Crítica
Ouvimos: Dwarves – “Free cocaine (1986-1988)” (coletânea)

RESENHA: Relançada nas plataformas, Free cocaine (1986-1988) reúne 37 faixas que documentam a transição dos Dwarves do noise rock para o punk e hardcore de músicas curtíssimas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Greedy Media
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Coletânea lançada originalmente em 1999 e agora de volta às plataformas, Free cocaine (1986-1988) não é o disco mais recomendável para quem quiser se aventurar no mundo punk-podre dos Dwarves. Tudo bem: na verdade, os Dwarves estão bem longe de serem uma banda “recomendável”.
Desde o começo, os Dwarves funcionam como um grupo especializado em chocar, em ofender, em mexer com o que não deve ser mexido – dá pra dizer que, muitas vezes, eles só não foram exatamente “cancelados” porque certas letras da banda são tão escrotas que não dá para olhar aquilo da mesma forma que qualquer pessoa olharia arte “normal”.
Vai daí que Free cocaine (e veja lá que título…) vai ainda mais fundo por lembrar a época em que eles eram apenas uma banda de noise rock “em sua forma mais indomável”. As trinta e sete faixas do disco (em pouco mais de cinquenta minutos!) oferecem ruídos, títulos porcos, experimentalismo podre, “produção sem nenhum investimento, palavrões ao máximo” (palavras deles).
Após 1990, os Dwarves se tornariam pouca coisa mais populares assinando com a Sub Pop – o que na prática, garantia que as polêmicas deles chegariam a mais gente. Não é assunto pra Free cocaine, que abre com uma torrente de microfonias na faixa-título, em Dead brides in white (com guitarras tão ruidosas que nem se ouve a bateria), em Let’s get pregnant e em todo o material do EP Lucifer’s crank, lançado à própria custa em 1988 e relançado depois pela Rough Trade.
Nobody likes me, uma das músicas dessa fase, parece coisa de Calvin & Haroldo: “Ninguém gosta de mim / todo mundo me odeia / então vou sentar e comer minhocas”. Mas o disco documenta a passagem entre duas encarnações dos Dwarves: de um grupo de garage barulhento para uma máquina de punk/hardcore de músicas absurdamente curtas. O material também é bastante fragmentado, já que reúne músicas de diferentes sessões, versões alternativas, gravações lançadas oficialmente e material dos singles.
As faixas vão ganhando mais cara de “canção punk” em faixas como as inacreditáveis I wanna kill your boyfriend, Sit on my face e That’s rock’n’roll – dos versos “bem, eu tinha 16 anos e estava farto da escola / eu não sabia o que queria fazer / matei meus professores (…) / eu tenho uma agulha, eu tenho uma colher / eu tenho uns caras, eles estão lá no meu quarto”. Tem ainda a “cirurgia punk” que a banda fez em I’m a man, de Bo Diddley, e o cruzamento entre punk e parede de barulho do EP Toolin’ for a warm teabag (1988), incluído aqui.
Do meio para o fim de Free cocaine (ou seja, lá pena vigésima faixa), tem até uma subversão de Surfin’ bird, dos Trashmen – aquela imortalizada pelos Ramones. Só que a banda fez o favor de mudar o nome para… Motherfucker. Enfim, o clima dos Dwarves era essa loucura para poucos aí, com direito à migração para o garage-punk em faixas como I’m not talking e Crawl – esta, um exemplo de psicodelia de araque das boas.
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Crítica
Ouvimos: Olivia Yells – “To the core” (EP)

RESENHA: No EP To the core, a curitibana Olivia Yells reúne demos e singles sobre amadurecimento, culpa católica e conflitos pessoais, cruzando grunge, punk, stoner e ecos de PJ Harvey.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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A curitibana Olivia Yells faz de seu EP novo, To the core, uma espécie de “coletânea amarga”, com demos e canções já lançadas em singles – todas tratando de seu crescimento, da criação católica que recebeu de sua família, e de tudo que foi observando em si própria ao longo de seu amadurecimento. O material começou a chegar ao público de 2023 para cá e, reunido no EP, vem acompanhado de encucações bem interessantes que ela posta no Instagram: “diante de tudo que me aconteceu, de tudo que eu vivi, de tudo que me fizeram… será que é suficiente o que sobrou de mim?”, escreveu ela.
Olivia abre o EP evocando PJ Harvey na versão demo de Rotten, registrada em clima grave, com voz e violão, mas ganhando riff distorcido depois. Guilty, sobre culpa católica, e Sedate me, vêm entre grunge, punk e toques de stoner – com a diferença de que a segunda ganha vocais mais doces, e clima esparso. Curtinha, Clean tem algo de Hole, enquanto o final, com Dumb, evoca punk e metal cobrindo ambos com frieza, para falar sobre “essa ferida de ter internalizado que eu era burra” em meio a um mundo onde quem geralmente se sente com autoridade para ensinar são os homens.
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Crítica
Ouvimos: Paura – “Primitive chaos”

