Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre Doolittle, dos Pixies

A certidão de nascimento de Doolittle, segundo LP dos Pixies, registra duas datas: dia 17 de abril de 1989 foi o lançamento na Inglaterra, e 18 de abril nos Estados Unidos. A banda americana, contratada por um selo britânico (o experimental 4AD) já tinha um EP e um primeiro álbum fenomenais (Come on pilgrim, de 1987, e Surfer Rosa, de 1988, respectivamente). Mas faltava um disco que vendesse, estourasse para além da boa receptividade da crítica e fizesse todo mundo assobiar as músicas – coisa que o sujaço Surfer mal tinha conseguido, apesar do hino Where is my mind.

Hoje, o que mais tem por aí é gente entre os 40 e 50 anos que consegue se lembrar do que estava fazendo quando pôs nos ouvidos alguma canção de Doolittle. Aliás, não era tão complicado ouvir a banda por aqui no fim dos anos 1980. Here comes your man e Monkey gone to heaven, os grandes hits do disco, começaram a ser tocados imediatamente nas rádios-rock do Brasil. E em situações honrosas, furaram o bloqueio das FMs mais comerciais. Ao contrário do conto do disco-revolucionário-que-o-Brasil-só-conheceu-trocentos-anos-depois-de-lançado, Doolittle foi lançado aqui pela Warner quase em tempo real, em LP e K7 (em CD, só vários anos depois, pela Roadrunner).
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Doolittle fez os Pixies se tornarem um sucesso indie mundial (era possível), influenciou uma gama de bandas que inclui Green Day e Nirvana, e seus ecos podem ser ouvidos até hoje, em discos de grupos como Fontaines DC e Dry Cleaning. Nas internas, o relacionamento de Black Francis (voz, guitarra), Kim Deal (voz, baixo), David Lovering (bateria) e Joey Santiago (guitarra) começava a passar por tensões. Mas ainda assim a primeira fase do grupo duraria mais dois anos, e renderia mais dois grandes álbuns – um deles, Trompe le monde (1991), já esteve até nessa ilustre seção.
Difícil escolher um melhor disco dos Pixies, mas Doolittle é o aniversariante, e é tido como o mais criativo álbum da banda por muita gente. E vai aí nosso relatório. Ouça lendo e leia ouvindo.
ANTES DE MAIS NADA, o lado A de Doolittle é isso aí: Debaser, Tame, Wave of mutilation, I bleed, Here comes your man, Dead, Monkey gone to heaven. O lado B: Mr. Grieves, Crackity Jones, La la love you, Nº 13 baby, There goes my gun, Hey, Silver, Gouge away.
POR FAVOR, SUCESSO. A maior vendagem de Surfer Rosa tinha sido nos EUA: 705 mil cópias. Não era apenas a 4AD que tinha interesse na banda: a Warner, que distribuía o selo nos EUA, país dos Pixies, adoraria poder contar com boas vendas dos discos do quarteto.
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LOGO NA SEQUÊNCIA DO primeiro disco, os Pixies fizeram uma turnê com outra banda indie conhecida de Boston, os Throwing Muses. Em seguida, Black Francis começou a trabalhar em demos de novas canções, com Dead, Hey, Tame e outras surgindo. Em 1988, a banda chegou a tocar algumas das músicas novas no programa do DJ inglês John Peel. O material de Doolittle começava a surgir aos poucos.
PRODUTOR. Tem uma pessoa sem a qual Doolittle não teria saído. E essa pessoa não apenas já conhecia os Pixies de outros carnavais, como tinha até assistido a outro show deles junto com as Throwing Muses. Era o produtor inglês Gil Norton, que por acaso produzira o primeiro disco das meninas para a 4AD, epônimo, em 1986.
