Cultura Pop
Relembrando: Isaac Hayes, “Black Moses” (1971)

“Moisés negro” virou um apelido para Isaac Hayes, da mesma forma que “Pimentinha” para Elis Regina ou “O cantor das multidões” para Orlando Silva. Issac passou a ser chamado assim por causa de Dino Woodward, executivo da gravadora Stax, que via no maestro e compositor um papel de liderança equivalente ao do personagem bíblico, e dizia a ele que sua música havia ajudado combatentes negros no Vietnã (“eles choram quando ouvem sua música”, afirmava o executivo).
Nem mesmo foi Hayes que batizou seu quinto disco, duplo, de Black Moses. Nome e capa vieram da gravadora, que bancou um lay out sensacional, com uma capa que se abria em formato de cruz, e que mostrava o cantor de pé, usando um manto que o deixava bem mais próximo do universo bíblico do que do mundo da música. O cantor não gostou do apelido no começo, mas passou a ver a imagem do “Moisés negro” como um exemplo de orgulho black.
Black Moses faz 53 anos em novembro e mostra Isaac dando continuidade a uma trajetória de sucesso dentro da Stax, após marcos fantásticos como Hot buttered soul (1969) e a trilha do filme Shaft (também de 1971). Não era apenas uma fase de sucesso: era um período de muito trabalho, depois que a Stax perdeu força diante de selos como Motown e Atlantic. A gravadora forçou a barra para que o time de artistas contratados fizesse quase trinta álbuns, para repor a ausência de uma das maiores estrelas da casa (Otis Redding, morto em 1967).
Isaac não pretendia focar 100% no comercial, ao realizar álbuns: gostava de discos com músicas enormes e poucas faixas. Só que eram outros tempos: Hot buttered soul, com músicas enormes, repertório romântico (nem sempre composto por Isaac) e muitas partes faladas, virou febre e vendeu a rodo. Black Moses, um disco duplo, de repertório essencialmente amoroso, iria com certeza pelo mesmo caminho.
Apesar de Hayes ter feito sucesso em todo o mundo como autor de uma trilha sonora (extremamente plagiada, por sinal – até a novela da Rede Globo Bandeira 2 mandou para o ar um “tema de Shaft” particular, disfarçado de tema de abertura), Black Moses destacava mesmo eram seus trabalhos como cantor, produtor e arranjador. No disco, ele relia canções como Never can say goodbye (Jackson 5), (They long to be) Close to you (Carpenters), Need to belong to someone (Curtis Mayfield) e outras.
O disco apresentava também três versões do tema próprio Ike’s rap, que serviam como introduções de outras faixas. O Ike’s rap II é a faixa mais ouvida nas plataformas digitais, claro. Afinal, foi sampleado pelo Portishead (Glory box) e pelos Racionais MCs (na versão de Jorge da Capadócia, de Jorge Ben). Bizarro: Mano Brown, dos Racionais, precisou aturar repórteres (dos poucos que conseguiam entrevistá-lo) perguntando a ele sobre o fato de ele ter “sampleado o Portishead”.
O clima romântico de Black Moses não tinha nada a ver com a vida de Hayes em 1971. O maestro estava se divorciando e recordou ter chorado bastante durante as gravações. Alias, ele se recordava disso entre as poucas lembranças que guardava das sessões, que por sinal duraram longos oito meses. Mesmo assim (ou talvez por causa dos problemas amorosos), co-escreveu uma das músicas mais alegres e safadas do disco, Good love 69969.
Black Moses fez sucesso: galgou o Top 10 da parada americana e deu um Grammy para Isaac Hayes, e abriu espaço para mais discos bem sucedidos na Stax, além de outros que passaram batidos. Mas o relacionamento de Hayes com a Stax se tornou problemático e abusivo à medida que o cantor foi acumulando trabalhos para o selo.
Em 26 de junho de 1975, a revista Jet, dedicada ao público afro-americano, expunha a situação: Hayes tinha um contrato de 270 mil dólares por ano, mas considerava que a gravadora não o tratava com respeito, e queixava-se de discos ignorados pela Stax.
“A situação toda me custou muito”, disse ele, que entrou na justiça e gastou “uma bela quantia” para conseguir sua liberação, anos antes de artistas como Prince, XTC e George Michael entrarem em greve contra seus selos. Hayes não era só ele próprio: o maestro comandava um staff de 55 músicos que dependiam do salário que ele pagava, e qualquer atitude teria que ser muito bem pensada.
O músico montou o selo Hot Buttered Soul e avisou à Jet que contava com seu time para apagar traços da antiga imagem de “Moisés negro”. “Quero ser visto só como um entertainer. Essa imagem me limitava, as pessoas me viam como um salvador, e não como um ser humano”, dizia. A imagem que ficou não foi só a do líder do seu povo, mas a de um gênio musical, e Black Moses está aí para provar.
Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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Cultura Pop
No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.
Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)
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Cultura Pop
No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).
Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
Ouça a gente preferencialmente no Castbox. Mas estamos também no Mixcloud, no Deezer e no Spotify.
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