RESENHA: No nono disco, Primitive chaos, o Paura mistura hardcore, punk e metal em músicas sobre ego, ressentimento, xenofobia e machismo, recuperando o espírito das fusões entre punk e metal dos anos 1980 e 1990.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 31 de agosto de 2026
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O Paura faz hardcore e punk com uma nada ligeira queda para o metal em seu nono disco, Primitive chaos – e fazem de suas músicas uma plataforma de observação do ser humano e das podridões do mundo, sem deixar de lado o senso de coletividade mais ligado às noções iniciais do hardcore.
A banda diz que se trata de um disco “primitivo” e feito com “amor e raiva”. Faz sentido diante de pancadarias curtas como Primitive chaos, The deepest evil (sobre as amarguras internalizadas ao longo da vida) e Sarcastic sadistic. Master your hate e King of yourself falam de temas como ego, coletivo e ressentimento virando ação em prol de algo.
O som do Paura em Primitive chaos tem muito do Sepultura – mas aponta sempre para o clima da banda nos discos Arise (1991) e Chaos AD (1993), quando os flertes com o punk eram maiores, em meio às criações groove metal do grupo. É uma referência audível nos vocais, no namoro hardcore + metal, e na construção de atmosferas pesadas e frias para acompanhar letras de protesto como Who’s the brave, a anti-xenófoba Immigrants are beautiful e a anti-machista (com início quase marcial) Their story still bleeds.
De certa forma, Primitive chaos remete a um som bem anos 1980/1990, com lembranças de um hardcore que ainda era uma novidade, e de um metal que, ao se misturar com elementos do punk, também era novidade. As várias partes de Serpent’s nest têm ate algo do grindcore do Napalm Death, banda cujo som também é filho dessas fusões.
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Crítica
Ouvimos: Foglights – “Nous deux” (EP)

RESENHA: No EP Nous deux, Eva Cord e Archie Ingram (os dois do Foglights) criam psicodelia etérea sem bateria, cruzando Velvet Underground, Spacemen 3 e folk com guitarras, teclados e vocais fantasmagóricos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Slumberland Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Eva Cord e Archie Ingram, os dois do Foglights, pertencem a projetos originais ligados a estilos como indie-pop e psicodelia (Eva é da banda The Cords, e Archie usa o codinome Stone Anthem). No EP Nous deux, o clima é voador e psicodélico, assumidamente inspirado em bandas como Velvet Underground, Spacemen 3, Opal e Spiritualized – eles recomendam o disquinho inclusive para fãs desses nomes -, com vocais, arranjos e letras que parecem vir do espaço. O som é preenchido por guitarra, teclados, alguns sons de cordas, e nada de bateria.
Tipo na abertura, com The rain felt kind, preenchida por versos como “deixe a janela bem aberta / deixe a manhã entrar / deixe-a ficar comigo por um tempo / até a chuva ficou gentil” – nessa faixa, uma guitarra tremida e um som de órgão de igreja acabam servindo como “cara própria” do duo ao longo do EP. Rola também no jogo de luzes e sombras da balada nostálgica I don’t know, com melodia lembrando nada discretamente a de Rollercoaster, do The Jesus and Mary Chain. Mas com clima tranquilo e cerimonial, bem diferente da faixa do Jesus.
The day the light stayed (Longer than us), aberta com um “ba ba ba ba”, tipicamente sixties, daria um bom jangle pop se tivesse bateria – aqui surge como um folk ultratexturizado, em que vozes e guitarras fantasmagorizam o arranjo. A brighter kind of almost, no fim, é tão romântica e esperançosa (com direito ao chilrear de pássaros no fundo) que mal dá pra ser classificada como dream pop, shoegaze, nada disso – parece um som dos Everly Brothers levado para o idioma do rock etéreo e da neopsicodelia.
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