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Crítica

Ouvimos: The Femcels – “I have to get hotter”

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Duo Femcels faz pop tosco e irônico, com som de software velho e letras estilo blog dos anos 2000, retratando incels, inseguranças e adolescência patética.

RESENHA: Duo Femcels faz pop tosco e irônico, com som de software velho e letras estilo blog dos anos 2000, retratando incels, inseguranças e adolescência patética.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Getting Hotter Records
Lançamento: 24 de janeiro de 2026

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Rowan Miles e Gabriella Turton, as duas Femcels, passam bem longe de qualquer tentativa de criar música lo-fi, pelo menos do modo como tem sido feito hoje em dia. O som delas parece ter sido feito com algum software dos primórdios da internet, ou do começo das gravações feitas em computador – algum tecladinho bem rudimentar, uma placa de áudio comprada em condições bem estranhas ou uma estação de áudio craqueada.

Mais que isso: as letras delas em seu primeiro álbum, I have to get hotter, lembram aqueles textos rudimentares escritos em blogs lá por 2002 ou 2003, quando não se falava em cyberbullying, havia pouca noção de que havia gente lendo seu blog além dos amigos, e blogueiros, em vez de tentar desesperadamente fechar negócios e influenciar pessoas, passavam o dia publicando conclusões adolescentes a respeito da vida e escrevendo poesia ruim.

O som de I have to get hotter é basicamente um imenso videogame que virou música, às vezes apelando para sons acústicos, às vezes lembrando uma versão sintetizada das Shaggs. E as Femcels parecem imunes até mesmo ao corta-e-cola da criação experimental de hoje. Ou seja: parece que elas estão tentando fazer música, mas com tantas restrições orçamentárias e tecnológicas que o que era pra ser sério fica engraçado.

E, veja bem, trata-se de uma qualidade do som delas. Isso porque a ideia de Rowan Miles e Gabriella Turton, é falar de garotos incels, meninos punheteiros que temem o sexo, garotas que se enchem de remédios para emagrecer, adolescentes “alternativos” fúteis e de comportamento indie performático.

  • Ouvimos: cumgirl8 – The 8h cumming

O disco inteiro é uma novelinha estilo Malhação – Múltipla Escolha que fala disso aí tudo, só que focando no lado mais infame e ridículo da historinha. Rowan e Gabriela soltam versos abilolados sobre ser a menina mais indie da escola (a autoexplicativa The indiest girl at school) e falam de bullying virtual – na absolutamente infame No one will fuck me when I wear two different shoes (One Jordan, One Gucci Flip Flop), em que Gabriela reclama de uma garota que a acusou de ter “preenchinento labial e pais ricos”. Também tentam não encarar a realidade dos relacionamentos cagados (em He needs me, sobre uma garota que invente um monte de desculpas para o ghosting que vem tomando de um ficante) e põem inseguranças pessoais para fora de um jeito bem estranho (I’m so fat).

Um destaque em I have to get hotter é a bizarríssima You’re gay and you’re in love with me (Please let me touch your boobs), música em que Rowan e Gabriela iniciam um namorico enquanto lembram de um torneio do game Counter Strike em que o ambiente “cheirava a cachorro-quente e incels”. Já a tara das personagens do álbum por meninos com aparência frágil (epa, olha outra mania da era dos blogs aí) gera uma maluquice que vai além da polêmica: o eletrohardcore infame Please don’t stab yourself (Like Elliott Smith), na qual a personagem bullyiniza o próprio garoto de quem ela está a fim. Aliás, na letra, um ciclo é fechado com os versos: “o que eu amo no JavaScript é que você pode fazer qualquer coisa com ele / você pode criar qualquer coisa com JavaScript / JavaScript é lindo”.

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Ouvimos: Grace Inspace – “Heavy hair” (EP)

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EP Heavy hair, de Grace Inspace, mistura alt-pop introspectivo, referências indie e letras pessoais sobre peso emocional e fragilidade.