ALIÁS E A PROPÓSITO, esse tal show a que Gil assistiu rolou pouco antes de Surfer Rosa, e na época os Pixies ainda eram tão pouco conhecidos que abriram a noite. Gil amou o show, que por sinal, foi dado em condições meio bizarras: Kim Deal teve um problema de doença na família e não foi à apresentação, e os Pixies viraram trio por uma noite.
ROLOU UMA PEQUENA TROCA na época. As Throwing Muses e Gil haviam tido um relacionamento apenas mediano na época do primeiro disco. Isso porque o produtor queria porque queria inserir metais no som delas e elaborar um pouco mais as canções, coisa que as garotas não queriam. Então, Ivo Watts-Russel, chefão da 4AD, propôs que elas trabalhassem com Gary Smith e pôs Norton no caminho dos Pixies. “Elas não aceitavam as sugestões dele como os Pixies faziam”, justificou.
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MAS QUEM É GIL NORTON? Nascido em Liverpool, Gil estava em estúdio desde os anos 1980, e havia produzido álbuns como Difficult shapes & passive rhythms, some people think it’s fun to entertain, do China Crisis, e Ocean rain, do Echo & The Bunnymen, ambos de 1984. Gil sempre foi um cara que curte pré-produção, e exige muito dos artistas com os quais trabalha. “Como você pode entrar em um estúdio se ainda não tem as músicas organizadas?”, questiona ele nesse papo aqui. “Tudo que eu quero de um artista é o melhor que ele pode fazer. Eu não gosto de pessoas preguiçosas. Se você quer ser preguiçoso, não me contrate”.
POR SINAL, Gil tinha um abacaxi para descascar durante a gravação de Doolittle. Um abacaxi chamado Black Francis: o líder dos Pixies entediava-se facilmente no estúdio e detesta fazer a mesma coisa várias vezes. “Ele era difícil, sim! Não é que ele não vá fazer nada mais do que uma vez, mas ele acharia entediante tocar os mesmos acordes. Tive que tentar convencê-lo a repetir as seções ou mudar um pouco as coisas para mantê-lo feliz”, recorda.
OS ENSAIOS de Doolittle começaram no fim de 1988, na garagem da casa da família de David Lovering. Já as gravações começaram em 11 de outubro no Downtown Recorders, em Boston. Construído num prédio antigo, o estúdio se destacava por uma peculiaridade: o local da bateria ficava junto com o do restante dos músicos. Não havia uma cabine de bateria. Era ideal para gravar discos com clima de “ao vivo”, tanto que a ideia original dos donos era investir num local para shows, não exatamente num estúdio. Na época, três bandas dividiam a sala de ensaio – dentre elas Juliana Hatfield e seu grupo. Gil adorou o local.
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AS GRAVAÇÕES de Doolittle duraram menos de um mês – foram até 23 de novembro de 1988. Gil se recorda de que foi um disco “rápido e furioso”, e que os cofres da gravadora não sofreram nenhum assalto: só 30 mil dólares para fazer tudo. A banda nem sequer usou muito equipamento: ao contrário do que acontecia na época, não houve uso de computadores, samplers, máquinas último tipo e vários microfones.
MAS ANTES, Gil precisou se trancar com Black Francis e fazer… as benditas pré-produções, quando percebeu que seu artista detestava repetir coisas. O produtor havia alugado um apartamento em Boston e lá ficou com Francis repassando todo o material, tocado num violão. Esse lado CDF tanto do produtor quanto da banda contou para o som de Doolittle: todo o material já havia sido cuidadosamente registrado em demos e foi exaustivamente ensaiado antes de ser gravado na fita master.
ALIÁS E A PROPÓSITO, mesmo com tantos cuidados, um desafio da banda e do produtor era fazer com que Doolittle fosse um disco próximo do que a banda faria ao vivo. Ainda que Gil conseguisse convencer os Pixies a fazer o que as Throwing Muses estavam reticentes em concordar, e colocasse cordas em Monkey gone to heaven.
