Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre Doolittle, dos Pixies

A certidão de nascimento de Doolittle, segundo LP dos Pixies, registra duas datas: dia 17 de abril de 1989 foi o lançamento na Inglaterra, e 18 de abril nos Estados Unidos. A banda americana, contratada por um selo britânico (o experimental 4AD) já tinha um EP e um primeiro álbum fenomenais (Come on pilgrim, de 1987, e Surfer Rosa, de 1988, respectivamente). Mas faltava um disco que vendesse, estourasse para além da boa receptividade da crítica e fizesse todo mundo assobiar as músicas – coisa que o sujaço Surfer mal tinha conseguido, apesar do hino Where is my mind.

Hoje, o que mais tem por aí é gente entre os 40 e 50 anos que consegue se lembrar do que estava fazendo quando pôs nos ouvidos alguma canção de Doolittle. Aliás, não era tão complicado ouvir a banda por aqui no fim dos anos 1980. Here comes your man e Monkey gone to heaven, os grandes hits do disco, começaram a ser tocados imediatamente nas rádios-rock do Brasil. E em situações honrosas, furaram o bloqueio das FMs mais comerciais. Ao contrário do conto do disco-revolucionário-que-o-Brasil-só-conheceu-trocentos-anos-depois-de-lançado, Doolittle foi lançado aqui pela Warner quase em tempo real, em LP e K7 (em CD, só vários anos depois, pela Roadrunner).
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Doolittle fez os Pixies se tornarem um sucesso indie mundial (era possível), influenciou uma gama de bandas que inclui Green Day e Nirvana, e seus ecos podem ser ouvidos até hoje, em discos de grupos como Fontaines DC e Dry Cleaning. Nas internas, o relacionamento de Black Francis (voz, guitarra), Kim Deal (voz, baixo), David Lovering (bateria) e Joey Santiago (guitarra) começava a passar por tensões. Mas ainda assim a primeira fase do grupo duraria mais dois anos, e renderia mais dois grandes álbuns – um deles, Trompe le monde (1991), já esteve até nessa ilustre seção.
Difícil escolher um melhor disco dos Pixies, mas Doolittle é o aniversariante, e é tido como o mais criativo álbum da banda por muita gente. E vai aí nosso relatório. Ouça lendo e leia ouvindo.
ANTES DE MAIS NADA, o lado A de Doolittle é isso aí: Debaser, Tame, Wave of mutilation, I bleed, Here comes your man, Dead, Monkey gone to heaven. O lado B: Mr. Grieves, Crackity Jones, La la love you, Nº 13 baby, There goes my gun, Hey, Silver, Gouge away.
POR FAVOR, SUCESSO. A maior vendagem de Surfer Rosa tinha sido nos EUA: 705 mil cópias. Não era apenas a 4AD que tinha interesse na banda: a Warner, que distribuía o selo nos EUA, país dos Pixies, adoraria poder contar com boas vendas dos discos do quarteto.
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LOGO NA SEQUÊNCIA DO primeiro disco, os Pixies fizeram uma turnê com outra banda indie conhecida de Boston, os Throwing Muses. Em seguida, Black Francis começou a trabalhar em demos de novas canções, com Dead, Hey, Tame e outras surgindo. Em 1988, a banda chegou a tocar algumas das músicas novas no programa do DJ inglês John Peel. O material de Doolittle começava a surgir aos poucos.
PRODUTOR. Tem uma pessoa sem a qual Doolittle não teria saído. E essa pessoa não apenas já conhecia os Pixies de outros carnavais, como tinha até assistido a outro show deles junto com as Throwing Muses. Era o produtor inglês Gil Norton, que por acaso produzira o primeiro disco das meninas para a 4AD, epônimo, em 1986.
