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Cultura Pop

Entrevista: Rogério Skylab fala de show novo, cosmos, pandemia e jornalismo

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Entrevista: Rogério Skylab fala ao site Pop Fantasma sobre show no Circo Voador e outros assuntos

Convidamos você a ler essa entrevista com Rogério Skylab sem rir, e encarando o trabalho dele a sério. Discos como Crítica da faculdade do cu (lançado em 2019 e que faz parte da “trilogia do cu”) e músicas como Matador de passarinho vêm de pensamentos filosóficos, recordações de tempos idos e de observações do dia a dia, e não de uma vontade de apenas fazer piada. O cantor e compositor carioca leva para o Circo Voador (Lapa, Rio) no sábado que vem (dia 3 de setembro, um dia após seu aniversário de 66 anos) o show de seu disco novo, Caos e cosmos 2, quarto movimento de uma nova série com o tema “cosmos”. Em meio a músicas como A gente vai ficar surdo, Terror e O corpo real da Paola, gêneros musicais como jazz, samba e chorinho aparecem nessa fase nova da carreira do artista, cuja faceta mais piadista, gozadora, acabou ficando mais à frente nesse tempo todo.

Isso aconteceu, claro, por causa de canções como Meu pau fica duro, Você é feia, Carrocinha de cachorro quente e Dedo no cu e gritaria, mas também porque, nas entrevistas que deu para programas de TV, ficou difícil tirar o foco desse lado – que, de fato, chama a atenção.  Uma ambiguidade que Skylab assume e com a qual procura lidar, como conta nesse papo com o Pop Fantasma, no qual fala de show novo, pandemia, entrevistadores (de Jô Soares e Danilo Gentili ao Monark, do podcast Flow) e até de um certo presidente aí.

(lembrando que na mesma noite no Circo vão rolar o show da banda Blastfemme, na abertura, e a festa Bauhaus)

Como tá sendo pra você esse retorno aos palcos?

Eu fui muito severo em relação a qualquer espécie de liberdade durante a pandemia, sabe, cara? Eu já tenho uma natureza ligada à reclusão, mas a pandemia me levou a uma longa quarentena. E aí eu recebi alguns convites de shows, mas não quis, não. Segui à risca o protocolo. A única vez que me apresentei foi numa live, que foi gravada durante a pandemia violenta mesmo.

Sem vacina, sem nada…

É. Eu fiquei com medo, sabe, cara? Mas como era apenas a banda… A gente gravou lá no estúdio Companhia dos Técnicos (estúdio em Copacabana), tinha um piano lá, fui fazer. Foi a única vez que me lembro de ter saído do protocolo. Não fiz show nenhum, só um recente, uns dois meses atrás no festival Picnik, em Brasília.

E o show vai ser no Circo Voador, onde você está acostumado a lançar discos… 

Exato. Eu lancei agora o Caos e cosmos 2. Tenho trabalhando em cima desse projeto do Cosmos, que vai ter cinco discos. Ele vai terminar com o Caos e cosmos 3, que vai ser lançado no próximo ano. Esse projeto Cosmos é um total de cinco volumes. A minha relação com o Circo é muito familiar, pra mim é muito natural que eu faça esse show lá… No show eu vou cantar algumas músicas do último disco, mas pra mim é impossível cantar só isso. Sempre faço um apanhado de todos os discos. Vou passar por toda a minha discografia.

Entrevista: Rogério Skylab fala ao site Pop Fantasma sobre show no Circo Voador e outros assuntos

Skylab ao vivo no Circo (foto: Augusto César/Acervo Circo Voador)

Eu queria saber um pouco como começou essa história do “cosmos”, de fazer discos com esse tema. Porque inicialmente o projeto começou com você querendo homenagear o Moacir Santos, o Hermeto Pascoal e o Eumir Deodato regravando músicas deles, mas quando regravou as do Moacir teve problemas com a família dele, e o projeto foi deixado de lado, não foi isso?

É verdade. Você sabe que tocou num assunto que pra mim foi foda? Essa coisa dos direitos autorais, dos herdeiros, é séria. Eu deveria ter tido mais cautela e não tive. Eu gravei (músicas do Moacir para lançar no primeiro disco da série do cosmos), dai ouço a música e penso: “Putz, não vou poder lançar”… (rindo)

E deve ter ficado bem legal.