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AH SIM: a ideia das cordas, na verdade, surgiu por causa de ninguém menos que Kim Deal, que resolveu tocar um piano de cauda que havia no estúdio. O som dela tocando no instrumento lembrou cordas em pizzicato, e todo mundo acabou gostando da ideia de levar aquilo para o disco.
SEI NÃO. Ninguém duvida, hoje em dia, de que Debaser é a faixa perfeita para abrir um álbum, e que ela bate um bolão em Doolittle. Acredite: Black Francis não estava muito seguro com relação à faixa e achava que ela não deveria entrar no disco. Teve que ser delicadamente encorajado.
EU BEBO SIM. Doolittle tinha uma música cantada pelo baterista David Lovering, La la love you. Aparentemente, a ideia de Francis foi fazer como John Lennon e Paul McCartney, que nos discos dos Beatles, sempre faziam uma canção para Ringo Starr cantar. O baterista estava nervoso, dava voltinhas na sala antes de pegar no microfone, e acabou bebendo seis cervejas para tomar coragem. Se antes David não queria cantar, o baterista depois acabou ficando animado – Gil recorda-se de que foi difícil tirá-lo do microfone, porque ele queria refazer os vocais várias vezes.
ALIÁS E A PROPÓSITO, segundo o próprio Lovering, La la love you costuma ser bastante usada em cerimônias de casamento.
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LEIA O LIVRO. Como acontecia nos discos anteriores dos Pixies, Doolittle teve uma baita influência do Antigo Testamento da Bíblia. Gouge away, a gritalhona faixa de encerramento, era inspirada na história de Sansão e Dalila. Dead cai pra cima da polêmica história do casal de amantes Davi e Betsabá. O “se o homem é 5, então o diabo é 6 e deus é 7” de Monkey gone to heaven veio da numerologia hebraica, assunto que Francis sequer dominava – baseou-se numa história que contaram a ele. A música também trata de catástrofes ambientais (daí “agora há um buraco no céu”, “tudo está pegando fogo” e outros versos de escrita quase automática). Mr. Grieves trata do encontro com uma espécie de “dona Morte”. Crackity Jones era sobre um colega de Francis que ouvia vozes.
ALIÁS E A PROPÓSITO, Black Francis foi criado na igreja evangélica. Seus pais ingressaram na Assembleia de Deus norte-americana quando ele era criança, e ele frequentou a igreja durante a adolescência. Num dos acampamentos da igreja, assistiu a um show do roqueiro gospel Larry Norman, que costumava animar o público com a frase “venha, peregrino!” (o nome do EP Come on, pilgrim vem disso).
É SURREAL! A letra de Debaser, por sua vez, faz referência a Um cão andaluz, filme de Luiz Buñuel e Salvador Dalí (afinal a letra fala em “fatiando globos oculares”, como aparece na abertura da película). Os versos subsequentes têm o mesmo clima. Aliás, o nome do filme aparece na letra.
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O PATRÃO MANDOU. A 4AD ficou especialmente animada com Here comes your man e viu naquilo o potencial primeiro single do disco. Problema à vista: a gravadora achou a canção, com pouco mais de dois minutos, curta demais, e mandou Francis aumentar a letra. O cantor ficou puto, gastou saliva, mostrou uma coletânea de Buddy Holly para Gil Norton (alegando que os hits do cantor eram canções de dois minutos), mas topou. Só que não deu as caras quando a banda gravava a base da canção.
DETALHE: tanto Francis quanto a banda tinham lá certo preconceito com a faixa. Sempre tinham achado Here comes your man comercial demais, uma espécie de Anna Julia do grupo, e nas internas, ela ganhava o apelido de “a do Tom Petty” (era consenso geral que a canção era um country disfarçado). Nem mesmo a 4AD tinha lá muita certeza de como usar a música.
