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Crítica

Ouvimos: Duncan Lloyd – “Unwound”

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No sexto disco solo, Unwound, Duncan Lloyd (Maximo Park) investe num pós-punk sombrio, introspectivo e cheio de silêncios.

RESENHA: No sexto disco solo, Unwound, Duncan Lloyd (Maximo Park) investe num pós-punk sombrio, introspectivo e cheio de silêncios.

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Guitarrista, tecladista e compositor de uma das bandas mais legais de seu tempo, a britânica Maximo Park, Duncan Lloyd volta à carreira solo com um disco carregado de intensidade – e cheio de energias dos mais variados tipos. Unwound, seu sexto álbum solo, foi feito durante períodos particularmente adversos e complicados, e Duncan faz questão de falar que decidiu botar o/a ouvinte para dentro do álbum, musicalmente falando.

Vem daí, com certeza, a sonoridade cheia de silêncios de Unwound, um disco que abre meio grunge, meio slacker rock, com Gothic pill. E que prossegue em clima de transe com I’m on it, música com baixo sintetizado intermitente e bateria quase no rascunho. Uma vibe decididamente hipnótica – só não dá para falar que é uma vibe “psicodélica” porque o som evoca imagens p&b e fantasmagóricas.

Duncan investe bastante numa estética misteriosa e gélida de pós-punk, com guitarras rangendo, baixo na linha de frente e guitarras com riffs simples. É o que rola nos sete fantasmagóricos minutos de Swim, nas evocações do The Cure de 1978/1979 em One step closer to the dam, no clima grave de Rituals, nas incertezas musicadas de Laugh so loud, e nos silêncios e ecos de Bright field.

Já a tristonha Radio silent oscila entre beleza e ruído. E um clima de isolamento, de deserto, toma conta da ruidosa Lightning bottle e da folk e ensimesmada A world away now.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Reveal Records
Lançamento: 11 de julho de 2025

Crítica

Ouvimos: Peaches – “No lube so rude”

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Em No lube so rude, Peaches trata sexo como enfrentamento queer e feminista, em eletropunk pesado que cruza Iggy Pop e funk; experiência e impacto.

RESENHA: Em No lube so rude, Peaches trata sexo como enfrentamento queer e feminista, em eletropunk pesado que cruza Iggy Pop e funk; experiência e impacto.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Kill Rock Stars
Lançamento: 20 de fevereiro de 2026

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O sexo, no som e no conceito de Peaches, está bem longe de ser pura putaria ou diversão. Ligada simultaneamente à porradaria de Iggy Pop e ao batidão de Tati Quebra-Barraco – sim, você vai encontrar evocações desses dois universos no som da canadense – ela sempre encarou o assunto como guerra, enfrentamento, posicionamento queer e feminista.

Que não haja a menor dúvida disso quando No lube so rude, seu sétimo álbum, começar a rolar nos fones de ouvido. O eletropunk Hanging titties, quase um batidão funk domado, prega que “direto para a clínica, te converto em gay / continue assim ou saia do meu caminho / eu tenho a cura, Reino Unido?” e que “ei, deixa eu falar a verdade / todos vocês, tecnocratas, comam uma cueca”. Fuck your face repete “fucker” várias vezes como o “senta senta senta” rola no funk carioca e manda bala: “sou uma safadinha tarada e vou fazer você se ajoelhar”, e vai ganhando cara mais eletropunk com o tempo. Not in your mouth, none of your business é ódio queer: “Não posso ser esmagada ou minimizada / você nunca vai tirar nosso orgulho / ordens não nos farão deitar e morrer / impediremos que você arruíne nossas vidas”.

Dá pra pescar até uma onda meio ambient na faixa-tíulo, além de uma agilidade próxima do indie sleaze em Whatcha gonna do about it, Grip e You’re alright. Mas o lance de Peaches é porrada maquínica, às vezes lembrando um sinistro B-52’s do demo, como na vaporosa e positiva Be love, de versos como “perfurar a grade / levantar o peso / dar um pouco de espaço / antes que seja tarde demais”. Take it tem algo de Nine Inch Nails, e sons como Fuck how you wanna fuck e Panna cotta delight, além da própria Whatcha, levam o/a ouvinte para dentro uma betoneira de sons eletrônicos e sexualizados. Peso, intensidade e experiência contam mais do que tudo aqui.

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Crítica

Ouvimos: Oruã – “Slacker”

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Oruã lança Slacker e mistura slacker (claro!), krautrock e pós-punk com tropicalismo: barulho manso, denso e acolhedor, do samba-kraut às viagens de 9 minutos.

RESENHA: Oruã lança Slacker e mistura slacker (claro!), krautrock e pós-punk com tropicalismo: barulho manso, denso e acolhedor, do samba-kraut às viagens de 9 minutos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: K
Lançamento: 24 de outubro de 2025

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Mais do que um título, o nome do novo disco da banda carioca Oruã é uma ótima definição. Só que chamar o som de Lê Almeida (guitarra), João Casaes (sintetizadores), Bigu Medine (baixo) e Ana Zumpano (bateria) de “slacker” apenas, é apostar no risco. Aqui, a estileira de bandas como Pavement é mais um recado, uma assinatura que paira sobre o krautjazz brasileiro do Oruã, que já abre Slacker com o retropicalismo psicodélico de Deus-dará e o Sonic Youth tropicalizado de México suite – com ruídos, distorção, sax remetendo a King Crimson. De se envolver, por sua vez, é samba-kraut-pós-punk, com participação de Caxtrinho, baixo jazzístico e clima de umbanda na letra.

