Crítica
Ouvimos: Beachwood Sparks, “Across the river of stars”

- Across the river of stars é o quarto álbum da banda californiana Beachwood Sparks. O álbum teve produção de Chris Robinson, vocalista do Black Crowes, e sai pelo selo Curation, de Los Angeles.
- O grupo agora é um septeto. Os integrantes fundadores Christopher Gunst (voz e guitarra), Brent Rademaker (voz e baixo) e Farmer Dave Scher (voz, teclados e lap steel) dividem espaço com Benjamin Knight (The Tyde, guitarra), Andres Renteria (John Dwyer’s Bent Arcana, bateria), Jen Cohen Gunst (Mystic Chords of Memory, The Aislers Set, teclados e guitarra) e Clay Finch (Mapache, background vocals).
Alternativos californianos dos anos 2000 contratados pela Sub Pop, os Beachwood Sparks deram uma renovada num cenário que na real, precisava mesmo de revisionistas bom de melodias: o country rock herdado dos anos 1960, com manha parecida com a de grupos como Buffalo Springfield e Grateful Dead (fase American beauty). Até mesmo as capas dos discos não pareciam coisa de anos 2000, bem como a gravação das faixas, repleta de vocais em coro, pianos e slide guitars, como se fosse uma música para tocar no rádio em 1968.
Foram ideais musicais que dominaram os três primeiros álbuns do grupo, lançados entre 2000 e 2012. Desert skies, gravado originalmente em 1997 e lançado só em 2013, se localiza entre o pós-punk e o jangle pop, e mostrava que havia outros ingredientes naquela receita sixties. Agora vem Across the river of stars, um disco de country rock bem mais modernizado que os anteriores. Mais achegado ao pós-punk, no sentido que bandas como R.E.M., Teenage Fanclub e Echo & The Bunnymen não teriam sido nada sem as influências de grupos nascidos duas décadas antes deles. Músicas como Torn in two, Wild swans e o jangle rock Gentle samurai apontam para os trabalhos de bandas nascidas dos anos 1980 para cá que se formaram à sombra dos anos 1960.
Across é equilibrado entre mostrar que o Beachwood é uma banda de seu tempo e, simultaneamente, é um grupo dos anos 1960 que nasceu em época errada. O lado mais vintage do grupo surge em faixas como o country ágil My love, my love, além de Falling forever, Gem, Dolphin dance, pérolas inspiradas por Crosby, Stills, Nash & Young, Byrds e Gram Parsons. Além do bolerinho lembrando Everly Brothers de Faded glory.
Nota: 8,5
Gravadora: Curation Records
Crítica
Ouvimos: Doves, “Constellations for the lonely”

O novo disco da banda britânica Doves – o sexto deles, e o segundo após o retorno do grupo – vem carregado de energias da pandemia, e repleto de evocações do isolamento e da solidão. Constellations for the lonely foi feito entre 2020 e 2024, tem sido considerado um disco “dark” por uma turma grande, e foi definido pelo guitarrista Jez Williams como um álbum feito para dar “um pouco de esperança” às pessoas.
Por sinal, o momento é de recomeço para os próprios Doves. Além do fim da pandemia, a turnê do disco de “volta”, The universal want (2020) foi inicialmente cancelada – e, por fim, foi realizada sem o vocalista Jimi Goodwin, que ainda estava se recuperando de abusos de substâncias e não quis viajar com a banda. Devido a isso, Constellations traz essa sensação de que tudo é passageiro e nada é fácil, em letras e músicas.
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É o que rola no britpop + glam rock de Renegade (com som herdado de Pulp e Roxy Music), no tom climático, sonhador e discretamente progressivo de Cold dreaming (“então aí vem o verão / e eu preciso fazer minha mudança daqui”, diz a letra), e na balada fantasmagórica de Last year’s man, que lembra o lado mais sonhador dos Smiths (a melodia lembra discretamente Please, please, please, let me get what I want).
Um tom de magia sonora surge na faceta mais ambient e cristalina do disco, em faixas como A drop in the ocean e Strange weather, que parecem trilhas de documentário. Brota também no drum’n bass analógico de In the butterfly house e na fluidez rítmica, lembrando o rock inglês do começo dos anos 1990, de Stupid schemes – essa, praticamente uma canção sobre “coisas novas” que não são nada novas (“todos os livros que você recomenda, você lê / eles nunca vão preencher sua mente”).
Fechando Constellations, um trio meio vintage de faixas: a balada folk country Saint Teresa, que se transforma numa espécie de valsa britpop; a pianística Orlando, que deixa uma impressão de trilha sonora antiga e de onda sonora que pega o ouvinte e o leva para dentro da faixa; e a estradeira e noturna Southern bell.
No fim, Constellations for the lonely soa como um diário de tempos turbulentos. Há cicatrizes abertas, mas também há o desejo de seguir em frente.
Nota: 9
Gravadora: EMI North
Lançamento: 28 de fevereiro de 2025.
Crítica
Ouvimos: The Horrors, “Night life”

