do livro Antologia — The Beatles (Cosac & Naify, 1995).

Publicado originalmente no blog Telhado de Vidro

Mais Let it be no POP FANTASMA:
– Trinta coisas que você já sabia sobre o rooftop concert dos Beatles
– Discos da discórdia 10: Beatles com Let it be… Naked
O fim (??) dos Beatles no podcast do POP FANTASMA

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Jornalista, escrevendo coisas que ninguém lê, desde 1996 (Jornal do Brasil, Extra, Tribuna da Imprensa, Rock Press, Cliquemusic, Gula, Scream & Yell, Veja Rio, Bula)

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Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

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Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

Se você só tiver tempo de ver UM filme sobre música em algum momento do dia de hoje, veja este. She’s a punk rocker UK é um filme ultra-hiper-independente, dirigido durante vários anos por Zillah Minx, a vocalista do grupo gótico-anarco-punk Rubella Ballet, e que conta a história do punk feito por mulheres no Reino Unido. Entre as fontes, tem gente muito conhecida, como Poly Styrene (X-Ray Spex) e Eve Libertine (Crass).

No filme, dá pra ver também os depoimentos de nomes como Caroline Coon, que durante um tempinho foi empresária do Clash e trabalhou com a banda num especial período de confusão – quando a banda ainda era um incompreendido nome da CBS britânica que não conseguia estourar nos Estados Unidos de jeito nenhum (opa, fizemos um podcast sobre isso).

Um depoimento interessante é o de Mary, uma punk veterana que trabalhou por uns tempos como segurança de Poly Styrene, cantora do X-Ray Spex. Tanto ela quanto Poly lembram que o  público dos shows era meio violento em alguns lugares – com “fãs” jogando cerveja e cuspindo na plateia para demonstrar que estavam gostando da apresentação (era comum). Logo no começo do documentário, entrevistadas como Rachel Minx (também do Rubella Ballet) contam que nem tinham uma ideia exata de que elas eram punks quando começaram a adotar o visual típico do estilo – roupas rasgadas, maquiagem, reaproveitamento de peças usadas. Em vários casos, a ideia era se vestir diferente porque todas começaram a produzir suas próprias roupas – e a moda se refletia na música, nas letras e no comportamento.

A própria Zillah é uma figura importante e pouco citada do estilo musical, e viveu o estilo de vida punk antes mesmo dos Sex Pistols começarem a fazer sucesso. O filme dela  foi feito inicialmente com uma câmera emprestada e precisou passar por vários processos de edição durante vários anos. Apoiando o Patreon do projeto, aliás, você consegue ter acesso às integras de todas as entrevistas.

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Ela disse nesse papo aqui que foi aprendendo a fazer tudo sozinha, sem nenhum financiamento, com a ideia de responder algumas perguntas sobre a presença feminina no punk britânico. “Ser punk era perigoso, então por que tantas mulheres se tornaram punks? Foi apenas sobre vestir-se escandalosamente? Essas mulheres punk foram tratadas como membros iguais da subcultura e como foram tratadas pelo resto da sociedade? Como ser uma mulher punk afetou suas vidas? A mulher punk influenciou diretamente as atitudes da sociedade em relação às mulheres de hoje?”, disse.

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Cinema

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

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Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Som alucinante, filme de Guga de Oliveira (irmão de Boni, ex-todo poderoso da Rede Globo), lançado nos cinemas em 1971, apareceu pela primeira vez na íntegra no YouTube há poucos dias. O filme traz um apanhado de shows do programa Som Livre Exportação, musical exibido pela Rede Globo entre 1970 e 1971. A produção foi feita no espírito do filme do festival de Woodstock, de Michael Wadleigh, com shows misturados a entrevistas com artistas, músicos, a equipe técnica tanto do festival quanto do filme, e com pessoas da plateia.

Logo no começo, o radialista paulistano Walter Silva (o popular Pica-Pau) resolve perguntar a uma mulher da plateia o que ela espera encontrar no show. Como resposta, recebe risos e um “ah, sei lá, dizem que tá bacana, né?”. Bom, de fato, o formato de festival não competitivo – ou de pacote de shows – ainda não era das coisas mais conhecidas aqui no Brasil.

