Connect with us

Cultura Pop

Os outros dois: Andy Rourke e Mike Joyce depois dos Smiths

Published

on

Os outros dois: Andy Rourke e Mike Joyce depois dos Smiths

Apesar de formarem uma cozinha elogiada, Andy Rourke (baixo, morto nesta sexta) e Mike Joyce (bateria) sempre chamaram compreensivelmente menos atenção no dia-a-dia dos Smiths. Afinal, Morrissey era o vocalista e letrista, Johnny Marr era o autor das melodias e o guitarrista – e ambos eram revolucionários bem na linha de frente. Daí “os outros dois” serem muitas vezes vistos como meros acompanhantes, pelo menos pela turma que não conhecia mais do que os hits do grupo de Manchester (o baixo e a bateria ágeis dos dois protagonizam canções da banda como Rubber ring, Some girls are bigger than others, Girlfriend in a coma e muitas outras, e olha que são três canções fáceis de achar em coletâneas).

Com o fim da banda, Johnny Marr passou um tempinho com os Pretenders e chegou a tocar com eles no Brasil em 1988, no festival Hollywood Rock. Envolveu-se com diversos projetos, teve menos projeção que Morrissey mas nunca sumiu de fato, e hoje tem uma carreira solo bastante ativa. O cantor dos Smiths, impossível não saber, foi catapultado à fama mundial a bordo de um contrato com a grandalhona EMI e o disco Viva hate (1988) – o daquele hit Suedehead. E Mike Joyce e Andy Rourke?

FORA DOS SMITHS, COM MORRISSEY

Sobre Andy, o que só os fãs mais roxos dos Smiths e de Morrissey devem ter reparado é que o baixista permaneceu um colaborador regular na carreira do ex-cantor dos Smiths por um tempinho, nos primeiros anos solo de Morrissey. Ele e Joyce tocaram como seção rítmica em duas músicas que inicialmente só saíram como singles, Interesting drug e The last of the famous international playboys, e depois foram incluídas na coletânea Bona drag (1990). November spawned a monster  e Piccadilly palare, outros dois singles de Morrissey (ambos incluídos em Bona drag) também tiveram Rourke no baixo.

O que ninguém esperava era que o baixista aparecesse como coautor de algumas canções feitas com Morrissey, e gravadas pelo cantor em lados B de singles: Yes, I am blind, Girl least likely to e a irônica Get off the stage (“saiam do palco”), esta última composta como “homenagem” ao retorno dos Rolling Stones com o disco/turnê Steel wheels (1989). Nessa época, Morrissey seguia lançando vários singles e não parecia ter pressa de lançar um álbum novo (embora já divulgasse Bona drag como possível nome de um segundo LP). Já havia críticos musicais achando que sua carreira solo era coisa-de-um-hit-só, e seu então parceiro Stephen Street, meio puto da vida com ele, costumava brindar os jornalistas com declarações do tipo “Morrissey acha que não consegue superar os Smiths e está louco para Marr voltar a compor com ele” (o cantor reclamava, mas também dizia que se o guitarrista quisesse reativar a parceria, ia correndo pra casa dele).

ANDY E MIKE NO TRIBUNAL

Aliás, para dizer a verdade, talvez ninguém esperasse nem mesmo que Rourke fizesse qualquer tipo de parceria com Morrissey ou Marr logo que os Smiths acabaram. Isso porque Mike Joyce e Andy Rourke se sentiram lesados financeiramente pelo cantor e pelo guitarrista no fim da banda, e decidiram processar os dois em 1989. A razão teria sido um contrato que dava mais grana de gravações e shows para os “patrões” e 10% para cada um dos dois outros, enquanto anteriormente havia um acerto de que todos receberiam o mesmo.

A briga (aliás, as brigas) foram tendo mais lances até o fim dos anos 1990, com Joyce lutando firme para conseguir mais dinheiro, Rourke resolvendo o caso fora dos tribunais e, um tempinho depois, tendo sua falência decretada. Joyce recebeu aproximadamente £ 1 milhão em pagamentos atrasados ​​e aumentou sua participação nos royalties para 25%.  Pior pro cantor da banda, que em 2005 chegou a declarar que o ex-baterista havia lhe custado “havia lhe custado pelo menos £ 1.515.000 em royalties recuperados e honorários advocatícios até 30 de novembro de 2005”.