Se bobear, houve quem esquecesse da existência do The Horrors, banda britânica que não gravava desde 2017 e andou tendo mudanças em sua formação – do quinteto original, sobraram apenas o vocalista Faris Badwan e o baixista Rhys Webb, agora acompanhados pela tecladista Amelia Kidd e pelo baterista Jordan Cook (Telegram). Night life, o sexto álbum da banda, veio a tempo de lembrar os cinco anos da pandemia, focar nos horrores da guerra e da solidão, e aproveitar a onda atual de bandas influenciadíssimas pelos ares góticos.
No peito do The Horrors bate um coração influenciado por bandas como The Cure, Bauhaus, Roxy Music e Depeche Mode. Muito embora eles lembrem discretamente um Linkin Park com coolzice na faixa de abertura, Ariel, partam para o metal eletrônico gelado na marcial Trial by fire, e soem como um estranho encontro de siglas (R.E.M. e HIM – lembra deles?) em More than life. Vale dizer que Faris soa como a mistura exata de Lou Reed e Bryan Ferry, e que a dupla Amelia-Jordan entra em campo disposta a fazer um synthpop pesado e (às vezes) analógico, humanizado.
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Para apaziguar (oi?) os ânimos, tem o tecnopop do mal de Feeling is gone, o beat eletrogótico de Silent sister e o pós-punk aterrorizante de The silence that remains – uma música em que tudo parece ranger, e em que o som evoca algo do qual ficou só a lembrança. Lotus eater é um tecnopop entre o gélido e o clássico, que remete tanto a Erasure quanto ao Depeche Mode de Black celebration, em sete viajantes minutos. Altas energias contemplativas e sombrias são evocadas na espacial When the rhythm breaks e na vibe Brian Eno de LA runaway, que lembra discretamente o U2.
As letras de Night life, por sua vez, são puramente aquela sensação de sufocamento de 2020, algo que serve até para lembrar que houve gente cagando baldes para tudo isso. Em separado, versos dão o clima sinistro: “eu não consigo nem respirar, é difícil falar” (Silent sister), “você precisa de todas essas coisas no silêncio que permanece / ainda assim, eu simplesmente não sei por que essa distância cresce?” (The silence that remains), “estou dividido ao meio / a noite está morrendo / sinta sua memória chamando a noite” (When the rhythm breaks). Não era fácil, não é fácil ainda.
Nota: 8,5
Gravadora: Fiction
Lançamento: 21 de março de 2025.
Crítica
Ouvimos: My Morning Jacket, “Is”

Quando surgiu, o My Morning Jacket tinha um diferencial enorme: mais do que serem uma banda de alt-country, eram uma banda country e de rock sulista que evocava bandas como Joy Division e Velvet Underground, e parecia saber o que eram termos como indie rock, shoegaze, post-rock. A sonoridade do grupo foi sendo desenvolvida até chegar a discos excelentes como It still moves (2003) e Z (2005). Há quem venha tacando pedra nos discos recentes deles e, de fato, o som do MMJ andou ultimamente alternando músicas boas e momentos de tédio absoluto – o disco epônimo de 2021 é um ótimo exemplo dessa “alternância”.
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Is, o novo disco, sofre se comparado a Z e até a The waterfall (2015), mas é o melhor disco recente do My Morning Jacket, alternando (olha aí de novo) temas de indie country com coisas que soam mais radiofônicas e acessíveis. A abertura com Out in the ocean parece BASTANTE com Coldplay e isso talvez assuste alguns fãs antigos. Algumas músicas tranquilizam: faixas como Half a lifetime, Squid ink e Half for it soam como uma cápsula do rock dos anos 1970 – rock funkeado no estilo de bandas como James Gang – jogada numa argamassa country e indie. Não que sejam músicas “de peso” – só o lado cool do rock pauleira setentista é recordado.
Para destacar: a ótima Everyday magic é soft rock de respeito, levado adiante por golpes de piano Wurlitzer, e por um beat lembrando Fleetwood Mac e Supertramp, com refrão forjado na estileira power pop. Beginning from the ending é uma balada de violão com letra existencialista e tom de soul viajante. Lemme know tem batidinha seca e sixties, e chega a lembrar The Jam.
Particularmente, acho que o mais problemático no disco está na rédea solta para a criação de canções que soam eminentemente radiofônicas – nada contra, mas são momentos em que uma certa esquisitice que havia no som do My Morning Jacket some de uma hora para a outra. Rola no reggaezinho romântico I can hear your love, na popíssima e meio r&b Time waited e até num bluesão de FM, River road. No fim, é o famoso “não é ruim, mas não sei se recomendaria…” (ainda mais se Is for o primeiro disco do My Morning Jacket que você vai escutar).
Nota: 7
Gravadora: ATO Records
Lançamento: 21 de março de 2025.
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