Tudo ali era meio novidade, tanto o fato de tantos nomes estarem reunidos num mesmo evento, quanto o fato de vários nomes “alternativos”, de uma hora para outra, terem virado grandes atrações de um programa da Globo: Ivan Lins (em ascensão e fazendo seu primeiro show em São Paulo), Gonzaguinha, Mutantes, A Bolha, Ademir Lemos e até um deslocadíssimo grupo americano chamado Human Race – que apresentou uma cover de Paranoid, do Grand Funk. Para contrabalancear e garantir mais audiência ao programa, Elis Regina, Wilson Simonal e Roberto Carlos participaram da temporada de 1971 da atração (que mesmo assim continuou sem audiência, mas com sucesso de crítica). O show levado ao ar nessa temporada serviu de fonte para o documentário.

O que mais chama a atenção em Som alucinante, na real, não é nem mesmo a música. Bom, e isso ainda que o filme apresente uma entrevista bem interessante com um iniciante Gonzaguinha (que faz um excelente discurso sobre “não pensar no mercado e ser você mesmo”), uma Rita Lee aparentemente em órbita falando sobre “é bom ganhar dinheiro com o que se faz, né?”, Mutantes tocando José e Ando meio desligado, A Bolha tocando o gospel-lisérgico Matermatéria, Elis Regina dividindo-se entre os papéis de cantora e mestra de cerimônia. E também várias entrevistas com Milton Nascimento que não vão adiante, de tão constrangido que o cantor estava.

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O mais maluco no filme é que a plateia desmaia, e o tempo todo (!). Os fãs começam a empurrar uns aos outros e num determinado momento, a solução da produção é convidar os que estavam em maior situação de vulnerabilidade para subir no palco. Numa cena, um policial carrega uma garota desmaiada e ele próprio quase toma um estabaco.

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Companhias indesejáveis na plateia do Som Livre Exportação

Em outro momento, os fãs são puxados ao palco por policiais e pessoas da produção com uma tal intensidade, que aquilo fica parecendo uma tragédia bíblica. Ou um evento que estava mais para Altamont do que para Woodstock, porque era evidente que aquilo estava ficando perigoso. Especialmente porque militares circulavam na plateia e aparecem, em determinados momentos, atrás do palco, o que já explica todo aquele estresse.

Ah, sim a parte do “nós estamos todos reunidos nessa grande festa”, dos Mutantes (que aparece no documentário Loki?, sobre Arnaldo Baptista) foi tirada de Som alucinante. E pelo menos um crítico do Jornal do Brasil, Alberto Shatovsky, detestou a linguagem “moderna” do filme.

A sequência de Roberto Carlos no filme.

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E se você não reconheceu o sujeito de bigodes e cabelo black que aparece em alguns momentos no filme, é o Ademir Lemos, do Rap da rapa (lembra?). Era um dos apresentadores do Som Livre Exportação.

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

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Cinema

O Homem Que Caiu na Terra, feito para TV em 1987

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O Homem Que Caiu na Terra, feito para TV em 1987

Considerado um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, O homem que caiu na Terra saiu em 1976 e tinha David Bowie interpretando o papel-título – o do alienígena Thomas Jerome Newton, que veio pra essas terras pegar água para levar a seu planeta natal, que está passando por uma seca medonha. O filme tem no subtexto a própria vida desregrada que Bowie levava na época: o personagem torna-se dependente de álcool e televisão, tem um relacionamento amoroso (com Mary Lou, interpretada por Candy Clark, de American graffiti) arruinado por causa dos problemas pessoais e dos vícios, e encara o luxo, a incapacidade e a decadência de perto. Enfim, se você não viu, dê um jeito de ver hoje mesmo.

O que muita gente hem sequer desconfia é que entre o filme com Bowie e a série com o mesmo nome levada ao ar pelo canal Showtime, ainda existe uma versão de O homem que caiu na Terra feita pra televisão. E ela tá até no YouTube.

O homem que caiu na Terra de 1987 foi produzido pela MGM e também seria, ao que consta, o piloto de uma série que nunca foi feita. O filme também foi baseado no livro de Valter Tevis. Ao contrário do filme de Bowie, o personagem principal se chama John Dory e ele, ao chegar, envolve-se com uma mulher que tem um filho adolescente que vive de pequenos roubos e golpes. O grande objetivo do extraterrestre é arrumar dinheiro para construir uma nave espacial e voltar para o seu planeta, daí ele aceita o que aparecer de trabalho.

O elenco inclui atores como Lewis Smith (John Dory), Beverly D’Angelo (Eva Smith, a namorada terráquea do personagem principal) e Robert Picardo (um agente governamental, Richard Morse). A pergunta de um milhão de dólares é: vale assistir? Ué, vale – mas tendo em mente que tentaram fazer um filme de Sessão da Tarde com um épico da ficção científica.

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