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Crítica

Ouvimos: Alan Vega – “Alan Vega” (relançamento)

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Co-fundador do Suicide, Alan Vega funde rockabilly dos anos 50, punk e eletrônica suja em disco solo influente, agora remasterizado com demos bônus.

RESENHA: Co-fundador do Suicide, Alan Vega funde rockabilly dos anos 50, punk e eletrônica suja em disco solo influente, agora remasterizado com demos bônus.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Sacred Bones Records
Lançamento: 23 de janeiro de 2026 (relançamento)

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Co-fundador, ao lado de Martin Rev, do podrérrimo Suicide – que unia eletrônica de garagem, violência sonora e política radical antes do punk existir – Alan Vega (1938-2016), a certa altura da vida, embarcou numa carreira solo das mais loucas. Para começar, se alguém esperava que seu primeiro álbum solo, Alan Vega (1980), fosse só tiro, porrada e bomba, esse alguém se enganou.

O álbum de Vega – que ressurge agora remasterizado e com faixas bônus – era uma espécie de desdobramento punk do rockabilly, com guitarras batidas e estilingadas que lembravam Eddie Cochran, e vocais-uivo influenciados diretamente por Elvis Presley e Gene Vincent. Claro que tudo isso aparecia turbinado por emanações de Iggy Pop (da fase Stooges a de discos como The idiot, de 1977) e por uma sonoridade que dói de tão simples e reverberada.

Vale lembrar que o Suicide, no fundo no fundo, era som demolidor inspirado no que o rock tinha de mais puro. A ponto de Alan contar que Bruce Springsteen já lhe disse ser fã da dupla – e de Vega enxergar certas referências ao Suicide no clássico Nebraska (1982), como na soturna State trooper, de Bruce (faz sentido, ainda mais se comparada ao disco de Vega).

E aí que Alan Vega é rock podre criado tendo como base os anos 1950 – e é também um som que acabou gerando bandas como Jesus and Mary Chain, numa linha do tempo pra lá de diversa. Jukebox babe, a faixa de abertura, tem guitarra reverberada e estilingada, gaitinha, vocais que adiantam Never understand, do Jesus, e um leque de referências que inclui Eddie Cochran e Marc Bolan (que, não por acaso, era fã doente de Cochran). Kung Foo cowboy é rockabilly-boogie frenético na cola do que o Sigue Sigue Sputnik faria alguns anos depois.

Há coisas no disco que, mais que canções, são perversões. Bye bye bayou, com mais de oito minutos, parece um country-rock ao contrário, o som do álbum Everybody’s rockin’, de Neil Young (1983), só que chapado de anfetaminas. Lonely é uma balada estilo Elvis Presley, mas cujo andamento acaba lembrando uma marcha funérea – Ice drummer chega à mesma solução sonora, só que partindo de uma melodia beatle e de vocais-uivo.

Love cry destoa do disco pelo seu clima grave e soturno, lembrando o disco The idiot, de Iggy Pop. E Speedway é rockabilly com programação eletrônica rudimentar, ruídos e letra falando de “pegas” pelas estradas, drogas e péssimas companhias. “Gasolina, cocaína / é o vermelho, branco e azul / pistas clandestinas em todas as cidades / bandeiras quadriculadas, vamos lá rapazes”.

Lançado originalmente pelo selo PVC – da gravadora-aglutinadora indie Passport Records – Alan Vega influenciou muita gente e deixou rastros visíveis no rock. A edição remasterizada lançada pela Sacred Bones Records adiciona as demos do álbum como bônus. A curiosidade aqui é notar que, para os padrões do mercado, o próprio disco já era uma demo que valeu: as fitinhas do baú do álbum já eram bem parecidas com as gravações que vingaram, e tinham boa qualidade. Ouça tudo no volume máximo.

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Crítica

Ouvimos: Lala Lala – “Heaven 2”

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Em Heaven 2, Lala Lala une alt-pop e dream pop introspectivo. Disco alterna bons momentos e climas melancólicos, com letras abertas a interpretação.

RESENHA: Em Heaven 2, Lala Lala une alt-pop e dream pop introspectivo. Disco alterna bons momentos e climas melancólicos, com letras abertas a interpretação.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026

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Lala Lala, ou Lillie West, tem duas faces diferentes em seu trabalho. Recentemente lançou um introvertidíssimo disco instrumental, If I were a real man I would be able to break the neck of a suffering bird, usando seu nome verdadeiro. Com o codinome Lala Lala, ela costuma lançar sons mais acessíveis.

Heaven 2, quarto disco com o nome artístico (e estreia na Sub Pop), une os dois lados num só: as músicas têm pegada alt-pop e dream pop, e climas bastante introspectivos, mas é um som que pode pegar entre fãs de The Cure quanto de Boygenius – e algumas coisas você pode até tocar numa festa, nem que seja na hora da lentinha, como o indie dance tranquilo de Even mountains erode, ou o vapor sonoro de Arrow.

O normal de Heaven 2 é trabalhar numa noção de pop feito para ouvir de fone no quarto. E por acaso a produtora do disco é Melina Duterte (Jay Som), que entende bastante dessas coisas. Muito do disco vem de experiências pessoais de isolamento, seja na Islândia ou no Novo México – o que determinou o fato de ele ser puxado por um single cuja letra fala que nada é definitivo e tudo pode ser perdido (a já citada Even mountains erode).

