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Crítica

Ouvimos: Aygam, “Aygam” (EP)

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Ouvimos: Aygam, "Aygam" (EP)
  • Aygam é a estreia da banda paulistana de mesmo nome, formada por Gabú (voz e guitarra), Bruno Ras (voz e baixo), Satiê (backing vocal e guitarra) e Omar (bateria). O disco, de quatro faixas, foi gravado na garagem de Gabú, com o auxílio de um edital da Secretaria de Cultura de São Paulo para viabilizar o desenvolvimento cultural nas periferias da cidade.
  • “Todas as músicas têm um tom de revolta e nossas composições evidenciam essa postura combativa, cada uma à sua maneira”, diz Bruno Ras.

A banda paulistana Aygam é uma curiosidade que vale parar pra dar uma ouvida. O primeiro EP do quarteto apresenta montes de influências de grupos como Nação Zumbi, O Rappa e até Charlie Brown Jr. Só que tudo por um viés moderno e diferente, já que até referências de dream pop surgem cruzadas com elementos de hip hop nas quatro faixas.

O imaginário do grupo une ancestralidades, dia a dia da periferia de SP e histórias de rua, numa fluidez que traz boas frases nas letras, vocais suingados e sonoridade que se aproxima do novo indie rock feito em São Paulo e no Rio. É o que surge, por exemplo, na faixa inicial, Crocodilos (“agem sempre para te ver na miséria/e na miséria não vão me achar”). E numa curiosa união de soul e shoegaze, Vida cobra II, que soa como um My Bloody Valentine sem paredões de guitarra, e com musicalidade herdada simultaneamente de Cassiano e The Smiths.

Iniciando sua história fonográfica, o Aygam precisava, em alguns momentos, apenas de mais acertos nos vocais e na qualidade de gravação (especificamente em Eucaliptos, boa música perdida no som de demo). Muito embora a disposição para experimentar seja uma boa marca do disco, e tenha gerado o tom “1,2,3 e valendo” da psicodélica e setentista Depois do papo reto só deboche, gravada ao vivo, e que encerra o EP. Boa estreia.

Gravadora: Independente/Tratore
Nota: 7,5

Crítica

Ouvindo: Ichiko Aoba, “Luminescent creatures”

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Ouvindo: Ichiko Aoba, “Luminescent creatures”

Com shows marcados em São Paulo (dia 25 de novembro no Teatro Liberdade, e 2 de dezembro no Teatro Bradesco), Ichiko Aoba se vê mais como uma criadora de esferas e atmosferas, e nem tanto como uma compositora comum, ou uma criadora de futuros hits. Luminescent cratures, seu segundo álbum, é música para sonhar, e não necessariamente para “ouvir” distraidamente.

É mais ou menos como acontece com Myrtus myth, álbum do projeto moscovita Kedr Livanskiy, mas sem carregar nos flertes com a música pop dos quais o Kedr lançou mão em seu novo disco (resenhado aqui). Em Coloratura, a primeira faixa, dividida em duas partes, há um clima brasileiro que chega a lembrar Chovendo na roseira, de Tom Jobim. Quando a voz de Ichiko surge, tem algo que faz lembrar a voz de Jane Birkin – um sussurro que chega a parecer um gemido em alguns momentos, mas com vibe angelical, e não necessariamente sexy. Já Flag, lá adiante no disco, tem ares de Milton Nascimento – e de folk do começo dos anos 1970.

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Mas no geral, Luminescent parece mais próximo de referências de jazz, clássicos e de sons asiáticos, que aparecem em músicas como a quase valsa Tower, a meditativa 24° 3′ 27.0″ N, 123° 47′ 7.5″ E. (adaptação de uma canção folclórica da ilha japonesa de Wateruma – o título são as coordenadas para se encontrar um farol no centro da região). Surgem também na cantiga Aurora e na cinematográfica Sonar, uma canção triste, quase um post-rock. Luciférine e Pirsomnia têm algo de progressivo nas mudanças bruscas de acordes e na construção dos arranjos, baseados em pianos circulares e intervenções de cordas.

Inspirado pelas visitas dela ao Arquipélago Ryukyu, no Japão, Luminescent creatures tem muito dos sustos e das sensações mágicas pelas quais Ichiko passou ao mergulhar no local – por sinal, os mergulhos dela foram sem equipamento (!) e correndo altos riscos. Como reflexo mais da magia do que dos perigos, o disco novo dela oferece muita beleza, muita experimentação musical e a sensação de estar submerso/submersa em um sonho onde cada som revela um novo mistério.

