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Cinema

Revendo Let It Be

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Abertura do filme Let It Be, dos Beatles

“Começamos o filme em janeiro de 1969 (…) sob o título provisório de Get back. (…) A ideia era ver os Beatles ensaiando, improvisando, montando seu número e depois, finalmente se apresentando em algum lugar num grande concerto (…) Na verdade, o que aconteceu foi que (…) evidenciou-se como funciona a dissolução de um grupo. Nós não percebemos que estávamos efetivamente rompendo enquanto aquilo estava acontecendo” – Paul*

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante (leia-se no fim da década de 1980, no município de São Gonçalo, RJ), a informação sobre música pop era escassa. Por informação, entenda-se texto, áudio, vídeo. Pré-internet, pré-MTV, pré-TV paga, pré-Plano Real, tudo era difícil. Até mesmo, imaginem, ver algum material em vídeo dos Beatles. Adolescente, eu percorria literais léguas — de SG até a zona sul do Rio — para assistir a vídeos como Live at the Budokan ou The compleat Beatles, que costumavam passar em sessões à meia-noite na sala de vídeo da faculdade Candido Mendes. Sim, há muito tempo, existiam essas coisas chamadas “salas de vídeo”, que exibiam produções musicais em VHS; em geral material “raro”, i.e., pirata.

Foi em uma dessas salas de vídeo — a do Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial, ou apenas Paço Imperial, na Praça XV, centrão do Rio de Janeiro — que eu vi Let it be pela primeira vez. Eu não sabia na época, mas sem dúvida tratava-se de uma cópia ilegal. A época, aliás, era 1990; disso eu lembro com clareza, pois o Paço aproveitara a primeira vinda de Paul McCartney ao Brasil para fazer uma mostra com os cinco longas-metragens dos Beatles, na ordem cronológica. Portanto, em uma sexta-feira de 1990, eu peguei a barca em Niterói rumo à Praça XV, para assistir a Let it be. Provavelmente precisei matar a última aula daquela manhã (eu cursava o terceiro ano do ensino médio), já que a sessão era às 13h.

Quer dizer, tô meio que chutando tudo isso, pois lá se vão mais de 30 anos. De detalhes do filme, lembro pouco. Lembro de ter chegado atrasado e de ter perdido os primeiros minutos de projeção. Lembro da qualidade ruim — granulada, esmaecida — da imagem e do som abafado. Aposto que era uma cópia (de uma cópia de uma cópia…) da única edição oficial em home video do longa, lançada em 1981. Eu também não sabia que os fotogramas “estourados” eram um detalhe que acompanhava Let it be desde seu lançamento nos cinemas; filmado em 16mm, o negativo original foi ampliado para 35mm, o que resultou na granulação exagerada das imagens.

Tirante o showzinho no telhado, ficaram na mente a valsa de John & Yoko ao som de I me mine, Paul ensaiando “Oh! Darling” ao piano e o espanto com a versão integral de Dig it. Mais do que tudo, ficou na mente o clima um tanto desolador conjurado pelo longa. Em 1990, eu já sabia que Let it be era o retrato do fim dos Beatles e que mostrava o quarteto gravando aquele que seria seu último álbum. (Mas não sabia ainda que, entre o trabalho no filme e o fim em 1970, eles conseguiram conciliar uma última vez o supostamente irreconciliável, para produzir Abbey Road.) De uma forma meio impressionista, as lembranças daquela cópia meio fudida do documentário — uma polaroide granulada da fase mais tristonha do grupo — se misturaram às informações que vim acumulando anos afora sobre a história dos Fab Four.

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Let it be é o mais controverso dos 12 álbuns e o menos exibido dos cinco filmes dos Beatles. O longa-metragem de Michael Lindsay-Hogg é o único documentário TRVE rodado sobre a banda enquanto eles ainda estavam juntos. Hoje, todo mundo sabe dos perrengues que cercaram as gravações, realizadas em janeiro de 1969 e descritas por George Harrison como “o ponto mais baixo” da trajetória do quarteto. Todo mundo (hoje) sabe que George chegou a sair da banda (por 11 dias), que a chegada de Billy Preston deu uma aliviada no clima e que o quarteto (leia-se Paul) ponderou por meses o conteúdo final do doc, antes de abandonarem o título original Get back. Todo mundo sabe que literais semanas de filmagem bruta foram descartadas e arquivadas, para se chegar aos 80 minutos do longa que estreou em maio de 1970, pouco mais de um mês depois que Paul anunciou publicamente sua saída dos Beatles — na prática, dissolvendo a banda.

