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Cultura Pop

Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

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Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

Para quem é fã do punk rock clássico, aquele que fez história nos EUA e na Inglaterra do fim dos anos 1970, Stiv Bators é um nome conhecido e celebrado. Vocalista dos Dead Boys, Bators tornou-se conhecido pelas performances viscerais e selvagens que fazia, em muito inspirado por seu ídolo Iggy Pop.

Gimme danger little stranger

Duas histórias notáveis, inclusive, tornaram-se emblemáticas em sua adoração por Iggy Pop. Na primeira delas, Stiv disse aos quatro cantos que foi ele o responsável por entregar o pote de manteiga de amendoim com o qual o Iguana se besuntou e andou heroicamente sobre (literalmente) a platéia no Cincinatti Pop Festival de 1970, algo considerado como pura lenda por seus amigos.

A segunda foi em um jantar em Cleveland em 1977, quando os Dead Boys abriram para o ex-stooge como parte da turnê de seu primeiro álbum. Nervoso por conhecer seu ídolo, Bators ingeriu alguns Quaaludes, como era conhecido o fármaco metaqualona, que fora criado para combater a insônia, mas servia para deixar o pessoal mais, digamos, ousado. Chapadaço da substância, Bators não segurou a bronca e caiu de cara em seu prato de sopa justamente quando jantava com seu herói, em história retratada no já clássico livro Mate-me por favor.

Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

David Quinton Steinberg, Stiv Bators, George Cabaniss e Frank Secich gravando o álbum Disconnected em agosto de 1980 no Perspective Studios, em Sun Valley, Califórnia. Foto de Theresa Kereakes.

Jovem, barulhento e arrogante

Com o grupo, Stiv Bators lançou dois álbuns. O cultuadíssimo Young, loud and snotty (1977), uma das pedras fundamentais do punk americano, e o segundo disco do grupo, We have come for your children (1978), álbum de menor impacto que seu antecessor mas também repleto de petardos enfurecidos da banda de Cleveland, ainda hoje apontada como uma das mais selvagens da sua geração.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Stiv Bators: o “outro nome” do punk em documentário

A selvageria vista no palco não era mera encenação. Na época de Dead Boys, Stiv teve um romance com a famosa groupie Bebe Buell, que já havia namorado músicos como Todd Rundgren, Rod Steward e Steven Tyler, do Aerosmith, com quem teve a filha Liv Tyler. Buell, inclusive, relembrou a relação com Stiv em um texto para o site Please Kill Me, de Legs McNeil, autor do já citado livro de mesmo nome. Ao longo de sua curta e intensa vida, o vocalista usou e abusou das drogas e fez parte da hoje famosa turma festeira que frequentava o CBGB e a boemia do Bowery na Nova York do fim dos anos 70.

Com o fim dos Dead Boys, Bators decidiu se reinventar como um cantor de power pop, fechando um contrato com a gravadora Bomp! e se mudando para Los Angeles. Foi dessas sessões que surgiu o álbum Disconnected (1980), apontado como uma obra-prima pouco explorada desse vocalista também pouco celebrado em comparação com alguns de seus contemporâneos e amigos de cena.

Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

Os músicos de It’s cold outside: Eddy best, Rickbremmer, Stiv Bators e Frank Secich em Los Angeles, abril de 1979. Foto de Donna Santisi.

Do punk rock ao power pop

Para compor o álbum, Bators recrutou o baixista Frank Secich, seu amigo de longa data e conterrâneo de Ohio, estado natal do vocalista, também conhecido por ter sido o baixista da banda de power pop Blue Ash, que chegou a abrir shows para Stooges, Aerosmith, Bob Seger e Ted Nugent, alcançando relativo sucesso no underground americano de meados dos anos 70.

