Crítica
Ouvimos: Dolores Forever, “It´s nothing”

- It’s nothing é o primeiro álbum do Dolores Forever, uma dupla formada pela britânica Hannah Wilson e pela dinamrquesa Julia Fabrin. O título do disco, explicaram elas ao site Dork, veio de um verso da faixa Go fast go slow.
- “Normalmente, quando alguém diz ‘oh, não é nada’, na verdade significa que é realmente alguma coisa. Esse é um tema recorrente neste disco, na verdade. É sobre nós nos reconciliarmos com nossa posição no mundo mais amplo; somos muito barulhentas, muito grandes, muito opinativas para certos setores da sociedade, então é mais fácil apenas dizer ‘não é nada’ do que entrar nisso. Por outro lado, também é uma leve piada entre nós porque é nossa estreia, então significa tudo para nós. Chamar de ‘não é nada’ nos fez rir!, disse Hannah.
- “As músicas são uma combinação de coisas que nem tínhamos percebido que estavam nos afetando por um tempo”, continua ela.
“Isso não é nada!” é uma resposta que quase todo mundo já ouviu de alguém quando falou sobre frustrações. Todo mundo sempre tem um problema pior, ou acha que você deveria agradecer pelo que tem. Apesar de passar apertos, humilhações, privações e questões pessoais que ninguém enxerga ou todo mundo finge que não vê.
Essa frase, prima-irmã do indesejável “deixa de mimimi” não foi escolhida por acaso para dar nome ao novo álbum do Dolores Forever, uma dupla de mulheres (Hannah Wilson e Julia Fabrin) que trabalha com o conceito de “raiva feminina” em suas letras – conceito este exposto no decorrer do álbum, em refrãos e temas. It’s nothing fala sobre amizade, dietas, gente cagando e andando para os problemas alheios
Musicalmente, o repertório de It’s nothing é puramente oitentista, como se teclados e hardwares da época fossem relidos por softwares de 2024, transformados em música feita nos dias de hoje e traduzidos para o idioma do indie pop. Não apenas isso, claro: a faixa de abertura, Not now kids (definida como “um olhar mordaz para o mundo e para aqueles que o governam impunemente”) é a melhor música que bandas dos anos 1990 como Shampoo (lembra?) nunca gravaram.
Someday best soa como o Fleetwood Mac da época de Tango in the night (opa, elas já se definiram como “um Fleetwood Mac, só que sem os maridos”), mas com uma batidinha motorik e agitada. Concrete é synth pop com a mesma batida puladinha de várias músicas do B-52’s, mas com um design musical típico das músicas criadas para se sustentarem apenas com voz e violão. Split lip tem aquele mesmo tom de música “boa de palco” que o rock britânico desenvolveu após os anos 2000 (e que desembocou no Coldplay, mas não fuja!).
O tal do “olhar mordaz” do Dolores Forever volta-se quase todo o tempo para um mundo que quer mais é que as mulheres fiquem caladas enquanto os homens governam. Como em Thank you for breathing, quase uma canção dos Pretenders com nova roupagem, marcada pelo cinismo da letra e do título (“obrigado por respirar”). Ou na newwavizada e autoexplicativa Why are you not scared yet? (“é tudo ladeira abaixo a partir daqui/por que você ainda não está com medo?”). O que não é nada pra muita gente, é uma porrada enorme para várias outras pessoas.
Nota: 8,5
Gravadora: Sweat Entertainment
Crítica
Ouvimos: Prisonnier Du Temps – “Prendre le pouvoir par la force”