Nunca relançado nos cinemas, nunca reeditado em qualquer formato desde os anos 1980, não disponível em streaming (chegou a estar, por um tempo, no catálogo da Netflix nos EUA e Reino Unido), exibido na TV apenas em fragmentos, Let it be virou um mistério. Mas todo mundo sabe que ao menos duas tentativas de lançar o documentário em DVD, em 2008 e 2011, fracassaram devido à intervenção de Paul (e Ringo). Muito menos obscuro que o filme, o álbum homônimo também foi “amaldiçoado” por Paul, que nunca engoliu as intervenções sonoras feitas à sua revelia pelo produtor Phil Spector. Macca não sossegou até lançar a “sua” versão do disco, em 2003.

Eis que em 30 de janeiro de 2019 (o dia do 50º aniversário do rooftop concert), Peter Jackson e a Disney (!) anunciaram a possível redenção de Let It Be… na forma de The Beatles: Get back, uma minissérie de seis horas de duração editada a partir de 55 horas de filmagens feitas por Lindsey-Hogg em 1969. O resultado vai ao ar via Disney+ ao fim de novembro de 2021. Em imagens restauradas digitalmente, os Beatles de 69 nunca pareceram tão cristalinos. Jackson prometeu uma narrativa “divertida e inspiradora”, em contraponto ao tom sombrio do filme original.

Bom, eu disse pra mim mesmo, é um sinal. Se em 1990 eu precisei atravessar três municípios para assistir a uma cópia de procedência duvidosa, hoje uma versão digital (rotulada “Deluxe 35mm Widescreen Stereo Edition”) é facilmente encontrável nas, ahem, boas casas do ramo na internet. O arquivo foi extraído de uma versão, ahem, genérica lançada em BD em algum país da Ásia (Japão, provavelmente). Segundo as liner notes que acompanham o vídeo, a fonte foi uma cópia VHS de boa qualidade originária da BBC, com imagens em widescreen e som estéreo (em lugar da versão 4:3 e mono vista/ouvida nos cinemas).

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Adiei por anos, mas antes de assistir à minissérie, vou rever Let it be. Não seria possível encarar a “divertida versão Disney” sem passar a limpo as memórias tristonhas do filme original.

“Foi um inferno fazer Let it be. Quando foi lançado, muita gente se queixou de Yoko parecia infeliz (…) Mesmo o maior dos fãs dos Beatles não conseguiria tolerar aquelas seis semanas lamentáveis. Foi a gravação mais deplorável da face da Terra” — John*

Pôster original do filme Let It Be, dos Beatles

A impressão mais forte após a revisão: Let it be é uma “tela em branco” na qual os espectadores projetam suas percepções sobre o último ano no qual os Beatles existiram na prática. O longa parece triste, ou me pareceu triste em 1990, porque vinha carregado de uma aura triste; a narrativa do fim da banda o precedia, e como já sabíamos o desfecho da história — um spoiler gigantesco, que não chega a ser mostrado na tela — todo o esforço do quarteto no estúdio parecia dolorosamente inútil.

Só que essa “narrativa da tristeza” era algo 100% formulado pelo espectador. Toda a contextualização do que se vê no filme depende do conhecimento prévio do público. O filme nunca força a barra para parecer triste ou deprimente. Na verdade, as imagens são tão cruas que pouco pode se falar em narrativa. O que temos é apenas a câmera rodando, praticamente sem intervenções do diretor sobre as cenas. Não há entrevistas, narração, legendas. Sim, a tensão entre os músicos é visível e dispensa comentários, mas Lindsay-Hogg não conduz a “história” nem induz o público a qualquer conclusão. É até surpreendente constatar que a maior banda de rock do mundo tenha consentido em lançar nos cinemas um produto tão amorfo, despojado e — em última instância — aberto a múltiplas interpretações. (Uma resenha contemporânea no jornal The Sunday Telegraph classificou o longa como “um filme muito ruim (mas) tocante”).

