Cultura Pop
Jim Capaldi reeeditado e relembrado

Muita gente não sabe disso, mas existe uma escola de música com o nome de um conhecido roqueiro inglês em Vicente de Carvalho, bairro da Zona Norte do Rio. O Centro Musical Jim Capaldi, criado pelo ex-baterista do Traffic, já ultrapassou uma década dando aulas de canto, cavaquinho, percussão, violão e prática de conjunto para crianças do entorno do bairro – lugares como Conjunto Residencial do Ipase, Morro do Juramento, Jardim do Saco, Morro do Trem, Jardim do Carmo e Morro da Fé. O centro é parte integrante da Associação Beneficente São Martinho.
Jim Capaldi (1944-2005), muita gente deve saber, tinha relações reais com o Brasil: casou-se com uma carioca, Anna Capaldi, e morou no Brasil por alguns anos, a partir do fim da década de 1970. Além do Traffic, manteve uma carreira solo repleta de lançamentos, alguns deles gravados no Brasil. Chegou a manifestar preocupação com a situação do país em canções como Favella music, lançada em 1981.
Anna vem tocando o centro com a ajuda das filhas, Tabitha e Talullah (a caçula, nascida no Rio). A mais velha, Tabitha, também ajuda a tocar o legado do pai (que, aliás, faria 77 anos hoje, dia 2 de agosto de 2021). Ela recentemente percebeu que um dos discos mais significativos de Jim, Short cut draw blood, o terceiro, lançado originalmente pela Island em 1975, estava fora das plataformas digitais, apesar de já ter sido reeditado em CD. Lutou pelo relançamento digital do álbum, repleto de letras críticas em relação à maneira como os povos oprimidos sçao tratados. E cuja ficha técnica traz super musicos como Steve Winwood (teclados, guitarra, baixo), Remi Kabaka, Rebop Kwaku Baah (ambos percussão) e Chris Spedding (guitarra).
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Tabitha também vem tocando projetos como o site de Jim (que estará devidamente reformado em setembro) e o instagram do artista. Trabalha também num filme sobre o Traffic e na volta aos palcos de um ex-colega de banda do pai, Steve Winwood, que retorna em turnê ao lado do Steely Dan em 2022. Batemos um papo com Tabitha sobre os novos projetos, sobre a escola de música (que precisa de doações – saiba mais aqui) e sobre a infância dela, cercada de música e de histórias envolvendo nomes como George Harrison e David Gilmour.
Nunca tinha escutado o Short cut draw blood e fiquei impressionado com as letras. A faixa-título poderia ter sido feita hoje. O disco não estava disponível no digital, então?
Não, lançamos agora. É essa a grande questão. A gente tem uma empresa, Freedom Songs, que meu pai criou, e administramos parte do catálogo dele, que é nosso. Tem certos discos que estão com majors, esse especificamente é da Island Records, uns outros com a Warner. Era um trabalho que a gente estava fazendo, mas digital a gente nunca prestou atenção. Minha mãe estava administrando esse catálogo havia muitos anos, depois que meu pai morreu em 2005 ela estava à frente disso. Era um trabalho mais de discos físicos, box sets, mas o digital foi esquecido. Recentemente eu estou tomando mais à frente.
Desde quando você cuida dessa parte?
Comecei ano passado, 2020. Eu sempre trabalhei com direito autoral, fiquei onze anos na BMI (sociedade arrecadadora). Trabalhava com gravadoras pequenas em Londres. Eu ajudava minha mãe nesse lado, vendo tudo. E descobri que esse disco nunca tinha sido lançado, foi um erro muito grande da gravadora. Entrei em contato com o novo chefe da Island, que eu havia conhecido quando trabalhava na indústria – é o Louis Bloom, o pai dele era integrante da banda 10cc (o Graham Gouldman). O Louis até pediu desculpas pelo disco não ter saído.
Você não quis nunca ser musicista?
Muita gente até perguntava isso, porque tendo pai músico, é uma influência. Tive um pai com ele, vivi uma vida como a que eu vivi, cercada de grandes músicos… Mas eu me sentiria muito intimidada. É muito difícil crescer nesse mundo. Conheço muita gente assim, até aqui no Brasil você tem filhos de músicos, como o Pedro Baby (filho de Baby do Brasil e Pepeu Gomes), mas é um caminho muito difícil, você tem que ser fantástico, está sempre sendo comparada com seu pai. Eu já entendi desde cedo que não iria para essa área.
Meu pai nem incentivou muito a mim e a minha irmã a entrar em nada na música. Era tipo “ah, vira médica, advogada” (risos). Bom, claro que se eu quisesse ser artista ele teria apoiado. Mas eu queria ficar perto da música e fui para a indústria.
Já andaram saindo box sets do Jim em vinil, certo?