Nossa, ficou tão lindo! Porque o pessoal que me acompanha tem toda uma escola ligada ao jazz, o Leandro Braga no piano, o Pedro Aune no contrabaixo acústico e o Rodrigo Scofield na bateria. Eles têm toda uma manha ligada ao jazz, quando gravei duas músicas do Moacir ficou lindo. Depois de gravá-las é que fui entrar em contato com os herdeiros. O filho dele, que mora na Califórnia, não autorizou. Daí a gente não pode fazer nada e o que me resta é ficar ouvindo no meu computador (rindo).

Mas a ideia do cosmos… Eu tinha feito umas trilogias antes. Uma delas, anterior à do cosmos, foi a trilogia do cu. Tem os discos O rei do cu, Nas portas do cu e Crítica da faculdade do cu. Eu sou formado em filosofia, e um dos grandes pensadores para mim, um dos que mais me influenciaram, foi Gilles Deleuze. Tem um livro dele em que ele fala justamente do processo de desterritorialização. As forças saindo da terra e atingindo o cosmos. Foi aí que eu tive a ideia de primeiro fazer a trilogia do cu, como um processo de imanência, que tá na Terra, tá fundado no centro da Terra. E depois a desterritorialização, atingindo o cosmos, as forças cósmicas. Foi essa imagem do Deleuze que me levou a fazer esses dois projetos.

É uma maneira descontraída de falar de temas profundos, não?

Sim, aliás quando você fala em cu… Tem grandes intelectuais que têm debruçado sobre essa questão, inclusive um trans espanhol muito famoso, que fala justamente sobre a questão conceitual do cu. Minha grande dificuldade foi me apresentar em programas como o do Danilo Gentili. E eu vou mesmo, não tenho esse tipo de idealismo de esquerda, apesar de ser ligado à esquerda, de pensar: “Ah, o Danilo Gentili é de direita. Então não vou ao programa dele”. Esse tipo de pensamento eu não tenho, quando lanço um trabalho quero ter espaço de apresentação, até para afirmar minha música.

Mas uma das dificuldades que tenho é: como você vai falar do cu no programa do Danilo Gentili? Porque vai ser levado para a questão da gozação, do machismo, de piadas bobocas… Sei que vou sempre enfrentar essa dificuldade. Mas não poderia deixar de fazer isso, sempre procurei desenvolver todo um discurso filosófico ligado ao cu. E sei que essa ambiguidade também é uma coisa muito importante. Provavelmente no meu público vou ter muitos bolsonaristas, Muitas pessoas que gostam do meu trabalho têm uma perspectiva bolsonarista, de levar meu trabalho pro lado brincalhão, pro lado da piada, pro lado do escárnio, do bizarro, da sacanagem. Mas tem todo um outro lado que eu trabalho na perspectiva da filosofia. Essa ambiguidade eu assumo no meu trabalho.

Você tá falando do Danilo Gentili e eu me lembrei muito de você no Jô Soares. Muitas vezes o público estava rindo, mas você, não. Estava ali falando sério! Como era pra você estar lá?

O Jô Soares foi o grande responsável pelo fato de eu ser conhecido pelo grande público. Eu apresentei grande parte da minha discografia lá. Quando ele estava se despedindo da Globo, apresentando os últimos programas, ele me chamou. Ali, eu percebi que era uma despedida, que ele iria se aposentar e nenhum outro programa daquela emissora iria poder substituí-lo. Ao mesmo tempo eu sabia que muitas pessoas iriam me conhecer apenas por causa do Jô. E a partir daí iriam fazer toda uma imagem do Skylab como um cara divertido, brincalhão, piadista, que o Jô também explorava muito esse lado.

Ao mesmo tempo em que ele foi muito importante para me fazer ficar conhecido do grande público, ele também investiu numa imagem do Skylab como um cara ligado à piada. E muitas pessoas, em vez de conhecerem minha música pela minha discografia, que tá toda presente nas plataformas digitais… Enfim, não tem desculpa por não conhecer!

