Crítica
Ouvimos: Olivia Dean – “The art of loving”

RESENHA: Olivia Dean vence Revelação no Grammy 2026 por causa de The art of loving: pop neo soul elegante, conceitual e maduro, que confirma talento além do hype.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Capitol / Polydor
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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E aí que a britânica Olivia Dean ganhou o gramofonezinho de revelação do ano no Grammy 2026, graças a The art of loving, que já é seu segundo disco – mas acabou sendo o álbum que mais “pegou” entre críticos e novos fãs. Esse prêmio, vá lá, é uma bênção e um problema: leve em conta que ele é um ótimo avalizador de sucesso, mas também abre a cortina da pressão e da aporrinhação em cima de qualquer artista.
Nomes como Dua Lipa e Olivia Rodrigo não apenas deram uma mudada na cara da categoria (que já foi vencida por gente sem expressão como Macklemore e Ryan Lewis, e perdida por popstars como Britney Spears), como também passaram a se relacionar com a “revelação” de outra forma: simplesmente responderam à “pressão” com discos legais e com visão própria de carreira.
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No caso de Olivia, ela ainda está no segundo álbum. Mas não parece fazer o estilo da cantora que vai se transformar numa espécie de Rock In Rio de si própria – com lançamentos que se justificam mais pelo marketing do que pela música, e coisas do tipo. Até porque The art of loving mexe numa área bem mais delicada: canções pop com cara neo soul, argamassa “antiga”, vocais trabalhados e uma vibe conceitual que segue do começo ao fim, transformando o segundo álbum de Olivia num disco sobre amores, perdas, ciclos de gente errada, livramentos.
Com uma onda sonora que fica entre o som da Motown e a economia sonora do bittersweet setentista, The art of loving começa citando a escritora bell hooks na vinheta-título – a norte-americana tem entre seus livros a trilogia do amor, começando com Tudo sobre o amor: Novas perspectivas. Uma boa introdução para Nice to each other, que fala sobre um relacionamento que acaba deixando um rastro de tristeza, e de comportamentos repetitivos diante de términos (“eu já fiz todas as coisas clássicas / e nunca funciona, você sabe disso”, diz sobre a possibilidade de um final “maduro”).
Daí para a frente, Olivia se entrega a uma série de canções equilibradas entre soul e soft rock, cujas letras apontam, mais do que para o amor, para sua história pessoal. Ela cresceu em Londres se sentindo “diferente” por causa de sua origem afro-latina (sua família vem da Jamaica e da Guiana). Esse jogo de inadaptação-adaptação paira sobre Lady lady (“as roupas que sempre vesti não cabem mais em mim”), pop gostosinho que lembra Des’Ree. Surge também no fim de conto de fadas de I’ve seen it, balada triste e curtinha que encerra o álbum.
O soft rock mágico de Something in between invade a ilha de edição de um relacionamento, pedindo um espaço para respirar. Let alone the one you love, balada blues lindíssima, fala de um sujeito que praticou lovebombing e deu no pé (“você era o calor que eu precisava, como uma brisa na noite / e então você mudou / vocês são todos iguais, sim”, atira). Tem ainda So easy (To fall in love), com violão em clima de bossa e cara de trilha de filme, além da onda Stevie Wonder + Michael Jackson de Man I need, duas grandes músicas. A julgar por The art of loving, Olivia já era uma revelação antes do Grammy olhar pra ela.
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Crítica
Ouvimos: Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago – “Criolo, Amaro e Dino”

RESENHA: Encontro de Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago mistura rap, jazz e ritmos afro-lusos, memória e crítica social, em parceria.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 15 de janeiro de 2026
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Criolo, Amaro e Dino não é só um disco feito a seis mãos – é um encontro de verdade. Aquele tipo de disco que só poderia acontecer quando os artistas estão disponíveis, e dispostos a se misturar um pouco em nome do som e das ideias. Com a rapidez dos papos levados pelo WhatsApp, era para estarem saindo discos assim a rodo. Por “assim”, aliás, entenda algo parecido com Gil & Jorge, disco de 1975 que unia Gilberto Gil e Jorge Ben e trazia os dois artistas criando um som que era só deles, e nunca mais foi repetido porque não houve um “volume 2”.
Se você for tentar quebrar o encontro de Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago em pedacinhos para entender o que está acontecendo ali… Bom, vale mais você ler entrevistas legais como a que Criolo e Amaro deram para a Folha de Pernambuco, mostrando que ali há as histórias dos três músicos, suas origens (o rapper paulistano, o pianista pernambucano e o cantor português de ascendência cabo-verdiana) e as músicas a que cada um foi exposto durante a infância e a formação musical.
