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Ouvimos: Raye – “This music may contain hope”

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Resenha: Raye – “This music may contain hope”

RESENHA: Musical pop grandioso e sem freios, Raye mistura soul, jazz, cinema e confissões em This music may contain hope, álbum que transforma exagero em emoção.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de março de 2026

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Você já ouviu tudo que pôde sobre um tal de hyperpop, e agora chegou a sua hora de encarar toda a falta de limites do maximalismo – que em música, é basicamente o “mais é mais, e ponto final” levado às últimas consequências, a ponto de você se perguntar se era preciso tanto. No caso de This music may contain hope, segundo álbum da britânica Rachel Agatha Keen, a popular Raye, o público não tem reclamado. O álbum, conceitual e estruturado como um musical de cinema, chegou em primeiro lugar na parada britânica.

Um feito e tanto para uma artista independente, que passou anos trabalhando nos bastidores como compositora. Antes da fama, músicas escritas ou coescritas por ela foram gravadas por nomes como Beyoncé, Ellie Goulding, Little Mix e ninguém menos que Anitta (o nome de Raye aparece entre os autores de nada menos que Girl from Rio, a música-assinatura da carioca).

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Seu primeiro álbum, My 21st century blues (2023), chamou a atenção por unir r&b, blues, dance music, pop sofisticado e toques de Amy Winehouse (que parece ser a maior referência audível de Raye), além de um storytelling confessional e real sobre traumas, abusos e jogo sujo da indústria musical. Este último tema, aliás, é algo sobre o qual ela pode falar por horas – Raye passou um bom tempo presa a um contrato com a Polydor que a impedia de lançar álbuns. Ao sair da gravadora, quis a independência completa, sem filtro ou intermediários.

This music may contain hope é uma caldeirada de r&b, jazz, dance music, soul, sofisticações a la Adèle e Amy Winehouse, gospel, sons clássicos, vulnerabilidade, contos de fadas, jornada da heroína (o feminino de herói, calma!) e músicas feitas para musical ou cinema. Pode acreditar: o maximalismo de Raye tem mais a ver com um estilo pessoal do que com um “chega, gente, não cabe mais nada aqui!”. E desde o começo fica claro que quem ouve o disco, vai ser guiado / guiada por Raye pela história. Não é um disco “conceitual” em que estilhaços são jogados na cara de todo mundo.

Intro: Girl under the grey cloud abre o disco introduzindo a personagem – uma mulher que lida com depressão, vícios, abusos, relacionamento fracassado, traições e a sensação de estar perdida. Ela busca redenção apesar de lidar com o coro grego que desacredita dela (na blues ballad I will overcome, que parece coisa de Jacques Brel), passa por namoros cagados (a mini-ópera-jazz Beware… The South London cover boy e o rap + big band The whatsapp Shakespeare) e se afoga na bebida (a vibe Rê Bordosa de Winterwoman). Isso só no começo.

O disco passa pela dance music grandiloquente (Life beat), por pop de terapia (I know you’re hurting, que lembra Cindy Lauper), por uma colaboração com ninguém menos que o trilheiro Hans Zimmer (na linda e cinematográfica Click clack symphony) e até por um gospel de responsa (Goodbye Henry, com Al Green).

Tem ainda o avô de Raye soltando a voz num gospel “amigo”, cheio de vocais acrobáticos (Fields). E o foco mesmo é em música pop usada como recurso para abrir cenas, contar histórias e dar conforto, como no soul de Skin & bones (com vocais ótimos) e Happier times ahead, no puro funk de Where is my husband! e na pós-disco feliz de Joy – essa, contando com os vocais das irmãs de Raye. Há mudanças bruscas de estilo, narrações e trechos que fazem você se perguntar se isso realmente é um disco (sério).

Por falar nisso, This music encerra com Fin, uma música de quase sete minutos em que… são apresentados os créditos do disco, como quando um filme encerra e os nomes rolam na tela. Mas aqui tudo é narrado na estileira espontânea de Raye. Musicalmente, até pela variedade, fica complicado colocar Raye numa caixinha. Resumindo de forma, digamos, pouco complexa, o disco soa como se uma cantora pop contemporânea resolvesse fazer um cruzamento entre um disco da Amy Winehouse, um musical da Broadway e uma trilha de cinema antigo. E sem se preocupar se as músicas cabem em playlists do Spotify.

Raramente um executivo de gravadora admite um erro. Boa parte deles pode ter deixado passar os novos Beatles, mas vão repetir até o fim da vida que “ah, fulano? Quando ele foi parar na minha mão não tinha talento nenhum”. Sei lá o que os caras que duvidaram do potencial de Raye estão pensando agora, mas que estão dando aquela choradinha no banheiro, estão sim. O exagero de This music may contain hope arrasta pessoas: mesmo que você odeie o disco, pode acabar se sentindo tocado / tocada pela espontaneidade de Raye.

