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Ouvimos: Funeral Macaco, “Idade do pássaro” (EP)

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Ouvimos: Funeral Macaco, “Idade do pássaro” (EP)

Com origens na “cacofonia da favela de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio” (frase tirada do próprio Instagram do grupo), o som do Funeral Macaco une pós-punk e brasilidades, num resultado que lembra tanto o rock pernambucano dos anos 1990 quanto bandas como Black Future e Paulo Bagunça e a Tropa Maldita. A capa do disco, por sua vez, dá uns traços com a de Exuma I, a estreia do Exuma (do hit Exuma, The Obeah Man).

Canicule, a faixa-título, resume tudo: baixo pesado, batuque de umbanda, vocal parecendo um dialeto, guitarra econômica, bateria soando como uma porrada rápida, entre rock e jazz – basicamente uma só nota entendida e transformada em algo pesado e sombrio. Congo e Angola é um samba fantasmagórico, com letra que lembra algo de Luiz Melodia. Frevo é um frevo de vocal furioso e bateria igualmente tensa, uma energia que passa pelo entendimento pós-punk do estilo.

General Candongueiro traz vocal cantado num ponto de umbanda, letra soando como homenagem a uma entidade – algo que ressoa na percussão-e-voz de Morangueira, e no ritmo quase cardíaco, que vai crescendo aos poucos em letra e peso musical, de O tempo do maquinário não é o mesmo de Exu Elégbará. Ao vivo, o Funeral Macaco deve ser uma enorme surpresa – e vale esperar pelos próximos shows.

Nota: 10
Gravadora: Independente
Lançamento: 13 de março de 2025

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Crítica

Ouvimos: Gurriers – “Nobody’s coming to save you”

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Resenha: Gurriers – “Nobody’s coming to save you”

RESENHA: Em Nobody’s coming to save you, o Gurriers transforma ansiedade, vulnerabilidade e inconformismo em noise rock opressivo, com riffs brutais, pós-punk e melodias em alta tensão.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Play It Again Sam
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Já que tem um monte de bandas descobrindo as maravilhas do shoegaze, sobrou para os dublinenses do Gurriers (e seus conterrâneos da Gilla Band) a missão de vasculhar os subterrâneos do noise rock – e dar a ele um formato grandioso, entre vocais impacientes, riffs de arrasar e argamassa entre o punk e o pós-punk. O adjetivo “opressivo” costuma brotar em nove entre dez textos sobre o grupo, e o segundo álbum, Nobody’s coming to save you, é a opressão pura e simples – mas como resposta do oprimido, como certeza de que o mundo tem se tornado cada vez mais um lugar frio como gelo, duro como pedra.

“Frio como gelo, duro como pedra” é uma definição melhor ainda para o som da banda, mesmo quando caem na descaralhação punk. Dan Hoff é um vocalista de alto impacto, na voz e na interpretação, lembrando uma versão mais sarcástica de Joe Talbot (Idles). O grupo cria um baita clima de medo nas guitarras sombrias da faixa-título e de Today is not enough, faz uma batucada pós-punk feroz em Party lines e lança mão de guitarra e bateria em vibe maquínica em Shades. E faz uma união de épocas em Pins: guitarra dedilhada a la John Frusciante, beat funkeado e musicalidade cheia de sombras.

Investindo no noise-rock canção em faixas como Drones (aberta com eles mesmos, os drones), Nothing happens twice e Waiting for fisher, o Gurriers às vezes lembra um estranhíssimo encontro entre Public Image Ltd e Red Hot Chili Peppers – com Dan Hoff às vezes tendo ataques de Nik Fiend (Alien Sex Fiend). Nas letras, por sua vez, a banda pega em fios de alta tensão, e fala sobre nunca se acomodar (na faixa-título) e sempre se colocar (Shades bate na cara dos artistas que ficam em cima do muro).

A ansiedade, mal do século, é tema da depressiva Drones (“não consigo nem manter um emprego sem lágrimas no travesseiro / amaldiçoado com uma carranca permanente, todos pensam que sou um idiota”). Crybaby, faixa triste e distorcida que parece vir de uma fita antiga, é linda e luminosa tanto quanto é uma canção sombria – e basicamente fala sobre o momento em que a vulnerabilidade não é aceita, sobre o que pode acontecer quando sentimentos antigos são invalidados. Pra bater cabeça e sentir.