Uma outra narrativa consolidada com o passar dos anos se confirma na revisão: Paul monopoliza o filme. Ele teve a ideia para o projeto, ele impeliu os outros três à empreitada, e é ele quem comanda o show, literal e figuradamente. Diante da indiferença de John e da insatisfação de George, Paul é quem sugere planos, se esforça para burilar suas composições e para extrair alguma empolgação dos companheiros. (Ringo, em consonância com sua persona pública, serve quase como um alívio cômico. Pouco se manifesta, embora a câmera se concentre nele em diversos momentos, de forma marcante.) Uma terceira narrativa, a da presença ominosa de Yoko no estúdio, interferindo na harmonia do quarteto, se desfaz. Sim, ela aparece já no segundo minuto de projeção e acompanha John pra lá e pra cá, mas não fala. A câmera pouco se interessa por ela… Ou talvez a edição tenha preservado apenas seus momentos mais inexpressivos.

Paul também estrela os dois “clipes” mais conhecidos do filme, as interpretações da música-título e de The long and winding road, repletos de closes dele. Ele é o único que parece reconhecer a presença da câmera e que concorda em “atuar” para o diretor. Ainda mais que outros sucessos incluídos no filme, Two of us é a música-símbolo de Let it be. Não só pela letra (“We’re going home”, etc.), mas também pelo tempo que merece na tela. Vemos a canção tomando forma, primeiro em uma versão de trabalho — elétrica e mais roqueira — gravada ainda no estúdio Twickenham. O famoso bate-boca entre Paul e George (“Eu toco o que você quiser que eu toque. Se você quiser, posso tocar nada também”) se dá durante um debate sobre o arranjo da canção. E, afinal, já nos estúdios da Apple, é o primeiro número número a ser apresentado 100% completo, já no formato acústico e delicado eternizado no álbum (aliás, é a faixa de abertura do disco).

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Musicalmente, o filme mostra que os Beatles já estavam, em 1969, com um pé nos anos 70. O som nos ensaios é pesado e blueseiro, com os caras tentando recuperar de forma meio desajeitada o jeito de tocar em conjunto. Vamos lembrar que o quarteto já não funcionava como uma “banda de verdade” há um bom par de anos e que no Álbum branco, o disco anterior, cada um dos quatro fez o que quis, usando os outros três como meros ajudantes (às vezes, nem isso). O espírito gettin’ back inspira o quarteto a arriscar jams repletas de velharias, como Besame mucho e uma desanimada (e desafinada) You really got a hold on me. É também em uma jam que vê-se o único momento em que John realmente se empolga: Dig it.

Por falta de novas canções — ou talvez já de olho no que lançar nas carreiras solo — John & Paul ressuscitam One after 909, cuja gravação original de 1963 não tinha sido lançada até ali. Enquanto isso, George tinha um baú de composições guardadas, às quais a dupla principal não dava muita atenção. É bacana vê-lo trabalhando em For you blue, ajudando Ringo a encorpar Octopus’s garden e liderando a banda em uma versão de I me mine diferente da do disco, com direito a um interlúdio quase flamenco.

Cena do filme Let It Be, dos Beatles

Cenas do rooftop, 30 de janeiro de 1969: um aspone da Apple segura a letra de ‘Dig a Pony’ para John, a galera na rua olhando pra cima incrédula e os bobbies chegando para acabar com o fuzuê

O grand finale do filme, o concerto no telhado da Apple, não foi a conclusão do projeto. Era a única concessão do documentário a um esquema de narrativa tradicional: filmamos os Beatles compondo, gravando, discutindo e encerramos com o resultado final. Mas as filmagens na Apple continuaram; na verdade, as gravações de Let it be, Two of us e The long and winding road foram feitas depois do show. Obviamente é o ponto alto do longa, no qual Lindsay-Hogg assume o papel de cinejornalista, entrevistando os surpresos londrinos, capturando o caos na rua Saville Row e a intervenção da polícia. Mais que apenas o “último show” dos Beatles, foi o momento em que eles afinal voltam a confrontar o mundo real, depois de anos trancados no estúdio, viajando pela Índia e tecendo mirabolantes planos empresariais. O mundo real bate palmas, mas também envia a Scotland Yard para acabar com a barulheira. É tudo muito espontâneo, mas também há um tom farsesco na coisa toda. Não é como se os Beatles não soubessem que o showzinho iria dar merda. Eles eram os Beatles, pô.