Em 2019 saiu uma box set de vinil do Traffic, seis discos de vinil. Foi primeiro box do Traffic, até pela trilha dos Vingadores, que fez sucesso. Teve um box set em 2020, Dear Mr Fantasy, que foi um trabalho feito ao lado do selo Cherry Red. E um chamado Open your heart, com os discos em vinil, inclusive o Short cut draw blood. Em breve vão sair os vinis individualmente, que eu acho que são um produto bem legal. Estamos muito felizes com isso.
Aliás você deve ter crescido cercada de vinis…
Eu fui cercada de muita música, era algo até meio irritante: “Oh, seu pai é um músico famoso!”. Cresci entendendo música a fundo, estava cercada de música desde pequena, sempre ouvindo. Lembro do meu pai me levando pra ver o The Who, acho que foi um dos primeiros shows que vi na vida, no Hammersmith Apollo, começo dos anos 1970. Cresci em Henley-on-Thames, um lugar pequeno em Londres, e George Harrison morava do lado, a cinco minutos de lá. E ainda tinha David Gilmour que morava também do lado. Era uma área cheia de músicos. Eu ia para a escola, tinha amigos normais, mas voltava para casa e estavam o George Harrison ou o David Gilmour sentados à mesa lá em casa (risos). Era fantástico.
Vocês iam muito às casas deles?
Lembro de ir à casa do George Harrison porque ele e meu pai eram amigos próximos. Cresci ao lado do Deep Purple, Jon Lord e Ian Paice eram amigos do meu pai, bem próximos da minha família. Passávamos muito tempo juntos e havia muitas jam sessions. Você ia na casa do George e tinha uns cem ukeleles. Ele te dava um na porta e todo mundo tinha que tocar. Eu vivia nesse meio, via todo mundo tocando e era meio estranho para uma criança. Perguntavam “o que você fez no fim de semana com sua família?”. Falavam: “Ah, eu fui no parque com a minha mãe”. Eu respondia: “Ah, fiz uma jam com Ringo Starr e Ian Paice” (risos). Uma vez na casa do George, Ravi Shankar estava lá, eu tinha 16 anos. O Billy Preston estava no piano, sabe o Billy Preston?
Claro!
Pois é, eu estava sempre cercada de músicos e volta e meia me perguntavam se eu queria ser cantora, musicista. Não dá, isso é muito intimidador. Mas era uma vida incrível para se ter à minha volta. Eu tinha muita música em casa, alias eu tinha uma jukebox em casa. Meu pai era fanático por música, havia música no carro no caminho da escola, na jukebox quando acordávamos, ou no aparelho de som, ou no estúdio em casa. Ele estava sempre ouvindo alguma coisa, ou escrevendo alguma coisa. Ele era definitivamente um “old guy”, um cara que curtia coisas antigas.
Quando eu estava crescendo nos anos 1990, eu entrei na onda de techno, drum’n bass, era uma coisa da minha geração. Lembro que o primeiro selo no qual trabalhei foi uma gravadora de drum’n bass. Conversava com ele e ele “o que é isso? Isso é música de máquina?”. Acho que foi difícil para ele se adaptar, a gente teve muitas conversas sobre isso. Ele era muito apaixonado por soul music, Motown, Ray Charles, Sam Cooke, Otis Redding. Eu aprendi muito sobre música quando bem pequena, tinha muito vinil em casa, mas depois minha “coisa” passou ser o hip hop, quando eu tinha uns 13 anos. Depois na BMI tinha que trabalhar com outros selos, tinha que assinar com Bloc Party, Amy Winehouse, Arctic Monkeys, trabalhei com montes de pessoas, tinha que ver gigs. Mas vi Ray Charles, The Who, isso explodiu minha mente. Quando você é criança nem entende quem são esses artistas. Uma vez cheguei em casa e quem estava lá era o (tenista) John McEnroe, que era fã do meu pai. Meu pai era fã de esportes e no Brasil, se apaixonou por futebol.

Jim Capaldi e Tabitha
Você nasceu no Brasil?
Não, eu nasci em Londres e vim para o Brasil em 1978, 1979. Minha irmã nasceu aqui. Cheguei aqui com um ano de idade. E morei aqui até os seis anos. Voltamos para Londres acho que em 1984, e passei minha infância no Brasil. Meu pai já tinha vindo ao Brasil, ele conheceu minha mãe em Londres em 1975, quando ela foi para lá estudar inglês. Eles se conheceram e em três meses se casaram e ela já estava grávida de mim! (risos) Tenho lembranças legais do Brasil, da praia, e de quando voltei para a Inglaterra que foi um choque, por causa do frio. Mas durante o período em que vivemos aqui, ele estava sempre viajando muito, gravando outros discos. Estava sempre na estrada, longe, ficava um tempo sem vê-lo. Mas era minha vida. Eu chegava a pensar que queria que ele trabalhasse num banco ou algo do tipo. “Será que você não pode ter um emprego normal?”, eu falava.
