Crítica
Ouvimos: Surfbort – “Reality star”

RESENHA: O Surfbort mistura punk, garage e zoeira noventista em Reality star, disco barulhento e sarcástico liderado pela impressionante blasé Dani Miller.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: TODO
Lançamento: 6 de março de 2026
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Vindo do Brooklyn, o Surfbort teria sido uma daquelas bandas amadas pelos selos midstream nos anos 1990 – o tipo de grupo que você teria conhecido pela MTV, e não pelo YouTube, ou pelo radar do Spotify. Como é uma banda atual, pegou uma época em que existe muita “mídia” e pouco escoadouro. E em que muitas vezes quem ouve bandas novas se sente como um dirigente de futebol que, em vez de mandar um olheiro descobrir jogadores, assiste aos lances de um novo craque só por vídeo.
Tudo isso para dizer que Reality star, o terceiro disco desse grupo, anima da mesma forma que bandas como Veruca Salt e Elastica animavam nos anos 1990. Por acaso é uma banda que tem uma vocalista carismática e blasé à frente, Dani Miller – ela canta como se um monte de babacas à frente estivesse impedindo sua diversão, ou a morte do seu tédio. A zoeira Lucky é a melhor abertura que você poderia querer: aquele tipo de som que você sente que tem poder e humor, com guitarras emparedadas que vão além do receituário comum das paredes de guitarras. Clima de porrada alternativa dos anos 1990.
Peaches and cream é punk, Hot dog é punk + new wave irresistível na cola do B-52s e do Shampoo (lembra de Trouble?), Hot chicks cold beer é hardcore no estilo no remorse, com Dani pensando em garotas, cerveja, surf e skate, e cunhando uma frase lapidar: “Quando você vive um pouco / deus bate à sua porta”. MK ultra, sobre o famigerado programa de controle mental da CIA, vê hippies chapados de ácido e a “família Manson” como bolos da mesma forma – o som tem a nonchalance do B-52s e o ataque dos Stooges.
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Por aí já dá para ter uma ideia do mundo do Surfbort, e a onda só cresce: músicas como Rebel, USA cheese, Alien e I need music são a mais perfeita combinação de Ramones, Stooges e Motörhead, e FUGOMF faz lembrar bandas como Circle Jerks. Notorious brat, herdeira de Iggy Pop e Lou Reed, cria um pesadelo sonoro em que Johnny Thunders (New York Dolls) é flagrado fumando crack e Quaaludes são a moda em 1900. Já na balada punk Reality star, Dani baba por alguma gatinha participante de reality show. Candy, para os padrões do grupo, é até “moderninha”: soa como uma viagem a um beco de Nova York em 2002, e tem alguns dos vocais mais doces de Dani (igualmente leve em conta os padrões do grupo).
No final, Jessica’s changed põe na mesa as recordações dos dilemas da adolescência: “Eu ouço hardcore e punk rock / sou feia demais para Nova York, feia demais para os atletas (…) / eu costumava andar com a Jessica, mas agora ela mudou / e estou me apaixonando perdidamente pelo fantasma de Kurt Cobain”. Curiosamente, faz isso de maneira bem diferente do resto do disco: ameaça uma balada bem melódica na abertura, e segue em frente lembrando o Weezer dos primeiros álbuns. No fim das contas, quem perder Reality star vai deixar passar uma das bandas mais sagazes da atualidade. Bote o Surfbort na sua lista.
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Crítica
Ouvimos: Jon Spencer – “Songs of personal loss and protest”

RESENHA: Jon Spencer transforma luto, protesto e garage rock explosivo em um disco intenso, fiel ao espírito rebelde que sempre guiou sua carreira solo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Shove Records
Lançamento: 12 de junho de 2026
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“O rock’n roll é o verdadeiro presente da América para o mundo — o som da revolução! Ele veio do céu, um disco voador cromado e estridente, como um monstro do espaço sideral, pousou aqui na Terra para que os excêntricos pudessem se expressar. É o som da rebeldia que faz os quadris tremerem. O blues é a minha bíblia, o rock’n roll é o nosso grito de guerra!”
Só com essa fala de Jon Spencer, presente no release de Songs of personal loss and protest, você já consegue sacar todas as motivações por trás da carreira solo do ex-líder do Blues Explosion: em vez de acreditar na moda ou nos algoritmos, a fé dele é no rock. E não em qualquer rock: o evangelho de Jon é construído sobre as pedras do garage rock, do pré-punk, de climas herdados de bandas como MC5 e Stooges, dos sons mais anfetamínicos, do lado mais maldito do rock cinquentista.
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Songs foi mesmo feito sob o signo de pessoas queridas que morreram – e tendo como pano de fundo o desgosto com o governo Trump. Ao lado de Spider Bowman na bateria e Kendall Wind no baixo (os dois formam a cozinha da banda The Bobby Lees), Spencer vai da elegância à ignorância em poucos minutos, fazendo dançar em Fanfare (Another point of view), Orange slice blues, Knock’ em out, mexendo com climas sombrios em Hangover e Give it up 4 the devil, garageando em Vermin attack!, Step on the gas e Slip away. São três lados que se misturam e se intercalam no disco, como em I’m taking off, que une garage rock, funk, blues e tom de perseguição policial.
Uma curiosidade do disco é Mr Lion, um conto em forma de blues (que lembra bastante New York Dolls e David Johansen solo) em cuja letra ele avisa para um leão parar de bancar o durão – e parar de passar vergonha no crédito e no débito fingindo uma macheza que ele nunca teve. No final, mais uma: No more une peso e emoção ao listar, em clima Lou Reed + Iggy Pop, várias coisas que uma pessoa morta nunca mais poderá fazer, de exames de saúde a nadar no mar. Uma música sobre os atropelamentos do destino – um tema que volta e meia surge em Songs of personal loss and protest.
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Crítica
Ouvimos: Soft Palms – “In echo”