E porque eles eram os Beatles, Let it be sempre será indispensável, mesmo que pouco acessível. Cada um dos filmes dos quarteto tem sua graça específica. A “graça” do documentário é mostrar os Beatles humanos. Não os reis do iê-iê-iê, os xamãs psicodélicos ou o desenho animado. Nos outros quatro filmes, os Fab Four pertencem a outro(s) mundo(s). Em Let it be eles são (quase) gente como a gente: acordam cedo para trabalhar num lugar chato, com um chefe chato (Paul, claro) cobrando resultados; relaxam ao voltarem pra casa (a Apple) e ao receberem amigos (Billy Preston). Para encerrar, fazem uma festinha na laje que acaba com a presença dos meganhas.

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“Lembro-me (…em uma reunião sobre o filme) de ouvir de John: ‘Ah, entendi. Ele quer um trabalho’. E eu (disse): ‘É isso mesmo. Acho que devemos trabalhar. Seria bom’. (…) Em seguida, tivemos discussões terríveis — então teríamos a dissolução dos Beatles no filme, em lugar daquilo que realmente desejávamos. Provavelmente foi uma história melhor — uma história triste, mas era a que havia” — Paul*

*Depoimentos extraídos do livro Antologia — The Beatles (Cosac & Naify, 1995).

Publicado originalmente no blog Telhado de Vidro

Mais Let it be no POP FANTASMA:
– Trinta coisas que você já sabia sobre o rooftop concert dos Beatles
– Discos da discórdia 10: Beatles com Let it be… Naked
O fim (??) dos Beatles no podcast do POP FANTASMA

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Jornalista, escrevendo coisas que ninguém lê, desde 1996 (Jornal do Brasil, Extra, Tribuna da Imprensa, Rock Press, Cliquemusic, Gula, Scream & Yell, Veja Rio, Bula)

Cinema

Michael Lindsay-Hogg: descubra agora!

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O cara que dirigiu Let it be (o filme dos Beatles que hoje todo mundo conhece como uma série chamada Get back) rende, ele mesmo, uma série cheia de histórias. O americano Michael Lindsay-Hogg, hoje com 81 anos, diretor de TV e cinema, é filho da atriz irlandesa Geraldine Fitzgerald, grande nome da Broadway que migrou para o cinema. Herdou o sobrenome do inglês Sir Edward Lindsay-Hogg, com quem sua mãe foi casada, e cresceu acreditando que o britânico era seu pai biológico. Só que havia uma belíssima confusão por trás disso: sua mãe disse a ele, quando Michael tinha 16 anos, que havia suspeitas de que o cineasta Orson Welles – com quem ela tivera um affair – era seu verdadeiro pai.

A informação chegou aos ouvidos de Michael de maneira tão confusa que ele passou um bom tempo na dúvida sobre se aquilo era verdade ou não. E para piorar, Orson era bastante próximo da família, a ponto de Michael ser amigo de infância da filha do cineasta, Chris. O bom tempo aí não é figura de linguagem, não. Em 2010 (!), após até mesmo a própria Chris afirmar que acreditava que ele poderia ser ser irmão, Lindsay-Hogg decidiu fazer um teste de DNA, que não revelou praticamente nada. Seja como for, Patrick McGilligan, autor da biografia Young Orson, afirma que o cineasta não poderia ser pai de Michael pelo motivo de que Geraldine estava na Irlanda quando engravidou, e isso teria acontecido durante um período em que Orson estava nos EUA.

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Com o tempo, Michael foi se interessando por dirigir programas de TV e acabou cuidando do Ready steady go!, sucesso jovem da televisão britânica. Saiu-se tão bem que acabou inventando o videoclipe. Bom, não foi bem assim: ele dirigiu alguns dos primeiros promos (filmetes promocionais) para músicas pop, nos anos 1960. Coisas como Rain e Paperback writer, dos Beatles, 2.000 light years from home, dos Rolling Stones e outros.

Aliás, Hogg acabou cuidando de dois filmes para as maiores bandas dos anos 1960, Beatles e Stones. Por sinal dois caroços na vida das duas bandas: o proscrito Rock and roll circus, dos Rolling Stones, gravado em 1968 e só lançado em 1996, e… Let it be, dos Beatles, lançado no cinema em 1970 e sempre deixado de lado na era do DVD. E hoje, impossível não saber, transformado em prato principal das discussões pop, por causa de Get back.