RESENHA: EP Heavy hair, de Grace Inspace, mistura alt-pop introspectivo, referências indie e letras pessoais sobre peso emocional e fragilidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: TODO
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026

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Existe uma noção de “viagem pop”, que passa necessariamente pela introspecção, e que surge em Heavy hair, EP novo da cantora e compositora de alt-pop Grace Inspace. Sunshine kid, seu disco anterior (vendido pelas plataformas digitais como álbum, embora seja na prática pouco maior que Heavy hair), também ia na mesma onda, mas ainda era um disco totalmente associável ao indie rock e uma noção mais (digamos) “tranquila” de pop alternativo.

Heavy hair veio de um desenho que ela fez de si própria quando criança, com uma cabeleira tão enorme que parecia deixar sua cabeça pesada – e que parecia concentrar nos fios um peso emocional enorme. Parece um bom contraste com o nome de uma cantora que se diz “Grace no espaço”, e não é por acaso que ela abre o EP com Helium balloom, canção de voz e violão cuja letra é uma metáfora para algo que fica pairando, mas que já não tem o mesmo peso e significado que tinha antes. Meteor, com participação de Luna Li, tem vocal meio jazzístico, clima bittersweet e cordas.

Unirivaled parece trazer elementos de Weezer, Pixies e Velvet Underground para o disco, numa onda meio sixties. A letra parece trazer um diálogo entre duas pessoas que veem a mesma situação de fragilidade de formas diferentes, sendo que uma delas parece bastante traumatizada (“você disse que deixa todo mundo te intimidar / é irônico, mas é verdade / duvidam da minha força até ela ficar dormente e subutilizada”). Climas lembrando os discos solo de Kim Gordon e as viagens pop underground de Beck tomam conta das ruidosas Emergency contact e Blurry.

Keeper, no final, é um curioso folk de ninar, em que Grace convida alguém a entrar na sua vida, mesmo que a pessoa não possa entender tudo que ela já viveu (“alguns momentos nebulosos na minha memória / coisas que eu preferiria não ver”). Se musicalmente ainda há ajustes a fazer nas viagens pop de Grace, liricamente ela conseguiu arrumar maneiras bem originais de colocar suas questões pessoais em música.

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Crítica

Ouvimos: Geologist – “Can I get a pack of Camel Lights?”

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Geologist faz disco experimental e hipnótico com hurdy gurdy, drones e climas sombrios — belo, ousado e às vezes repetitivo.

RESENHA: Geologist faz disco experimental e hipnótico com hurdy gurdy, drones e climas sombrios — belo, ousado e às vezes repetitivo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Drag City
Lançamento: 30 de janeiro de 2026

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Tem gente que sempre quis fazer um baita álbum pop – e tem gente como Brian Weitz, integrante do Animal Collective, que aparentemente sempre teve o sonho de fazer um disco tão ousado quanto The marble index, o segundo disco de Nico (1968). Se o nome do disco dele sugere uma saída rápida para abastecer os vícios e depois voltar para o trabalho, Can I get a pack of Camel Lights?, álbum que Brian assina como Geologist, é viciante só pra quem curte drones, sons hipnóticos e música feita para testar os limites de quem ouve.

Can I get é baseado no fascínio de Brian pela sanfona-de-roda, ou simplesmente hurdy gurdy, aquele instrumento que inspirou a canção Hurdy gurdy man, de Donovan. Um detalhe é que, apesar do nome da faixa, Hurdy gurdy man não apresenta ninguém tocando o tal instrumento – o que parece ser a tal sanfona-de-roda é uma tambura, aquela cítara de braço longo. Já a tal sanfona é uma traquitana renascentista que pode produzir sons tão belos quanto irritantes (vai depois no YouTube ver os vídeos de gente tocando a tal sanfona, que mais parece uma mistura de cítara, rabeca e órgão de igreja de bolso).