RESENHA: Soft Palms mistura shoegaze, pós-punk gótico e surf rock em In echo, álbum hipnótico, sombrio e repleto de melodias marcantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Everloving Inc
Lançamento: 19 de junho de 2026
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Criação do duo Julia Kugel e Scott Montoya, de Long Beach, o Soft Palms é bem imersivo e hipnótico, e já poderia até acrescentar o aposto “banda de shoegaze” ao lado do nome. In echo, o segundo álbum, revela um som que quase sempre fica mais do lado do revivalismo pós-punk gótico. Fãs de bandas como Siouxsie and The Banshees e The Cure não vão se arrepender de dar uma ouvida em músicas como Garbage in the sand, In plain sight, Nervous as hell (com clima lembrando uma espécie de ABBA minimalista e trevoso), Radio (punk rock de riff circular e tenso).
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Esse material é gravado com bastante eco (aliás olha só o nome do disco!), com baixo à frente, e com guitarras que têm um pouco de surf music sessentista, um pouco da sonoridade “de abóbada” dos primeiros discos do Echo and The Bunnymen. Batshit entra no lado mais fantasmagórico e misterioso do pós-punk e acha um caminho que chega até o Blondie: o que poderia ser uma fantasia percussiva e tribal na onda dos Banshees ganha um aspecto de hula-hula (!). The wedding song é pra grudar na mente: até power pop “ramônico”, distorcido e espacial esse duo faz.
O Soft Palms apresenta mais surf music “distante” (e na cola do Blondie do começo) na dor-de-cotovelo de Dog’n’bone. Encerrando, tem ate uma espécie de dub gótico, a balada Madeline, e uma aula de como combinar trevosidade, garagerismo e fofura, em Pretty boring. Detalhe curioso sobre o Soft Palms: Julia e Scott escreveram um livro chamado How to be self-reliant in the music business (“como ser autossuficiente no mercado da música”), que eles vendem pelo site deles, e que é basicamente um guia de como encarar o do it yourself de cabeça erguida. Fique de olho neles.
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Crítica
Ouvimos: Cleozinhu – “Variações para o silêncio”

RESENHA: Cleozinhu mistura punk, trap, slowcore e psicodelia em disco inventivo, irônico e cheio de samples, feats e referências à música brasileira.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 12 de março de 2026
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Cleozinhu é um dos nomes mais citados no Pop Fantasma, por causa de seus trabalhos com bandas como Guandu, Duo Chipa e Manobra Feroz – além das recentes gravações com Marina Mole. Ele também tem uma carreira solo que já apareceu bastante por aqui, e que chega ao terceiro disco, Variações para o silêncio. Entre estilos como bedroom pop, punk, trap, slowcore e até uma moda de viola noisy e sessentista (a poética Invenções), quem ouve o disco é apresentado a um universo particular, em que o que poderia parecer apenas experimental é coberto por uma camada nada fina de ironia.
No novo disco, Cleozinhu voltou obcecado por Leo Canhoto e Robertinho, curiosa dupla caipira dos anos 1970 que foi influenciada pelos Beatles e pelo storytelling circense, e seu hit O homem mau – aquela mesma música que virou montagem na mão de vários DJs de funk noss anos 1990. Os diálogos e efeitos sonoros da música surgem sampleados em vários momentos do disco, e até dividem canções ao meio, como no slowcore derretido Próprios passos.
Em 17 músicas com duração compacta, Variações passa por trap + shoegaze (Bater asas), noise rock com sample do Nirvana (Certeza de nada), screamo com voz infantil “gutural” (Sobreviver / Esquecer), eletropunkrap (Cicatriz favorita), bedroom rock com cara mutante (Véspera), bossa psicodélica e hipnótica com sample do Pica-pau (Chocolate em mim), e vai por aí.
Uns climas básicos no disco apontam para a canção-reportagem à Jorge Ben, punchlines típicas de rapper e insights que batem e viram letra. Apontam também para variações da psicodelia freak de Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida (1972), disco de Rita Lee gravado com os Mutantes, e para uma espécie de zoeira com o formato canção. Tipo no pós-punk derretido de Jomo, que chega a lembrar Legião Urbana, mas só por alguns instantes.
O álbum reúne quase um feat por faixa – entre eles, Carlos Dias da banda Polara, Berna, que foi baterista da banda emo fluminense Marianaa, e a cantora Russia!, que solta a voz doce em Chocolate em mim. Uma curiosidade é Esse trabalho tá me matando, versão punk lo-fi em português de This business is killing me, dos Ramones, adaptada para tempos de “entrega” no trampo. Ficou bem bacana.
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