Verdade…

Mas enfim, a pessoa acabou me conhecendo apenas pelas minhas participações, e por ter apresentado apenas uma música, ou outra. É pouco, né, cara? É um lado apenas, a pessoa não conhece a discografia, que é o mais importante.

Quando rolou a história do Monark falando sobre partido nazista, e descobriram aquela entrevista em que você questionou os apresentadores do podcast Flow (o cantor disse que os apresentadores não estavam num botequim e que precisavam ter responsabilidade com o que era falado e transmitido), houve uma série de matérias com título “conheça Rogério Skylab, o cara que questionou o Monark”, “quem é Rogério Skylab?”. Como você viu o fato de aparecer tanta gente querendo te “apresentar” após tanto tempo de carreira?

Mas as pessoas esquecem! Você pega uma geração nova… Ainda mais em se tratando do Flow. Eu estive muito presente no podcast, fui umas quatro vezes lá. A primeira vez em que fui lá, o podcast era desconhecido. Bom, não era bem desconhecido, mas não tinha um público imenso. E o público era eminentemente de garotos despolitizados e que viviam ali no limbo da internet, nos jogos eletrônicos. Quando me chamaram pela primeira vez, sabia que era isso.

À medida que o tempo foi passando, muitos políticos da esquerda começaram a ver ali um filão muito importante, porque você iria entrar em contato com um público imenso. A partir daí as pessoas que frequentavam o Flow passaram a ser de todas as tendências. Eu me lembro de quando o Guilherme Boulos foi no Flow. O Moro foi, o Ciro foi… No primeiro programa que eu fui no Flow, disse que a esquerda não podia dar as costas àquilo. Desde o começo da minha carreira, nunca dei as costas à grande mídia. Televisão, Jô Soares, Danilo Gentili, Flow… Tem um segmento da esquerda que fala: “Você não pode ir a esses lugares, são lugares fascistas”. Sempre achei que meu discurso era pro grande público e sempre que houver oportunidade vou estar presente.

O Flow, por acaso, se definia como um bate papo de botequim… E pelo menos no meu entendimento bate-papo de botequim eram as entrevistas do Pasquim, ou algo parecido. Como você vê isso hoje?

Quando você se remete ao Pasquim… Realmente o Pasquim era gigantesco, cheguei a ler muito. Eu vi agora essa sabatina do Jornal Nacional com o Bolsonaro e isso me fez pensar como que o nosso jornalismo vive uma queda, uma decadência. Você vê aqueles comentaristas do GloboNews e compara com o pessoal do Pasquim. Eu até coloquei recentemente num post: que saudade que eu tenho de um Tarso de Castro, de um Fausto Wolff, de um Luiz Carlos Maciel… Eles eram grandes jornalistas e escritores. O próprio Alberto Dines, que era uma figura maravilhosa… Como o nosso jornalismo decaiu!

A Renata Vasconcellos e o William Bonner ficaram totalmente vazios diante do Bolsonaro, no Jornal Nacional. Agora imagina por exemplo o Tarso de Castro diante do Bolsonaro. Ia massacrar! Mas isso dai eu acho que expressa a decadência do jornalismo. Na verdade uma decadência que se expressa em todos os níveis da sociedade, não só do jornalismo. A gente tinha grandes jornalistas e hoje vive num mar de mediocridade.

Eu ia mesmo perguntar o que você achou da entrevista do Bolsonaro…

Eles se mostraram muito tolerantes com aquelas mentiras, uma atrás da outra. E você não reage! Isso pra mim é terrível. Dois jornalistas que não reagem à altura do papel que eles ocupam diante daquele festival de mentiras, de besteiras. Isso pra mim é doloroso.

Como você, que teve sempre uma discografia organizada e numerada, tá vendo o formato álbum hoje em dia? Você acha que ele ainda é valorizado?

Sabe que eu tô começando a pensar sobre isso? Eu me formei nos álbuns, tenho todo um histórico de ouvinte de álbuns, sou da época do vinil, na minha casa tem vinil pra caramba. A ideia de álbum pra mim sempre foi muito importante, álbum pra mim é como um livro, um filme. A primeira música do álbum, a última, a primeira dialogando com a segunda, o caminho que vai da primeira até a última. As questões que eu coloco, uma música dialogando com a outra… É uma coisa orgânica.