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Ouvimos: David Bowie – “The Shel Talmy Recordings”

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Resenha: David Bowie – “The Shel Talmy Recordings”

RESENHA: The Shel Talmy recordings recupera o jovem Davie Jones tentando se encontrar entre mods, blues e rock britânico — gravações irregulares que mostram, justamente, tudo o que ainda faltava para David Bowie surgir.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Parlophone
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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The Shel Talmy Recordings vale muito pelo aspecto histórico. Afinal são as gravações de Davie Jones, um jovem cantor tentando encontrar seu espaço na efervescente cena londrina dos anos 1960. E cujo nome artístico, dentro de alguns anos, passaria a ser David Bowie. Na época, Davie (ou Davy, a grafia varia), de terno e franja, parecia mais com a turma mod, da qual faziam parte bandas como The Who e Small Faces.

Para falar desse disco, vamos por partes: muitos artistas se dizem “injustiçados” porque suas primeiras tentativas de carreira bateram na trave. Só que você vai ouvir as gravações desse pessoal anos depois e percebe que não havia outro jeito. Era preciso amadurecer, ou pelo menos aprender onde fuçar e onde mexer.

Vai daí que o pré-Bowie produzido por Shel Talmy – o mesmo nome por trás de gravações clássicas de The Who e The Kinks – era uma espécie de refugo “selvagem” de Who, Rolling Stones e até Beatles. Um sujeito cabeludo e com cara de anjo – bem diferente de Mick Jagger e John Lennon – que tentava a sorte no rock sessentista londrino cantando rocks e rhythm’n blues sobre dramas passionais. É o que você acha em faixas como You’ve got a habit of leaving, I want your love (lembrando The Troggs), Cupid (com final na cola de Bo Diddley) e num instrumental quase pré-punk, Keep up with the Jones.

O material de The Shel Talmy Recordings tem a participação de um então desconhecido Jimmy Page, guitarrista de estúdio requisitadíssimo na Inglaterra antes de formar o Led Zeppelin, e divide-se entre músicas gravadas ao lado dos grupos Davie Jones & The Lower Third (a maioria) e The Manish Boys, além de demos solo. É curioso observar que, com os Manish Boys, Bowie soava como um animador de auditório, ou cantor de café-teatro.

Era algo que tinha bastante a ver com a primeira fase de sua carreira, mas que aqui rende a pior gravação já lançada com o nome dele, I pity the fool – um blues caricatural e sem graça, até porque Bowie definitivamente nunca foi um cantor de blues. Já Take my tip, outra com os Manish, traz quase uma história sendo contada, onde Bowie / Jones assume o papel de garoto malvado e frio.

Por uma questão conceitual, ficou de fora do ábum a melhor e mais conhecida gravação de David com o Lower Third, Can’t help thinking about me, de 1966. Afinal, foi produzida por Tony Hatch, não por Talmy, e o nome do produtor está no título do disco – sem contar que a essa altura Davie Jones já era David Bowie. Se nessa música dá pra dizer que já havia um risco no papel que levaria até o Bowie do álbum epônimo de 1969, o Davie de 1966 soava como um primo rueiro dele – um sujeito que surpreendia pelos hábitos, vamos dizer, estranhos para a época.

  • Mais David Bowie no Pop Fantasma aqui.

Faixas como Cupid, I want your love e Leave her to me surpreendem por serem canções “de amor” com uma temática pra lá de marginal – com letras que às vezes parecem falar de garotas de programa ou de figuras bem fora do sistema. Em alguns momentos, como Baby loves that way, dá a impressão que David e Talmy acharam que poderiam clonar as primeiras gravações dos Stones, até na lasqueira herdada do blues e do soul. Só esqueceram que não havia um Andrew Loog Oldham marketeando os discos dele.

Uma curiosidade desses tempos é I’ll follow you, uma balada BEM horrível, na qual a misoginia de músicas como Play with fire e Yesterday’s papers, dos Rolling Stones, dá lugar a um monte de delírios de perseguição – quase numa versão “entendeu ou quer que eu desenhe?” de Every breath you take, do The Police. A carreira de Bowie ainda demoraria pra acontecer, mas o fato é que ele precisava entender por onde atacar e como descolar as companhias corretas.

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Ouvimos: Vera Fischer Era Clubber – “Veras II”

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Resenha: Vera Fischer Era Clubber – “Veras II”

RESENHA: Em Veras II, o Vera Fischer Era Clubber transforma electroclash, pós-punk, funk e poesia marginal em provocação, desejo e confronto — um disco feito para incomodar quem espera comportamentos e gêneros bem definidos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Palatável Records
Lançamento: 17 de setembro de 2026

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Consigo imaginar o drama de alguém tentando escapar de ouvir falar do Vera Fischer Era Clubber, e torço pra essa pessoa não conseguir – especialmente se a tal pessoa é um dos haters que a banda ganhou após brotar no programa de TV Cultura Livre. Num país com muitos ouvintes casuais e poucos hypes, Veras II, o segundo disco da banda, consolida a presença no mercado de um dos grupos nacionais que ouviu o chamado da desconstrução do rock.

