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Ouvimos: AFI – “Silver bleeds the black sun…”

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Em Silver bleeds the black sun…, o AFI troca o emo e o hardcore pelo pós-punk gótico e darkwave, entre acertos sonoros e alguma repetição.

RESENHA: Em Silver bleeds the black sun…, o AFI troca o emo e o hardcore pelo pós-punk gótico e darkwave, entre acertos sonoros e alguma repetição.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7
Gravadora: Run For Cover Records
Lançamento: 3 de outubro de 2025

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“É… olha só, eles estão diferentes, né?”, disse muita gente quando ouviu o disco de 2017 do AFI, uma banda norte-americana outrora mais conhecida por sua filiação a estilos como emocore, punk, hardcore, pós-hardcore, etc. O álbum AFI, mais conhecido como The blood album por causa da capa sangrenta, estourou hits como a ótima Aurelia, e foi seguido por um outro disco, Bodies (2021), que seguia a mesma linha do anterior: uma esquina sonora entre emo e pós-punk, cheia de ótimos momentos, e servindo como cláusula de evolução.

Agora corta pra Silver bleeds the black sun…, décimo-segundo disco do AFI. O disco novo foi lançado como uma reinvenção da banda, o que de fato ele é: o grupo decidiu sair da tal esquina, pegou o caminho do pós-punk, foi andando e deu de cara com toda a onda gótica e darkwave. E esbarrou com uma turma que une elementos de punk, pós-punk, música eletrônica, David Bowie, Roxy Music. Esse caminho já surgia disfarçado em alguns momentos de The blood album e de Bodies, álbuns que, no geral, têm clima agridoce e noturno.

  • Ouvimos: Rocket – R is for rocket

Vai aí a pergunta que não quer calar: a mudança funcionou? Funcionou mais ou menos: o AFI parece estar realmente disposto a jogar o jogo de bandas como The Cult, Sisters Of Mercy, Interpol, Molchat Doma e o The Cure da época do álbum Disintegration (1989). Em vários momentos, dá super certo: o vocalista Davey Havok assume os vocais graves e soa como uma mescla de Bryan Ferry, Ian McCulloch e Paul Banks (Interpol). Às vezes também soa como uma versão amigável de Nik Fiend (Alien Sex Fiend). Faixas sombrias como The bird of prey e Blasphemy & excess, a darkwave fiel de Holy visions e a vibe bowieófila de Spear of truth são um bom abre-alas desse AFI novo.

Tem o detalhe de que, pra você jogar o mesmo jogo que alguém experiente, alguma graça nova tem que vir – e vale dizer que gótico e darkwave não são ondas lá muito pródigas em novidades, tanto que até hoje surgem vários grupos que se repetem. É nessa que Silver bleeds the black sun… acaba cansando um pouco lá pela metade, justamente porque as ótimas melodias de discos anteriores são substituídas por uma fórmula de estilo, que surge em faixas como Behind the clock, Margerite e A world unmade.

Entre os caminhos mais acertados de Silver estão o pós-punk sombrio de Voldward, I bend back, e o final, com Nooneunderground – esta, uma música que traz uma versão maníaca e barulhenta do AFI anterior, soando como um Hüsker Dü com charme glam. Se vai dar certo, vai depender de muita coisa – principalmente dos fãs novos e antigos. Mas sendo otimista, Silver bleeds the black sun… soa menos como uma metamorfose completa, e mais como a transição para uma fase em que o AFI vai combinar evolução no estilo e na melodia, tudo na medida certa.

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Crítica

Ouvimos: Catïça – “Cereja de xuxu”

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Resenha: Catïça - "Cereja de xuxu"

RESENHA: Em Cereja de xuxu, a banda Catïça, de Londrina, mistura punk, crossover e grunge em dez faixas rápidas, com humor ácido e críticas sociais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Deck
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Tinha uma lenda de que algumas sorveterias e lojas de doces, sem grana pra comprar cerejas, usavam o chuchu para produzir uma imitação horrenda da iguaria, que servia apenas de enfeite. Vindo de Londrina, o Catïça decidiu partir para a zoeira chamando seu segundo disco de Cereja de xuxu (e não “chuchu”). Mas não tem só gozação – ou melhor, ela vem filtrada em temas como cena underground, política e até playboyzices do dia a dia (devidamente sacaneadas no pós-punk Petit comité).

