Crítica
Ouvimos: Ministry, “HOPIUMFORTHEMASSES”

- HOPIUMFORTHEMASSES é o 16º álbum do Ministry, banda de metal industrial de Chicago eternamente liderada por Al Jourgensen (voz, guitarra). No ano passado saiu o clipe de um dos singles, Goddamn white trash, que já vinha sendo tocado pela banda ao vivo.
- O disco tem participações de Eugene Hutz (Gogol Bordello), Pepper Keenan (Corrosion of Conformity) e Jello Biafra. Já o núcleo duro do grupo inclui hoje, além de Jourgensen, John Bechdel (teclados), Monte Pittman e Cesar Soto (guitarras), Roy Mayorga (bateria) e Paul D’Amour (baixo).
- “Estou observando mudanças sociais, políticas e econômicas, e comento sobre elas porque tenho o direito da Primeira Emenda. Muitas pessoas dizem que artistas e atletas deveriam calar a boca e jogar bola. essa viagem também. Se eu vejo algo, eu digo algo. Isso reflete sobre o destino de cada álbum”, diz, sabiamente, Al.
Depois do magistral Psalm 69: The way to succeed and the way to suck eggs, que foi lançado faz tempo (saiu em 1992 e é o único disco deles que muita gente tem em casa), qualquer disco do Ministry tem sido nota sete, às vezes um pouco para cima ou para baixo. A banda de Al Jourgensen, maluco lúcido de carteirinha, faz assumidamente um som pesado, eletrônico, cinematográfico (repleto de samples de filmes e até de discursos de políticos) e, às vezes, meio repetitivo.
Os shows são fantásticos, como mostrou a passagem da banda pelo Rock In Rio, em 2015. Enquanto isso acontece, sempre surge gente cultuando a fase inicial do grupo, quando inacreditavelmente faziam dance music e se pareciam fisicamente com o Depeche Mode, e às vezes dá a impressão que a banda está até hoje tentando fazer algo parecido com suas melhores faixas: Stigmata e Just one fix.
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O melhor do Ministry está no peso, na combinação de samples e nas letras, atualizadas e extremamente críticas – e que apelam, muitas vezes, para uma ironia bacana que em tempos como os de hoje, ficou (lamentavemente) cancelável. HOPIUMFORTHEMASSES, o melhor da banda em muitos anos, vai bem nessa linha, pedindo a “ajuda” de “pessoas sem educação e prontas para a guerra” em Goddamn white trash, falando sobre incels, masculinidade assassina e violência em B.D.E (“o que antes era proibido se torna marginal, e o que era marginal se torna mainstream”, diz a letra) e soando bastante parecido com o Nine Inch Nails e com o Killing Joke num inusitado soul-metal, Cult of suffering – cuja letra espalha brasa para Wladmir Putin e o governo atual da Rússia. O metal sabbathiano Aryan embarassment tem participação de ninguém menos que Jello Biafra.
Para quem tem saudade da fase inicial do Ministry, um aceno: a banda encerra o disco com uma versão do projeto industrial-vanguardista Fad Gadget, Ricky’s hand, que soa como um Ultravox distorcido, um synth pop mais podre que o normal, com uma letra que fala das pequenas violências de cada dia. TV song, música do Psalm 69, ganha continuação em TV song 1/6 edition. E a anti-corporativa Just stop oil é metal-punk-dance como a banda fazia em tempos áureos. O Ministry de 2024 é isso aí, e faria uma falta danada se não existisse, ainda mais nesses tempos estranhos.
Nota: 8
Gravadora: Nuclear Blast
Crítica
Ouvimos: Mega Fäuna – “Softmore”

RESENHA: Mega Fäuna lança Softmore, álbum de dream pop e neo-psicodelia que mistura guitarras etéreas, synth pop e letras sobre feminilidade, amizade e liberdade, em um dos discos mais delicados de 2026.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Blossom Rot Records
Lançamento: 19 de março de 2026
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Se você for no mais completo desaviso, pode ser uma tarefa complexa procurar a banda australiana Mega Fäuna no Google – até porque tem um software chamado Megafauna e o disco delas se chama Softmore. Passando o susto, prepare-se para descobrir um dos discos mais delicados de 2026: dream pop com riffs e guitarras ecoando ao lado dos vocais, letras sobre feminilidade e amizade, e privilégio das texturas sobre outros detalhe da composição. Ouvindo canções como Lifelike, Kiss the sky e o synth pop minimalista Sleep deceit, você fica curioso / curiosa para entender de onde vêm todos os vocais, e para definir o que é som e o que é sombra musical.
- Ouvimos: Alex Cameron – Late to set
Em alguns momentos, o som delas lembra Smiths, só que com Lou Reed na guitarra – ou quem sabe uma versão mais neo-psicodélica de bandas como The Primitives. As duas hipóteses surgem em faixas como Heartbeat, mas ainda há uma faceta bem sombria na música do Mega Fäuna, como no clima experimental e hipnótico de Make believe e a tristeza + esperança narradas (a cara de Lou Reed!) de The subtle knife is a knife used to cut through different realities. Uma música em que “a faca sutil” do romance de mesmo nome de Phillip Pullman serve para cortar o universo e ir para uma realidade diferente.
A faixa-título de Softmore meio que resume a viagem sonora do disco: psicodelia sinuosa, ligeiramente balançada e ligeiramente britpop, lembrando bandas como Stone Roses e The Verve. Por acaso, a banda a definiu como “uma ode a ficar acordada a noite toda, jogar a cautela para o alto, sentir-se completamente livre e abandonar as inibições”. Mas ainda tem o som meio derretido de Unheld, o pós-punk doce de BB there e muita coisa viciante nesse disco.
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Crítica
Ouvimos: Gabo Islaz – “Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração”

