Crítica
Ouvimos: Wado e Zeca Baleiro, “Coração sangrento”

- Coração sangrento é o disco que reúne Wado e Zeca Baleiro, com músicas de autoria da dupla – algumas delas feitas por trocas de áudio e vídeo no WhatsApp. Os dois se conhecem desde 2002 e, em 2007, Zeca gravou uma parceria da dupla, Era, no disco O coração do homem-bomba Vol.2. A produção do disco foi feita pela dupla com Sérgio Fouad.
- “São dez canções onde se vê rastros de referências várias, que fizeram nossa cabeça desde a infância até a nossa atuação como músicos profissionais: Trio Mocotó, Clube da Esquina, Paulo Diniz, Pessoal do Ceará e pitadas de rock indie”, define Zeca.
- “O álbum trata de pertencimentos, tecnologia, realidade virtual, coletividade e questões morais. É um disco contra o individualismo, mais na onda da construção de algo com menos ego, como num jogo de frescobol, onde o lance é manter a bola no ar”, define Wado.
Coração sangrento, disco que solidifica a parceria entre Wado e Zeca Baleiro, começa com uma sonoridade orquestral e sinuosa, lembrando os trabalhos setentistas de Beto Guedes. Essa é a sonoridade evocada na emocionante faixa-título, que inicia o álbum com os dois cantores soltando a voz em dupla. Logo na abertura, o/a ouvinte é apresentado (a) ao principal assunto do disco: uma vontade de se erguer “do charco do que é mediano” (como o próprio Wado afirma no texto de apresentação do álbum) e uma sensação de náusea existencial – por causa da deterioração do mundo, das relações humanas, dos sentimentos.
O álbum é marcado por uma noção pop-rock-MPB comum ao trabalho de Zeca, e pelas uniões musicais de Wado. Mesmo em canções que receberiam tranquilamente o rótulo de “samba”, há um cenário próximo do indie rock anos 2000 ou até do rock britânico oitentista. A faixa Carrossel do tempo, por exemplo, tem essa pegada de união de opostos – abre com pegada meio samba, meio pop, e traz acordes que lembram Smiths.
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Incêndios, um registro poético das durezas emocionais da vida (“entre as avenidas/salas e escritórios/guardo lágrimas/por detrás dos óculos”) é filha do rock oitentista e da MPB setentista, abrindo com uma batida de rock que logo evolui para algo próximo do samba-rock. Já a balada Congelou, que soaria perfeita em uma novela dos anos 2000, é uma das faixas do álbum que mais crescem com as cordas criadas pelo maestro Pedro Cunha.
Comportando-se do começo ao fim como um disco que merece uma segunda e uma terceira audição (para entrar, emocionalmente falando, no universo das letras da dupla), Coração sangrento é repleto de surpresas. Tem o retropicalismo do samba-reggae otimista Quebra-mar (“o bloco segue adiante/e junta o bairro distante/o povo sente a vontade/de ter de novo a cidade”), o sambão-joia antifascista Alma turva e a bedroom-MPB Amores e celulares, que ganha um aspecto quase dream pop graças aos teclados, e cuja letra fantástica lembra Paulinho da Viola e Jards Macalé.
Já o samba Zaratustra é uma canção profética como Gita, de Raul Seixas, só que em clima mais esperançoso do que apocalíptico. Tem muito sangue escorrendo desse disco, mas tem também muita vida pulsando, o que é o principal.
Nota: 10
Gravadora: Saravá Music.
Lançamento: 1 de novembro de 2024.
Crítica
Ouvimos: Douglas Germano – “Branco”