Juntos, Bators e Secich compuseram um punhado de excelentes canções power pop, entremeadas a versões de The Electric Prunes (I had too much to dream) e The Choir (It’s cold outside, que só constou no relançamento do disco de 1987), denotando a paixão de ambos pelos grupos garage dos anos 1960. Uma curiosidade é que boa parte do álbum foi gravado em uma quadra de basquete que ficava ao lado do estúdio, já que, segundo Secich, o espaço oferecia uma sonoridade mais “viva”.

Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

Michael Monroe (Hanoi Rocks), Stiv Bators (Dead Boys) e Lemmy (Motörhead)

Outra curiosidade é que Disconnected foi coproduzido por Stiv Bators e Thom Wilson, marcando seu primeiro trabalho na função. Mais tarde, Wilson tornaria-se conhecido por produzir discos clássicos do punk americano como o homônimo dos Adolescents, de 1981, Mommy’s little monster (1983), álbum de estreia do Social Distortion, e os três primeiros discos do Offspring, entre uma longa lista que inclui ainda Bad Religion, Dead Kennedys, Iggy Pop e T.S.O.L., pra ficar só em alguns.

Mas, de volta a Disconnected, o álbum não chegou a ter uma verdadeira turnê de divulgação, e nem atraiu grande atenção da mídia no período. Seu reconhecimento veio com as décadas, em especial de fãs dos Dead Boys e do Lords Of The New Church, banda que Bators formou com Brian James, ex-guitarrista do Damned, em 1980, quando saiu de Los Angeles direto para Londres, onde antes formou o grupo de curta vida The Wanderers, com ex-integrantes do Sham 69.

Senhores da Nova Igreja e morte em Paris

Com o supergrupo gótico, que incluía ainda o ex-baixista do mesmo Sham 69 e o ex-baterista dos The Barracudas, Stiv conheceu o sucesso que tanto buscava. Sua história foi inclusive contada em um recente documentário, do qual já falamos aqui.

A posterior dissolução dos Lords of the New Church, seus outros projetos musicais (incluindo uma curiosa banda com Johnny Thunders dos New York Dolls e Dee Dee Ramone, que terminou em briga motivada pelo vício em droga dos dois), e sua trágica morte após ser atropelado em Paris, onde residia com a namorada em 1990, são parte da mística que envolve o vocalista, morto aos 40 anos e ainda festejado como um dos mais autênticos e simbólicos de sua geração.

Reconectando Stiv Bators: entrevista com Frank Secich

Mais de quarenta anos depois de seu lançamento, Disconnected segue como uma daquelas pérolas que os fãs do vocalista exaltam, mas que não chegaram a ultrapassar a barreira do underground, apesar do evidente potencial pop que dispunha.

Para saber mais sobre a concepção e gravação do disco, conversamos via e-mail com Frank Secich. Escute o disco e confere o papo aí embaixo:

Como você conheceu Stiv Bators, e como a ideia de tocar em seu disco solo surgiu?

Conheci Stiv em uma casa de hippies na faculdade de Youngstown, Ohio, em 1967. Nós viramos amigos rapidamente. Costumávamos ir às boates e casas de shows para adolescentes de Youngstown, como o Carouseel Teen Clubs, o Freak Out, o Champion Rollarena, o Bug Out e outros onde vimos bandas como The Human Beinz, Pied Pipers, James Gang, New Hudson Existe e The Holes In The Road. As primeiras bandas de Stiv, como Steve Bator Band e Mother Goose frequentemente abriam para minha banda Blue Ash no começo dos anos 1970.

Depois que os Dead Boys acabaram em 1978 após gravarem seu segundo álbum, Stiv queria fazer algo diferente. Em outubro de 1978, começamos a compor canções juntos. Em novembro daquele ano, nós (Stiv, Jimmy Zero, Johnny Blitz [todos membros do Dead Boys] e eu) fizemos demos de The last year, It’s cold outside e It’s alright no estúdio After Dark, em Cleveland. Stiv então acompanhou sua namorada da época, Cynthia Ross, em uma viagem para Los Angeles, onde tocou as demos para Greg Shaw (dono da gravadora Bomp!), que ficou de queixo caído com as músicas. Alguns meses depois, Greg ofereceu um contrato para mim e Stiv.

Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

O single alemão de It’s cold outside da Line Records, de 1979

Vocês escreveram ótimas canções juntos. Como foi este processo?

Nós fazíamos de diferentes maneiras. Para The last year, Stiv tinha o título, o começo da melodia e o refrão. Eu o ajudei a terminá-la e compus a ponte. Nós dois escrevemos as letras. Not that way anymore e Circumstantial evidence eram basicamente canções minhas nas quais Stiv ajudou com as letras. Em I wanna forget you (just the way you are), Stiv surgiu com o título e escreveu a maior parte da letra, e eu escrevi a música e a melodia, e foi igual com Ready anytime. Nós sempre fazíamos diferente, mas Stiv era mais um compositor de letras e eu era mais alguém da melodia, apesar de ambos sabermos fazer as duas coisas. Uma das melhores canções do LP é Bad luck charm, que foi composta por David Quinton Steinberg e George Cabannis.

Tem uma história ótima por trás dessa música. Antes de gravar o álbum nós estávamos fazendo uma turnê naquele verão, e, em Nova York, Johnny Thunders se juntou conosco no palco do Heat Club. Thunders tinha um colar com o que parecia ser a pata de um alce pendurado. No camarim, David e George vieram até mim e disseram: “O que é aquilo no pescoço do Johnny?”. Eu disse: “É seu amuleto de má sorte! Vocês deviam compor uma música sobre isso”. Eles então a fizeram e é uma excelente música. Isso era um pouco do nosso processo criativo!

E como foi o processo de gravação do Disconnected? O álbum segue sendo cultuado por seus fãs e entusiastas de power pop em geral.

Nós nos divertimos muito gravando Disconnected no estúdio Perspective em Sun Valley, na Califórnia, no fim de agosto e começo de setembro de 1980. Greg Shaw da Bomp! Records nos deu liberdade para gravar o álbum e eu o amei por aquilo. O disco foi gravado em uma quadra de basquete que era adjacente ao estúdio. O piso de madeira tinha um som extremamente “vivo”, então fizemos a maior parte das canções ali. Funcionou especialmente bem para músicas como Evil boy, Make up your mind e Bad luck charm.

Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

A foto da contracapa de Disconnected, de 1980. Fotos de Theresa Kereakes.

Nós fizemos um monte de experimentos e gravamos bastante de forma improvisada. Às vezes funcionava bem, como quando Cynthia Ross e as fabulosas B-Girls do Canadá vieram à cidade para colocar harmonias e palmas em Swinging a go-go, e no som de explosão de Too much to dream, quando Stiv e eu derrubamos um amplificador Fender Twin Reverb (alugado, é claro) de uma escada e gravamos.

Quando estávamos gravando Ready anytime, Stiv não estava conseguindo alcançar o vocal que queria. Ele disse que tinha que ir até Hollywood para se inspirar. Nós fizemos os overdubs até ele voltar quatro horas depois muito bêbado com uma garota. Ele então foi até a cabine do microfone e começou a gravar enquanto ela “performava” nele na nossa frente. E usamos aquela gravação.

Às vezes não funcionava. Para culminar com o verdadeiro clímax do álbum, eu queria um final do tipo Abertura de 1812 (de Tchaikovsky) para I wanna forget you (Just the way you are) – grande, bombástico e que se destacasse. Era para ser uma canhonada de áudio das Guerras Napoleônicas! Nós pedimos a nosso amigo Kent Smythe que trouxesse centenas de fogos de artifício. Colocamos microfones estrategicamente posicionados em volta deles e o produtor Thom Wilson começou a rodar a fita enquanto eu e Stiv os acendemos, no que foi uma falha de cálculo da nossa parte.