Nota: 9
Gravadora: Hermine
Lançamento: 28 de fevereiro de 2025

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Crítica

Ouvimos: Heartworms, “Glutton for punishment”

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Ouvimos: Heartworms, “Glutton for punishment”

O site The Quietus deu a definição perfeita para Jojo Orme, a mulher por trás do Heartworms: “a filha perdida de Michael Jackson e Siouxsie Sioux”. Londrina, 26 anos, ela abriu shows para St Vincent e investe numa sonoridade a meio caminho do pós-punk e do industrial – e aí a comparação com Siouxsie faz mais sentido ainda, porque Glutton for punishment, primeiro álbum do projeto, acaba remetendo aos Banshees em vários momentos, justamente por causa dessa escolha musical.

O Heartworms ganhou fãs por causa do dance-punk sombrio do EP A comforting notion (2023). Uma sonoridade que, em Glutton, ganha expansão no tom tribal de Just to ask a dance – uma canção que, na real, é um conto de amor, misantropia e morte (“não tenho chance de pedir uma dança a você / sou tão tímida / me dói pedir a você para me salvar também”). E também no eletrorock de Jacked, uma explosão de riffs e solos. Ou em Warplane, uma dance music ligeira e violenta, cuja letra, que se refere à história real de um piloto de avião morto na Segunda Guerra, tenta ver alguma esperança no meio do caos: “você consegue ver um Spitfire? / e você diz / olhe lá em cima / seremos livres / olhe lá em cima / nós ficaremos bem”.

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Essa mistura de guerra, medo, amor, morte e (um tiquinho de) esperança dá o tom de Glutton, um disco que chega perto de algo místico, sexy e misterioso em Extraordinary wings, faz o pós-punk dar vários cruzados de direita em Celebrate (uma música em que Jojo vai do semi-operístico ao gutural) e ganha tons épicos em Smugglers adventure. Uma música de seis minutos e pouco, em que Jojo relembra fases difíceis da adolescência, enquanto constrói uma canção com várias partes, herdeira tanto do LCD Soundsystem quanto dos Smashing Pumpkins de Mellon Collie and the infinite sadness.

O disco encerra com a faixa-título, uma balada de violão que inicia com tom ligeiramente jazz, e que se torna uma música dançante logo depois. E que mostra que a grande guerra de Glutton for punishment começa na mente, contando uma história de timidez, pé na bunda e, no subtexto, ansiedade – e muita.

Nota: 8,5
Gravadora: Speedy Wunderground/PIAS
Lançamento: 7 de fevereiro de 2025

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Crítica

Ouvimos: Véu Sublime, “Não é nenhum segredo” (EP)

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Ouvimos: Véu Sublime, “Não é nenhum segredo” (EP)

Vindo de Sorocaba (SP), o Véu Sublime faz uma coisa que é bastante comum no rock atual lá de fora, e ainda é pouco habitual entre bandas novas no Brasil: misturar eras diferentes do estilo. Já houve, faixa de abertura de Não é nenhum segredo, começa de súbito com distorções, e embarca num riff de guitarra próximo da psicodelia hendrixiana. Na sequência, revela-se uma mescla de power pop e hard rock, com letra idealista. Confusão une mais épocas e estilos: de um riff de guitarra quase folk, desemboca em algo que fica a meio caminho do pós-punk e do shoegaze.

Essa disposição para explorar coisas, que era bem típica do rock brasileiro dos anos 1990, é a principal arma do Véu Sublime. E prossegue no restante do EP, com o clima mod (lembrando Who e Ira!) da faixa-título, o rock funkeado de Tempestade e o soul-MPB-rock de Quando o sol se põe, unindo flautas (remetendo a Prince), teclados e psicodelia fluida na onda de bandas como Unknown Mortal Orchestra. Tem também a vinheta jazz de Resquícios, lembrando um respiro da turma que tocava com Gal Costa no disco ao vivo Fa-tal: Gal a todo vapor (1971). Boa mistura musical, especialmente muito bem tocada – as guitarras em particular – e bem gravada. Só os vocais precisavam de mais volume.

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de fevereiro de 2025.

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