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Crítica

Ouvimos: Tigre Robô, “Telefone pra cachorro”

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Ouvimos: Tigre Robô, "Telefone pra cachorro"

Muito do que está no primeiro disco do Tigre Robô, Telefone pra cachorro, confirma uma velha teoria nossa: bandas como Wire, The Fall e Public Image Ltd talvez sejam mesmo algumas das mais influentes da história. Com apenas onze faixas e nenhuma enrolação, o álbum da banda brasiliense mistura pós-punk de quarto com o experimentalismo lo-fi do Weatherday — como na abertura, Desconforto.

Há espaço também para uma mescla esperta de punk e rap, como em Atlas, com o excelente verso “como se dança com o mundo nas costas?”. A faixa remete a Akira S & As Garotas Que Erraram, e só não parece ainda mais com eles porque destaca uma guitarra — econômica, seca, honrando o pós-punk.

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O Tigre Robô, aliás, parece gostar de contrariar expectativas: Desperdício é punk de garagem que soa como o já citado Wire, ou como um Titãs alternativo, gravado na tora e meio bêbado. Definitivamente um indivíduo traz um baixo herdado da disco music (pense em Gang Of Four) e uma letra crua, com versos como “não sou uma ideia formada de certezas” e “nos fluidos pegajosos escorrem gosmentos os meus desejos”.

Carne de pescoço é blues rock ruidoso que remete à Patife Band – e que parece uma faixa gravada numa máquina de oito canais, em 1985, pronta para ser lançada num LP independente. Já Desconserto tem pegada power pop, melodia que flerta com os Beatles e uma vibe que, curiosamente, lembra o Blur dos primeiros discos.

Na salada sonora do Tigre Robô, ainda cabe Turismo, um punk com teclados e baixo em diálogo, na linha dos Stranglers. E uma pequena joia quase psicodélica: Todos seus amigos são supermodelos, que começa como se o Jefferson Airplane tivesse caído no punk e prossegue com solos de guitarra tomando o comando.

Nota: 9
Gravadora: Manga Rec
Lançamento: 20 de janeiro de 2025.

Crítica

Ouvimos: Flea – “Honora”

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Ouvimos: Flea – “Honora”

RESENHA: Flea solta Honora, álbum solo de jazz experimental, espiritual e político; disco denso, pessoal e atento, que mistura melodia, ruído e introspecção.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Nonesuch
Lançamento: 27 de março de 2026

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“Somos todos seres humanos. Não podemos simplesmente nos dar bem?”, exclama Flea no intrincado tema jazzistico A plea, que abriu a temporada de singles solo a anunciar sua estreia Honora. Olha… com certeza não, já que algumas pessoas que caminham pela terra nem sequer agem como seres humanos ou têm algum interesse que vá além de seus poderes e seus bolsos.

O baixista dos Red Hot Chili Peppers, vale dizer, é um idealista – um sujeito para quem música e criatividade não têm limites. A plea é um tema bem construído que avisa que há cheiro de guerra civil no ar, pregando em seguida que todos devemos fazer algo bonito e construir pontes. Errado não está, ainda que na letra role um clima zabelê típico da poética de seu grupo original.

Esquecendo disso, é pra focar no que interessa: Honora, estreia em álbum solo do músico (há também o EP Helen burns, de 2012), é um baita disco de jazz e adjacências. E é um álbum feito para fruição demorada e atenciosa – lançado pelo selo experimental Nonesuch da Warner. Um selo cujo catálogo inclui de Tortoise a Steve Reich (no Brasil, até mesmo o disco ao vivo do guitarrista pernambucano Ivinho, gravado em Montreux, saiu com a etiqueta Nonesuch).

Flea voltou a seu passado de adolescente fã de jazz que tocava trompete e decidiu, mais do que impressionar os fãs de seu grupo, agradar a si próprio com um disco experimental, que oscila entre o ruído e a melodia, a psicodelia e a espiritualidade, em faixas como Golden winship, a estilingada (e já citada) A plea e o post-rock meditativo, com quase onze minutos, de Frailed. Esta, uma faixa que ganha tom cigano com a entrada de um violino, e que vai sendo levada para uma onda quase cerimonial, na qual cabem um diálogo surpreendente entre piano e baixo, e uma guitarra bem blues.

Tem coisas em Honora que soam como uma visita a sonoridades bem clássicas, como o jazz “caminhante”, lembrando Herbie Hancock, de Morning cry – um som suingado, com prato de bateria como atração à parte, e próximo de uma vibe sessentista que depois se transformaria na fusion. Maggot brain, do Funkadelic, vira instrumental com a letra ecológica narrada, no começo, antes da faixa começar – flautas, trompete, cello e xilofone transformam a música num tema espiritual, que ganha ares psicodélicos e distorcidos.

Honora é um disco de jazz, e não exatamente “sabor jazz” – mas invade áreas como a do rock à Radiohead em Traffic lights, por acaso com participação de Thom Yorke (que soa contido e mantém agudos sob controle). Sem contar o fusion + soul psicodélico de Free as I want to be, com guitarra fantástica e lisérgica de Jeff Parker, e título repetido em coro, como num cerimonial. A capa do álbum investe no lado anti-guerra que o próprio Flea narra em A plea, trazendo uma foto de Shahin Badiyan, sogra de Flea, clicada no Irã nos anos 1960.

Mesmo que o material autoral de Flea seja ótimo, os momentos de maior entrega e emoção estão em dois covers: Wichita lineman, clássico country gravado por uma porrada de gente, ressurge em clima introvertido, com Nick Cave nos vocais. Thinkin bout you, de Frank Ocean (do disco Channel orange, de 2012), aparece em versão instrumental, com clima de tristeza e beleza, levado pelo trompete de Flea. Na prática, não são apenas covers: Flea deu outro sentido às duas faixas, e de certa forma mostrou que ele mesmo foi transformado e tocado por elas. Honora é um relato pessoal e musical de peso.