ALIÁS E A PROPÓSITO, os Pixies receberam um convite para mostrar Here comes your man no programa de Arsenio Hall, campeão de audiência na época. Disseram que só iriam se pudessem tocar Tame, e a produção se recusou. Ivo diz que talvez um selo maior pudesse convencer os Pixies a se comercializarem mais, mas a 4AD não conseguiu.
TAVA DANDO MERDA. Testemunhas privilegiadas, como Ivo Watts-Russel, recordam-se que o dia a dia dos Pixies andava ficando meio frio. Francis precisava ser convencido a deixar Kim Deal fazer vocais em algumas músicas e rejeitava suas colaborações. Em Doolittle, só havia Silver, parceria dele com ela – na qual por sinal Kim tocava slide guitar. Por causa disso, ela achou melhor fazer sua própria banda, The Breeders.
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ESPOSA. Aliás em Doolittle, pela primeira vez, Kim usava seu nome verdadeiro. Isso porque no EP e no primeiro disco, ela assinava como Mrs. John Murphy. Casada com o empreiteiro da Força Aérea Americana John Murphy, ela ouviu de uma amiga casamenteira que se adotasse o sobrenome do marido, ganharia mais respeito. Resolveu fazer piada com o machismo da situação e adotou logo nome e sobrenome. Mas o casal se separou em 1988.
CAPA. Pela primeira vez, Vaughan Olivier (capista da 4AD) e Simon Larbalestier (fotógrafo que trabalhava com os Pixies) tiveram acesso às letras antes do disco ficar pronto. Isso fez com que o trabalho mudasse completamente, já que Vaughan produziu várias fotos conectadas com as letras, como o sino cheio de dentes que se relaciona com I bleed (com os versos “um sino tocando” e “isso faz meus dentes rangerem”).
ALIÁS E A PROPÓSITO, Francis também referenciou-se na arte de Olivier, que fez a capa inspirado na letra de Monkey gone to heaven, com um macaco-anjo. Tanto que o disco se chamaria Whore (“puta”), como referência ao simbolismo bíblico da Prostituta da Babilônia. Mas mudou para Doolittle, porque achou que iriam interpretar a capa como afronta ao catolicismo.
CLIPES. O de Here comes your man, dirigido por Neil Pollock e Jonathan Bekemeier, ganhou (muito) espaço na MTV, apesar de ser uma maluquice sem fim. A banda aparece distorcida, gravada com câmera olho de peixe, e Francis e Deal dublam a canção sem respeitar nenhuma sincronia com a letra. Gravado boa parte em preto e branco, o de Monkey gone to heaven é bem misterioso, mas mais formal, com a banda tocando num palco. O de Debaser, com imagens desfocadas e palavras sobrepostas, é tão surrealista quanto a capa do disco, e foi dirigido pelo próprio Vaughan Olivier.
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VENDEU? Até hoje, Doolittle vendeu um milhão de cópias nos EUA. Black Francis conta que na época, as vendas foram modestas. “As pessoas sempre dizem que devemos ter vendido muitos discos, mas tínhamos aquele vídeo na MTV por seis semanas e vendemos uns 60.000 discos. Os anos 1990 ainda não haviam acontecido. Nele, as chamadas bandas ‘alternativas’ estavam vendendo milhões de discos”, afirmou.
E A CRÍTICA? Quase todo mundo gostou do disco. A Melody Maker e o The Sounds consideraram o álbum disco do ano. Robert Christgau, do Village Voice, disse que a banda “está apaixonada e não sabe por quê”. A Time Out discordou e afirmou que “a produção de teatro de brinquedo de Gil Norton torna um drama o que deveria ter sido uma crise”.
ALIÁS, VALE DIZER QUE o material gerado pelos Pixies na época de Doolittle era tão imenso que, quando o disco fez 25 anos, a 4AD reuniu demos e gravações alternativas num CD duplo, Doolittle 25.
E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega Wave of mutilation ao vivo em 1989. O grupo apresentava essa música nos shows numa versão bem lenta (que saiu em single).
Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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