ALIÁS E A PROPÓSITO, esse tal show a que Gil assistiu rolou pouco antes de Surfer Rosa, e na época os Pixies ainda eram tão pouco conhecidos que abriram a noite. Gil amou o show, que por sinal, foi dado em condições meio bizarras: Kim Deal teve um problema de doença na família e não foi à apresentação, e os Pixies viraram trio por uma noite.
ROLOU UMA PEQUENA TROCA na época. As Throwing Muses e Gil haviam tido um relacionamento apenas mediano na época do primeiro disco. Isso porque o produtor queria porque queria inserir metais no som delas e elaborar um pouco mais as canções, coisa que as garotas não queriam. Então, Ivo Watts-Russel, chefão da 4AD, propôs que elas trabalhassem com Gary Smith e pôs Norton no caminho dos Pixies. “Elas não aceitavam as sugestões dele como os Pixies faziam”, justificou.
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MAS QUEM É GIL NORTON? Nascido em Liverpool, Gil estava em estúdio desde os anos 1980, e havia produzido álbuns como Difficult shapes & passive rhythms, some people think it’s fun to entertain, do China Crisis, e Ocean rain, do Echo & The Bunnymen, ambos de 1984. Gil sempre foi um cara que curte pré-produção, e exige muito dos artistas com os quais trabalha. “Como você pode entrar em um estúdio se ainda não tem as músicas organizadas?”, questiona ele nesse papo aqui. “Tudo que eu quero de um artista é o melhor que ele pode fazer. Eu não gosto de pessoas preguiçosas. Se você quer ser preguiçoso, não me contrate”.
POR SINAL, Gil tinha um abacaxi para descascar durante a gravação de Doolittle. Um abacaxi chamado Black Francis: o líder dos Pixies entediava-se facilmente no estúdio e detesta fazer a mesma coisa várias vezes. “Ele era difícil, sim! Não é que ele não vá fazer nada mais do que uma vez, mas ele acharia entediante tocar os mesmos acordes. Tive que tentar convencê-lo a repetir as seções ou mudar um pouco as coisas para mantê-lo feliz”, recorda.
OS ENSAIOS de Doolittle começaram no fim de 1988, na garagem da casa da família de David Lovering. Já as gravações começaram em 11 de outubro no Downtown Recorders, em Boston. Construído num prédio antigo, o estúdio se destacava por uma peculiaridade: o local da bateria ficava junto com o do restante dos músicos. Não havia uma cabine de bateria. Era ideal para gravar discos com clima de “ao vivo”, tanto que a ideia original dos donos era investir num local para shows, não exatamente num estúdio. Na época, três bandas dividiam a sala de ensaio – dentre elas Juliana Hatfield e seu grupo. Gil adorou o local.
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AS GRAVAÇÕES de Doolittle duraram menos de um mês – foram até 23 de novembro de 1988. Gil se recorda de que foi um disco “rápido e furioso”, e que os cofres da gravadora não sofreram nenhum assalto: só 30 mil dólares para fazer tudo. A banda nem sequer usou muito equipamento: ao contrário do que acontecia na época, não houve uso de computadores, samplers, máquinas último tipo e vários microfones.
MAS ANTES, Gil precisou se trancar com Black Francis e fazer… as benditas pré-produções, quando percebeu que seu artista detestava repetir coisas. O produtor havia alugado um apartamento em Boston e lá ficou com Francis repassando todo o material, tocado num violão. Esse lado CDF tanto do produtor quanto da banda contou para o som de Doolittle: todo o material já havia sido cuidadosamente registrado em demos e foi exaustivamente ensaiado antes de ser gravado na fita master.
ALIÁS E A PROPÓSITO, mesmo com tantos cuidados, um desafio da banda e do produtor era fazer com que Doolittle fosse um disco próximo do que a banda faria ao vivo. Ainda que Gil conseguisse convencer os Pixies a fazer o que as Throwing Muses estavam reticentes em concordar, e colocasse cordas em Monkey gone to heaven.