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Além de ser um grande baterista, ele também foi um cantor e um letrista habilidoso e informado – tanto que o disco fala de ecologia, preocupação com os povos indígenas… Isso era discutido em casa com vocês?
Ele era interessado nisso sim. Meus avós eram italianos, meu avô tocava acordeom, ambos eram músicos. Minha avó cantava. Eles se encontraram porque a família da minha avó tinha um circo. Eles faziam turnês, davam shows, então meu pai teve um background bem musical. Ele não chegou a fazer uma faculdade, aprendeu muito vivendo com o Traffic na estrada. Mas o primeiro instrumento que ele estudou, na verdade, foi piano. Meu pai estudou música justamente porque meus avós eram músicos.
Ele aprendeu piano antes e já era um cantor antes mesmo de ser baterista e trabalhar com o Traffic. E já estava compondo e cantando antes da banda. Se você lê as letras percebe o quanto meu pai era um letrista, ele escreveu todos os versos do Traffic. Ele tinha um envolvimento muito grande com a questão da ecologia, adorava ler a National Geographic, ler sobre antropologia, era fanático por isso. Ele tinha muitos livros, a educação dele veio dos livros, e o disco inteiro é uma expressão dos sentimentos dele. Há vários tipos de canções nesse disco, até mesmo canções sobre ecologia, mas há outras músicas. Ele queria sempre dizer alguma coisa, queria deixar um statement.
Bob Dylan era a maior bíblia dele, representava tudo o que ele queria dizer. Meu pai era brilhante como letrista. Tem muitas obras que ele escreveu que são bem pop. Mas tinha o lado dele de querer falar dos pontos mais importantes da vida.
E como vai a escola de música Jim Capaldi? Como está sendo nessa época de pandemia?
Então, hoje estamos passando um momento ruim. Eles precisaram reduzir equipes no Instituto São Martinho. Estamos enfrentando um furacão nesse momento, em que está tudo muito difícil para várias ONGs. Somos baseados em doações, isso caiu muito nesse último ano, e tivemos uma redução de 90% de equipe, praticamente. É algo enorme para a gente, estamos vendo como vamos sobreviver. Não temos apoio do governo, nossa parte é a escola de música que faz parte do São Martinho. A gente pessoalmente – a família Capaldi – doa todo ano para poder segurar e manter os custos, que são 50% da escola. E além disso, fazemos nosso trabalho, pedindo doação. Tivemos uma doação maravilhosa de instrumentos para a escola no ano passado, que foi emocionante para a gente, mas tá sendo muito difícil sim.
É uma pena, mas estamos tentando fazer o que dá, dentro das possibilidades. Tem muitas pessoas pedindo, e não é só o Brasil. Mas o Brasil está enfrentando um problema sério, de desemprego, falta de acesso à comida, uma loucura. É inacreditável pensar que pessoas que ganhavam com seu trabalho hoje nem têm isso. Gente que pagava as próprias contas e que nem consegue mais fazer isso hoje. As doações que pedimos nem são para a escola, são de comida para as famílias que frequentam a escola. Estamos buscando apoio com pessoas, lançando o novo site do meu pai. Tem site, instagram, muita coisa nova vindo aí. Enfim, como meu pai dizia, keep on tryin.
Voltando a Short cut, esse disco saiu pouco antes de você nascer. Você tinha uma relação de infância com ele? Como é a relação sua com a música do disco?
Eu amo esse disco. Quando você cresce com música, estabelece um relacionamento com ela. Lembro do meu pai tocando muita música, e lembro muito desse disco de quando ia crescendo. Aliás me lembro de ouvi-lo pouco antes do meu pai morrer. Há muitas fases na nossa vida, mas esse disco em particular eu acho fenomenal. Ele também pe cheio de significado por causa daquela época da Inglaterra, aquele monte de greves acontecendo, Margaret Thatcher vindo aí, um tempo bem horroroso. E tem significado hoje também. Acho que esse disco tem que ser ouvido! O selo no começo estava com a ideia de apenas jogar nas plataformas, mas eu quis fazer uma campanha e eles nem sabiam que ia dar no que deu.
Ele foi gravado no Muscle Shoals Sound Studios (estúdio lendário no Alabama), a gravação faz com que ele seja um disco especial, além das pessoas que trabalharam nele. O disco é uma celebração. Meu pai teve uma leva fantástica de músicos no disco. Eu tenho a ideia de fazer vídeos para as músicas, um making of do disco. Acho que isso nunca nem foi feito. Tinha nomes como o Remi Kabaka, que foi um dos primeiros músicos africanos a tocar rock, e que tocou com todo mundo. Tenho falado bastante sobre isso com o filho dele, Remi Kabaka jr (produtor e músico, conhecido pelo trabalho com a banda virtual Gorillaz).
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet



































