Luiz Melodia, morto na madrugada desta sexta (4), era um artista imprevisível, do tipo que fazia o que desse vontade. Mesmo com o sucesso das primeiras músicas, nunca se animou a gravar um disco por ano (“nunca fiz um disco ruim porque fico anos pensando no que vou fazer”, dizia). Nos shows, às vezes, enfileirava músicas pouco conhecidas e deixava hits absolutos de lado. Fez uma concessão aos acústicos no auge do formato em 1999, com o CD Acústico ao vivo. Em entrevistas na época, foi perguntado sobre porque deixou o hit Juventude transviada de lado no repertório. Respondeu que não fazia uma apresentação igual à outra e que basicamente havia escolhido gravar um show da turnê no disco.

Tamanho desprendimento gerou histórias folclóricas também, claro. Nos anos 1970, poucas horas antes de um show agendado no Colégio Equipe, em São Paulo, deixou os organizadores – que eram um adolescente chamado Serginho Groisman e alguns dos Titãs, ainda criando barba – esperando por ele. Foi encontrado pela turma assistindo a um filme no cinema (o fato foi revelado na biografia A vida até parece uma festa – Toda a história dos Titãs, de Luiz André Alzer e Hérica Marmo).

No último show dele que vi, em 2015 no Teatro Rival (na época da turnê do último disco, Zerima), pediu licença para ir tomar um vinho no camarim e deixou sua banda fazendo um número instrumental de uns vinte minutos. Muita gente não entendeu nada – vale dizer que a plateia aplaudiu bastante. E para um artista imprevisível, uma plateia diversificada: fãs de todos os estilos musicais, do rock à MPB, choraram sua morte nas redes sociais. Nada mal para um compositor que se tornou conhecido com um blues (Pérola negra), e ia do rock ao samba em seu disco de estreia.

Esse disco de estreia, também chamado de Pérola negra (1973), acabou sendo visto por muitos como um trabalho que ofuscava todos os outros – mesmo que ele tivesse tido vários outros sucessos e gravado outros LPs históricos. Quem caiu nessa, deixou passar um monte de grandes momentos dele em outros álbuns. Para você não sair por aí repetindo que o melhor disco dele é o primeiro, segue aí uma lista de dez músicas de outros discos – nenhuma delas do Pérola negra.

“PAQUISTÃO” (Maravilhas contemporâneas, 1976). Um pouco pela letra doidona, um pouco pelo arranjo cheio de ruídos e interferências diversas, um pouco pela qualidade de gravação meio estranha, dá pra inserir esse soul tranquilamente no rol da música psicodélica brasileira. “Estou desarmado, mas estou com Isabel/senhor mensageiro me traga um papel”, diz a letra.

“HOJE E AMANHÃ NÃO SAIO DE CASA” (Nós, 1980). Rock, soul e reggae misturados, num disco em que Luiz tocou com integrantes da Banda Black Rio, sambistas, ex-membros de bandas de rock cariocas como A Bolha, e gênios dos estúdios como Liminha, Robson Jorge e Lincoln Olivetti.

“GIROS DE SONHO” (Mico de circo, 1978). O blues mais bonito já escrito em língua portuguesa. Ponto. Ouve aí.

“QUESTÃO DE POSSE” (Maravilhas contemporâneas, 1976). Longe do filho Hiram (segundo uma entrevista do cantor publicada na revista Trip, o cantor e a mãe do garoto ficaram afastados por dois anos após o nascimento dele), Luiz falou da saudade do filho numa música que misturava blues e rock – e poderia estar num LP da The Band ou dos Doors de alguns anos antes.

“SACO CHEIO” (Claro, 1987). Uma das melhores músicas de Claro, disco que Luiz Melodia lançou após cinco anos longe dos estúdios. Não era dele, era de um compositor chamado Tony Marinho – e era quase um rap, que poderia estar no repertório da estreia do Farofa Carioca (lançada dez anos depois).

“O MORRO NÃO ENGANA” (Mico de circo, 1978). Não fosse pelo violão da abertura e pelos vocais, essa música poderia ser um outtake de Maria fumaça, disco de estreia da Banda Black Rio (1977). O grupo liderado por Oberdan Magalhães andava tocando com Luiz Melodia na época e seus integrantes participam de Mico de circo, terceiro disco do cantor.

“FADAS” (Mico de circo, 1978). Quem já foi em algum show de Luiz Melodia com certeza deparou com essa música, que poucas vezes saiu do repertório dele. Na gravação original, os arranjos são de Armandinho Macêdo, da Cor do Som.

“JUVENTUDE TRANSVIADA” (Maravilhas contemporâneas, 1976). Se você é jornalista e já recebeu algum release com a frase “fulano conta com o auxílio luxuoso de sicrano”, a culpa é desse belo samba, martelado diariamente na novela Pecado capital, da Rede Globo, em 1975, e depois lançado na trilha sonora da trama. “Lava roupa todo dia/que agonia”, frase de abertura, entrou para o DNA do brasileiro.

“BATA COM A CABEÇA” (Mico de circo, 1978). Outro soul que poderia estar no repertório da Banda Black Rio, em qualquer fase do grupo.

“FEELING DA MÚSICA” (Retrato do artista quando coisa, 2001). Hyldon, que tocou guitarra no primeiro disco de Luiz (no rock Pra aquietar), deu sua contribuição para um CD do cantor, em parceria com o próprio Melodia e com Ricardo Augusto.


R.I.P. Luiz Melodia (a foto lá de cima é de Marcos Hermes).

Veja também: Luiz Melodia na TV nos anos 1970.