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AH SIM: a ideia das cordas, na verdade, surgiu por causa de ninguém menos que Kim Deal, que resolveu tocar um piano de cauda que havia no estúdio. O som dela tocando no instrumento lembrou cordas em pizzicato, e todo mundo acabou gostando da ideia de levar aquilo para o disco.
SEI NÃO. Ninguém duvida, hoje em dia, de que Debaser é a faixa perfeita para abrir um álbum, e que ela bate um bolão em Doolittle. Acredite: Black Francis não estava muito seguro com relação à faixa e achava que ela não deveria entrar no disco. Teve que ser delicadamente encorajado.
EU BEBO SIM. Doolittle tinha uma música cantada pelo baterista David Lovering, La la love you. Aparentemente, a ideia de Francis foi fazer como John Lennon e Paul McCartney, que nos discos dos Beatles, sempre faziam uma canção para Ringo Starr cantar. O baterista estava nervoso, dava voltinhas na sala antes de pegar no microfone, e acabou bebendo seis cervejas para tomar coragem. Se antes David não queria cantar, o baterista depois acabou ficando animado – Gil recorda-se de que foi difícil tirá-lo do microfone, porque ele queria refazer os vocais várias vezes.
ALIÁS E A PROPÓSITO, segundo o próprio Lovering, La la love you costuma ser bastante usada em cerimônias de casamento.
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LEIA O LIVRO. Como acontecia nos discos anteriores dos Pixies, Doolittle teve uma baita influência do Antigo Testamento da Bíblia. Gouge away, a gritalhona faixa de encerramento, era inspirada na história de Sansão e Dalila. Dead cai pra cima da polêmica história do casal de amantes Davi e Betsabá. O “se o homem é 5, então o diabo é 6 e deus é 7” de Monkey gone to heaven veio da numerologia hebraica, assunto que Francis sequer dominava – baseou-se numa história que contaram a ele. A música também trata de catástrofes ambientais (daí “agora há um buraco no céu”, “tudo está pegando fogo” e outros versos de escrita quase automática). Mr. Grieves trata do encontro com uma espécie de “dona Morte”. Crackity Jones era sobre um colega de Francis que ouvia vozes.
ALIÁS E A PROPÓSITO, Black Francis foi criado na igreja evangélica. Seus pais ingressaram na Assembleia de Deus norte-americana quando ele era criança, e ele frequentou a igreja durante a adolescência. Num dos acampamentos da igreja, assistiu a um show do roqueiro gospel Larry Norman, que costumava animar o público com a frase “venha, peregrino!” (o nome do EP Come on, pilgrim vem disso).
É SURREAL! A letra de Debaser, por sua vez, faz referência a Um cão andaluz, filme de Luiz Buñuel e Salvador Dalí (afinal a letra fala em “fatiando globos oculares”, como aparece na abertura da película). Os versos subsequentes têm o mesmo clima. Aliás, o nome do filme aparece na letra.
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O PATRÃO MANDOU. A 4AD ficou especialmente animada com Here comes your man e viu naquilo o potencial primeiro single do disco. Problema à vista: a gravadora achou a canção, com pouco mais de dois minutos, curta demais, e mandou Francis aumentar a letra. O cantor ficou puto, gastou saliva, mostrou uma coletânea de Buddy Holly para Gil Norton (alegando que os hits do cantor eram canções de dois minutos), mas topou. Só que não deu as caras quando a banda gravava a base da canção.
DETALHE: tanto Francis quanto a banda tinham lá certo preconceito com a faixa. Sempre tinham achado Here comes your man comercial demais, uma espécie de Anna Julia do grupo, e nas internas, ela ganhava o apelido de “a do Tom Petty” (era consenso geral que a canção era um country disfarçado). Nem mesmo a 4AD tinha lá muita certeza de como usar a música.
ALIÁS E A PROPÓSITO, os Pixies receberam um convite para mostrar Here comes your man no programa de Arsenio Hall, campeão de audiência na época. Disseram que só iriam se pudessem tocar Tame, e a produção se recusou. Ivo diz que talvez um selo maior pudesse convencer os Pixies a se comercializarem mais, mas a 4AD não conseguiu.