Há mais que isso: encontros de realidades, e até de comunidades musicais – como as participações do trio de cantadeiras Clarianas no ijexá-funk-rap Você não me quis e em Menina do Coco do Carité, e do rabequista Mestre Salú, de Pernambuco, também nesta última. E se livros fossem líquidos? (Poeta fora da lei pt II) abre o disco com a mesma onda art-pop-soul do Sault, pondo a sonoridade do trio em outros universos. Fogo lento, morna cantada por Dino, põe mais drama pessoal e existência no disco (“dizem que o mundo é dos fortes / mas eu sei que o segredo é resistir às derrotas / em cada esquina uma escolha, uma porta / e eu aqui fazendo fogo lento na revolta”, diz a letra). Seka, marcada pelo piano sensacional de Amaro, leva o álbum para a terra de Dino, e põe o disco para girar na onda do batuku, ritmo e dança local.
Já faixas como Ela é foda, o jazz-soul Anoitecer, o samba-soul-reggae viajante Hoje eu vi você e Mama Afrika voltam ao lado mais pop do disco, num rolé de lembranças musicais que inclui Michael Jackson e até o grupo Azymuth. E o que fica mesmo do encontro de Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago é a disposição para tocar em feridas abertas, como a transformação do ser humano em máquina domada pelas big techs, às vezes mais ligado em realidades distantes do que no terror da esquina de casa. “O elevador aqui só desce, o demônio é meu sócio / abriram a caixa de Pandora, Simon diz: saiam agora (…) / a Amazônia tá pegando fogo / não é só L.A. que tá pegando fogo”, rima Criolo no samba-rap-jazz Amazônia (A-i’ahu). É isso aí.
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Crítica
Ouvimos: Public Enemy – “Black sky over the projects: Apartment 2025” / Chuck D – “Chuck D presents Enemy Radio: Radio Armageddon”

RESENHA: E os discos que Public Enemy e Chuck D (integrante do grupo, em carreira solo) lançaram ano passado? Dois álbuns de rap old school com novos elementos e reflexões sobre idade, mercado do rap e tempos digitais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9 (para ambos)
Gravadora: Enemy / Flavor Flav (Public Enemy) e Def Jam (Chuck D)
Lançamento: 8 de julho de 2025 (Public Enemy) e 16 de maio de 2025 (Chuck D)
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A essa altura já tem novidade no front de uma das bandas de rap mais históricas do mundo: o Public Enemy pegou o hit He got game, tema do filme de Spike Lee Jogada decisiva, e transformou em She got game, com participações de rappers e esportistas mulheres. Flavor Flav se tornou patrocinador da Seleção Feminina de Polo Aquático dos EUA nas Olimpíadas de 2024, e a equipe está nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, o que motivou a faixa.
Mas vale apontar que 2025 viu nascer não apenar um álbum novo do grupo, como também um disco solo do integrante Chuck D – que, por sinal, já tem um projeto colaborativo bem instigante programado para sair em 2026. Há algumas coisas em comum entre Black sky over the projects: Apartment 2025, do Public Enemy, e Enemy Radio: Radio Armageddon, de Chuck D. Tanto o rapper quanto seu grupo mantêm-se firmes no rap old school, mas acrescentam novos elementos, e não dispensam comentários sobre a passagem do tempo.
Na real, com lançamentos de rap cada vez mais “alternativos” e criativos, muita coisa que o Public Enemy já fazia lá pelos anos 1980 corre o risco de ser vista como uma alternativa nos dias de hoje. Apartment 2025 investe no boombap, em faixas com vários segmentos (com ritmos, climas e samples alternados) e em riffs hipnóticos de piano – enfim, o que poderia servir como uma cláusula de “psicodelia” para vários novos artistas é o procedimento normal de Chuck D, Flavor Flav e seus amigos.
O novo álbum fala sobre CEOs em estado de fúria e caos mental geral (Slick, unindo rock, blues, rap e jungle), gente escrota pagando comédia (Evil way, de versos como “tudo que sobe, desce / a gravidade tem um jeito de derrubar palhaços / tropeçando na cara, caindo escada abaixo / você é um homem mau / mas até os selvagens mais cruéis acabam sendo humilhados pelos comuns”), idade avançada (em What eye said, que entre versos como “deveria ser crime, agora estou perdendo meu ritmo / 64 versos para memorizar / consultei um psiquiatra para me ajudar” fala sobre como é ser um rapper e não recorrer a rimas fáceis).