Quando desapareceu o CD e passou a ser streaming, a ideia do álbum continuou pra mim, não importa a mídia. Continuei produzindo do mesmo jeito. Mas estou começando a pensar a possibilidade, pela primeira vez, de lançar singles num próximo trabalho. Um mês lanço num single, no outro mês lanço o outro, no outro mês lanço o outro… Muda todo o conceito de álbum. Pra mim a ideia de colocar todas as músicas juntas é muito importante. É uma possibilidade nova. Hoje muita gente faz só isso.

E as plataformas não têm muita informação sobre quem toca, quem compõe… Pra você que tem lançado discos com participações isso deve ser um problema, não?

Isso é um outro problema! Pra superar essa questão eu tenho meu site e lá eu dou todo o histórico dos discos, informando todos os participantes, todos os dados técnicos. E também faço o mesmo no YouTube, coloco todos os dados técnicos. Agora, a questão do Spotify, das outras plataformas… Não tenho esse controle. Através do YouTube e do meu site, coloco tudo.

Aliás, o Abismo e Carnaval saiu em 2012, então a mudança que você fez na sua discografia, dos discos numerados para as séries, está completando dez anos. Como você decidiu fazer essa mudança?

Eu sempre penso que esse decálogo, dos discos com meu nome, do Skylab I ao X… É uma série de dez discos, né? Mas vejo que nesse aspecto não tem diferença, sempre trabalhei com a ideia de série. Os discos do Cosmos são cinco volumes. Pra mim a ideia de série é muito importante, nesse sentido eu não diferencio o decálogo dos discos do Carnaval. Tem algo que permanece em comum, que é justamente a ideia de série.

Mas se você mergulhar nesses dez discos, você vai encontrar elementos que vão estar presentes no meu último disco. Isso acontece desde meu primeiro disco, que nem era de série nenhuma e saiu em vinil, o Fora da grei (1992). Se você ouvir aquele repertório, várias músicas daquele disco eu regravei: Casas da Banha, por exemplo. Muito do estilo que já estava se construindo ali, ele vai estar presente em outros discos que gravei.

Como você pensa a divulgação dos seus trabalhos? Neste ano já foram dois discos, o ao vivo tirado da live e o Caos e cosmos 2? Já rolou isso em outros momentos, não? Rola um cuidado para um disco não atropelar o outro?

Essa periodicidade foi constante em toda minha carreira, nos meus quase 30 anos de carreira minha produção foi anual. Esse exemplo da live foi o único em que saíram dois trabalhos num ano, mas a live tá meio à margem da minha discografia. Se você produz dois por ano, nem trabalha direito a divulgação. Eu venho de um tempo em que a imprensa oficial tinha a importância muito grande. O que o Tárik de Souza ou o que o Antônio Carlos Miguel escrevessem, tinha um peso muito grande.

Hoje o que eles escrevem não tem peso nenhum, vamos convir. Pode me dar aí um grande nome da grande imprensa, de notório saber, que não vai ter importância nenhuma. Hoje a indústria é outra. A forma de entrar em contato com a música é uma outra forma completamente diferente. Eu fui de um tempo em que produzia meu disco e… quantas vezes eu não fui na redação do Globo, ou na redação do Jornal do Brasil? Eu fui, eu fazia isso. Lembro de vários jornalistas, o Pedro Só, uma porção deles. O meu primeiro disco, Fora da grei, teve uma repercussão muito boa no Jornal do Brasil, diria até que os dois grande impulsionadores da minha carreira foram o Jô Soares e o Jornal do Brasil.

Essa era uma época, hoje é outro momento. Hoje o lançamento do disco para mim não tem mais aquela importância, de você chegar, ir na redação, acabou isso. O lançamemto é “quando o disco será lançado nas plataformas?” . Ele é normalmente lançado á meia-noite, zero hora, e aquele momento é muito importante, o público tá ouvindo pela primeira vez e vai começar a soltar as ideias, as opiniões, que são tão importantes quanto o texto do velho jornalista. É a opinião anárquica das pessoas. Não é mais a crítica engessada da grande imprensa. É uma outra história. Depois eu vou fazer o trabalho de formiguinha, mostrando uma música ou outra, o trabalho das redes sociais.

Foto lá de cima: Divulgação

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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