O disco do Catïça tem lá suas semelhanças com Magia, estreia do Budang – a saber: união de várias vertentes do punk em torno do crossover, uso de expressões locais (embora o disco dos catarinenses do Budang seja cantado quase em dialeto), porrada sonora destacando o baixo, músicas rápidas (são dez faixas em 15 minutos). O grupo fala do amor à música e à estrada em Sofá cubista e Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece (sim, o título foi tirado daquele desenho do Pica-Pau), lembra histórias de sua terra em Pé vermei e avisa que a taxação de grande fortunas vai rolar nem que seja na porrada (em Surpresinha).

O crossover bate mais forte em faixas como Chosen e Sofá cubista, além da sacanagem religiosa Crente canibal. A curiosidade aqui é Vixvéi, grunjão da massa em que o Catïça soa como uma banda fanática por Alice In Chains (!).

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Crítica

Ouvimos: Sophia Stel – “The greatest album of all time”

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Resenha: Sophia Stel - “The greatest album of all time”

RESENHA: Em The greatest album of all time, a canadense Sophia Stel mistura electropop, trip-hop e dream pop para falar de solidão, insegurança e vida noturna.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: A42 Music
Lançamento: 16 de outubro de 2026

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Nem tudo na música eletrônica é feito pra dançar, e nem tudo que é feito pra dançar é alegre e eufórico. Mais: estilos como electropop muitas vezes falam mais de tristezas e porradas da vida – ou são perfeitos para falar daquele momento em que a festa acaba e só resta você, suas circunstâncias e questões para resolver.

The greatest album of all time, estreia em álbum da canadense Sophia Stel, de 27 anos, vai bastante por esse caminho. Sophia cresceu numa família religiosa de 11 filhos, já lançou dois EPs e gravou quase todo o disco sozinha, em hotéis e apartamentos alugados durante turnês. O título começou como uma brincadeira e acabou virando uma maneira de espantar a síndrome da impostora.

O som é indietronica com estiileiras trip-hop, electropop, dream pop … Sophia canta como se estivesse meio entorpecida, alternando sussurros, falas melódicas e uma espécie de rap arrastado. Em vários momentos, a voz soa quase robótica, como se tivesse sido programada para cantar daquele jeito – e o auto-tune ajuda bastante nisso. Mesmo quando fala de sentimentos intensos, ela parece não estar nem aí.

O disco fica melhor quando Sophia consegue fazer música sombria e dançante ao mesmo tempo. On my dick, cuja letra soa como uma confissão de autoconfiança bastante exagerada e sarcástica, abre com um pop eletrônico quase psicodélico e escuro. Molly in the club, sobre a solidão e a confusão emocional provocadas pela vida noturna. tem algo de trip-hop, mas a viagem fica por conta dos vocais cheios de eco. Em Like a kite, uma batida que lembra um relógio vai ganhando teclados que mudam completamente o clima da música. Já I’ll walk começa com cordas tensas e piano grave, antes de cair num trip-hop tranquilo, cheio de teclados.

Tem ainda a dance music discreta de Better believe it, o dream pop de 15 hours away e o canto quase falado de Now I’ve got a lot you know, que depois ganha até uma batida próxima do reggaeton. O problema é que, com 12 faixas, o álbum acaba ficando um pouco inchado, e nem todas as ideias funcionam tão bem.

Mas quando Sophia acerta, faz uma eletrônica ótima para dançar com a cabeça cheia de problemas. O final, com o batidão tímido de Burn, é a conclusão positiva e sarcástica do disco: Sophia fala que quer viver intensamente – só faz questão de lembrar que na idade dela (27), uma renca de gente partiu.

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Ouvimos: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

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Resenha: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

RESENHA: No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa mistura pós-punk, shoegaze e psicodelia em quatro faixas de tensão e angústia existencial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de setembro de 2026

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Pós-punk e psicodelia já se encontraram muitas vezes. E já tiveram um casamento consumado por estilos como o shoegaze. No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa celebra a união em clima de tensão sonora, sombras e experimentalismo, como no spoken word percussivo da faixa-título e no clima soturno, quase post-rock, de Em seu lugar – música que depois vai ganhando uma onda venturosa.

Curto, o disco tem quatro faixas separadas por uma vinheta, Vênus, com dedilhados e clima sonhador. Diabo, lançada em single, é ágil, melancólica e tensa, com uma gravação meio lo-fi (você pode achar que se trata de uma banda dos anos 1980) e uma parede simples de guitarra que encobre os vocais. Quando comentamos sobre essa faixa, vimos referências de bandas como Kitchens Of Distinction e House Of Love.

No final, Tempestade vem com clima angustiado e acústico. Na letra, pensamentos sobre o mal, o tempo, e a maldade que nunca dorme. Sonzeira existencial e perturbadora.

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