Enquanto os fogos queimavam para fora, o estúdio rapidamente ficou cheio de fumaça. No meio de todas as explosões, Stiv e eu não conseguiamos enxergar ou respirar. Estávamos nos sufocando e tossindo e tivemos que literalmente nos arrastar até o lado de fora do estúdio para sobreviver enquanto David, George, Thom Wilson e Kent estavam caindo no chão de tanto rir. Nós passamos o resto da sessão tirando a fumaça do estúdio. Quando tocamos para ver, soava uma bosta, e não conseguimos usar. A famosa fotógrafa de rock Theresa Kereakes estava lá o tempo todo e registrou muito daquela insanidade para a posteridade.

Stiv falava com orgulho dos Dead Boys?

Sim, ele tinha muito orgulho de ter sido um Dead Boy, e com razão. Eles foram uma banda lendária e absolutamente fantástica ao vivo e a cores. A fusão de guitarras de Cheetah (Chrome) e Jimmy Zero era muito legal, e eles eram ótimos compositores, e Johnny Blitz era um incrível baterista que sabia conduzir o som. Stiv tinha uma presença marcante e carismática. Eles eram originais e únicos, e é por isso que seguem sendo lendários até hoje. Eu tive a felicidade de ser parte disso por um tempo (Secich realizou uma turnê com os Dead Boys por um curto período, quando substituiu o baixista Jeff Magnum).

Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

Frank Secich e Stiv Bators na festa de Kim Fowley para a banda Orchids, em 1979. Foto de Lisa Secich.

Nós ouvimos histórias de como Stiv era um “verdadeiro rock star” e um punk rocker selvagem. Ele era assim o tempo todo?

Stiv era um cara bem tranquilo, como Clark Kent, quando não estava no palco. Ele era sempre muito gentil com os fãs e sempre tinha tempo para dar autógrafos e posar para fotos, ou só para bater papo. No palco, ele era um performer consumado e um verdadeiro homem selvagem! Você nunca sabia o que esperar de um show para outro. Nunca havia tédio.

Vocês mantiveram contato ao longo dos anos? Como soube da morte dele?

Nós mantivemos contato durante os anos 1980 até sua morte. Ele me mandava cartões postais hilários e cartas de todos os cantos do mundo quando estava em turnê com os Lords of the New Church. Logo depois que Stiv morreu, eu recebi um telefone de um amigo em comum, Bobby Brabant. Ele disse: “Frank, eu tenho péssimas notícias”. Eu soube pelo tom em sua voz. Eu perguntei: “Como ele morreu?”. Foi um dia muito triste.

Você acha que Stiv teria seguido um caminho musical diferente se estivesse vivo?

Eu tenho certeza que ele seguiria trilhando caminhos e sendo criativo. Ele possivelmente teria feito mais filmes. Ele era um vocalista muito bom e conseguia sempre se expressar bem. Estava sempre três passos à frente do seu tempo e sabia o que fazia. Ele conseguia se reinventar em qualquer cena musical. Ele teria amado a internet e todas as suas possibilidades.

>>>Foto do abre da matéria: a banda que gravou Disconnected com Stiv Bators em agosto de 1980. David Quinton Steinberg, George Cabaniss, Frank Secich e Stiv Bators. Foto de Theresa Kereakes.
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Entrevista: Frank Secich fala sobre a pouco lembrada (e ótima) carreira solo de Stiv Bators

Stiv Bators em 1979

Jornalista e roteirista. É codiretor do documentário “O Último Voo – Os Anos 80 da Editora Brasiliense” (2012), cotradutor da coletânea literária “Porque eu Odeio”, do poeta jamaicano Claude McKay (2019), e coautor do livro "Vou Lá e Faço – A vida-obra de Oswaldo Diniz" (2020). Atuou em veículos como Billboard Brasil e Revista Brasileiros, e já colaborou com publicações como Playboy Brasil e Galileu.

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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Cultura Pop

Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

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The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

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