Crítica
Ouvimos: Slayyyter – “Wor$t girl in America”

RESENHA: Slayyyter transforma excessos, electroclash e indie sleaze em um recomeço convincente. Wor$t girl in America une peso, dança e vulnerabilidade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Columbia
Lançamento: 27 de março de 2026
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Durante boa parte da carreira, a Slayyyter foi tratada como um produto descartável da internet – na real, ela é até hoje tratada dessa forma, só que bem menos. Wor$t girl in America, seu terceiro disco, soa como se fosse um “primeiro disco”, ou pelo menos um recomeço de história. Ela própria chegou a afirmar que ainda se sentia como uma artista em ascensão, mesmo estando em seu terceiro lançamento. Dá pra imaginar a frustração, ainda mais com uma turma enorme achando que Catherine Grace Garner, a popular Slayyyter, era um personagem internáutico e nada além disso.
Na real, Wor$t girl in America tem a grande diferença de trazer Slayyyter vestindo a capa de si própria como personagem. Só que… partindo do princípio de que a busca por diferença anda deixando todo mundo igual (é como se todo mundo fosse buscar a “diferença” nas mesmas fontes, o que pensando bem, é bastante ridículo), possivelmente tudo que ela fez em Wor$t girl in America já está sendo copiado até por gente que está quilômetros à frente dela na carreira musical.
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A tal estética pejorativa “white trash” (vulgaridade, drogas, sexo decadente), ligada aos subúrbios norte-americanos, e que muita gente anda associando a ela, é motor do universo pop-rock faz um baita tempo – de Axl Rose a Paris Hilton, passando por Kesha, Ramones e até pelo mundo emo, muita gente nem sequer bebeu dessa fonte porque já estava imerso nela. Slayyyter é ligada a isso ao mesmo tempo em que 1) sabe onde está se metendo; 2) decidiu assumir tudo como estética própria.
O resultado é que Wor$t girl é um produto super bem acabado do rolê electroclash em 2026 – dá pra dizer que ele dá um rumo ao hoje esquecido mundo da new rave, mas o esquema aqui é outro, mais ligado a um imaginário de estrelato rocker, de opulência baixo-nível, destruição de quartos de hotel, surubas nababescas. Ele é o disco do electrorock de Dance…, da dance music sujaça de Beat up channels, Cannibalism e Gas station, e da recordação de Discmans e CDRs no indie sleaze Old technology. Algo que remete ao fato do próprio suporte da música ter se tornado descartável e regravável bem na infância dessa turma – e aí até a “saudade” não é de uma coleção de vinis.
Wor$t girl in America vai na onda do poperô modernizado em Crank – e investe num dance-pop distorcido que não existiria sem Madonna e Kylie Minogue (Unknown loverz, Old flingz). Também cai dentro de climas dançantes, sombrios e psicodélicos (Yes goddd), além de zoar celebridades fake (I’m actually kinda famous) e se lamentar pelos amigos fake (What is it like, to be liked?). O electroclash purinho de $t Loser e de Brittany Murphy são as melhores do disco, e são os sons em que mais dá pra ver que Slayyyter já aprendeu a combinar peso, dança, atitude e vulnerabilidade.
Tudo isso junto faz de Wor$t girl in America um bom segundo ato. Ouve lá.
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Crítica
Ouvimos: Ladylike Dragons – “Ladylike dragons” (EP)

RESENHA: O francês Ladylike Dragons cruza garage rock, pós-punk e batidas dançantes em quatro faixas de guitarras secas e vocais à la Nico e Chrissie Hynde, com ecos de Strokes, Eurythmics e até ABBA.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Nice and Rough Records
Lançamento: 10 de outubro de 2026
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A França tem bandas indie bacanas que, mesmo tendo muito tempo de existência, passam batidas para quem não mora lá ou não acompanha o que rola por lá. O Ladylike Dragons começou em 2006 e segue uma onda indie-chique bem interessante, com uma cara sonora elegante e garageira – é como se eles aguentassem o calor na garagem usando casaco de couro e óculos escuros, e investindo num clima musical meio roqueiro, meio maquínico.
Challenge the law, faixa de abertura do novo EP, é tudo isso junto: tem guitarras simples na onda do pós-punk, bateria socada, vocais blasé lembrando um misto de Nico e Chrissie Hynde (a frontwoman Cindy é especialista nisso)… Never listening é guitar rock com batida dançante e impaciente e We’re the ocean é bem pós-punk, com baixo à frente, riffs econômicos e algo entre Strokes, ABBA e Eurythmics. Nessa, Cindy manda bala nos vocais dramáticos, cantando uma letra em que amor e paixão são quase como um estilo de vida.
Eleven past nine encerra o EP com guitarras ruidosas e um curioso clima de dub + garage rock, em que tudo ressoa e ganha peso. Conheça agora.
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Crítica
Ouvimos: Phoebe Bridgers – “Lost weekend”

