Crítica
Ouvimos: Mateus Moura – “A imitação do vento”

RESENHA: Bossa psicodélica e vozes entrelaçadas guiam Mateus Moura em A imitação do vento, disco meditativo que transforma o cotidiano em caminhada e conhecimento.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Guamundo Home Studio
Lançamento: 5 de junho de 2025
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Ex-integrante do Les Rita Pavone (banda paraense que entrevistei outro dia), Mateus Moura abre seu álbum solo A imitação do vento na onda da bossa voadora e psicodélica, com delicados arranjos de sopros e um violão + vocal mais delicado ainda – em Orelha de pau, música de letra lisérgica, falando em invenções e intenções humanas. É preciso confiar, que vem na sequência, insere meditação onde há a mão e os passos do ser humano: a música é uma ciranda lenta e meditativa, marcada por sopros, percussões e vocais (de Mateus, Mainumy e Ane Dias) que, em alguns segundos da faixa, parecem soar a cappella.
Essa junção de celeste e terreste é uma das marcas de A imitação do vento – que por acaso tem uma música chamada Celeste, um samba-choro dividido por Mateus e Karimme Silva, em que os desafios da estrada ganham ar de conhecimento do dia a dia. Outra marca é a junção de vozes, tanto que há poucas faixas verdadeiramente “solo” no álbum. Estrela d’alva fala de céu, existência e semeaduras existenciais, com vibe de forró meditativo, trazendo Cacau Novais dividindo as vozes. Manhãzinha é um blues-seresta amazônico, com solo de sax, Lariza nos vocais com Mateus, e um quê de Luiz Melodia na música e na letra – que compara a vida com um rio fluindo, trazendo versos como “não há pressa que valha tanto / nem tristeza que se eternize”.
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Já a marca principal do álbum é a transformação do dia a dia em conhecimento, em trabalho de caminhante, e em matéria de meditação. Uma estética que passa por todo o disco, chegando também a faixas como a valsa-blues O sopro (com Malu Guedelha), o forró Marujo de alto-mar (com Iris da Selva, aberta por um trecho curto, narrado, que lembra O ébrio, de Vicente Celestino) e a belíssima seresta-jazz Voz da noite, dividida com outro ex-Les Rita Pavone, Rafael Pavone.
No repertório de A imitação do vento, ainda tem o xote Luana, a carta para a mãe Mateus – aberta com acordeom e prosseguida com um violão que dá uma cara pinkfloydiana para a faixa –, a latinidade de Por la madre Tierra e, no encerramento, o samba Solo, cuja letra soa como um diário de caminhante e sonhador (“o sonho, ele vem me ensinar / se eu canto é pra aprender / o que eu preciso cantar”).
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Crítica
Ouvimos: Automatic – “Is it now?”

RESENHA: Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Stones Throw Records
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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Formado pelo trio Izzy Glaudini, Halle Saxon e Lola Dompé, o Automatic faz música como se criasse seu próprio som – ou como se usasse referências apenas na base do “eu achei legal, mas mudaria tudo”. Ouvindo Is it now?, é meio claro que bandas como Slits, Japan e Suicide foram ouvidas pelas três em algum momento (nesse papo na comunidade do reddit Indie Heads, Gary Numan foi igualmente citado), mas a colagem foi realizada de um jeito tão particular que dá para imaginar que se usassem IA, iam enlouquecer o sistema.
Vai daí que o synthpop estilingado e pontiagudo delas envolve pós-punk dançante e sustentado pelo baixo (Black box, Lazy, o beat eletrônico rudimental de Don’t wanna dance, o voo controlado de The prize), sons que lembram Ultravox, Talking Heads e o começo sombrio do Human League (PlayBoi, Smog summer, o eletropop alemão de Country song), coisas entre o pós-punk e a psicodelia (a flautinha de mq9, a vibe quase dub de Mercury). O teclado entra para dar uma onda “gelada” em meio ao clima bem pé-no-chão do baixo e da bateria, como se cumprisse a cota de climas mais viajantes no som. De bandas mais novas, dá para perceber algo linkado a Bravery e Arctic Monkeys na faixa-título, marcada também por vocais maquinados e onda meio krautrock.
Na letra de Is it now?, a faixa-título, dá para sentir que o Automatic propõe antes de tudo um manifesto estético – da mesma forma que Re-make / Re-model, do Roxy Music, propunha mudar tudo e enxergar beleza onde o movimento hippie poderia ver caretice ou sujeira. “Corte o cabelo com tesoura de cozinha / novo visual, uma imagem diferente / de segunda mão, não de televisão / shoppings, eles te tornam cruel”, avisam elas. Don’t wanna dance mostra que elas, de fato, não querem se parecer com todo mundo: “as luzes estão me cegando / eu não quero dançar, estou me escondendo / cada momento aqui me lembra que / eu não quero dançar”. Um “não é não” musical, de fino trato e em alto volume.
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Crítica
Ouvimos: Carlos Dafé, Adrian Younge – “Carlos Dafé JID025”