O alt pop meditativo “sabor música clássica” de Tricks fala de mortes, de perdas e do valor dado a dinheiro e aparências. A maquínica e distorcida Scammer une linhas vocais bem cuidadas e experimentações eletrônicas em torno de um monólogo sobre pressa, perdas, danos e expectativas (“você está esperando na fila por um troféu / esperando por um sinal que te liberte”).

No geral, dá a impressão que Lala Lala fala em Heaven 2 sobre esperar que o céu resolva problemas terrenos – o post rock celestial da faixa-título, então, descortina uma letra que é desilusão pura. Quem sabe os problemas sejam causados por um relacionamento destrutivo, que é o que parece ser o tema da estilosa e eletrônica Anywave. Um trip hop com ritmo mais intermitente, cuja letra acrescenta também as recordações da vida errante (“cansada de pedir carona ou um lugar pra ficar / estou procurando trabalho, posso trabalhar em qualquer lugar”).

Does this go faster?, por sua vez, traz uma linguagem sonora de pop elegante, chique e deprê, associável a The Cure e Depeche Mode. A narradora-personagem da letra é do tipo que cai das nuvens (“nada na Terra é de graça / o esquecimento parece ser celestial / mas o inferno é o dia depois da festa”).

O release de Heaven 2 traz Lillie dizendo que “a resistência é a raiz de todo o sofrimento, e eu não sabia disso. Eu achava que podia ditar o rumo da minha vida”. Esse clima “espiritualista” pode acabar causando uma certa antipatia às letras do disco – até porque em muitos momentos as músicas de Heaven 2 parecem vir embebidas num clima de “dia de muito riso, véspera de muita desgraça”.

Separando os climas diferentes, dá para entender o álbum como uma jornada pessoal e musical, que encerra com a triste cerimônia de Wyoming dirt (“um dia eu vou parar de comer / encolher e desaparecer / parar de falar / beber apenas suco de cereja”). Musicalmente, Heaven 2 é um disco cheio de ótimos momentos em meio a faixas que precisavam ganhar mais força. Já as letras dependem de uma boa dose de interpretação.

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Crítica

Ouvimos: Anuby Messias – “Ira – A travesti na escravidão” (trilha sonora – EP)

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Na trilha de Ira – A travesti na escravidão, Anuby Messias mistura jazz, soul e pop para tratar de memória trans negra, racismo e apagamento histórico.

RESENHA: Na trilha de Ira – A travesti na escravidão, Anuby Messias mistura jazz, soul e pop para tratar de memória trans negra, racismo e apagamento histórico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 23 de janeiro de 2026

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“Desnaturalizaram nossos corpos / nos venderam por tão pouco / e eu sempre me perguntei aonde estavam / e aonde estão as travestis de cor na escravidão”. Cineasta e cantora, Anuby Messias lançou recentemente o curta documental Ira – A travesti na escravidão (2023), que busca o lugar da corporeidade trans e negra nos dias de hoje, e chega até a figura da primeira travesti brasileira, Xica Manicongo.

  • Ouvimos: Raidol – Todas as mensagens que nunca te enviei (EP)

Exibido em festivais como a Mostra de Cinema Ifé, o curta acaba de ganhar uma trilha sonora, assinada pela própria Anuby, e voltada para uma rica mescla de jazz e soul. O universo e a pesquisa de A travesti na escravidão apontam para faixas que falam de amores secretos (“eles me encontram em bares / mas não é pra ser sua mina”, canta em Incrível demais), abandono familiar, solidão, apagamentos históricos e outras pílulas difíceis de engolir.

Musicalmente, destaca a voz de Anuby Messias, o piano da faixa-título Ira, a vibe blues de Incrível demais (onde confessa que “nunca recebi nenhum presente de amor” e diz já ter ouvido falar bastante de Zumbi dos Palmares e Dandara, mas não da presença das travestis na escravidão), o pop eletrônico e meio reggaeton de Rio Nilo (cuja letra une racismo e transfobia no passado e no presente) e a atmosfera oitentista de Varizes, que lembra Lincoln Olivetti – e cuja letra fala sobre um dia a dia estressante de cansaço, trabalho e horas perdidas dentro de um ônibus. Som e consciência (atual e histórica). E descoberta.

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Crítica

Ouvimos: La Luz – “Extra! Extra!” (EP)

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No EP Extra! Extra!, a banda La Luz revisita músicas de News of the Universe em versões mais psicodélicas, delicadas e experimentais.

RESENHA: No EP Extra! Extra!, a banda La Luz revisita músicas de News of the Universe em versões mais psicodélicas, delicadas e experimentais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 23 de janeiro de 2026

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Com cinco álbuns lançados, o La Luz é uma banda de punk e surf music de Seattle, formada por mulheres. News of the universe, o álbum mais recente (2024), marcou a entrada delas na Sub Pop, após alguns discos por um selo ligado à gravadora, Hardly Art. Extra! Extra! é um EP que originalmente, havia sido feito para sair apenas no Record Store Day de 2025, em edição limitada – e que agora chega às plataformas.

São cinco faixas de News revisitadas e transformadas. Na prática, elas podaram as canções e deixaram apenas o que vinha brotando de cada uma delas, como a psicodelia e o clima cigano de News of the universe (que lembra tanto Santana quanto The Doors), o chamber pop de Strange world (que no original era um garage-rock voador e marcial, lembrando The Damned) e a onda Jefferson Airplane de Good luck with your secret.

Encerrando, tem ainda a balada sombria, nostálgica e quase progressiva I’ll go with you (originada de um som garageiro e fantasmagórico) e a vibe misteriosa que elas extraíram do soft rock Poppies. Ficou bonito.

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