MÚSICA, ENFIM

Fazer parte de uma cozinha elogiada garantiu trabalhos à dupla assim que os Smiths terminaram. Imediatamente, Rourke e Joyce foram tocar com Sinéad O’Connor, mas só o baixista aparece no disco Do not want what I haven’t got (1990, o de Nothing compares to you). Vale citar que pouco antes do fim dos Smiths, quando Rourke tinha sido brevemente sacado da banda por uso de heroína, o músico tocou com o Killing Joke, mas durou três dias com eles, e só (Geordie, guitarrista do grupo, disse que Andy era legal “mas só o vi sorrir uma vez, quando tocou uma linha de baixo do tema de Coronation Street“).

O baixista tocou também com bandas como Badly Drawn Boy (excursionou por dois anos com eles) e chegou a tocar com os mesmos Pretenders que em 1988 deram emprego a Johnny Marr . Mas foi em 1994, no disco The last of the independents (o disco do hit I’ll stand by you, da trilha da novela A viagem) e Rourke era apenas um freela do grupo, tocando em poucas faixas do álbum.

De notável, houve o Manchester v Cancer, ou Versus Cancer, evento criado em 2006 pelo baixista quando o pai e a irmã de Nova Rehman, seu empresário, foram diagnosticados com a doença. O evento durou quatro anos e logo no primeiro ano, Rourke e Marr se reencontraram no palco, e tocaram How soon is now e There’s a light that never goes out. Mais recentemente, em 2009, Rourke se mudou para Nova York, virou radialista e montou o DARK, grupo que tinha como vocalista Dolores O’Riordan, do Cranbierries (e evidentemente, o grupo durou apenas até a morte dela) e o Blitz Vega.

E JOYCE?

Joyce chegou a fazer um projeto com Rourke: o DVD Inside the Smiths, narrando histórias dos dois na banda, que saiu em 2007. Também trabalhou ao lado dele em projetos com músicos como Bonehead (ex-Oasis) e Aziz Ibrahim. E entre 1990 e 1991 fez parte de uma breve formação da banda punk Buzzcocks, que tinha retornado em 1989 após alguns anos sem shows e lançamentos. Joyce não chegou a gravar com os Buzzcocks, que só voltariam a lançar discos em 1993, com Trade test transmissions (mas com Philip Barker na bateria).

Boa parte dos trabalhos musicais mais conhecidos do baterista datam do século 21: ele virou DJ e radialista, trabalhando na BBC 6, na XS Manchester e na East Village Radio. E também é o patrono da Back On Track, ação de caridade de Manchester que ajuda a recuperar ex-sem teto e pessoas que passaram por problemas com álcool e drogas. Recentemente, os três primeiros EPs de uma banda pré-Smiths que ele teve, The Hoax, foram compilados num só LP, em celebração ao Record Store Day.

CONVERSA COM O BATERA

No ano passado, Joyce deu uma excelente entrevista ao The Irish Times e falou bastante sobre os Smiths. Revelou que em Strangeways, here we come, último disco da banda, há muitas cordas que foram gravadas com o uso de emuladores (sintetizadores?) e foram tocadas pelo próprio Johnny Marr. “A Rough Trade não colocaria as mãos nos bolsos para conseguir uma seção de cordas”, disse. “Ouvi dizer que é o álbum favorito de Morrissey, Johnny e Andy. É a única coisa em que concordamos”.

Joyce disse também ter ficado chocado com o fim da banda, porque achava que os Smiths haviam acabado de lançar seu melhor álbum. E confessou que gostaria de participar de uma reunião do quarteto, mas achava que não iria acontecer. “Se eu recebesse uma ligação de Johnny, Morrissey e Andy e eles dissessem que fariam um show surpresa na esquina em um clube jovem e que tocaríamos Strangeways, here we come para o aniversário… Só que acho que isso nunca vai acontecer. Não nos conhecemos mais. É provavelmente por isso que simplesmente não parece certo. Não seria The Smiths: seriam quatro caras que não se conhecem na casa dos sessenta”.

E NO BRASIL?