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Ouvimos: Garage Fuzz – “Powerplant” (EP)

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Resenha: Garage Fuzz – “Powerplant” (EP)

RESENHA: Aos 35 anos, o Garage Fuzz segue em movimento no EP Powerplant, unindo punk melódico e hardcore a letras sobre ansiedade, pressão, desgaste e saúde mental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Odd Sounds
Lançamento: 14 de agosto de 2026

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Parece que foi ontem que tudo começou, mas o Garage Fuzz, uma das bandas punk mais rodadas do Brasil, chegou a 35 anos de história – e decidiu chegar à cifra se assumindo como um bólido em plena correria e atividade.

O EP Powerplant (terceiro lançamento da banda com o vocalista Victor Franciscon) olha a vida pelo lado da experiência e da saúde mental, abordando temas como peso nos ombros, desgastes, ansiedades e altas pressões do dia a dia, em faixas como a circular 220V e a melódica e ágil Overcharge (“liberte o grito, acredite na sua luta / mas não deixe isso te sobrecarregar”).

Investindo como sempre no punk melodioso, o Garage Fuzz acrescenta climas ligados ao hardcore melódico à faixa-título, riffs simples e criativos a Flashpoint, e guitarras que fazem lembrar The Police a Synergy. No final, Jaded, uma música de 2024, ressurge com uma vibe próxima do metal. Uma história de independência, ideologia e cuidado com as melodias e letras.

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Ouvimos: L’Rain – “Fata Morgana”

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Resenha: L’Rain – “Fata Morgana”

RESENHA: L’Rain encerra uma quadrilogia involuntária com Fata Morgana, disco que atravessa jazz, soul, country, eletrônica e psicodelia para criar músicas que até parecem familiares. Só que…

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Mexican Summer
Lançamento: 14 de agosto de 2026

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Já tem um próximo disco da L’Rain, projeto criado pela norte-americana Taja Cheek, vindo aí. Ela disse num papo com a newsletter Last Donut Of The Night que começou a compor, mas a única coisa que ela já tem em mente é que Fata Morgana, seu quarto disco, põe fim a uma quadrilogia. Uma quadrilogia que ela só viu que havia sido construída quando já estava pronta: são álbuns experimentais, psicodélicos, melódicos, com um ar “hendrixiano” mesmo quando nem há guitarras. E com várias heranças dos ambientes sonoros criados pelo Animal Collective – que alias ela cita no papo com a newsletter.

A história da Fata Morgana já inspirou várias canções por aí, e rende outras tantas – vem da história de Morgana Le Fay, uma curandeira temperamental que era meia-irmã do Rei Artur, e que em muitos mitos, surge como alguém que conspirou contra ele. Também tem a ver com uma ilusão de ótica que faz com que objetos distantes pareçam flutuar, e talvez essa onda seja a mais aproximável do som de Fata Morgana, disco em que L’Rain dá o último adeus a qualquer tentativa de classificá-la ou de meter sua música em alguma gaveta.

Explicar Fata Morgana pelo que ele não é fica mais fácil: não é rock, não é soul, não é “música eletrônica”, não é chamber pop, não é jazz (Taja usa a classificação “not jazz” no Bandcamp, aliás). É isso tudo mas consegue passar por essas classificações sem ser tocado por elas. Numa estileira que uma turma bem grande denomina como uncanny valley – ou seja, o que de primeira parece familiar, mas é BEM peculiar – L’Rain faz um som que parece sempre algo à primeira vista, mas de perto é bem assustador. Como quando você só repara que há uma cobra ou uma aranha numa foto quando já leva um susto.

A ilusão é o prato principal de Fata Morgana, em faixas como a balada soturna With time, o jazz experimental Blue, o country espacial July 5th, a miragem jazzística Bedroom songs e o “do sonho ao pesadelo” de Borderline, I remember e Elmyra. Tons vão sendo mudados, belos corais são acrescentados, e Fata Morgana vai ganhando vibes perturbadoras como a eletrônica maníaca de Soulless cycle (em que ela se diz um “ciclo psicopata” em meio a beats intermitentes e quase metálicos) e o soul progressivo Birthday.

No final, a psicodelia pura de Church of no one traz os vocais de Taja bem distorcidos, esmerando-se em versos como “dentro de mim um urso / e chifres / dissolvendo-se em amor”. Faltou falar das letras: entre fluxos de consciência, pensamentos de confinamento e estranhos recados, L’Rain parece estar dando voz a quem está quase ficando doente por causa dos padrões, do capitalismo, do sistema.

July 5th, por exemplo, é um dedo apontado na cara de quem se sente adaptado a uma sociedade podre: “se você não se importa com as broncas que leva / eu tenho um saco de 22,5 kg de vidas não contadas / cometi alguns erros e a polícia está sustentando / uma mentira que eles nunca viverão”. E aí… não é ilusão não: é verdade pura.

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