RESENHA: Em seu projeto solo Prisonnier Du Temps, Lionel Cadiou cruza oi!, pós-punk, hardcore e skate-punk em faixas de guitarras nervosas, vocais de revolta e espírito de confronto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: La Vida Es Un Mus
Lançamento: 15 de maio de 2026
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Lionel Cadiou faz parte do Syndrome 81’, banda francesa que uniu estilos como oi! punk e pós-punk. Prisonnier Du Temps é seu “projeto solo”, funcionando quase como um codinome. E o álbum Prendre le pouvoir par la force ganha ares de mudança de atitude sonora, em que faixas como Trahisons et mensonges abrem num clima que chega a lembrar bandas como New Model Army – com violões, microfonias e ataques sonoros. Depois, a faixa embarca na oi! music à maneira de bandas como Angelic Upstarts.
La liberté s’obtient par le sang (“a liberdade é conquistada através do sangue”), sustentada por guitarras nervosas e por uma linha de baixo dominante (além do violão na base), tem a mesma cara guerreira de bandas como Social Distortion, com melodia simples e bem feita. O mesmo clima toma conta de faixas como L’armée des ombres, música ágil e quase pós-punk, e do clima quase gótico de Dans la douleur et les larmes e Le genou à Terre.
O Prisonnier investe também em climas abertos e de pura roda na plateia, como Dernier regard, punk para ouvir com os braços pra cima – caindo no skate-punk e no hardcore em Et jusqu’à la mort, gravada em meio a uma parede de som. Berrando como um sindicalista, Lionel convoca à revolta geral fazendo guitarras soarem como sirenes em Bout de nervs – que encerra tudo promovendo a melhor união oi! + pós-punk do álbum.
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Crítica
Ouvimos: Changing Places In The Fire – “Changing Places In The Fire”

RESENHA: Na estreia, a banda venezuelana radicada nos EUA Changing Places In The Fire cruza prog-metal, math rock, nu metal e grunge para falar de exílio, falta de perspectivas e deslocamento.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Wild Thing Records
Lançamento: 24 de julho de 2026
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O Changing Places In The Fire é uma banda venezuelana radicada nos Estados Unidos – só isso já dá pano pra manga e assunto pra vários discos. A banda foi para lá fugindo da porradaria, provavelmente antes do aperto geral do governo Trump, e o próprio nome do grupo já indica o dilema entre a cruz e a caldeirinha. Um dilema que domina quase todas as faixas de Changing Places In The Fire, a estreia deles, com faixas falando diretamente sobre exílio (The epiphany tree) e falta de perspectivas (A case against the world).
Já o som do Changing Places In The Fire é um prog-metal bem feito, que capricha em beats quebrados, às vezes próximos do math rock – como em The epiphany tree e no clima pós-punk + nu metal de A reason to fall. Tem muita coisa que caminha para o lado do metalzão cromado (as ótimas guitarras de The fury and the sound e Home). Além de uma balada metálica (Into the unknown) e climas próximos do metal-grunge (Learn to die), e de coisas bem progressivas, como a balada sintetizada e fantasmagórica Black oceans, e a tranquila The door left behind.
Não chega a ser uma proposta original, mas o Changing Places une momentos de cara própria em meio a lembranças de bandas como Tool e Avenged Sevenfold – é um metal progressivo acessível e que valoriza mais a emoção do que a técnica ou a construção de atmosferas. Tanto que dá pra achar riffs econômicos em faixas como A case against the world, valorizando momentos de simplicidade em meio à elaboração mesmo em músicas quase psicodélicas como As if you were free.
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Crítica
Ouvimos: Anaïs Sylla – “Exil”

RESENHA: Em seu disco de estreia, Exil, Anaïs Sylla transforma a experiência do exílio em pop sofisticado, cruzando ritmos afro-caribenhos, reggae, r&b, ambient e folk malinês.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Alá Comunicação e Cultura
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Exil, nome do álbum de estreia da franco-suíça-senegalesa Anaïs Sylla, foi tirado de Exil, filme do cineasta Tony Gatlif – uma obra sobre pessoas errantes, que passam por culturas e identidades diferentes. Anaïs, radicada no Brasil, começou a pensar o disco na época da pandemia, quando o “exílio” que geralmente é feito entre países e novas culturas, virou uma obrigatoriedade que deveria ser vivida dentro de casa.
Acabou se tornando uma usina pessoal de criação rítmica e melódica, em que efeitos sonoros, violões, percussões e vocais macios unem-se em canções pop de clima afro e caribenho, como em Minha irmã (com Anelis Assumpção), Regard croisés, Rêver (com Jota.Pê e Caê) e o reggae De bouche à bouche. Em alguns momentos, Exil lembra o começo da carreira de Céu, mas com outras ideias rítmicas no lugar do samba-jazz eletrônico.
O som também abarca r&b ultratexturizado (Silhouette), um ambient viajante e leve (La mer) e o folk do Mali de Je chantrai pour toi (com Tiganá Santana). Exil traz tambem Anaïs lembrando do tempo em que cantou com João Donato na versão de Lugar comum em francês (Endroit commun), e fazendo pop sofisticado e marítimo em Traverséé.
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