Fools fool fools, com sons de bateria de Tré Cool, do Green Day, fala de um mercado fonográfico cada vez mais lotado de rappers, diluidores, aproveitadores e gente achando que autotune é gaita. O Public Enemy põe texturas de rock em algumas faixas, e privilegia uniões entre soul e psicodelia em várias outras, cabendo lembranças de grupos como Parliament / Funkadelic. Em vários momentos, o grupo encara os novos tempos com estranhamento – e vamos combinar que esse estranhamento tem lá suas justificativas, como na gracinha de Sexagenarian vape, reclamando de quem prefere fumar MP3 e gastar o dedo na tela (“você ama esses aplicativos, eu vou tirar um cochilo / porque você está bêbado de fama, tentando conseguir esse nome / correndo atrás de curtidas em vez de arrasar no microfone”).
Essa onda também é o combustível de Enemy Radio: Radio Armageddon, de Chuck D, álbum feito por um rapper experiente, que encara o estilo musical como uma rádio com vários programas – na real, é uma noção que faz parte do imaginário do estilo, tanto que já foi usada por De La Soul (em De La Soul is dead, de 1990), Racionais MCs (que criaram a Rádio Exodus no disco duplo Nada como um dia após o outro dia, de 2002), além do próprio Public Enemy. Em 2026, pode ser uma maneira de dizer que se a revolução não será televisionada, muito menos virá por intermédio das big techs, nas redes sociais e nas plataformas de música.
Em Enemy Radio, o girar do dial é uma maneira de dizer coisas, e de misturar universos, passando por uma análise da história do rock em What rock is, pelo empoderamento de Black don’t dead, pelo contato com os novos rappers em New gens, e pelo ódio de parte a parte (vindo da polícia, de rappers invejosos, de amigos falsos) em Rogue runnin’. Num disco dominado basicamente por convidados de velhas gerações do rap, Chuck une sons hipnóticos (New gens, Rogue runnin’, Carry on), faz rap + eletrohardcore (What are we to you?) e mexe com sons que fazem lembrar o hino Rational culture, de Tim Maia (na feminista e libertária Is god she?, com ½ Pint e Miranda Writes). Discão.
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Crítica
Ouvimos: KMFDM – “Enemy”

RESENHA: Enemy mostra o KMFDM mais acessível sem perder o peso: industrial dançante, crítica a líderes autoritários e mistura de metal, punk, dub e eletro.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Metropolis Records
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Enemy, o novo disco do KMFDM, grupo industrial da Alemanha, é uma boa opção para quem está a fim de conferir o lado (digamos assim) acessível e belo das composições deles. A faixa-título abre o disco com beat lento e vibe de hard rock eletrônico, além de uma letra que põe as coisas em seus devidos lugares: o KMFDM (em alemão, “kein mehrheit für die mitleid”, ou “nenhuma simpatia pela maioria”) avisa para tomar cuidado com os falsos líderes, ir à luta e não abaixar a cabeça para a massa neo-fascista.
- Ouvimos: Alter Bridge – Alter Bridge
Já a segunda música, Oubliette, com Lucia Cifarelli nos vocais, é o lado anos 1980 do disco: parece uma união bem louca de metal e punk, filtrado pela eletrônica do grupo. Só dai para a frente o lado “dança da guerra” do KMFDM vai aparecendo, com a robótica e pesada L’etat (cuja letra traz a frase “o estado sou eu”, do monarca Luís XIV da França, repetida várias vezes até todo mundo pensar em Trump) e a agilidade eletropunk da fantasmagórica Outernational intervention. Lucia toma conta dos vocais do metal pós-punk Catch & kill, e uma onda de peso industrial e distorção toma conta do instrumental Gun quarter sue – uma música que até engana, com um tecladinho relaxante e melancólico na abertura, e que depois de pesar bastante no ouvido, ganha uma curiosa cara progressivo-metálica.
Enemy vai para outros lados: tem a onda punk, gótica e sexy de Vampyr (um das faixas menos anti-pop da história do grupo), a raiva feminina de Yoü (com Annabella Konietzko, filha de Lucia e do frontman Sascha “Käpn’ K” Konietzko, na letra e nos vocais) e o eletro-rock’n roll de A okay, que lembra a fase intermediária do Ministry. Além do curioso dub industrial de Stray bullet 2.0, com direito a metais. No final, The second coming une rangidos, programações, gritos de horror e vocais graves como num trailer de filme.
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