  • Ouvimos: MINTTT – Mixtape da prensa hidráulica

Aqui quase sempre as coisas ficam entre o hipnótico e o sombrio. O tal hurdy gurdy aparece combinado com teclados e percussão (Oracle road), com beats eletrônicos, teclados e uma guitarra meio banguela tocada pelo filho de Brian (a estranha e meio grunge Government job), com mais beats, distorções e design sonoro próximo do pós-punk e do post-rock (a ótima Tonic, com baixo e bateria, além de sons vindos do que parece ser uma guitarra, e também a ruidosa e marcial RV envy). Vai por aí.

Há músicas que começam num ritmo, e terminam por criar seus próprios ritmos, como no compasso ternário de Not trad, transformado em algo quase indianista, e no jazz-bossa espiritualista que vai surgindo de Color in the B&W. Tudo isso aí torna o disco do Geologist uma experiência boa, ainda que as coisas fiquem meio repetitivas justamente na faixa mais extensa – Compact mirror / Last names, de nove minutos, que mesmo assim dá uma boa acordada quando se torna um pesadelo de distorções.

O Geologist solta ainda uma música que poderia fazer parte da trilha de algum filme no estilo de A montanha sagrada, de Alejandro Jodorowsky (Pumpkin festival), quatro minutos de improvisos (a bela e cinemática Shelley Duvall) e vibes sonoras que fazem lembrar os primeiros tempos do Neu! (nos sete minutos minimalistas, urgente e viajantes de Sonora). Tudo bem específico e muito bonito.

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Ouvimos: Low Blows – “Low Blows”

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Low Blows mistura darkwave e pós-punk à la The Cure, com clima sombrio, vocais graves e letras angustiadas. Funciona melhor no escuro.

RESENHA: Low Blows mistura darkwave e pós-punk à la The Cure, com clima sombrio, vocais graves e letras angustiadas. Funciona melhor no escuro.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 8 de janeiro de 2026

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Vindo de Barcelona, na Espanha, o Low Blows é uma daquelas bandas que dão susto logo no comecinho do disco. Tudo por causa da faixa de abertura: Vacio, que inicia com pouco barulho, e logo dá uma explodida com beat eletrônico, baixo agudo, teclados e clima darkwave, bem próximo da atual fase do Cure.

Segundo disco do grupo, lançado seis anos depois da estreia Cruel, Low Blows tem muito do The Cure, pelo menos no que diz respeito às guitarras econômicas e climáticas, e ao tom solene e meio fúnebre das músicas. Os teclados não têm o ecumenismo sonoro do grupo de Robert Smith, os vocais de Carlos Vergara são bem graves, o repertório surge mergulhado numa piscina de eco. As letras, quase todas em inglês, são pedidos de socorro: SOS, Fix me (“conserte-me / minha vida está em suas mãos”, diz Carlos), I hate, Cracks, Overrated – nada exatamente próximo da poesia de Ian Curtis (Joy Division), mas tudo dentro da tradição do som gótico e eletrônico.

Essa tradição, vá lá, geralmente aponta para um detalhe desse tipo de som: são bandas quase sempre muito parecidas, com influências iguais (só uma emanação de heavy metal aqui, outra ali pra dar diferença) e caminhos que muitas vezes levam para os mesmos lugares. O Low Blows compensa isso criando climas sonoros realmente sombrios – coisa que o AFI, na sua guinada darkwave com o álbum Silver bleeds the black sun… não fez de forma convincente.

Músicas como Misleading blind, a dura e seca Cracks (que vai ganhando clima pós-punk e vaporoso depois), o instrumental Intermezzo, a vibe Interpol + Joy Division de Go!, além da pesada I hate (na qual o vocal de Vergara lembra bastante o de Ian Curtis) vão para essa onda, que atira de verdade o / a ouvinte nas sombras e numa vibe quase misantrópica. Os vocais em espanhol, que iniciaram o disco com Vacío, voltam no fim de Low Blows com… o eletrorock Fin. No geral, um som que funciona melhor no escuro.

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