RESENHA: Gabo Islaz estreia em carreira solo com Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração, álbum de indie rock lo-fi que transforma memórias, afetos e nostalgia em canções de forte carga poética.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Chupa Manga Recs
Lançamento: 26 de maio de 2026
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Álbum curto e bastante poético, Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração marca a estreia solo do gaúcho Gabo Islaz, em clima de caminhos percorridos e recordações de amigos e familiares queridos. Na capa, o time juvenil do IPE Juniors – time no qual seu avô era treinador – comemora um gol no começo dos anos 2000. Uma época “de transição” em que fotos de papel seriam em breve substituídas pelas imagens das câmeras Cybershot (e pelas fotos meio aguadas dos primeiros smartphones).
- Ouvimos: Juliano Gauche – A balada do bicho de luz
Esse clima de memória histórica, de coisas que passaram pela gente sem que nos déssemos conta, é a cara do disco de Gabo – em meio a uma sonoridade de puro rock alternativo lo-fi, em que guitarras “batidas” misturam-se a synths e a vocais bastante despojados. A variedade musical do disco inclui flertes entre indie rock e bossa nova (Solzinho), baladas com clima oitentista (Me deixei), sons com clima mutante e 60’s (Abraços, emoções e Dente de leite), rock triste (as baladas Nocaute, A ternura e Mapa-múndi).
E tem também jangle pop ruidoso e psicodélico (Olá, meu amigo, inspirada no canto de torcida argentina Mi buen amigo, e Retrato pra esquecer pts 2 e 3, sendo que a “parte 3” mergulha na eletrônica lo-fi). Nas letras, as memórias ganham aspecto de cartum, ou anotação de diário – já nas imagens de Nocaute, rola uma crueza amorosa bem louca, do tipo que você não sabe se o amor deu ruim ou não (“estou pensando em você / tal qual um boxeador / que tomou no queixo e tonteou”). Mas dá pra imaginar o bom e ruim acontecendo ao mesmo tempo.
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Crítica
Ouvimos: Sloe Noon – “Principles in the way of progress” (EP)

RESENHA: Sloe Noon lança Principles in the way of progress, EP de alt-rock que mistura indie, punk e pós-punk em canções confessionais sobre identidade, frustrações, família e amadurecimento.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Dalliance Recordings
Lançamento: 20 de março de 2026
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O Sloe Noon vem da Alemanha, é um projeto musical criado por uma cantora e compositora chamada Anna Olivia Böke, e faz uma espécie de alt-rock anos 1990 revisitado – aquela onda vibe confessional + guitarras pesadas + origens no soft rock que deu sentido a várias carreiras na época, e dá até hoje – mas cruzado com estilos como punk e pós-punk.
Tem ainda um componente indie anos 2000 forte no som dela, que no EP Principles in the way of progress faz de canções como Principle I algo que conversa com fases iniciais dos Arctic Monkeys. Mesmo sendo um som marcado pelo ensimesmamento e pela vontade de jogar todo o peso da vida pra longe. E mesmo que faixas como Last one home invistam num clima mais punk, com batidas ágeis, riffs econômicos e baixo guiando a melodia (opa, nessa música tem até uma virada com som de bateria Simmons, lembra disso?).
- Ouvimos: Horney – Anti-raso (EP)
Youthless, useless, por sua vez, cruza riffs, batidas punk e vocais distorcidos em nome de uma das músicas mais sérias e confessionais do EP (“sou filha de pais divorciados, preencho as rachaduras como cola / espere que eu voe e eu garanto que vou te decepcionar / me dê rosas e eu te darei espinhos”, canta Anna). I happen to the world and it happens to me, por sua vez, traz algo entre New Order e o Foo Fighters de The colour and the shape (1997), enquanto W, fechando o EP, põe violões, vocais tristes e ambivalência emocional na justaposição de climas.
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