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Crítica

Ouvimos: Mac Júlia – “Segue o baile”

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Ouvimos: Mac Júlia – “Segue o baile”

RESENHA: Mac Júlia mistura funk a la BH, rap e soul em Segue o baile, álbum de resistência, experimentação e batidas híbridas com crítica, amor e peso.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de março de 2026

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Mac Júlia é a voz feminina de Se tá solteira, hit funkeiro de FBC e Vhoor, do álbum Baile (2021). Seu som localiza-se entre o peso do funk, e a resiliência do rap. E basicamente Segue o baile, seu novo álbum, nasce da força do funk mineiro, que vem de um universo bastante particular.

O tal universo “particular” indica que em BH, recursos limitados viram fator de experimentação, o ambiente sonoro é bem mais livre, e o estilo foi absorvido em meio a um clima musical bastante amplo – no qual o funk passa por várias misturas, e ganha uma representação toda própria, num espelho do que rola com rock, soul, jazz e até heavy metal quando são feitos em Minas.

Por acaso, o diretor artístico de Segue o baile é FBC, que transitou recentemente pelo soul, pela MPB, pelo rap e pelo funk em lançamentos diferentes – e que na versão ao vivo de seu disco Assaltos e batidas, transformou seu rap de guerrilha em jazz e música popular de Minas. A frase “segue o baile” soa mais como cláusula de existência, de resistência, do que uma onda de “música feita pra dançar”, nas mãos de Mac Júlia, FBC, Pepito (produtor, cujo nome é citado nominalmente por Mac Júlia nas faixas) e do time de convidados.

Tanto que Para não, logo na abertura, une funk, rap, grave, música sombria, versos sobre o “trem-bala mineiro” e recados para bolsonazis de plantão – num esquema de Miami bass feito por uma rapper. Eles podem dizer que não segue abrindo em clima funk melody, avisando que “vai lembrar de mim, se não for de amor vai ser de ódio”, e falando de briga e resistência no mundo da música.

Segue o baile tem amor, funk melody e dedo na cara em Amor de açúcar. Tem também batidas fortes, refrão-grito de torcida e sensação de perigo na ágil Tropa das onça, híbrido de funk, big beats e rap guerreiro. Confuso soa como um Sexual healing do funk mineiro, em que os dilemas de um casal acabam na cama – e em que o velho funk melody carioca ganha contornos existenciais e poéticos bem mais profundos. Logo eu tem Mac Júlia fazendo vocais entre o rap, o blues e o spoken word.

Rola até um “uh tererê” só de brincadeira no funk voador e sacana Vai querer, com FBC fazendo vocais, além de elementos de soul clássico funkeados em Nossa história. Mais uma vez a inovação vem de Minas.

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Ouvimos: Wax Head – “Gnat”

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Ouvimos: Wax Head – “Gnat”

RESENHA: Barulho pesado e inquieto: o Wax Head mistura garage, industrial e punk em Gnat, disco curto, experimental e sujo, com referências bem específicas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Sour Grapes
Lançamento: 1º de abril de 2026

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O peso sonoro já foi uma instituição sonora do rock norte-americano. Hoje, muita coisa bastante pesada tem vindo da Inglaterra – como o The Shits, dos quais falamos hoje mesmo aqui no Pop Fantasma. O Wax Head vem de Manchester e faz apenas meia hora de barulho impaciente em seu álbum de estreia, Gnat.

O som do quarteto tem influências bastante específicas: garage-rock dos anos 1960, psicodelia australiana, garage-punk californiano. Mas Gnat ainda investe em peso próximo do industrial, sons maquínicos que fazem lembrar Alien Sex Fiend e pancadarias entre o metal e o punk. Aliás, existe uma coisa qualquer no som do Wax Head que evoca o Devo, ainda que climas oitentistas não sejam bem a cara do grupo.

  • Ouvimos: Witch Post – Butterfly (EP)

Gnat abre com uma faixa-título punk, sombria e repetitiva, cai dentro dos riffs-buzina de Bug doctor (que traz as tais emanações de Alien Sex Fiend) e chega o mais próximo possível do beat puladinho do Devo em Terminal sinker – só que quem ouvir, vai acabar lembrando mais de Cramps e Suicide. Rola até algo que parece uma cama curta de teclados em Clatter coats, um punk levado adiante por uma linha de baixo, e que pode até se transformar num metal. Mas foca no experimentalismo, com percussões, vocais reverberando e um estranho ar espacial lá pela metade.

O lado mais garage-rock de Gnat surge em faixas como Rusty cutter, com lembranças bem claras de bandas como Jon Spencer Blues Explosion – e cuja letra, como define a própria banda nesta entrevista, fala sobre “se distanciar das pessoas”. Grupos malditos como Suicide e Swans são devidamente louvados no som lascado de Resin214 e na porradoterapia de Drawöh vs Lineus Longissimus, música com vocal falado e clima de máquina mesmo no som de guitarras. Takeover tem lentidão que lembra Black Sabbath.

O Wax Head é uma banda à procura de um público específico: gente curte brutalidade sonora, mas sempre de olho numa esquina entre o experimentalismo dos anos 1970 + 1980, e o barulho suarento dos anos 1990. Esse clima insociável ganha cara de arte na última faixa, Clamp, próxima do punk-hardcore, com riffs alternados, clima sombrio e pesado. Ao vivo, isso deve ser uma beleza…

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