Como assim? Lá fora, num arco que vai de Geese a Mandy, Indiana, passando por Y e Man/Woman/Chainsaw, o rock vem sendo quebrado e reconstruído como um quebra-cabeças – ou como uma boneca que você tira os braços e as pernas e troca tudo de lugar. Uma turma que opera numa linha histórica que segue esticada até estileiras como no wave e pós-punk – mas que passa por country, rock clássico, David Bowie, math rock e outros sons.

No caso do Vera Fischer Era Clubber, dá pra dizer que o som deles é um electroclash passado como um café no filtro do punk, com acréscimos de poesia marginal – e uma onda que passa por Antonio Cícero, Fausto Fawcett, Letrux, Gang 90, Mercenárias, Metá Metá. Veras II abre num clima tranquilo, entre a eletrônica e o pós-punk. Só que a música em questão se chama Quero que se foda e é cantada na base da total descaralhação por Crystal Duarte.

  • Falamos do Veras I, do Vera Fischer Era Clubber, aqui.

Poderia ser uma ótima resposta aos detratores conquistados na época do Cultura Livre – a curiosidade é que Quero que se foda foi cantada pela banda durante a gravação do programa, e cortada na hora de tudo ir para o ar. Veras II prossegue com o trip hop malévolo de Feitiço, com o funk + synthpop experimental Amor de anjo (na verdade um exugaze paralelo com participação do criador do termo, Kiko Dinucci) e o electroclash quimicamente alterado de É o pico, é o ápice.

No caso dessas três faixas, elas formam uma seleção que apresenta a vida noturna como um estilo de vida que não sai de você mesmo que você saia dela. E que é completada pelo acervo de desejos da possuída Grito, dano e possessão. E pela tensão de gêneros de Buceta gay, de versos como “buceta gay / e um pau extremamente feminino” e “você não sabe se é o céu ou se é o inferno / e isso é tudo que eu quero”. Algo como o universo misterioso e provocador de Rebel rebel, de David Bowie, ou da capa de The man who sold the world (disco de Bowie de 1970) renascendo de forma quase industrial, em meio a uma noite que começa marginal, mas corre o risco de virar padrão.

Veras II tem ainda Prantos (que une tensão eletrônica e percussão brasileira) e o excesso e a falta de sensações – ambos provocando explosões – de Vesúvio. Além de uma vibe que lembra Gang 90, Marina, Mercenárias, Black Future e até o Metrô das faixas menos conhecidas de Olhar (1985), em Chic chic. Curiosamente, Calcinha gozada, o single do álbum (com Katy da Voz e as Abusadas) não soa como uma música hedonista. Numa pegada próxima da eletrônica podre do Suicide, a faixa fala mais de atitude e conexão.

Tem muita gente que deve ficar assustada com a linguagem direta e chula das Veras. E que está mais para um aceno ao primitivo, presente em canções dos Titãs (como Todo mundo quer amor). O fato é que Veras II usa esse negócio chamado “música” para comunicar atitude, provocação e verdade.

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Ouvimos: Boletaire – “Last sausage before America”

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Resenha: Boletaire – “Last sausage before America”

RESENHA: Formado por dois brasileiros e um uruguaio em Barcelona, o Boletaire estreia cruzando Hüsker Dü, Fugazi, Iggy Pop e pós-punk em um rock de trio – urgente, idealista e pronto para explodir.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 15 de julho de 2026

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Uma banda que canta em inglês, formada por dois brasileiros e um uruguaio que se encontraram em Barcelona (!), e cuja ideia de rock passa pelo heroísmo e pelo clima guerreiro que, outrora, costumava ser associado ao indie rock e ao punk. Essa onda quase utópica é o motor da estreia do Boletaire, Last sausage before America. Os brasucas Gustavo Kaly (guitarra, voz) e Koala (bateria) e o uruguaio Nério (baixo) não conseguem ficar mais de duas faixas sem soar como uma espécie de elo perdido entre o rock de hoje, e o som de nomes como Hüsker Dü, Iggy Pop, Julian Cope, Fugazi.

Investindo numa espécie de “punk rock” que nem sequer depende da invenção do próprio punk para existir, o Boletaire passeia por guitar rock sem vícios comuns do guitar rock (Leave no trace, que abre em clima de samba-noise) e falam sobre um mundo em combustão com guitarras em clima desértico, de faroeste (Ashes of a silent dignity, Guided by smoke and fire). Mesmo a noção de pós-punk do grupo passa pelo clima mais romântico e idealista do estilo, em faixas como Let them chase my tail e The art of misery (esta, traz igualmente algo herdado do Clash).

Completando Last sausage before America, tem o som poderoso de Guest list e Glass ceiling – esta, com riff de guitarra tomando conta. A backpack and a homemade bomb, mais guerrilheira impossível com um nome desses, constrói uma ótima trama de guitarra e baixo, e chega a um resultado que faz lembrar um Joy Division mais alegre. Um som de trio, bastante concentrado e pronto para explodir.

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