Cultura Pop
Relembrando: Funkadelic, “Free your mind… and your ass will follow” (1970)

Segundo álbum do multi-grupo de George Clinton, Free your mind… And your ass will follow é o tipo de disco que faz sentido quando escutado em caixas acústicas enormes, daquelas usadas em bailes funk, num espaço enorme. O risco é embarcar na viagem do Funkadelic e sair voando pelas janelas.
O disco oferece uma mescla de órgãos Farfisa gravados no último volume, guitarras com efeitos de panning, baterias gravadas com reverb no talo, vozes gravadas como se fosse conversas paralelas, vocais ora distorcidos, ora gravados no limite técnico dos corais gospel. E tudo foi gravado (dizem) em apenas um dia, com Clinton começando a desbravar o universo dos efeitos de estúdio.
A ideia original era ver se a banda conseguia gravar um disco inteiro viajando de LSD, apontando para, mais do que um futurismo negro, uma psicodelia negra, com ares contemplativos e guerrilheiros, simultaneamente. “Abra sua mente funky e você poderá voar”, diz uma das falas da faixa-título. Dez minutos de total perdição lisérgica que abrem o disco, com letra se resumindo ao seu título, além de frases dispersas que soam não como palavras de ordem, mas como o passatempo de uma viagem.
Free your mind dava passos decisivos no imaginário “sideral” que o trabalho de Clinton passaria a ter em meados dos anos 1970, com direito a palco-nave nos shows do Parliament, sua outra banda. “A ideia era colocar os pretos nos lugares onde você não imaginaria encontrá-los. A única pessoa negra que você via no espaço era o Uhura em Star Trek“, chegou a dizer o músico.
Não era só psicodelia. Tinha ainda muito do dia a dia da turma no álbum. O soul hendrixiano Friday night, august 14th falava de sexo e encontros casuais, em meio a guitarras e a uma bateria que ricocheteavam no ouvido. E daí para a frente, Free your mind dava, na medida do possível para um disco tão psicodélico, um banho de realidade no ouvinte.
Funky dollar bill, com guitarras funkeadas e piano de salloon, versava sobre um mundo em que amores e relacionamentos valiam menos que um dólar. “Você não compra uma vida/você vive uma vida (…)/ ele nunca estava em casa/ele trabalhava em dois empregos, nunca ficava em casa”. O funk sedado I wanna know if it’s good to you botava romantismo na receita, com versos que Marvin Gaye assinaria embaixo (“você faz meu coração bater mais doce que o mel que substituiu a chuva/desde que te conheci”) e um solo melodioso de órgão. O blues Some more, com vocais processados em algum pedal de órgão, modifica a anatomia humana (“eu disse que estou com um novo tipo de dor/estou com dor de cabeça no coração”).
O disco encerra com a gospel-psicodelia de Eulogy and light. Uma espécie de oração maldita, com vocais distorcidos e tensos, voando de um canal para o outro, e sons rodando ao contrário. Só que o deus da música é o vale das sombras do dinheiro e da destruição. “Nosso pai que está em Wall Street/honrado seja seu dinheiro, venha a nós o vosso reino (….)/De cada cabeça e bunda podem fluir dólares/dê-nos este pagamento, o pão nosso de cada dia/perdoe nossas idiotices enquanto roubamos uns aos outros”, grita Clinton.
Free your mind teve sucesso moderado, chegando à posição 92 das paradas nos EUA. O influente disco seguinte do Funkadelic, Maggot brain (1971), trouxe clássicos entre o rock e o funk, como Super stupid, além da faixa-título, um blues turbinado de dez minutos. Os excessos provocariam cavalos-de-pau na história do Funkadelic, mas tanto a banda quanto Clinton, em particular, se tornariam campeões de produtividade e grandiloquência no decorrer dos anos.
Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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Cultura Pop
No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.
Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)
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Cultura Pop
No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).
Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
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