TAVA DANDO MERDA. Testemunhas privilegiadas, como Ivo Watts-Russel, recordam-se que o dia a dia dos Pixies andava ficando meio frio. Francis precisava ser convencido a deixar Kim Deal fazer vocais em algumas músicas e rejeitava suas colaborações. Em Doolittle, só havia Silver, parceria dele com ela – na qual por sinal Kim tocava slide guitar. Por causa disso, ela achou melhor fazer sua própria banda, The Breeders.
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ESPOSA. Aliás em Doolittle, pela primeira vez, Kim usava seu nome verdadeiro. Isso porque no EP e no primeiro disco, ela assinava como Mrs. John Murphy. Casada com o empreiteiro da Força Aérea Americana John Murphy, ela ouviu de uma amiga casamenteira que se adotasse o sobrenome do marido, ganharia mais respeito. Resolveu fazer piada com o machismo da situação e adotou logo nome e sobrenome. Mas o casal se separou em 1988.
CAPA. Pela primeira vez, Vaughan Olivier (capista da 4AD) e Simon Larbalestier (fotógrafo que trabalhava com os Pixies) tiveram acesso às letras antes do disco ficar pronto. Isso fez com que o trabalho mudasse completamente, já que Vaughan produziu várias fotos conectadas com as letras, como o sino cheio de dentes que se relaciona com I bleed (com os versos “um sino tocando” e “isso faz meus dentes rangerem”).
ALIÁS E A PROPÓSITO, Francis também referenciou-se na arte de Olivier, que fez a capa inspirado na letra de Monkey gone to heaven, com um macaco-anjo. Tanto que o disco se chamaria Whore (“puta”), como referência ao simbolismo bíblico da Prostituta da Babilônia. Mas mudou para Doolittle, porque achou que iriam interpretar a capa como afronta ao catolicismo.
CLIPES. O de Here comes your man, dirigido por Neil Pollock e Jonathan Bekemeier, ganhou (muito) espaço na MTV, apesar de ser uma maluquice sem fim. A banda aparece distorcida, gravada com câmera olho de peixe, e Francis e Deal dublam a canção sem respeitar nenhuma sincronia com a letra. Gravado boa parte em preto e branco, o de Monkey gone to heaven é bem misterioso, mas mais formal, com a banda tocando num palco. O de Debaser, com imagens desfocadas e palavras sobrepostas, é tão surrealista quanto a capa do disco, e foi dirigido pelo próprio Vaughan Olivier.
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VENDEU? Até hoje, Doolittle vendeu um milhão de cópias nos EUA. Black Francis conta que na época, as vendas foram modestas. “As pessoas sempre dizem que devemos ter vendido muitos discos, mas tínhamos aquele vídeo na MTV por seis semanas e vendemos uns 60.000 discos. Os anos 1990 ainda não haviam acontecido. Nele, as chamadas bandas ‘alternativas’ estavam vendendo milhões de discos”, afirmou.
E A CRÍTICA? Quase todo mundo gostou do disco. A Melody Maker e o The Sounds consideraram o álbum disco do ano. Robert Christgau, do Village Voice, disse que a banda “está apaixonada e não sabe por quê”. A Time Out discordou e afirmou que “a produção de teatro de brinquedo de Gil Norton torna um drama o que deveria ter sido uma crise”.
ALIÁS, VALE DIZER QUE o material gerado pelos Pixies na época de Doolittle era tão imenso que, quando o disco fez 25 anos, a 4AD reuniu demos e gravações alternativas num CD duplo, Doolittle 25.
E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega Wave of mutilation ao vivo em 1989. O grupo apresentava essa música nos shows numa versão bem lenta (que saiu em single).
Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.







