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Pega aí sete coisas que Michael dirigiu – só não incluímos Let it be/Get back, porque esse você tem a obrigação de saber.

“RAIN”, BEATLES (1966). Por causa desse filme e do de Paperback writer, George Harrison costumava dizer que os Beatles “inventaram a MTV”. Na verdade, inventaram o hábito de fazer várias versões para o mesmo clipe, já que Rain teve três clipes, todos dirigidos por Michael Lindsay-Hogg. Num dos mais populares, os quatro parecem saídos da contracapa do LP Revolver (1966). Paul, que tivera um acidente de moto, aparece com um dente quebrado.

“CHILD OF THE MOON” – ROLLING STONES (1968). Lado B do single Jumpin’ Jack Flash, e a música mais bonita já feita por Mick Jagger e Keith Richards. Ganhou um clipe extremamente surrealista, o melhor feito pela banda na época. Uma mesma personagem é interpretada na juventude por Dame Eileen Atkins, e na velhice por Sylvia Coleridge. E deixa Jagger, Richards, Brian Jones, Bill Wyman e Charlie Watts intrigados. O clipe também é de Lindsay-Hogg, em parceria com Tony Richmond. Outros clipes da banda, como Angie e Start me up, também seriam dirigidos por Hogg.

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“ROLLING STONES ROCK AND ROLL CIRCUS” (1968, lançado em 1996). Concebido por Mick Jagger como uma ideia original para promover o disco Beggar’s banquet, esse filme tem caráter histórico. Soa como uma despedida digna dos anos 1960 – um ano antes dos Stones transformarem a década quase num morto-vivo com o festival de Altamont – e é a última aparição da banda ao vivo com Brian Jones, que morreria no ano seguinte. Os motivos pelos quais a banda decidiu engavetar o filme sempre foram nebulosos, e o mais provável é que tenham se sentido engolidos pelo Who (na ponta dos cascos). O próprio Hogg diz que ouviu Keith Richards dizendo que o show não era “o Who Rock And Roll Circus”. Parte da filmagem ficou perdida por vários anos, e teve que ser rastreada e restaurada.

“JOURNEY TO THE UNKNOWN” (série britânica, 1968). Produção de horror exibida pela ABC nos Estados Unidos, entre 1968 e 1969, e na Inglaterra pela ITV em 1969. Lindsay-Hogg dirigiu o episódio Matakitas is coming, sobre uma pesquisadora e um bibliotecário presos numa biblioteca com um assassino em série (o Matakitas do título, interpretado por Lion Lissek). Foi ao ar em 28 de novembro de 1968 nos EUA.

“NASTY HABITS” (filme de 1977). Michael, que já havia feito vários telefilmes, dirigiu essa comédia exibida nos cinemas, com Glenda Jackson, Melina Mercouri e Geraldine Page no elenco. O roteiro era baseado em The abbess of crewe, livro da escritora escocesa Muriel Spark, e leva o escândalo de Watergate para o dia a dia maluco de um bando de freiras sem caráter. Tem inteiro no YouTube.

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“THE CONCERT IN CENTRAL PARK” – SIMON & GARFUNKEL (1981, lançado em 1982). Feito com o objetivo de arrecadar fundos para a manutenção do parque de Nova York, o concerto que marcou a reaproximação da dupla (uma reaproximação que só duraria três anos, vale dizer) não teve sua importância dimensionada pelos dois na hora. Art Garfunkel se achava fora de forma, mas topou cantar. Paul Simon só se tocou da repercussão quando leu os jornais no dia seguinte. Hogg dirigiu o filme do concerto para transmissão na HBO e lançamento em vídeo. O próprio Simon despejou uma carreta de grana na gravação.

“YOU GIVE GOOD LOVE” – WHITNEY HOUSTON (1985). Lindsay-Hogg dirigiu também um dos primeiros clipes de Whitney, que foi definido pela Time como “a história de um romance com um cinegrafista”, já que a cantora aparecia sendo filmada por um admirador, no vídeo. Acostumado com os Beatles e os Stones dos primeiros tempos, Hogg estranhou o batalhão de funcionários com quem teria de trabalhar: cabeleireiros, maquiadores, estilistas… Mas tratava-se de um orçamento nada apertado e Houston era uma das maiores estrelas pop da época.

