Cultura Pop
Sleeping Giants Brasil: o gigante acordou (e pisou nas fake news)

Vou confessar um lance pra vocês: até domingo passado, eu andava bem desanimado com o futuro do pensamento progressista na internet. As redes sociais parecem ter sido feitas de encomenda para disseminar ideias reacionárias e retrógradas. O discurso do grupo político que venceu as últimas eleições presidenciais se amoldou perfeitamente à lógica (ou à falta de lógica) dos bate-bocas virtuais. A imprensa, uma das últimas retaguardas na defesa da democracia e do bom senso, está aturdida com as mudanças de paradigma. Não se vislumbra um meio de vencer a barragem de desinformação despejada na web e nos apps sociais — uma lição bem aprendida com a extrema-direita dos EUA.
Eu andava bem desanimado. Até domingo passado, dia 17 de maio de 2020. Foi quando eu li esta reportagem sobre como os sites de contra-informação e fake news da alt-right definharam com a perda de anunciantes, por obra de um perfil no Twitter. A tática é simples: em postagens públicas, o Sleeping Giants (https://twitter.com/slpng_giants) coloca grandes empresas em belas saias-justas, mostrando seus anúncios publicados em sites como o Breitbart, o The Daily Caller e o The Daily Stormer. Mais do que simplesmente publicar notícias inverídicas, esses sites fomentam o dissenso, a intolerância e o radicalismo entre seus leitores por meio de conteúdos inflamatórios, enviesados e partidarizados.
Como descrito na matéria do El Pais, alguns dos maiores anunciantes do mercado americano não gostaram nadinha de ver seus banners e pop-ups associados a esse tipo de conteúdo. Após o ler o texto, eu indaguei no Twitter:
O homem que arruinou a extrema direita nos EUA https://t.co/ngb4ueYVdN via @elpais_brasil quem se habilita a fazer algo similar por aqui?
— Marco A. Barbosa (@BartBarbosa) May 17, 2020
Pois nem demorou muito. No dia seguinte, entrou no ar o perfil Sleeping Giants Brasil, com a seguinte descrição de propósito: “Visamos impedir que sites preconceituosos ou de Fake News monetizem através da publicidade. Muitas empresas não sabem que isso acontece, é hora de informá-las”. Em menos de uma semana, conquistou cerca de 130 mil seguidores.
O primeiro alvo da campanha nacional não poderia ser outro além do Jornal da Cidade Online, uma verdadeira cornucópia de material pró-bolsonarista e desinformação. O JCO teve destacado papel na difusão de notícias falsas durante a campanha eleitoral de 2018; inventou colunistas de fachada para ofender e difamar figuras públicas que se opõem ao governo atual; seu criador, José Tolentino, foi um dos convocados a depor na CPMI das Fake News. Mais recentemente, a agência Aos Fatos revelou que o veículo compartilha a monetização de anúncios do Google AdSense com o site Verdade Sufocada, quartel-general dos apologistas da ditadura militar.
Além das fake news explícitas, o JCO mistura informação e opinião de forma indiscriminada, sempre em tom agressivo e pró-governista, com manchetes cuidadosamente pensadas para gerar indignação e viralização rápida. O Sleeping Giants Brasil metralhou forte, inquirindo via Twitter marcas como a Phillips, Americanas, Samsung, a rede Telecine, a Dell e a Folha de S.Paulo a respeito da veiculação de seus anúncios nas páginas do JCO. Publicidade estatal também entrou na roda: o Banco do Brasil e o Tribunal de Contas do Estado do Mato Grosso do Sul foram imprensados. Várias empresas responderam de bate-pronto, comunicando a suspensão imediata da monetização. Outras, no momento em que este texto está sendo digitado, ainda não haviam se manifestado.

E os caras acusaram o golpe. Carlos Bolsonaro, óbvio, foi o primeiro a se manifestar, com um tuíte reclamando da reação do Banco do Brasil à campanha do Sleeping Giants Brasil. (Ele postou um print que o mostra logado no perfil do pai na rede social. O tuíte já foi apagado). Fábio Wajngarten, titular da Secom, chamou o SGB de “veículo internacional de extrema-esquerda” e distribuiu afagos ao Jornal da Cidade (“faz um trabalho seríissimo”). Diversos outros luminares do reacismo online também acudiram, conclamando seus seguidores a boicotarem as marcas que retiraram seus anúncios. Alguns mais afoitos chegaram a dizer que a atitude das empresas era uma “censura” —mas creio tratar-se de gente que não possui um dicionário em casa para consultar o verdadeiro significado da palavra.
Mas irada mesmo foi a reação do próprio Jornal da Cidade. A home do site na quinta (21) trazia manchetes pateticamente falsas (“Empresas que apoiam censura perdem clientes de forma avassaladora”), editoriais com ofensas às marcas que pularam fora e incoerentes defesas da liberdade (não dá pra apoiar Bolsonaro e ser a favor da imprensa livre ao mesmo tempo, né). GALVÃÃÃÃÃO!
Enfim, em meio à pandemia, à incerteza, à tristeza com os rumos do país e com tudo o mais que está rolando, o Sleeping Giants Brasil afinal me deu um motivo para sorrir. E também para ter fé de que, um dia, a internet possa ser usada de modo eficaz para propagar ideias progressistas, e não apenas o ódio. Qualquer iniciativa que consiga tirar Steve Bannon do sério merece minha atenção e meu apoio.
STEVE BANNON ON SLEEPING GIANTS: “They’re the worst.” pic.twitter.com/APjxg230GD
— Sleeping Giants (@slpng_giants) April 5, 2019
Vamos acompanhar.
(publicado originalmente no Telhado de Vidro)
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
Ver essa foto no Instagram


