RESENHA: Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de setembro de 2025
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“A Zelite não gosta de forró/ A Zelite no samba, que caô”, diz Zelite, samba nordestino do novo disco do paulista Douglas Germano, Branco. A elite (que surge na faixa como trocadilho) fecha os olhos para estilos como o piseiro e para as renovações da música nordestina – mas cai dentro do que pode ser considerado cult, do que tem passe livre. A mesma elite que…
Bom, milhares de eventos poderiam ser citados aqui, mas vale dizer que Branco, novo disco de Douglas, é tudo ao mesmo tempo: experimentação, samba, nordeste, dedo na cara, verdades nada secretas. Douglas disse (num papo com ninguém menos que Tárik de Souza) ter feito tudo sozinho no estúdio, com alguns convidados e parceiros (Luiz Antonio Simas, Roberto Didio e Alfredo Del Penho entre eles), e que decidiu usar instrumentos de percussão onde eles necessariamente não seriam usados.
Com um clima sonoro que soa primo simultaneamente de Tom Zé e João Bosco, Douglas abre Branco com Na ronda, samba de umbanda com sons rangendo em meio aos acordes, ruídos que lembram algo trilhado no aço. Zelite, além de desmascarar pessoas, cria imagens (“surfista de trem faz vagão virar mar”), enquanto a ágil Tudo é samba, com Loretta Colucci nos vocais, lembra algo feito para Elis Regina. Ramo tem orações e diálogos entre o narrador e uma rezadeira, e a percussiva Ruge leão, troveja Xangô ganha ares de samba-enredo. Uma das faixas que mais ganharam beleza com o coral de dez integrantes que surge no disco.
Mais climas nordestinos surgem em Ode do pode ou não pode, 19 de março e nas evocações de Lenine na melodia e no arranjo de Xaxará. Bala perdida é um samba sombrio, comparando traçantes a luzes na escuridão, enquanto Desbancando Gordon Banks é um samba agitado, cuja letra visita vários mundos ao mesmo tempo. Uma surpresa é Branco, ijexá tocado no piano – cuja mixagem destaca o instrumento como condutor das melodias.
E já que as plataformas digitais não dão ficha técnica, não tem problema: Branco é encerrado com Branco áudio encarte, trazendo todos os créditos do disco em meio a violão e percussão. O fim de um disco feito para cutucar consciências.
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Crítica
Ouvimos: These New South Whales – “Godspeed”

RESENHA: Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Vindo da Austrália, o These New South Whales faz parte de uma geração mais recente do punk – na qual entram também grupos como Home Front e Spiritual Cramp. No caso deles, que lançam agora o quarto álbum, Godspeed, o resultado está mais para um cozidão bem feito e bem atualizado de referências. Ainda que até faça falta a procura de uma onda mais inovadora (território, por sinal, do Home Front), é um som mais instintivo – por sinal, Instinct, segunda faixa de Godspeed, tem guitarra estiligando e sonoridade que une Iggy Pop e Ramones.
A romântica Miss her varia entre pós-punk e Buzzcocks + Ramones. Big machine (a melhor do disco e a que tem mais cara de hit) e R.I.P. me aludem à nova leva de bandas pós-punk. Músicas como a faixa-título e Ecstasy aludem ao rock dos anos 1990, unindo punk, grunge e evocações de Pixies e Therapy?, enquanto a ágil Birdbrain alude a T.S.O.L. e a New Model Army.
Uma curiosidade em Godspeed é Nobody listens, uma espécie de punk sofisticado levado adiante por piano, voz e cordas, e que faz lembrar Changes, hit do Black Sabbath. Já as letras do álbum seguem o mesmo esquema de apelo aos instintos, recomendando mandar um foda-se para as expectativas alheias (Be what U wanna be e justamente Instinct), afastar FDPs de plantão (R.I.P me e a faixa-título) e coisas do tipo. O fato de unir referências e fases do estilo faz o TNSW soar às vezes como uma colcha de retalhos punk – mas os acertos são maiores.
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Crítica
Ouvimos: Jubba – “Caminhos tortos” (EP)

RESENHA: Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Slowrecords
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Inspirado em nomes como Mac deMarco e nos cenários lo-fi e shoegaze dos anos 2010 – e volta e meia lembrando a música de bandas como DIIV – Jubba estreia no EP Caminhos tortos pondo música e barulho em deprês, inquietações e altos e baixos pessoais.
O conceito do disco é basicamente a busca de caminhos pessoais, ainda que de forma totalmente distante dos padrões. Tanto que a abertura é com os ruídos e o beat eletronico leve de Ode aos esquisitinhos, música de versos como “eles esperam que eu caia / que eu fique na merda pra sempre” e “não vou mais fingir quem sou”. Climas deprês e vibes da “vida de artista” surgem em Empregos reais, balada de guitarra e de percussão eletrônica, que acaba ficando próxima do pós-punk e do eletrorock, com direito a citação de Teatro dos vampiros, da Legião Urbana.
Há algo de Legião também em Flores no meu quarto, música com beat eletrônico seco, que depois vira algo quase ambient, com guitarras e teclados – quase na cola do final de Fábrica, penúltima música do segundo álbum do grupo, Dois (1986) – e cuja letra fala sobre beleza na amargura e no isolamento. Sensível ganha ares de trip hop, com direito a uma segunda parte bem mais hipnótica. Climas herdados do hip hop lo-fi surgem nos efeitos sonoros de A sensação. No final, a triste balada experimental Eu não sei dizer adeus propõe seguir em frente.
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