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Versão checa de Alice no País das Maravilhas

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Versão checa de Alice no País das Maravilhas

O cineasta checo Jan Švankmajer (tido como grande influenciador até de nomes como Terry Gilliam, animador do Monty Python) tinha vontade de fazer uma versão de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, mas sem que o filme parecesse com um conto de fadas. Fez isso em 1988, quando lançou Alice, ou Něco z Alenky (o título original, que significa Algo de Alice). O filme de Jan mistura técnicas de stop motion (com os objetos que cercam Alice) e live action, e dá uma ideia bem louca do que acontecia no mundo de Alice. Mas é um filme para ser visto por crianças – nada a ver com aqueles dois pesadelos envolvendo o mundo da garota que o POP FANTASMA publicou certa vez (veja aqui e aqui).

“Alice é um dos livros mais importantes e surpreendentes produzidos por esta civilização”, afirmou certa vez Jan, que quis preservar a ideia original, de que o texto de Carroll havia sido escrito como um sonho. “Um conto de fadas tem um aspecto educativo: trabalha com a moral do dedo indicador levantado, o bem vence o mal. Já o sonho, como expressão do nosso inconsciente, persegue intransigentemente a realização dos nossos desejos mais secretos, sem considerar as inibições racionais e morais, porque é movido pelo princípio do prazer. Minha Alice é um sonho realizado”, afirmou.

Confira aí embaixo, com legendas em português.

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Nove documentários bastante realistas sobre música: descubra agora!

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Nove documentários bastante realistas sobre música: descubra agora!

Let it be, documentário sobre os Beatles, já foi considerado um exemplo de filme em que o artista enfocado deixa baixar a guarda, e o cineasta pega de tudo: brigas, desilusões, comportamento tóxico, passivo-agressividades, etc. Com o novo Get back, que recauchuta e aumenta o material do filme, as coisas mudaram um pouco. Mas dá pra dizer que o clima meio azedo de Let it be animou vários artistas a adotarem o “venha como estiver” em documentários – e ainda fez vários cineastas deixarem a censura de lado e mostrarem tudo o que a câmera é capaz de focalizar. Segue aí uma listinha de nove documentários que seguem esse mesmo estilo.

“METALLICA: SOME KIND OF MONSTER” (2004). O velho clichê do “você vai se emocionar” levado a consequências meio estranhas: depois de assistir a esse documentário, que relata a guerra de nervos que virou o grupo americano na época do disco Saint Anger (2003), difícil de imaginar como a banda conseguiu sobreviver e se manter trabalhando. Jason Newsted tinha caído fora, Lars Ulrich falava pelos cotovelos, James Hetfield foi para o rehab, os integrantes chamaram um psicólogo para ajudar o grupo a manter a cabeça no lugar e o “alguma espécie de monstro” que emergia aí era o próprio comportamento tóxico dos integrantes. Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

“ANVIL: THE STORY OF ANVIL” (2008). Esse filme já esteve na Netflix e saiu de lá – e já passou no canal Bis algumas vezes. A história da banda canadense de heavy metal é das mais complexas: o grupo é citado como influência por bandas como Slayer, Metallica, Anthrax e vários outros. Mas passaram por um período de obscuridade em que os líderes do grupo precisaram se virar em empregos bastante humildes, com pouca grana. As coisas começam a parecer entrar nos eixos quando o grupo começa a fazer um novo disco com Chris Tsangarides, o mesmo cara que produziu o primeiro álbum do Anvil (esse disco saiu mesmo e se chama This is thirteen, de 2007). Dirigido por Sacha Gervasi.

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“LOUD QUIET LOUD: A FILM ABOUT THE PIXIES” (2006). O curto (75 minutos) documentário sobre a tour de “volta” dos Pixies em 2004 mostra que a banda retornou musicalmente nos eixos. Só que lá dentro, as coisas não iam tão bem quanto pareciam, e a estrada era um verdadeiro fardo para todos. Kim Deal (baixo) era ajudada pelos pais e pela irmã gêmea Kelley a não voltar para as drogas, David Lovering (bateria) parecia prestes a ter um ataque a qualquer momento, Joey Santiago (guitarra) lutava para manter a sanidade. Já Black Francis (guitarra, voz) virava a cara para não cumprimentar fãs, atendia jornalistas de má vontade e repetia frases de autoajuda no tour bus para manter a cabeça no lugar. Dirigido por Steven Cantor e Matthew Galki.