RESENHA: Carlos Dafé e Adrian Younge unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Jazz Is Dead
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Enxergando o soul e o balanço brasileiros como um precioso álbum de figurinhas, o norte-americano Adrian Younge vem fazendo uma série de lances especiais: vem por aí um álbum gravado ao lado de Antonio Carlos & Jocafi, e já saíram discos feitos com Hyldon e Dom Salvador, além de um solo cheio de convidados. E tem também JID025, gravado ao lado de Carlos Dafé, uma das melhores vozes da história da MPB, e um dos compositores mais hábeis no oscilar entre soul e samba.
JID025 parece um disco que Dafé adoraria ter lançado nos anos 1970: Amor enfeitiçado, logo na abertura, tem psicodelia nos acordes de guitarra, mudanças de tom e clima de abertura antiga de novela. E um pouco de paz, com recordações do som de Cassiano, lembra tema de filme policial. Bloco da harmonia tem metais e cordas vibrando junto com a percussão, além de lembranças do lado sambista de Dafé, compositor já gravado por Alcione e Nana Caymmi – embora a canção ganhe clima sombrio no fim. Jazz está morto une jazz, soul e grandiloquência herdada de Isaac Hayes e do Marvin Gave do disco What’s going on (1971). Cítara e harpa marcam o início de Verdadeiro sentimento, balada como as dos discos setentistas de Dafé.
Do começo ao fim, JID025 soa como um flashback turbinado e ácido, que também aponta para o Funkadelic em O baile funk vai rolar, e ganha ar voador em É real… é verdade, no samba orquestral Esse som é verdadeiro e na declamada Como entender o amor. Um reencontro entre passado e presente.
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Crítica
Ouvimos: Period Bomb – “Cuntageous”

RESENHA: Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Crass Lips Records
Lançamento: 2 de dezembro de 2025
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No Brasil ainda não tem muita gente comentando a respeito do Period Bomb – uma pena. Esse projeto estadunidense criado pela musicista Camila Alvarez reavivou o cenário riot grrrl em Los Angeles nos últimos 15 anos, e já lançou discos como Permanently wet (2020) e o EP 24-carat clit (literalmente, “clitóris de 24 quilates”, que saiu em janeiro do ano passado). Um dos trabalhos dela foi ajudar a incluir mulheres trans e mulheres negras que se sentiram excluídas das ondas riot grrl anteriores – como a própria Camila conta nessa entrevista.
- Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair
Cuntageous, o EP mais recente do Period Bomb, não economiza em duas coisas: sons experimentais e dedo na cara de homens babacas. Em alguns momentos lembra Yoko Ono, em outros parece um som ligado também à onda egg punk, de teclados distorcidos e sujos. Cunty boy (“garoto cuzão”) tem vocais afinados, mas prontos para zoar e meter o malho – lado a lado com programação eletrônica e teclados. Parking ticket junta teclados maníacos e voz com vibe fantasmagórica de brincadeira. Birth of labubu zoa uma das manias de 2025 em clima sonoro que mistura Devo, Yoko Ono e Young Marble Giants.
O Period Bomb faz também samba latino experimental em espanhol, Porriquitico, lembrando Mutantes – e lembrando também o quanto o “não é não” é difícil no dia a dia. No final, os 40 segundos da vinheta-título, fazendo questão de explicar que a babaquice masculina é bastante contagiosa. E é.
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