  • Ouvimos: Echo Upstairs – Nossas sombras serão águas (EP)

Gravado em Seattle com co-produção e participação do ex-Built To Spill Jim Roth (Lê e Casaes também fizeram parte da veterana banda norte-americana entre 2018 e 2019), Slacker tem seu poder de fogo na criação de ambientes sonoros, como no krautrock fluido de Cachoeiras (que abre em clima 60’s), na onda meio Black Sabbath meio psicodélica de Slave of the golden teeth ou no pós-punk “maldito” e soturno de Casual. Inaiê, com nove minutos de duração, soa como um Black Sabbath das matas: tem barulho de vento, riffs simples, letra quase sussurrada e onda meditativa, seguida por ruídos que aparecem discretamente no fim.

O Oruã, mesmo nos momentos de peso, surpreende os ouvintes com um ar tranquilo, a dominar faixas como Marejar (espécie de slacker marítmo) e o tom voador de Soft – esta, lembrando uma versão soul-noise-rock de bandas como Pelvs. Slacker é um disco de barulho manso: denso, mas acolhedor, difícil de largar.

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Crítica

Ouvimos: Wednesday – “Bleeds”

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Bleeds, do Wednesday, transforma pedreiras do amor em countrygaze tenso e ruidoso, entre soft rock e fúria shoegaze.

RESENHA: Bleeds, do Wednesday, transforma pedreiras do amor em countrygaze tenso e ruidoso, entre soft rock e fúria shoegaze.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Dead Oceans
Lançamento: 19 de setembro de 2025

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Você está preparado / preparada para um novo Rumours (o disco das discórdias internas do Fleetwood Mac, de 1977), só que lançado no fim do ano passado? Bom, calma: Bleeds, disco novo da banda norte-americana de countrygaze Wednesday, é “meio” isso, mas não é isso. A começar porque a banda da vocalista Karly Hartzman não tem metade do tino pop do Fleetwood, nem parece querer ter. Mas há semelhanças: o namoro de Karly com o guitarrista MJ Lenderman encerrou em 2004 e uma onda de estresse acabou alterando tudo no grupo. MJ, esgotado com as turnês do grupo, decidiu que não excursionaria mais e se concentraria nas músicas e nos discos.

Bleeds, sexto disco da banda, não foi feito por um grupo em pedaços, vale dizer. MJ e Karly só tornaram público o fim do relacionamento quando as gravações terminaram. Nem os colegas de banda sabiam. A entrega de todos a canções destrutivas como Pick up that knife, Carolina murder suicide e Reality TV argument bleeds é real – talvez já houvesse alguma coisa no ar, ou um grupinho de zap sem o casal em que todo mundo da banda ficava na base do “e agora?”, e isso se reverteu nos arranjos.

Karly às vezes faz vocais tensos e tirados de lá de dentro, na mesma onda de Dana Margolin, do finado Porridge Radio. Entre o country e o shoegaze, as guitarras sempre buscam o caminho mais sombrio e mais emparedado, às vezes mais próximo do Pavement do que do My Bloody Valentine, como rola em Townies e na despedaçada Wound up here (By holdin’ on).

Para quem ainda procura elementos do Fleetwood Mac aqui, o Wednesday solta um soft rock convincente em Elderberry wine, som bem mais tranquilo que o restante do disco. Três outras boas curiosidades são o pós-punk berrado e distorcido de Wasp, a raiva regada a doses do descongestionante Afrin em Pick up that knife, e a fúria shoegaze de Candy breath – que lembra uma versão maldita das guitarras de Heroes, de David Bowie.

Já as letras de Karly podem ser sobre o ex-amor, podem não ser. Ela canta sobre cavar o fundo do poço com as unhas em Pick up that knife, sobre fumar maconha numa lata de Pepsi em Phish Pepsi, sobre desabamentos pessoais em Carolina murder suicide (que fala sobre assassinatos reais ocorridos na Carolina do Sul) e sobre uma pessoa que, não contente em perder vários dentes numa briga estúpida, ainda mandou o dentista arrancar os que restavam (o countryzinho Gary’s II, que, segundo Karly, é inspirado nas histórias bizarras do proprietário da casa em que ela morava com MJ).

O bittersweet The way love goes, por sua vez, é diretamente sobre MJ, com Karly – que chorou gravando a faixa – cantando coisas como “existem mulheres menos mimadas pelo seu conhecimento / mais novas e muito mais doces / muito mais pacientes / com muito mais do que eu posso dar”. Uma tentativa, segundo ela própria, de “freneticamente colar um cubo de açúcar prestes a se dissolver”. Uma música sobre os sinais de que amanhã será outro dia.

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