Pois é: Andy Rourke esteve no Brasil em 2014 como convidado do show de Johnny Marr na edição daquele ano do Lollapalooza. Aconteceu no dia 6 de abril, numa tarde calorenta: Marr, que havia sofrido uma fratura na mão um mês antes e parecia recuperado, lançava sua estreia solo The messenger (2013), mas tocou algumas canções dos Smiths em seu set e recebeu o amigo para tocar o hit How soon is now?. Saindo do item “Brasil”, os dois se reencontraram no palco em Nova York no ano passado.

Não foi apenas isso que Rourke veio fazer por aqui em 2014: ele veio fazer algumas apresentações como DJ, deu entrevistas e até participou de um papo no programa Coletivation, da MTV, ao lado do escritor Leandro Leal, que havia lançado o romance Quem vai ficar com Morrissey?. Numa conversa com o jornal Diário do Grande ABC (ele tinha uma data agendada num clube em Santo André, o que justificava o papo), Rourke revelou que amava o país, já havia vindo diversas vezes aqui e tinha amigos no Brasil. Os fãs mais esperançosos que não se animassem: ele avisou que uma volta dos Smiths estava descartada, e disse que nem sequer mantinha mais contato com Morrissey.

(agradecimentos a João Pequeno e Michel Munhoz)

Cultura Pop

Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Published

on

Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

Continue Reading

Cultura Pop

“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Published

on

“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

Continue Reading

Cultura Pop

Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

Published

on

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS

Andy Jans-Brown (Foto: Divulgação)
Radar1 hora ago

Radar: Andy Jans-Brown, Graave, Robbie Rapids, Andrews Way – e mais sons do Groover!

Tatá Aeroplano (Foto: Luiz Romero / Divulgação)
Urgente1 hora ago

RJ: Tatá Aeroplano faz show intimista na Audio Rebel neste sábado

The Cure apresenta música nova em show nos Estados Unidos
Urgente6 horas ago

Robert Smith mete o pau na “ideia absurda de um show de intervalo na final da Copa do Mundo” e em Trump

Fiona Apple (Foto: Divulgação)
Urgente13 horas ago

E tem música nova de Fiona Apple. É o tema da série “Lucky”

Rolling Stones - Foto: Kevin Mazur / Divulgação
Urgente14 horas ago

Mick Jagger: “Não quero ser imitado por inteligência artificial”

Baú de David Bowie libera as gravações dele em 1965 (com Jimmy Page na guitarra)
Urgente14 horas ago

Baú de David Bowie libera as gravações dele em 1965 (com Jimmy Page na guitarra)

Charlos - Foto: Victor Inojosa (arte.foto.alma) /Divulgação
Urgente15 horas ago

De Recife ao litoral: Charlos reinventa a própria música em “Saliente”

La Bagunza (Foto: Divulgação)
Urgente15 horas ago

Em novo single, La Bagunza faz da vida na estrada um idioma próprio

Resenha: Suki Waterhouse – “Loveland”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Suki Waterhouse – “Loveland”

Resenha: Ursamenor – “Quero ir pra casa” (EP)
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Ursamenor – “Quero ir pra casa” (EP)

Late Again (Foto: Henrique Barreto / Divulgação)
Urgente1 dia ago

Late Again transforma o caos cotidiano em pop psicodélico, em “Crazy or stupid”

Jungle - Foto: Mason Rose / Divulgação
Urgente1 dia ago

Jungle lança “Someday, somewhere” e mantém clima ensolarado do novo disco

Resenha: Among Legends – “Lose my grip”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Among Legends – “Lose my grip”

Resenha: Trickfinger – “In a box” (caixa)
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Trickfinger – “In a box” (caixa)

Resenha: Slayyyter – “Wor$t girl in America”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Slayyyter – “Wor$t girl in America”

Echo and The Bunnymen fala de Bruxelas "assombrada" em novo single
Urgente1 dia ago

Echo and The Bunnymen fala de Bruxelas “assombrada” em novo single

Manta Rays (Foto: Divulgação)
Urgente2 dias ago

Entre Pink Floyd e bedroom pop, Manta Rays apresenta dois novos singles

Babehoven (Foto: Divulgação)
Urgente2 dias ago

Depois do silêncio: Babehoven retorna com disco sobre recomeços