RESENHA: Em Lost weekend, Phoebe Bridgers mistura folk, ambient, dream pop e psicodelia para revisitar a relação com o pai, traumas familiares e amores desfeitos. Um disco sombrio, delicado e quase cerimonial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dead Oceans
Lançamento: 14 de agosto de 2026
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Há uns anos, fiz um curso de roteiro em que o professor costumava dizer que fazer o script de um filme, uma novela ou um programa de TV era basicamente tomar decisões – você podia dar ao personagem um fim de vida indigno, um amor bem ou mal resolvido, um enredo batido ou o que quer que passasse pela sua cabeça, mas sempre teria que tomar as melhores decisões. No fim de tudo, ia restar disso uma novela ótima, um filme horrível, um abacaxi que ninguém veria… Muita coisa diferente.
As decisões que Phoebe Bridgers toma para sua carreira… Bom, são decisões que só podem ser tomadas por ela e mais ninguém – ou você imagina outro artista ousando fazer shows-surpresa, tendo a certeza de que tem fãs doentes a ponto de ficar tentando descobrir para qual cidade a caravana do sujeito (ou sujeita) vai? A identificação de seu público com ela e com sua música parece ter efeitos quase hipnóticos, pelo que dá para entender das reportagens que saem sobre seus fãs e seus shows.
A pior decisão que Phoebe poderia tomar nesse momento seria lançar um disco ruim, coisa que ela não fez em Lost weekend, nem de longe. Detalhe que, antes de qualquer coisa. Lost weekend é um disco hipnótico, assumidamente influenciado por climas ambient, em que quase todo o repertório tem uma cara meio cerimonial, enlutada, até mesmo no momentos de explosão. The outside, na abertura, já estabelece o clima meditativo – é uma balada sentimental e voadora, com vocais parecendo vir do céu. Tem um vocoder logo no começo, assim como rola em Lost boys, música bonita e meio folk, bem tristinha graças às cordas e aos vocais meio Beach Boys. Folk e cordas são a base também de Kill me, na sequência.
Na real, em boa parte do tempo, Lost weekend alude a algo perdido no tempo e no espaço. E nem sempre isso vem necessariamente de Phoebe. Muita coisa parece vir de uma sensação de masculinidade tóxica perdida, ou de homens tóxicos perdidos no tempo – ou de relacionamentos que se transformaram em cidades-fantasma. A morte do abusivo pai de Phoebe gerou vários dos sentimentos misturados e espalhados pelo álbum e por todos os seus “produtos”, como a historinha viking do clipe de Lost boys. Ou o clima antigo, de som das cortes antigas, de The governor’s waltz, música balizada por um clima que lembra um vento a levar tudo para bem longe.
Essa ventania dá as caras na psicodelia misteriosa de Bobby, na onda desesperançada do reggae-folk Haunted e na delicadeza de Other plans. A reaproximação de Phoebe com o pai na época da pandemia surge cercada de lembranças – nem todas são boas, como na história de violência do dream pop noturno Still standing, em cuja letra ela recorda ter visto a mãe “sangrando na pia”. Após as frases soltas de Never going back!, surge uma mensagem do pai gravada no celular, em tom simultâneo de cobrança e amor. Ou talvez só de cobrança, com amor embebido em trauma.
A Phoebe que emerge de Lost weekend é quase tão ligada aos elementos da natureza quanto Stevie Nicks e Rita Lee – e bastante linkada ao folk e ao sons ambient como catalisadores musicais, como sinais de que algo no tempo vai mudar, como indicadores de coisas que ficaram perdidas no passado e ainda doem. Tipo em Other plans, música em que um corte na letra mostra como planos antigos são interrompidos “por amor”. Já I can’t wait, com participação de Cameron Winter (Geese) promete ser o sing-along triste do ano, enquanto a curta Panorama insere fuga e beleza na história.
No roteiro de Lost weekend ainda tem um folk cigano saltitante “da nova era” – que na verdade começa como dance music e só depois vai se descolando da matriz. É Liberty tree, que soa como um hino às contradições da vida – as raízes emocionais que prendem todo mundo, os relacionamentos escrotos que todo mundo vai deixando pra trás. É um tema igualmente recorrente num disco em que uma das faixas, a delicada Panorama, tem sua letra resumida à frase “nunca mais voltarei / o jeito que costumava ser não é mais o jeito que é”. E nada permanece igual. Nunca.
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Crítica
Ouvimos: Zada – “Heart of a lion” (EP)

RESENHA: Em Heart of a lion, a cantora etíope Zada cruza reggae lo-fi, R&B, acid jazz, afrobeat e dance music com sonoridade vintage. Quatro faixas sobre respeito, aceitação e união, com participação de King Cruff.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Z-ZAD Entertainment
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Nascida na Etiópia e radicada em Whistler, Colúmbia Britânica, Zada é uma cantora com um lance bem vintage no som, na voz, na produção. O EP Heart of a lion poderia ser uma daquelas descobertas de DJs dos anos 1990, abrindo com o clima bonito e cru de Leave the show, reggae com efeito lo-fi, parecendo em alguns momento vir de uma fita K7. O r&b They’ll never find us vem na sequência, propondo um “além do horizonte” que pode ser encontrado dentro de nós mesmos.
São só quatro faixas em Heart of a lion – a faixa título tem participação do rapper canadense King Cruff e põe certo clima acid jazz + afrobeat na mistura sonora de Zada, que ganha na mesma faixa um ar experimental e meio maquínico. We’ve been runnin’, no final, une algo de rock dos anos 1960 na melodia e no arranjo, mas se torna logo uma dance music texturizada e vintage. No geral, um pop alternativíssimo e muito bem realizado – sempre apontando para temas como respeito aceitação e união em todos os momentos.
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