“THE CHILLS: THE TRIUMPH & TRAGEDY OF MARTIN PHILLIPS” (2019). O grupo neozelandês The Chills teve um quase-hit no Brasil, The male monster from the id, que tocou em algumas rádios-rock no comecinho dos anos 1990, mas nunca foi conhecido aqui. A história do grupo é tão cheia de momentos sombrios quanto Soft bomb (1992), o disco que tem essa faixa. O líder Martin Phillips lutou contra o vício em drogas pesadas por vários anos, o baterista Martyn Bull morreu de leucemia em 1983, a banda nunca conseguiu manter uma formação muito fixa e sempre pulou de gravadora em gravadora, apesar do prestígio. Recentemente, aos 54 anos, Martin descobriu que tem hepatite do tipo C – e o assunto aparece igualmente no documentário, que flagra o músico lutando por seu trabalho e por sua saúde (mental e física). Passou aqui no Brasil no InEdit. Dirigido por Julia Parnell e Rob Curry.

“COCKSUCKER BLUES” (1972). Desse aí a gente ate já falou no POP FANTASMA: trata-se de um documentário cinema-extremamente-verdade sobre tudo da turnê dos Rolling Stones em 1972. E por tudo, leia-se tudo mesmo: Keith Richards preparando-se para usar heroína, Mick Jagger cheirando cocaína, roadies e groupies usando drogas injetáveis, os Micks (Jagger e Taylor) fumando maconha. Surgem alguns momentos bizarros de pornografia: Mick Jagger aparece se masturbando, e em outro momento, uma groupie aparece nua na cama. Tá inteiro no YouTube e bate recordes de degradação. Dirigido por Robert Frank.

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“SUZI Q” (2019). A música e a trajetória de Suzi Quatro, cantora, baixista e radialista norte-americana, que teve sucesso quase meteórico graças a músicas como 48 crash e Can the can. O lado “cinema verdade” da história fica por conta da relação da cantora com as irmãs, que parece eternamente cagada por causa de ciúmes e problemas surgidos na época em que eram todas adolescentes e tocavam na mesma banda. Dirigido por Liam Firmager.

“CRACKED ACTOR: A FILM ABOUT DAVID BOWIE” (1975). Filmado em 1974, Cracked… é uma dureza de assistir, especialmente para quem é muito fã de Bowie. Feito para ser exibido na BBC, o documentário era bem realista em mostrar como Bowie, em plena turnê do disco Diamond dogs (1974), andava chapado e fora de órbita. Alan Yentob, o diretor, disse ter pego Bowie sempre nas primeiras horas da manhã (numa época em que o cantor pegava tão pesado na cocaína que mal dormia), em conversas rápidas. Bowie, que nunca gostou da ideia de ver o filme lançado em VHS ou DVD (nunca saiu), disse que “quando vejo isso agora, não posso acreditar que sobrevivi”.

“LAST DAYS HERE” (2011). Quando você ouvir falar que o artista tal “se mostrou como é” num documentário, procure ver se essa pessoa viu esse filme, que conta a história de uma figurinha bem bizarra do rock: Bobby Liebling, vocalista da pioneira banda de doom metal Pentagram, formada em 1971. Bobby passou vários anos drogadaço, destruiu sua carreira e no começo do filme, é visto aos 50 anos, morando num porão da casa dos pais. O estilo de vida de Bobby era tão degradante que os diretores Don Argott e Demian Fenton quase desistiram da ideia do filme, inicialmente. Mas tudo foi se ajeitando.

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“DIG” (2003). No Brasil, a banda americana The Dandy Warhols é o típico grupo-de-boate – todo mundo já dançou Bohemian like you em alguma festa e muita gente pensa que se trata de um lado Z do Blur ou algo parecido. Lá fora, tiveram sucesso por algum tempo, e sempre mantiveram um relacionamento de tapas e beijos com o grupo experimental The Brian Jonestown Massacre, que seguiu o caminho das loucuras de estúdio, da degradação (por causa do estilo de vida do líder Anton Newcombe) e do sucesso cult. O filme retrata a rivalidade entre as duas bandas. Mas vale dizer que alguns integrantes dos dois grupos (Newcombe entre eles) detestam o filme e o comparam a um programa de fofocas. Você decide se vale. Dirigido por Ondi Timoner.

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